Damage
25 Capítulo 25 - The Bored Dragon, 3° Arco
Notas iniciais
O primeiro-tenente estava conversando com Damien e ele estava muito curioso para saber do que conversavam, porque o recruta estava tentando não sorrir e Samuel nunca tinha visto ninguém conversar com Krieg e sorrir. Era ilógico. Bem, soltou um suspiro discreto e continuou corredor a dentro, tinha que passar pelos dois para chegar nos dormitórios, não que se importasse muito mas sempre teve um pouco de medo dos oficiais daquele lugar.
– Samuel! – Damien gritou e apontou para ele de repente.
O garoto levou um susto e deu um pulo parando de caminhar subitamente.
– Ele é obediente, calado, prestativo, organizado. – Damien disse ainda apontando para o recruta e depois deu de ombros. – E eu acho que Bursliet vai gostar dele.
– Por que acha isso? – o primeiro-tenente perguntou.
Krieg virou-se para o recruta lentamente e Samuel não conseguiu nem se mexer quando ele fez isso, apenas sentiu suas mãos suando frio e a luz sendo tampada. Kazimir era enorme e assustador. Era um urso.
– Intuição. – Damien se justificou.
Kazimir arqueou uma sobrancelha e o fitou como que o analisando, nesse momento Samuel sentiu que o primeiro-tenente era mesmo um enorme urso decidindo se ia quebrar seus ossos ou não. Samuel jamais iria entender como Damien conseguia conversar com aquele cara com tanta facilidade quanto conversava com qualquer outra pessoa, só de ter os olhos azuis do primeiro-tenente sobre si já causava pânico no recruta e fazia suas pernas tremerem.
– Ah...Lieppert, certo? – o garoto balançou a cabeça positivamente bem rápido. – Bursliet está precisando de ajuda na cozinha, tudo bem para você?
Balançou a cabeça positivamente de novo sem pensar duas vezes.
– Tem certeza...? – ele pareceu incerto. – Quero dizer, aquele maníaco é muito cruel e... – o primeiro-tenente parou de repente sentindo que não deveria falar daquele modo com um recruta. – Certo, você começa amanhã.
Meneou a cabeça de novo e o primeiro-tenente deu as costas para os dois seguindo o corredor. Samuel soltou um longo suspiro e ficou olhando para as costas dele enquanto distanciava-se, a última coisa que queria nessa vida era discutir com Krieg. Quase chorava só da sua atenção ser chamada por ele.
– Tudo bem mesmo? – Damien perguntou.
– Sim. – respondeu. – Eu prefiro ajudar na cozinha do que dar voltas no pavilhão com o restante dos recrutas.
– Você é quem sabe. – Damien deu de ombros. – Boa noite.
Balançou a cabeça ainda com a sensação de alívio percorrendo por seu corpo e depois seguiu para o seu quarto.
Samuel já tinha ouvido alguma coisa sobre a cozinha, algo sobre ela ser o portal para o inferno, mas não deu muita atenção, afinal, nada era pior para ele do que ter que acompanhar todos os outros recrutas nos exercícios exaustivos aos quais eram impostos. Quando se alistou realmente tinha esperanças de que pudesse reparar o físico de garotinha, mas depois de tantos meses sua esperança tinha ido por água abaixo assim como sua dignidade.
Abriu a porta do quarto e entrou, seus três colegas de quarto já estavam lá dentro, dois deles jogando cartas em cima de uma das camas e o terceiro dormindo com o rosto enfiado no travesseiro, coisa que Samuel não conseguia fazer porque acabava sempre se sufocando.
– Hey Sammy, bem vindo de volta. – disse um dos que estava sentado na cama jogando com o colega.
– Eldric, já pedi para não me chamar assim. – bufou dirigindo-se até a sua cama que ficava embaixo da que os dois jogavam cartas.
– Ganhei. – disse o mesmo recruta mostrando as cartas para o colega sem sequer dar atenção para o que Samuel disse.
