Dame Jolie

8 A Última Dança


Notas iniciais
Olá a todos :) Primeiramente quero agradecer os votos de melhoras que recebi nos últimos dias, mais uma vez fiquei doente (virose) e essa foi uma das razões de eu não ter conseguido responder a todos os comentários antes de atualizar, como prefiro fazer. Não conseguia sequer ficar sentada, e não gosto de responder pelo celular... peço paciência, além de desculpas, eu responderei a todos. O capítulo de hoje é dedicado a uma pessoa a quem muito admiro, na verdade sou fã MEEESMO, hehehe, a grande Washu M., para mim a mais fabulosa fanartista brasileira de CDZ. Ela me brindou com a honra de lindas fanarts inspiradas em "Dame Jolie", as quais ainda usarei como capa. E me deu a honra de ilustrar a capa deste capítulo. Por isso, a ela dedico com muito carinho... "A Última Dança" (ainda estou babando aqui com a capa, ficarei desidratada!!!) Agradeço do fundo do coração a todos que têm apoiado esta fic, de todas maneiras, mas notadamente quem dispensa um pouco de seu valioso tempo para deixar um comentário, isso me faz muito feliz :) Link do tema do capítulo nas notas finais. Boa leitura!!!

A primavera trazia o crepúsculo a Turenne somente por volta das 18 horas, de modo que às 15 horas, quando os primeiros nobres chegaram em cortejo à aldeia nas imediações do castelo, havia a sensação de que haveria muito do dia para se aproveitar. E quando enfim anoitecesse, os ânimos estariam suficientemente exaltados para continuar a festa noite adentro...

Pode parecer estranho que a gente de sangue azul se misturasse à plebe para festejar, contudo, eram tempos em que até a nobreza era mais simples; ao contrário do que se verificaria séculos depois, quando do colapso cabal do feudalismo, a terra ainda unia as pessoas em uma estranha simbiose, mesmo com a existência das limitadoras camadas sociais. Essa simbiose ficou relegada à chamada Alta Idade Média, que via ali então seus últimos dias, obviamente resistindo aqui e acolá, nos mais diversos períodos que não os oficiais.

O duque de Borgonha, reconhecidamente excelente governante, disso utilizava-se para estreitar mais ainda aquelas pessoas aos seus domínios. Ouvia-se relatos de revoltas camponesas vindos de algumas regiões, pois que as cidades começavam a exercer fascínio, e esperança de uma vida mais promissora que a de eterna servidão, a única oferecida pelos grandes senhores de terras. O comércio, até pouco tempo quase inexistente, incrementava-se a cada dia, graças às Cruzadas. O movimento além de trazer maior sensação de segurança, impulsionou os mercados ao trazer do Oriente produtos como especiarias, corantes, tapeçarias, tecidos finos, unguentos, artigos de perfumaria... e inúmeros ensinamentos, sendo estes, sem dúvida, os mais preciosos dos bens. Teobald II escolhera tratar bem a gente da terra, e, a bem dizer, para um homem de boa índole como ele, não configurava nada tão difícil de ser feito.

Ainda na manhã daquele ensolarado dia de maio, enviara para o povoado sua contribuição: grandes quantidades de carnes, que agora ardiam nas grelhas, para a felicidade daquela gente que quase nunca comia carne daquela qualidade; javalis, cervos, gamos, alces, cordeiros e até carne bovina, extremamente rara na localidade. A estas uniam-se nas extensas forquilhas que se distribuíam pelo campo porcos e coelhos, criados pelos aldeões, e peixes, que eles pescavam livremente nos rios e lagoas da região. Por sobre inúmeras mesas de madeira distribuíam-se as iguarias pelas mãos das mulheres camponesas: pães, queijos, conservas de repolhos, guisados de lentilhas, sopas variadas, tortas recheadas com carne, ovos, legumes, pastéis doces e salgados, bolos de castanhas, pinhões caramelizados, tortas de maçã, pudins de claras, de leite, de ameixa, de morango... além de, claro, muita bebida...

Protegidos do sol por grandes tendas franjadas sustentadas por seus servos, o duque, o conde, seus filhos, as cunhadas de Teobald II, o castelão e sua família, dois padres e oito nobres que encontravam-se hospedados em Turenne, alguns a cavalo, outros a pé mesmo, dada a proximidade.

Ao chegarem, foram respeitosamente recebidos pelo líder da comunidade, que fez uma profunda reverência diante de seu senhor.

— Alteza, é uma imensa honra vossa presença, assim como a de vossos caros, em nossa humilde aldeia.

— Como vais, Eugene? Vejo que todos se esforçaram bastante – disse o duque, dando uma olhada ao redor – parece que vai ser uma bela festa.

— Será insuficiente para mostrarmos à senhorita Camille todo nosso apreço e gratidão. É nosso presente de despedida, e, simultaneamente, de casamento – respondeu o humilde homem, mirando Camus, que assentiu em agradecimento.

Os noivos estavam lado a lado. Não trajavam suas vestes mais luxuosas, como era de se esperar em um evento despojado e ao ar livre, porém, ainda assim, assemelhavam-se ao rei e à rainha das fadas na visão daquelas pessoas simples. Camus usava um vestido azul escuro em tecido aveludado, com detalhes em ilhoses prateadas e barras com cristais nas mangas, que ao contrário da maioria das vezes, não vinha muito abaixo: o cinto, também de prata e incrustado de safiras, pendia-lhe até abaixo do joelho. Trazia uma tiara prateada com uma água marinha no centro da testa sobre os longos e soltos cabelos vermelhos. Milo trajava uma túnica verde oliva com detalhes dourados nas mangas e no peitoral, por sobre malha prata fosca. Calçava botas de cano médio de couro nobre e lustroso. Um grupo de crianças se aproximou do casal. Uma garotinha de seus nove anos, à frente dos demais, trazia nas mãos uma guirlanda de flores, e um ar incerto no rostinho inseguro.

— Senhorita Camille – murmurou a criança, brandindo a guirlanda – ficaríamos muito felizes se aceitásseis nosso humilde presente, acabamos de fazer.

O ruivo prontamente retirou a rica tiara de sua cabeça e entregou-a a Marin. Um dos padres virou nervosamente para o outro, cochichando:
— Isso não é adequado! Tem ligação com crenças pagãs que resistem como ervas daninhas no meio desse povo... (1)

— Cala-te – sussurrou o companheiro – se o duque de Borgonha não faz objeções, não seremos nós a fazer...