Não bastava os esforços físicos completamente desnecessários ele ainda era obrigado a conviver com pessoas idiotas. Se Samuel tivesse a força física de Arthur e a coragem de Damien ele certamente já teria corrigido o erro da mãe daqueles idiotas. Toda vez que olhava para eles o garoto só conseguia apoiar ainda mais as campanhas a favor dos anticoncepcionais e camisinhas, afinal, se o pai daqueles retardados tivesse colocado a sacolinha no lugar certo Eldric estaria em uma usina de reciclagem de plástico e não atormentando sua vida com comentários infames sobre sua aparência. Samuel não ficava lembrando-o a todo momento que ele era um ogro, ele devia fazer o mesmo a respeito da sua altura.
Sentou-se na cama e depois de ajeitar o travesseiro deitou-se logo e puxou o edredom para cobrir todo o corpo. Uma das vantagens de ser pequeno e magro era que qualquer trapo podia servir como um casulo quente e confortável para ele e se enfiasse a cabeça embaixo do travesseiro quase não conseguia ouvir das risadas idiotas dos seus colegas de quarto. Eles riam como bêbados gordos com a boca suja de gordura, essa proveniente daqueles espetinhos que só se vendem em botecos. Quando criança Samuel costumava achar que tais espetinhos eram as sobras dos açougues e quando cresceu teve certeza. Não que ele tenha crescido muito desde essa época.
Demorou um pouco para dormir já que Eldric costumava conversar bem alto e o tempo todo, mas depois de muito tempo com muita prática ele já tinha aprendido como dormir com barulho, tinha sido algo necessário para a sua sobrevivência.
–x-
Kazimir acompanhou Samuel até a cozinha em silêncio, até porque o recruta dificilmente conseguia responde-lo sem gaguejar. Todos os oficiais do quartel eram assustadores, mas Krieg era mais que todos eles e quando o primeiro-tenente ficava bravo com alguém ele tinha a impressão de que o homem estava rugindo e não falando. Os corredores estavam relativamente vazios, mas os oficiais inferiores que passaram pelos dois cumprimentaram o primeiro-tenente formalmente e ele retribuiu a saudação. Toda vez que Samuel via aquilo ou ele mesmo fazia igual ficava se perguntando se algum dia haveria recrutas que o respeitariam e admirariam daquela forma.
Seu tamanho não era um problema, Henry tinha conseguido o posto de capitão mesmo sendo um chaveirinho, mas ele tinha uma personalidade forte e ácida que compensava a falta de respeito físico, além de claro, uma imaginação bastante fértil para punições. Samuel quase sempre era alvo de castigos, chegar por um último em uma corrida lhe rendia mais voltas, fazer as flexões mais devagar lhe dava mais flexões ainda e não conseguir segurar o recuo de um rifle com tanta facilidade quanto os outros recrutas era sempre algo que o primeiro-tenente ressaltava. Aparentemente ele vinha se conformando com isso, já que das últimas vezes que o viu com dificuldades para segurar uma arma ele apenas suspirou e não disse nada. Talvez ele já soubesse que Samuel não tinha sido feito para lutar em um campo de batalha e diferente de Damien que também não havia sido feito para tal, o garoto não podia ser moldado para o propósito militar.
Samuel não tinha personalidade forte, era tímido demais e medroso. Ele não tinha a coragem necessária para gritar com alguém e muito menos a impiedade necessária para manda-la dar voltas no pavilhão durante uma tempestade. O maior erro nele era sua compaixão.
– Porra, Addler! A carne na chapa está queimando! – alguém gritou firmemente. – Axel, a puta da tua mãe nunca te ensinou que não se corta cebola desse jeito!
A cozinha era bastante grande, mas deveras, ela abastecia todo o quartel com suprimentos variados e carregados de proteína para que os escravos continuassem vivos. Era uma bagunça. Uma explosão de cheiros diferentes, fumaça da carne sendo jogada na chapa quente com temperos apimentados se misturava ao aroma suave do vapor de legumes sendo cozinhados e ainda ao cítrico cheiro de limões sendo espremidos. O ambiente também era carregado de sons, gritos dos cozinheiros e ajudantes contrastavam com o barulho de liquidificadores batendo sucos variados e outras substâncias, o próprio barulho de vapor, torneiras abertas esguichando água em pratos molhados e lambuzados em espuma, chaleiras gritando que a água estava quente, facas batendo contra as tábuas e colheres misturando. Tudo junto com um turbilhão de palavrões.