O religioso não teve remédio senão concordar. Camus abaixou-se até ficar da altura da menina; em verdade, ele praticamente se ajoelhou perante aquelas crianças, o que impressionou Milo. A garotinha pôs a coroa de flores sobre a cabeça de “Camille”, ajeitando-a para que permanecesse bem firme no lugar. Ele se ergueu e olhou no fundo do rosto de cada uma daquelas pobres crianças. Sorriu; não era um sorriso aberto, expansivo. Sem dúvidas era doce, e até triste, o que chamou a atenção de Milo. Era como se além da gratidão houvesse CULPA ali.

— Eu agradeço de todo meu coração a cada um de vós. Rogo a Deus que abençoe vossas vidas... que sejam tão belas quanto estas flores – proferiu, em voz baixa e pausada.

Os rostinhos iluminaram-se; idolatravam “a senhorita Camille” e aquilo era como um prêmio para eles!

— Ficou linda em ti, irmã Camille! – elogiou Marin, tomando-lhe uma das mãos.

— Qualquer coisa fica linda nela, oras – retrucou Seika, tomando a outra.

— Hunf, eu prefiro minha tiara de ouro com diamantes, que por acaso foi presente do senhor conde de Auvergne – Hilda foi logo fazendo pouco.

As ruivinhas reagiram logo:

—Também estamos usando presentes dados pelo senhor conde, vê – fez Marin, mostrando um lindo colar de ouro com esmeraldas.

A pequena Seika, por sua vez, além de mostrar seus dois braceletes de ouro com ágata, mostrou também a língua para a loira.

— Chega, chega, não façais vergonhas logo na frente da plebe, por favor! Ponde-vos em vossos lugares – ralhou a tia Agnes, interpondo-se entre as irmãs.

— Também eu agradeço por meu presente, senhor meu sogro – falou Camus, tocando a gargantilha de ouro com rubis por cima de um lenço que envolvia-lhe o pescoço.

— Combina com teus olhos e cabelos, Camille – Henri sorriu – o rubi é a tua pedra, nenhuma outra lhe cai tão bem.

O rapaz assentiu, graciosamente.

Foram conduzidos às mesas, onde se instalaram e começaram a aproveitar a festa. Desta vez os noivos sentaram lado a lado, para enorme insatisfação de Milo, que fazia de tudo para ignorar Camus. No entanto, a bem do papel que deveria representar, de quando em quando virava-se para ele, forçando um sorriso a muito custo. O ruivo estava entre seu pai e seu noivo, Afrodite acabou sendo conduzido para junto das tias das meninas. Ao perceber a distância do camareiro, e ver as senhoras da aldeia servindo os nobres, o cavaleiro se apavorou: em algum determinado momento… deveria ser ELE a partir e a entregar fatias de carne para “a aberração”! Suprimiu uma careta: como odiava seu destino! Teve que virar logo um generoso copo de vinho!

Várias mesas distribuíam-se pelo gramado; comia-se e bebia-se alegremente. Uma trupe mambembe (2) animava a todos com números circenses, como era de praxe em eventos como aquele: equilibradores de pratos, malabares, mágicos arrancavam exclamações de admiração e palmas entusiasmadas dos presentes.

Muito sem graça, Milo partiu umas fatias de gamo assado e ofereceu uma a Camus. Este aceitou, com muita naturalidade... pelo menos, perante o mundo. Com a mão, tomou-a da mão do loiro, que aproveitou para olhar o outro rapidamente... tão logo o fez, virou-se para o outro lado, fazendo-se desinteressado. Camus, por sua vez, mirou-o de soslaio e não pôde evitar um sorriso bem leve, quase imperceptível. Gostava de estar perto do cavaleiro, não dava para negar.

O loiro tirou outra fatia de carne e, segurando-a entre os dedos, levou até o ruivo, esperando que, assim como fizera da primeira vez, pegasse com a mão. Surpreendentemente, aproveitando-se do pequeno tamanho, Camus não a pegou com a mão e sim com a boca! Abocanhou-a dos dedos do noivo, que ficou estupefato com a ação. Sobressaltou-se ao sentir a ponta de seus dedos chupados pelo filho do duque. Aviltado, murmurou:

—Que pensas que estás fazendo?!?

— Dando mais veracidade à nossa simulação – respondeu o ruivo, calmamente.

— Basta de simulações contigo!!!

— Como quiserdes.

— Isto foi simplesmente odioso... – resmungou, mergulhando os dedos na água de alfazema de tão mal jeito que espirrou-a para fora da bacia de cobre. Tentava simultaneamente conter o rubor que sentia invadir-lhe as faces. Que audácia, tocar seus dedos com aquela boca, aqueles lábios... não queria nem PENSAR naquilo... aquela língua... ele sentiu mesmo uma discreta aspiração... odiou Camus por vê-lo tão sereno, mastigando inocentemente seu bocado, enquanto ele estava ALI, com o coração aos pulos e...

Não tivesse tanta gente por perto aquele impertinente aprenderia uma lição... da pior maneira!

A festividade, não obstante, prosseguia, animadamente. Ao cair da noite, começaram a dançar. Era uma espécie de quadrilha, que iniciava-se em roda e depois ia se convergindo para o centro, onde todos erguiam as mãos e as uniam. De lá vieram correndo as irmãs menores de Camus.

— Irmã Camille, irmã Camille, vão executar o passaraio (3)! Vem conosco, vem!

O rapaz balançou a cabeça em uma negativa.

— Sinto muito, minhas pequenas, não é adequado...

— Por que nããão? – choramingaram a uma só voz.

— Chamai a Hilda para que vá convosco.

— Ela está fazendo o de sempre: flertando – resmungou Seika, revirando os olhos.

— Sim – ajuntou a outra ruiva, cruzando os braços – com os filhos dos convidados de nosso pai, vê que vergonha!

De fato, a bela loira tinha uma mão na cintura, e com a outra gesticulava graciosamente, enquanto conversava com três rapazinhos ricamente vestidos que a cercavam, embevecidos.

— Não faleis assim. Não é bonito difamar vossa irmã – ralhou Camus, sem perder o tom condescendente – chamai-a assim mesmo.

— Mas... irmã Camille...

— Não deveis desistir de Hilda, ouviram bem? Ela pode ser como for, mas é nossa irmã também.

Ao ouvir aquilo, Milo não resistiu a virar na direção das três.

E principalmente...

— Está certo, irmã Camille, tentaremos – concordaram; foram até o grupo por elas observado. Camus e Milo viram Hilda rir ruidosamente, se balançando toda, e souberam logo que o convite das irmãzinhas havia sido rejeitado. Estas voltaram desalentadas para junto “da mais velha”.

— Recusou, como era esperado – falou Marin, fazendo bico – disse que é coisa “de ralé”.

Sorrindo com suavidade, Camus comentou:

— Bem, pelo visto, seria um passo um tanto comprido demais para nossa irmã.

“Hunf. Desse jeito, ele parece até... UMA BOA PESSOA”, pensou o filho do conde, considerando-o de rabo de olho.

— Então vem, irmã Camille, vamos fazer o passaraio! Já o fizeste conosco!

— Bem... – o jovem de fato costumava fazer todas as vontades das irmãs mais novas. Talvez as tivesse mimado um pouco. Não se arrependia, entretanto. Mas... via-se um pouco constrangido de fazer aquilo na frente de Milo.

— Mana, pode ser a última vez que o façamos juntas... tu vais para tão longe... – Marin argumentou, tristonha. A menor também cravara os olhos castanhos na relva, desiludida.

Aquilo acabou por comover o irmão. Naquele momento, pareceu tomar real consciência de que estava para partir em breve... rumo a um lugar onde seria execrado.

Um pária em seu próprio lar. Odiado, relegado aos frios e escuros domínios de um castelo solitário, enquanto Milo constituiria uma família e com ela passaria seus dias e noites. Ele seria apenas uma peça posta de lado, após todos obterem suas vantagens. Partiria de Turenne, que amava, e que a ele amava; não mais veria seu pai, suas irmãs, suas tias, os aldeões, os camponeses...

— Tens razão, Marin – enunciou, inesperadamente. Ergueu-se da mesa, já sendo levado pelas irmãzinhas que comemoravam, efusivas. Seika virou-se para o loiro, que observava a cena, atônito:

— Vinde conosco, senhor Milo! É muito divertido! Depois dançaremos a farândola (4).

Ele ergueu as mãos na defensiva:

— Agradeço o convite, cara menina. Talvez mais tarde, está bem?

Viu o ruivo ser conduzido até onde os aldeões já se posicionavam para começar a brincadeira. Notou que as pessoas pareciam encantadas ao ver “a primogênita” do duque juntar-se a eles... ainda que fosse tão somente para agradar suas irmãs.

“Qual será a razão da atração exercida por tão hermético ser?”, perguntava a si mesmo, sorvendo seu vinho.

A brincadeira começara: mãos erguidas, “túnel” formado pela união dos pares, cantando sempre em consonância com a música tocada pelos habilidosos menestréis, passavam por baixo, aprumavam-se. Ria-se, gritava-se. Ainda assim, o semblante de Camus não se alterava muito. Milo correu os olhos azuis ao redor e deu com Afrodite e as tias Agnes e Emilie vibrando com o “passaraio”.

“Ora... aquele ali realmente se acha da família, pelo visto”, pensou, com certo desprezo. Deixou a mesa e resolveu caminhar pelo arraial. Andou por entre as demais mesas, por vezes parando para cumprimentar alguém que demandava sua atenção. Então punha-se em marcha novamente. Parava nas tendas onde artesãos locais aproveitavam a ocasião para tentar fazer algum ganho extra. O jovem olhou as mercadorias, sem real interesse em nada daquilo... olhava por olhar. Em determinado momento, deparou-se com Hilda e os três jovens nobres que com ela conversavam.

— Oh! Olá, senhor Milo! – ela acenou-lhe, simpática – Estais perdido por entre a corja?

Os rapazes riram. O loiro fuzilou-os com o olhar. As risadas se extinguiram como fogo ao vento. Hilda suspirou, dramática.

— Vejo que tende dignidade suficiente para não se juntar à ralé, o que não se pode dizer de minhas irmãs. Lamento que seja do feitio de vossa noiva meter-se com tal qualidade de gente. Vinde, juntai-vos a nós.

Antes de articular uma resposta, Milo avistou perto dali Eugene, o líder comunitário, palestrando com alguns homens enquanto bebiam.

“Eu não deveria fazer isso, eu NÃO DEVERIA fazer isso”, pensava o jovem. Ainda assim, o fez:

—Agradeço-vos o gentil convite, em uma outra hora terei prazer em juntar-me a vós – mentiu, passando direto por eles e seguindo na direção dos camponeses.

— Líder comunitário Eugene... estou certo? – o cavaleiro se fez anunciar, e ante sua aproximação, os homens imediatamente assumiram postura diferente da descontraída de antes, ficando tensos.

— Por favor, continueis à vontade, como estáveis antes de minha chegada. Bebamos juntos, que tal? – tratou logo de descontraí-los. Preferia autenticidade à reverência.

— Senhor Milo d’Auvergne, é uma honra. Sim, sou eu mesmo, sempre disposto a servir-vos.

— Boas falas, homem, quero mesmo que me sirvas – disparou, colocando as mãos na cintura, com ar divertido.

Notava-se a surpresa não apenas em Eugene quanto em seus companheiros. O líder comunitário sorriu e respondeu:

— Claro! Com mil perdões – anuiu, virando vinho no cálice do nobre – Em que mais posso servir-vos, meu senhor?

— Gostaria de saber algumas coisas sobre minha noiva... hum, este vinho... não é nada mau, hein.

— Que tipo de coisas...?

— Bem, reconheço-a como a mais virtuosa das damas, e melhor esposa que um cristão poderia ter. Todavia, é fria, esnobe e inapta em relações sociais... e muito me admira que que encontre tanto apelo em meio ao teu povo simples e amável. Gostaria de sondar as razões, apenas isso.

Os homens fitaram o filho do conde, sérios. Antes mesmo que Eugene respondesse, um deles se adiantou:

— A senhorita Camille NÃO é esnobe.

— É verdade que ela nunca sorri, e isso nos entristece – outro, um pouco mais novo, também deu sua opinião – pois uma moça boa como ela deveria sorrir mais nesta vida.

— “Boa”? – retrucou Milo, ironicamente.