Mas era uma bagunça organizada. Embora os cozinheiros andassem de um lado para o outro carregando panelas fumegantes, pilhas de pratos de vidro, copos e talheres eles nunca trombavam uns nos outros e sempre acabavam desviando com tanta facilidade que pareciam todos estavam cobertos por gordura escorregadia. Também pareciam sempre achar os ingredientes e objetos que precisavam no meio das coisas e conseguiam ainda conversar uns com os outros sobre temas variados que davam espaço para gargalhadas tímidas, porque caso fossem altas demais Hans iria fazer comentários sobre elas.
– Só podia ser o desgraçado do Claus! – o cozinheiro-chefe se descabelava com a incompetência dos ajudantes. – Pare de espancar a carne desse jeito!
– Ela está dura! – tentou se defender.
– É pra isso que existe tempero amaciante, seu pedaço de merda! – respondeu batendo um vidro com um pó colorido ao lado da tábua onde o homem batia na carne. – Addler! Eu vou esfregar sua cara nessa chapa!
– Van Bursliet... – o primeiro-tenente começou a dizer.
– O que é?! – gritou puto da vida e se virou, só notando quem era depois. Pigarreou rapidamente e voltou as sobrancelhas ao lugar de origem. – Primeiro-tenente Krieg, posso ajudá-lo?
– Sim. – ele não tinha gostado da recepção. – Esse é Samuel Lieppert.
– Tá. – ele olhou para o garoto desconfiado. – Ele se perdeu daquela turma do ensino fundamental que veio visitar o quartel?
– Ele é o recruta que vai substituir o que você mandou embora.
Hans não moveu a cabeça, apenas seus olhos se viraram para encarar o garoto e depois o primeiro-tenente. Esperou que fosse uma pegadinha. Colocou a mão na cintura e o fitou um pouco surpreso.
– Tá brincando? Essa criança? – indagou. – Quantos anos ele tem?
– Dezoito, exatamente como os outros recrutas. – Kazimir respondeu e deu de costas. – Boa sorte com ele.
– Espera! Eu qu... – começou a falar, mas o primeiro-tenente já tinha se aprofundado mais pelo corredor, ignorando a existência de Hans. Até porque ele não conseguia suportar a existência de Hans.
Samuel ficou parado olhando para o cozinheiro-chefe por alguns minutos, os olhos dele o fitavam como se o garoto fosse um ratinho e ele um leão. Isso o deixou um pouco desconfortável e ele só ficou ali parado sem saber o que dizer ou fazer.
– O que está esperando? – rosnou. – Não tá vendo os aventais ali não? Não tá vendo a porra da sobremesa esperando pra ser feita?
O garoto foi até o local indicado onde alguns aventais brancos estavam pendurados e colocou um no corpo, tomando alguma dificuldade para amarrar a parte de trás.
– Samuel! O leite vai azedar! – o repreendeu antes de qualquer coisa e ele apenas balançou a cabeça positivamente.
Como se o leite fosse azedar em três minutos, bufou e se dirigiu aos ingredientes que o cozinheiro-chefe tinha apontado. Ele mandou que fizesse alguns pudins para complementar a mesa de sobremesas e quando Samuel disse que não sabia qual a receita o recruta achou que o cozinheiro fosse pegar uma daquelas colheres de madeira e bater no seu rosto repetidas vezes com ela, mas no fim só pegou um livro grosso de receitas e jogou para ele. Decepcionado.
– Minha irmã fazia essas coisas, não eu. – resmungou baixinho enquanto seguia a mistura escrita em uma das páginas que ele só achou depois de vasculhar todo o índice.
– É por isso que a sua irmã deve ser mais macho que você. – o cozinheiro-chefe cuspiu as palavras ao escutá-las por acidente enquanto passava para o outro lado da cozinha depois de ver fumaça saindo de uma panela.