— Sim – Eugene enfim tomou a palavra – a senhorita Camille é fechada, distante e aparentemente fria. Alguns a chamam maldosamente “alma de gelo, coração de pedra”. Contudo, sempre nos tratou com dignidade e respeito. Quando vamos até o duque pedir por algo, ela sempre intercede por nós. E como o duque a tem como sábia, acata o que ela diz.

Um rapazinho loiro e sardento segurando o chapéu nas mãos ousou se meter:

— Houve vezes em que o senhor duque se recusou a nos receber, por estar ocupado com outros compromissos. E foi por insistência da senhorita que ele mudou de ideia.

Milo não conseguia imaginar o rapaz “insistindo” por algo com o pai. Ele parecia tão submisso a Teobald II!

— Interessante o que dizeis... – murmurou, pensativo.

Um homem de idade, calvo e vermelho, deu seu testemunho ao nobre:

— Certa vez, a colheita foi muito ruim, de forma que estávamos quase passando fome. A senhorita Camille mandou à nossa aldeia carregamentos de pão, aves e até carne.

— ...fez isso mesmo? – o cavaleiro espantava-se cada vez mais com os relatos. Distraído, virou-se na direção do ruivo, e viu-o, grande e desengonçado, brincando com a irmã e os camponeses na roda. A gaita de foles ecoava no ar noturno.

O líder comunitário serviu mais vinho ao jovem Auvergne, que aceitou, interessado no prosseguimento daquelas revelações.

Mas por que as buscava, afinal?

— Achamos que o fato de ela ser sempre tão sisuda talvez seja em função do que ocorreu ao pobre irmão gêmeo Camus...

— Hum, sim, conheço a história.

— Senhor Milo, ainda que a senhorita Camille não seja amistosa nem expansiva, sempre se mostrou compassiva e justa com quem presta serviços no castelo. Já defendeu alguns de nós dos atos tiranos da senhorita Hilda...

— É, eu soube de alguns casos desses, ontem à noite...

“Mas por que é que estou aqui a ouvir sobre os feitos desse desgraçado que se faz de santo? De forma alguma tenho algo a ver com isso!”, refletia o cavaleiro, revoltado consigo mesmo.

E agora, o que fazia com tais informações?

Mudava em algo suas concepções? Para que iniciara aquele inquérito inútil?

Enquanto o filho do conde se questionava, o duque aproximava-se da segunda filha mais velha, que continuava a derramar seu charme para os jovens fidalgos, por eles sendo adulada. Teobald II balançou a cabeça, desapontado com aquele comportamento.

Realmente... TINHA que fazer aquilo.

Hilda corria até o perigo de meter-se em desgraça se continuasse com aquele proceder leviano. Com “a primogênita” prestes a se casar, agora não havia qualquer impedimento.

— Minha filha Hilda! Terias um instante para este velho pai? Sei que teus companheiros de prosa são bem mais interessantes, no entanto eu necessitava falar-te.

A loira sorriu, contente. Era raro seu pai usar aquele tom carinhoso para com ela. Tudo era sempre Camille, Camille, Camille... e para ela, broncas... pediu licença aos rapazes e pôs-se a acompanhar o pai em uma breve volta.

— Que achas daqueles mancebos com quem palestravas, minha filha? – perguntou o nobre.

— Oh, são pessoas agradabilíssimas! Claro que relegada à constante e insossa companhia de minhas irmãs e tias, haveria eu de achar cousa diferente? – ela respondeu, bastante segura de si.

— Os três?

— Sim, senhor meu pai, todos eles.

— Pois bem, o pai de Michel veio pedir-me tua mão... quer que o rapaz case contigo. E aceitei.

— O QUÊ?

Ao ver a menina estacar, perplexa, Teobald II estranhou:

— Que foi, minha filha? Achei que te agradasses dos moços com quem conversavas. Se gostas de todos...

— Michel? Mas meu pai, ele é um ano mais novo do que eu!

— Que tem isso?

— Tem olhos e cabelos castanhos! Parece mais um mouro que um francês!

— Mas É francês, oras... que mal há que seja moreno? Não o consideras garboso?

— Sim, ele é bonito, deveras... mas... mas...

“Mas NÃO É O SENHOR MILO”, finalizou em pensamento o que queria dizer, despeitada.

— Hilda, Michel é um belo moço, educado, exímio espadachim, de excelente família, com apenas 17 anos já fala 4 línguas fluentemente...

A garota cruzou os braços, irredutível, e proferiu:

— Eu NÃO QUERO me casar com ele.

Consciente de que era culpado por Hilda ter ficado exigente daquele jeito, em virtude de ter submetido a filha àquela espera mais longa que o usual por um noivo, o nobre armou-se de paciência.

— Mas por que não, filha minha? Tu sempre quiseste isso! Quantas e quantas vezes reclamaste, com razão, admito, por Camille não se casar com ninguém, o que te impedia de contrair matrimônio e enfim ter tua própria família...?

— Só porque ELA vai se casar, vós quereis me atirar a qualquer um! – retrucou, amarga.

— Que dizes, sua tola? “Qualquer um”? É do filho do duque de Aquitânia de que estamos falando!

— Pouco se me dá! Ele NÃO é como o senhor Milo! – respondeu, malcriada – Para Camille vós arranjastes um homem belo como os anjos celestiais, e para mim...

— CHEGA, HILDA. Chega desta conversa. Já está decidido. Casar-te-á com Michel Le Herón. Não quero mais ouvir tuas chorumelas, eu já as permiti demasiado – o duque não viu outra saída senão pôr-se autoritário, para encerrar o embate com a voluntariosa menina.

A loira bufou um pouco; de repente, pôs um sorriso no rosto corado pela raiva e argumentou:

— Senhor meu pai, por que simplesmente não trocais o meu noivo pelo de Camille? Ela sequer gosta do cavaleiro, penso que é algo visível para qualquer um. Então para ela não fará a menor diferença casar-se com Milo d’Auvergne ou com Michel Le Héron. Ao passo que eu me agradei sobremaneira do senhor Milo...

O duque fitou a jovem, atônito.

— Isso... isso não é possível, minha filha.

— Por que não, senhor meu pai? Penso que o duque de Aquitânia é mais rico que o conde d’Auvergne, não estou certa? Casaríeis vossa primogênita com um pretendente até mais à altura da importância dela – raciocinou a menina, e não sem pertinência.