Samuel ficou um pouco surpreso por não ter ouvido mais que isso, então apenas levantou os olhos e fitou o cozinheiro-chefe se distanciando. Ele não usava farda como o restante dos oficiais e sim um dólmã de cozinheiro branco com mangas dobradas, calças da mesma cor e um avental preso a cintura que tinha algumas marcas de mão e entregavam seu hábito apressado de limpar as mãos na roupa. Hans ficava bem naquela roupa, embora Samuel achasse que aquela cor contrastava totalmente tanto com a própria aparência do cozinheiro-chefe quanto da personalidade.
O branco transmitia paz, harmonia e organização. Hans era o caos.
– Precisa de ajuda? – ele perguntou de repente.
– Não, senhor. – respondeu despejando a mistura do liquidificador para a forma que logo iria para o banho-maria.
– Samuel, eu não estou perguntando por educação, estou perguntando porque preciso disso para hoje. – disse pegando uma panela funda e a enchendo com água. – Não me importo com você e sim com o seu trabalho. – sorriu gentilmente e aquilo foi assustador. – Faça mais dois e está bom.
– Sim senhor. – respondeu afundando a forma na panela cheia de água que o cozinheiro colocou sobre uma das chamas do fogão mais próximo. – Me desculpe senhor.
– Tudo bem, você não tem culpa de ser lerdo desse jeito, só precisa trabalhar mais nisso.
Que detestável, Samuel quis fazer uma careta, mas só balançou a cabeça e voltou ao seu trabalho, tinha mais o que fazer para ficar dando atenção ao que Bursliet dizia tão naturalmente como se não fosse uma ofensa. Era frequentemente ofendido pelos oficiais assim como a grande maioria dos recrutas, mas jamais se acostumaria a aquele tipo de tratamento.
Terminou as tarefas que Hans lhe deu e logo a comida estava sendo servida no salão de refeições. Samuel ajudou a organizar a mesa de sobremesas com outro recruta, um mais simpático que os outros, mas que não deixava de ser mais crítico que o comum. Avistou Arthur, Damien e Heiner se sentando em uma mesa com suas refeições e rapidamente soltou um longo suspiro aliviado por finalmente poder voltar para os colegas normais. Lembrou-se que ainda estava com o avental e voltou para a cozinha para abandoná-lo ali.
Depois de toda a refeição feita e servida a cozinha estava vazia, sem sons e misturas mirabolantes de cheiros variados ela parecia um pouco melancólica. Foi realmente estranho quando Samuel entrou no recinto e conseguiu escutar os próprios passos, a cozinha estava tão cheia de vida desde o primeiro momento que a viu que parecia estar faltando algo, como se todos os fogões tivessem sido retirados.
– Cuidado. – o cozinheiro-chefe avisou pouco antes de Samuel tropeçar em uma colher que provavelmente tinha caído enquanto os talheres eram levados para o salão. – Eu avisei.
Samuel colocou as mãos à frente do corpo e conseguiu parar uma queda maior encostando apenas os joelhos e as palmas da mão no chão e caindo de quatro.
– Você me avisou em cima da hora! – resmungou enquanto se levantava, na verdade o maior motivo de ter pisado e escorregado na peça metálica era porque quando Hans falou ao invés do garoto procurar pela colher ele levantou o rosto e procurou por quem tinha falado aquilo. – Não vai nem perguntar se eu estou bem?
– Você não está sangrando, logo está bem. – a lógica do cozinheiro-chefe era bem simples, e por vezes, falha.
O recruta se levantou batendo as mãos na roupa para limpá-las, apesar da cozinha estar bastante limpa. Ela era de tons brancos e cinza metálico, os pisos das paredes e chão eram brancos e todos os balcões possuíam mármore da mesma cor, apesar de haver os fogões embutidos que eram pretos e eram o destaque mais colorido na cozinha, depois do cozinheiro-chefe. Samuel o encontrou sentado atrás de um dos balcões de mármore, equilibrado nas pernas de trás de uma cadeira e com os pés apoiados no próprio balcão exibindo os coturnos pretos que serviam apenas para lembrar que ainda estavam no exército e aquele homem, apesar de cuidar da comida, também tinha recebido treinamento militar. Estava comendo, apesar do prato se encontrar erroneamente em seu colo ao invés de estar no balcão, mas tudo parecia errôneo em Hans, tanto a postura relaxada, os gestos despreocupados apesar dos berros apressados e os cabelos ruivos que definitivamente não se encaixavam no branco das suas roupas e da própria cozinha.