Respirando pesadamente, tanto pelo esforço da longa discussão, quanto pela impossibilidade de contar a verdade à própria filha, Teobald II encarou-a com gravidade, e respondeu com igual seriedade:

— Sem trocas, Hilda, isto não é um jogo de que entendam mocinhas como tu. E agora, volta para a festa, não quero mais ouvir falar sobre isso. Se o fizer, castigar-te-ei.

Fazendo um muxoxo aterrador, a garota deu meia volta depois de soltar entre os dentes “com vossa licença”, e retornou para a clareira de onde se assistiam as danças e os jogos realizados. Se aquele evento já lhe era desagradável, agora tornava-se-lhe insuportável. Executavam a farândola, dança na qual formavam todos uma grande fila, dando-se as mãos. Lá estava Camille, totalmente deslocada, nada à vontade, fazendo conforme todos os tolos meramente para agradar as irmãs menores, que a adoravam.

Era sempre assim!

TODOS adoravam Camille.

Malgrado sua permanente indiferença a tudo e a todos, à sua detestável expressão de condescendente frieza, sua total ausência de entusiasmo e sorrisos... detinha o coração de todos.

O pai a amava a ponto de tê-la criado de maneira diferenciada, impensável para a época, permitindo-lhe que aprendesse coisas inimagináveis para o universo de uma simples mulher. Isso prova como a julgava especial. Como seria um primogênito varão. As tias, as irmãs, os aldeões, os servos, os nobres, todos apreciavam aquela irritante estátua de gelo. Como era possível gostar de alguém como Camille? Mesmo quando iam a bailes, banquetes e festas, era a ruiva a mais assediada, cortejada... e ela que fora dotada de beleza mais clássica e delicada!

E agora essa... para Camille, um Milo d’Auvergne!

Para si, um Michel Le Héron!

Não que o garoto fosse feio, longe disso. Fazia-se bonito até; entretanto, não se comparava com o estupendo loiro de olhos turquesas, forte, másculo, altivo, como que saído das fileiras de Metraton (5). Não, ele era o próprio Metraton!

Procurou-o com o olhar: achou-o sentado à uma mesa embaixo de uma árvore, com outros mancebos, observando a farândola.

Milo encontrava-se absorto pelos movimentos que o ruivo fazia. Por duas vezes, viu a promessa de um sorriso esboçar-se no rosto rubro pelo esforço... porém, nunca configurava-se em um verdadeiro.

“És mesmo tão falso assim, Camus? Não dá para saber o que tu és.”, inquiria-se, segurando o cálice de vinho cheio. Nem se dava conta de que tinha a atenção fixa ali por tanto tempo que se esquecia da bebida. Percebendo isso, virou-a com voracidade. Notou Afrodite à média distância, cercado de belas garotas que o serviam como a um rei. O sueco sorria gentilmente, mostrava-se amável com cada uma delas.

“Bom, pelo menos, a despeito da cara, o sujeito parece gostar de mulheres. Menos mal.”, pensou, torcendo o nariz.

Cessada de pronto a música, uma mulher vermelha e suada de tanto dançar anunciou:

— Amigos, agora nossa estimada senhorita Camille irá executar para nós a dança das donzelas casadoiras... a última vez em que dançará em nosso meio, em nossa terra... uma dança que não mais pode ser executada por uma dama casada.

O ruivo arregalou os olhos castanhos avermelhados, visivelmente surpreso. Viu todos abandonando o pátio, deixando-o só. Ele olhava em torno como a buscar apoio. Nunca tinha feito aquilo! Era uma das tradições da região, resquício de antigas tradições da terra.

“Hahahahahahaha, isso será deveras INTERESSANTE! A grandalhona não vai ter leveza suficiente para efetuar tão elaborados passos. Com sorte, ainda vai cair no chão”, ria-se Hilda, internamente, cruzando os braços.

Antes de deixarem a mais velha, Marin e Seika disseram-lhe, alegremente:

— Tu o farás com maestria, irmã Camille!

— Sim, danças muitíssimo bem que o sabemos!

O rapaz não respondeu. Elas saíram dali esbaforidas, após beijarem-lhe as mãos. Camus sentiu vontade de escavar o chão e nele se ocultar. Sem saber o que fazer com os braços, deixou-os apenas de comprido junto ao corpo. Mordeu o lábio inferior, tenso.

Foi quando os músicos começaram a tocar “La Suite Meurtriere”. Ele já havia visto donzelas casadoiras dançarem aquela música, e julgava lembrar-se o suficiente para pelo menos fazer algo. Tratava-se de uma dança difícil, bastante rápida e agitada. Levantou os braços e pôs-se a mexê-los para frente e para o lado. Ao mesmo tempo mexia levemente os quadris, em um movimento que prontamente hipnotizou Milo. Os pés do ruivo traçaram um semicírculo à sua frente, preparando terreno para o que viria a seguir.

E quando Camus ergueu os braços para o céu, a música explodiu.

Pôs-se a rodopiar, os longos cabelos desenhando traços que se confundiam com o fogo. As palmas ritmadas do público eufórico contribuíam para inebriar os sentidos do loiro...

...ora, mas por que se sentia assim?

Era tudo uma FARSA!

O maldito NEM SEQUER era UMA MULHER!

Então viu algo mudado no olhar escarlate de Camus.

Parecia... PROVOCANTE.

E... cravado NELE.

Por mais complexos que fossem os passos, ora frenéticos como os de uma sacerdotisa devassa, ora suaves como o flutuar de um lírio no lago, Camus não tirava os olhos dele. Iluminado pelas fogueiras que ardiam, o jovem tão somente entregava-se àquela dança blasfema, na concepção de Milo. Absurdo o duque permitir que tais ritos – sim, era EXATAMENTE no que aquilo consistia! – sobrevivesse em seus domínios! Bastava ver como o miserável parecia em transe, jogando a farta cabeleira para trás, seus braços convertidos em serpentes profanas, seu ventre que projetava-se para frente em um oferecimento diabólico a ELE... e então seu tronco emergia, seu rosto mais sensual que nunca, detrás das mãos que uniam-se enigmáticas...

Atenta e surpresa com as reações faciais do cavaleiro estava a ardilosa Hilda. De repente, uma ideia maquiavélica invadiu sua mente.

Maquiavélica, sim.

Arriscada, mais ainda.

Não obstante, valeria a pena se com AQUELA estratégia pudesse ter para si o filho do conde de Auvergne, e não aquele menino patético recém saído dos cueiros.

O mundo pareceu adquirir novas cores para a jovem, à medida que o plano ia se alinhavando.

Caso uma moça perdesse a virgindade antes do dia de seu casamento, estaria obrigada a desposar o homem que a deflorou.

Se conseguisse seduzir Milo... e ele consumasse o ato com ela...

Uma alta cartada! Como conseguir feito tão grandioso? Pôs a mão no peito, que palpitava loucamente só de ter pensado em tal ato.

A dança de “Camille” cessara. Aplausos estancaram, e a loira reparou que Milo sequer piscava.

Percebeu certo perigo ali; o loiro agora não parecia TÃO indiferente à noiva como antes. Teria sido a maldita dança? Aqueles bruxos… camponeses do Diabo, só se fossem! Viu “a irmã” aproximar-se de Afrodite, que imediatamente deu-lhe de beber. Voltou a olhar Milo... que observava atentamente a cena, agora com expressão insatisfeita... tinha até mesmo as sobrancelhas franzidas!

Não!

Seria possível que ele começava a... a GOSTAR de Camille?

Hilda balançou a cabeça devagar, sob súbito pânico.

“Não há tempo a perder. Algo parece despertar no coração dele... pode ser que tenha sido efeito dessa dança maléfica. Os padres dizem que são descendentes de danças bruxas. E aquela guirlanda dela, não passa de um amuleto de sedução!”, pensava, nervosa. “Ele GOSTOU de mim. Disse que sou um ANJO. Nunca chamou Camille de anjo. Nem poderia. Olhe para ela. Pois bem, EU sou o anjo com quem Milo d’Auvergne há de se casar.”

Olhou ao redor; o bosque os cercava, e para além dele, a floresta. A lua ia alta, cheia e luminosa, possivelmente iluminando bem recantos em meio à mata. Milo havia de estar um pouco tocado pela bebida, da qual não se separava, desde a tarde.

Não haveria ocasião mais propícia.

E no dia seguinte, o jovem retornaria a Auvergne.

Se era aquela sua decisão, não haveria mais por que esperar.

O escândalo era certo, e assaz constrangedor. Entretanto, valeria a pena, pois dele nasceria a obrigação de Milo desposar a Hilda!

Estudou o cenário: Milo estava bem distante de Camus, Afrodite e das duas sarnas ruivas que já zanzavam ao redor dos dois. Aquela postura dava real dimensão do desagrado do rapaz com aquele compromisso. Não, Milo NÃO queria se casar com Camille.

Não seria tão difícil seduzi-lo.

Ânimo novo inundou a nobre. Com batidinhas, ajeitou a longa saia de seu deslumbrante vestido dourado. Aprumou-se, assentando as sedosas mechas de seus formosos cabelos. Engoliu em seco. Enfim, pôs-se a caminho, rumo ao seu alvo. Neste momento, principiara o esperado número dos engolidores de fogo. Todos estavam com as atenções voltadas para o impressionante espetáculo.

Por Deus, tudo conspirava a seu favor.

— Senhor Milo?

— Oh. Senhorita Hilda – surpreendeu-se, de leve.

— Poderíeis acompanhar-me a um certo lugar?

— A um certo lugar? De que falais? – ele ergueu uma sobrancelha, intrigado.

— Eu... não posso falar-vos aqui – respondeu a jovem, fazendo-se misteriosa. Aproximou-se do homem e completou – é sobre minha irmã Camille. Precisais saber de algo... antes de vos unir em matrimônio a ela.

Um calafrio percorreu o guerreiro.

Seria possível que Hilda SOUBESSE TUDO? Camus, o duque e seu próprio pai pareciam certos de que ninguém além deles, e do camareiro-mor Afrodite, conhecesse o insólito segredo.

— Está bem. Irei convosco – concordou ele, muito sério.

Levantou-se do banco de madeira e seguiu a loira.

Entretidos que estavam com o show de pirotecnia, não repararam na retirada dos dois jovens dali. Contudo, tendo sentido sede, Marin saiu para pegar algo de beber. Foi então que viu os dois se distanciando.

“Mas... é o senhor Milo que se retira com a irmã Hilda...?”, estranhou. Acompanhou-o o quanto pôde com a visão atenta, e, vendo-os longe, pôs-se ao encalço dos dois.

Já tinha percebido, e não apenas ela como as tias, que Hilda andava a flertar com o noivo de Camille. Não percebera nenhuma correspondência por parte do cavaleiro até então... só que agora, ele estava a acompanhar a loira. Embrenharam-se no bosque...

Aquilo não era nada bom!

Com o coração aos pulos, seguiu-os a uma distância segura, auxiliada apenas pelo esplêndido luar. Eles sequer se afastaram muito. Pararam perto de um riacho.

“Droga, o som do córrego não vai me deixar ouvi-los”, praguejou mentalmente a garota, abaixando-se por trás de um arbusto. Ao menos, dali tinha boa visão dos dois.

— Pois bem, senhorita Hilda, cá estamos. Que quereis contar-me acerca de minha noiva? – inquiriu Milo, quase autoritário.

A jovem uniu as mãos sobre o peito, fazendo uma expressão consternada.

— Senhor Milo... ela NÃO quer se casar com o senhor. Odeia-vos. Diz que tem REPULSA por vós!

Ele ficou imóvel por um tempo, como a processar aquela declaração.

— Ela... diz isso?

— Sim, e muitas outras barbaridades. Oh, senhor Milo, sereis tão infeliz se vos unir a ela! Ao passo que eu... eu me agrado do senhor...

— Se-senhorita Hilda?

— Meu pai quer entregar-me a Michel Le Héron, filho do duque de Aquitânia. Mas eu...eu amo o senhor – confessou, tomando a mão do cavaleiro, completamente aturdido.

— Se disserdes que prefere a mim, e não a Camille... meu pai pode fazer com que ela despose Michel, e não eu!

Balançando a cabeça em uma negativa assombrada, o jovem respondeu:

— Não, senhorita, não! Isso... isso jamais aconteceria!

— Por quê? Por que não? Ela não vos quer! E eu... eu vos amo, senhor Milo – puxou a mão do loiro para beijá-la, ao que ele rispidamente a retirou.

“Já vi o bastante, vou avisar meu pai”, decidiu a pequena ruiva, e saiu apressadamente dali.

— Senhorita Hilda, escutai-me; meu compromisso com Camille NÃO pode ser rompido.

— Claro que pode! Sois Milo d’Auvergne, herdeiro do maior exército de França! Não há nada que não possais fazer...!

— Enganai-vos, minha cara – rebateu ele, melancólico.

— Não estais feliz. Não quereis minha irmã. Será uma mera troca...

Afastando-se um pouco dele, a nobre suspendeu o vestido até a altura dos joelhos, em uma tentativa desesperada de seduzir o cavaleiro.

— Que estais a fazer?!?

— Quero mostrar-vos o que tereis se me desposardes…

— Abaixai já vossas vestes – ele ordenou, olhando para os lados – Se era só isso que tínheis a dizer-me...

— Não. Havia isto também – e pôs um dos seios para fora.

— Senhorita...! Não estais em vosso juízo perfeito. Retirar-me-ei.

Mas quando fez menção de sair, a garota atirou-se a ele, enlaçando-o pela cintura.

— Por favor, senhor Milo! Eu vos quero como meu esposo... e vós vos agradastes de mim... chamou-me “anjo” e...

— Eu estava enganado.

— O... o quê?

Apenas o medo de machucá-la impedia-o de se desvencilhar tão brusca e violentamente quanto queria.

— De mais a mais, nunca casaria com uma moça de proceder tão reprovável! – disparou, colérico.

— Se...senhor Milo...

— Solta-me, Hilda.

— Mas eu...

— HILDA!!!

Ambos paralisaram ante a voz do duque. Acompanhavam-no dois guardas. Os jovens, aterrorizados, fitaram-nos como que à beira de um colapso.

— Pa... papai – balbuciou a loira, mais morta que viva.

— Não pude acreditar no que Marin me disse. Mandaria apenas os guardas, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. Oxalá fosse cego, pois ver uma filha agir de forma tão abominável...

— Senhor duque...

— Milo, não te preocupes — o nobre interrompeu-o, severo — Vi o suficiente para constatar que mantiveste tua palavra de honra. Vem comigo, Hilda. AGORA.

Cabisbaixa, a jovem seguiu o pai, escoltada pelos guardas. Milo veio atrás, ainda abismado com o que acabara de ocorrer.

Chegando à aldeia, Teobald II, sob olhares curiosos, assim dirigiu-se a Eugene:

— Empresta-me tua casa, peço-te. Tenho um assunto sério a tratar com minha filha.

— Pois não, Alteza, é aquela ali – o líder comunitário mostrou a choupana.

— Guardas, ficai a média distância da casa. Não deixai que ninguém se aproxime.

Henri aproximou-se do amigo, temeroso por vê-lo tão alterado.

— Irei contigo para que não te excedas com a menina. Não seria adequado.

— Como quiseres – respondeu o duque, de mau humor.

Viram os três entrando na cabana de madeira. Milo teve um mau pressentimento; procurou Camus com os olhos e viu-o com as irmãs e Afrodite. Tinham os semblantes sérios e encaravam o rapaz com gravidade. Teve ganas de perguntar o motivo daquelas miradas, entretanto, preferiu ficar onde estava. Já se sentia irritado o bastante.

As casas dos camponeses não dispunham de cômodos separados tais como sala, quarto, cozinha, outro quarto: possuíam apenas duas divisões, uma delas simultaneamente a cozinha e dormitório, com leitos de feno, e outra, onde ficavam mantimentos, ferramentas de trabalho, e alguns animais. Os três nobres ocuparam o primeiro recinto; Teobald II abriu os braços, demandando:

— Hilda! Que foi aquilo que presenciei? Tu estavas a seduzir o noivo de tua irmã!

— Não, senhor meu pai, nós apenas conversávamos...

— “Conversavam”? Tu agarravas o homem! Tinhas um seio despido! – bradou o duque.

— Não grites, chamarás a atenção em demasia – admoestou Henri.

— Eu deveria açoitar-te por comportamento tão baixo e vulgar!

— Não sou vulgar – a loira rompeu em pranto – a vulgar mesmo é vossa querida Camille! Estais sempre a acusar-me de ser tudo de deplorável, todavia quem fica se agarrando com o noivo antes de se casar é ELA!

— O... o quê?

— Sim, ontem mesmo estavam se agarrando no bosque, como dois animais no cio, mesmo sem ser casada estava lá, beijando o senhor Milo como se já o fosse!

O duque e o conde ouviam a moça, boquiabertos. Entreolharam-se, aturdidos.

— O que estás a falar, menina?... – balbuciou o duque de Borgonha, os olhos azuis tão arregalados que pareciam prestes a saltar da face subitamente lívida.

— É isso mesmo que ouvistes, senhor meu pai, EU VI. Os dois, de corpos unidos contra uma árvore, beijavam-se da maneira mais despudorada. Vossa “santa” Camille só se faz de santa perante vós.

Foi a vez de Henri inquirir, incrédulo:

— Espera, Hilda. Dizes que... dizes que... que VISTE Camille e Milo... SE BEIJAREM? É isso mesmo?

— Exatamente, senhor meu padrinho – confirmou, enxugando as lágrimas — Se me permitis a franqueza, de uma forma bem inadequada para quem ainda nem se uniu em matrimônio...

— Hilda. Não PODES ter visto isso. Decerto te enganaste... – opinou o conde, pacientemente – não haveria como isso acontecer.

— Mas eu VI, padrinho. Se não acreditais em mim, chamai a Camille e perguntai diretamente a ela.

Atônitos, os amigos processavam, com estupor, o que a jovem relatava.

— Não pode ser – murmurou o duque, nitidamente horrorizado – estás certa do que viste?

— Teobald, não me digas que estás a acreditar nisso! SABES que eles NUNCA iriam...

— Cala-te – ordenou ele, secamente – Hilda. Conta-me como foi isso.

Henri suspirou, preocupado. Via no olhar do amigo um temporal que se formava.

— Eu estava no bosque e parei para colher framboesas... vi por acidente. Camille chegou a me confrontar, como se fosse EU a culpada. Fiquei tão abalada que falseei o pé, quase o machuquei seriamente...

— Não, não – o duque repetia, perplexo – Não pode ser! Camille não... Camille NÃO TERIA como fazer ISSO!

— Por que não? Por que ela é “a perfeita”? Pois eu digo que o vi. Chamai-a aqui, senhor meu pai. Vós sempre dizeis que ela nunca mente, não? Se assim o for realmente…

— Está certo, Hilda. Vai chamar Camille – ordenou o nobre, sombrio.

Ela sorriu, maldosamente. Fez uma profunda reverência e se retirou, lépida.

— Teobald...

— Henri. Tu também tens que sair. Quero falar a sós com Camus.

Apreensivo, o conde tentou:

—Por favor, há de ter alguma explicação racional. Não ajas de cabeça quente...

— Vai-te, Henri, peço-te – o tom do duque, no entanto, era de ordem, e não de súplica. Cruzara os braços e dera as costas para o amigo, que suspirou, derrotado.

— Eu vou. Mas por favor, não te excedas com o menino. Estou certo de que há uma razão para isso tudo.

Sem obter resposta alguma, o conde d’Auvergne deixou a cabana, pesaroso.

Milo viu Hilda se aproximando de Camille, suas irmãs, tias e Afrodite. Trazia um sorriso pérfido no rosto. Parou diante deles com as mãos na cintura e disse, arrogante:

— Camille, o papai quer falar CONTIGO. E prepara-te – riu – penso que não se limitará a “falar”.

O ruivo apenas a mirou, inexpressivo. Seika observou, irritada:

— Do jeito com que falas, parece até que nosso pai quer dar bronca na irmã Camille!

— Hum, se for APENAS uma bronca, já podem fazer vossas preces de agradecimento... porque papai está MUITO BRAVO com a senhorita perfeita aqui.

— O que foi que tu fizeste desta vez, Hilda? – indagou Marin, em tom de desafio.

A maior a fuzilou com os olhos violetas cintilantes de ódio. Aquele piolho vermelho destruíra seus sonhos e ousava falar-lhe daquela maneira? Dardejou-a com ar de superioridade e, sorrindo vitoriosa, lançou:

— Eu? Na verdade, foste TU, querida Marin. É a TI que Camille vai agradecer após receber o castigo do senhor nosso pai. Espero que fiques satisfeita! – e riu, debochada.

A pobre menina arregalou os olhos, sem entender:

— E-eu? Que queres dizer…?

— Quero dizer que se não tivesses ido dar com a língua nos dentes para nosso pai, ele agora não estaria a par de algo muito BAIXO e VIL que tua “irmãzinha santa” cometeu.

— N-não... eu não... irmã Camille!! – gemeu a ruivinha, preocupada, abraçando a maior.

Camus virou-se para ela, afagando-lhe os cabelos ao dizer:

— Não te preocupes. Não és culpada de absolutamente nada.

— M-mas... mas...

— Deixa-me ir. Fica aqui com os outros.

— Não! Vou contigo! Não vou deixar papai brigar contigo!

— Nem eu! – Seika juntou-se à irmã, agarrando-se às saias de Camus.

A festa continuava, sem que os camponeses se dessem real conta do que acontecia, com exceção de alguns mais próximos. Afrodite anunciou, já desconfiado do que se tratava:

—Irei contigo.

A loira vociferou, afetadamente:

— Acaso és surdo? Meu pai disse para APENAS e TÃO SOMENTE Camille ir ter com ele. Recolhe-te ao teu lugar de subalterno e não te metas onde não é chamado.

Afrodite trincou os dentes de raiva. Camus gesticulou para ele.

— Não é preciso. Fica aqui, com minhas irmãs e minhas tias. Eu certamente não demoro – pediu.

— Hahahahahahahaha, será mesmo? – ironizou Hilda.

Recebeu um olhar gélido, repleto de significados, de Camus. Não pôde deixar de se arrepiar.

“A primogênita” deixou o grupo e dirigiu-se para a casa de onde viera Hilda, e de onde agora vinha Henri d’Auvergne.

Milo viu um parar diante do outro e trocar um breve olhar. O conde, consternado, murmurou:

—“Camille”...

Em resposta, o ruivo apenas assentiu com a cabeça. Como sempre, sereno. Impávido. Inabalável.

“Hilda... na certa contou que nos viu...”, pensou o loiro, seguindo Camus com o olhar esgazeado. Perdeu-o de vista quando este entrou na humilde choupana e fechou a porta.

*************

Notas finais
(1) Guirlanda de flores - É difícil precisar o significado do adorno, uma vez que em cada região e época possui um simbolismo, sendo verificado seu uso desde a Antiguidade, Ocidental e Oriental; fertilidade, proteção, ligação com entes da natureza, honra às forças da vida que fazem florescer, desenvolver e morrer, em um eterno ciclo. (2) Trupe mambembe - A partir do século XII, surgem na Europa inúmeras companhias itinerantes que reuniam atores, cantores, malabares, contorcionistas, mágicos, dentre outros. Esses artistas, chamados "saltimbancos", iam de cidade se apresentando para ganhar a vida e para ter liberdade artística, pois que o teatro até então era francamente de cunho religioso. Originou o circo. (3) Passaraio - a famosa brincadeira das festas juninas brasileiras tem suas origens na Idade Média, assim como a própria festividade. Aqui, porém, usei de licença poética, preservando o nome usado por nós, simplesmente por não encontrar um nome utilizado à época. (4) Farândola - dança provençal de origem camponesa; há registros da dança a partir dos séculos XII e XIII. (5) Metraton - anjo da Ordem dos Serafins, a mais alta dos anjos. Chamado de "Anjo Supremo" nas tradições judaico-cristãs, hierarquicamente acima do poderoso Arcanjo Miguel. Anjo guerreiro, em algumas tradições é associado com o Anjo da Morte. ************* Bem, a festa tinha tudo para ser um momento feliz e divertido, de despedida de Camus de seu povo e de sua terra, mas... Hilda tinha que estragar tudo :( O duque de Borgonha realmente não pareceu receber nada bem a informação de que seu filho e Milo se beijaram. Que fará ele? Estará Camus, de fato, em maus lençóis? E Milo, que vai fazer? Respostas no próximo (e tenso) capítulo... espero-vos lá. Muito obrigada por prestigiarem. Forte abraço! Tema do capítulo: "La Suite Meurtriere", por Vox Vulgaris: https://www.youtube.com/watch?v=AqJMVSnwg_Y