Hans não tinha cabelos alaranjados ou cor de ferrugem e na verdade você só podia perceber que eles eram castanho-avermelhados quando ele ficava embaixo de alguma das lâmpadas e os fios brilhavam, mas até a barba mal feita nas bochechas e queixo era avermelhada. Os cabelos dele eram enrolados, repletos de pequenos cachos arruivados que o faziam ter que levar a mão até a testa a todo momento para empurrá-los para trás.
– Por que está sozinho, senhor? – perguntou arqueando uma sobrancelha ao perceber que ele almoçava sem companhia na cozinha.
– Porque eu quero. – respondeu antes de levar um pedaço de bife até a boca.
– Ninguém quer estar sozinho. – retrucou pegando um prato e talheres, logo depois percebendo que estava sendo livre demais ao falar daquela forma com um oficial, mas Hans não pareceu se importar. – Por que não almoço com os outros oficiais?
– Eu não conheço a maior parte deles. – confessou. – Mas eu almoço com Henry quando Krieg está de férias e quando estou de bom humor com Nikolaevich.
– Quando Krieg está de férias? – sorriu enquanto se servia direto das panelas. – Por que?
– Eu não gosto dele e ele não gosta de mim. – ergueu as sobrancelhas se lembrando de algo repentinamente. – Na verdade ele me odeia. Profundamente.
– Ele é assustador. – Samuel disse puxando uma cadeira e se sentando ao lado dele com o prato no balcão e os quatro pés da cadeira no chão.
– Ele não é assustador, Samuel. – riu. – Você que é amigável demais.
– Vou aceitar isso como um elogio. – o recruta respondeu tendo em mente que o cozinheiro-chefe estava se referindo à sua aparência indefesa que não deveria causar medo a uma criança.
Hans realmente tentou ficar calado, mas realmente não era comum encontrar pessoas como Samuel no exército, ele era pequeno, magro e a pele do rosto era lisa como bumbum de bebê. Pessoas como Samuel estariam em faculdades ou trabalhando com ramos imobiliários.
Arqueou uma sobrancelha e se ajeitou na cadeira se sentando adequadamente para que pudesse olhar para ele enquanto falava.
– Sério, o que você está fazendo aqui? – teve que perguntar.
– O primeiro-tenente disse que você precisava de ajuda e...
– Não estou falando da cozinha, estou falando do exército. – interrompeu-o ao perceber que tinha sido mal interpretado.
– Ah, eu sempre quis entrar no exército. – respondeu arqueando as sobrancelhas e o fitando. – Você não?
Hans teve que rir um pouco da forma inocente com a qual ele tinha dito aquilo, a grande maioria se alistava por falta de opção ou porque tinham sido obrigados, mas Samuel simplesmente tinha entrado para aquele inferno porque sempre sonhou com isso. Na verdade o ruivo podia imaginá-lo perfeitamente, Samuel deveria ter sido aquele garotinho do ensino médio aficionado por História, aquele que antes mesmo do professor começar a explicar a segunda guerra mundial já a conhecia de cor e salteado, com referências de datas e nomes completos.
– Não, claro que não. Eu não queria entrar para o exército e muito menos ser cozinheiro. – respondeu. – Na verdade não conheço dez pessoas que estão aqui por paixão ao país.
– É um pouco frustrante saber que as pessoas responsáveis pela segurança do meu país fazem isso com má vontade. – cuspiu as palavras, praticamente. – Se não queria estar aqui, o que queria fazer?
– Eu queria ser gerente de um bordel. – sorriu como se falasse sério, obviamente não estava.
Samuel ficou um pouco decepcionado com a resposta sarcástica, mas não cobrou uma séria, o tempo da sua vida era precioso demais para ser gasto com o escárnio de Hans que era mais que evidente até na forma como ele respirava. Soltou um longo suspiro, aos poucos enquanto terminava de almoçar os cozinheiros e ajudantes foram voltando do salão de refeições com louça e mais louça.
Quando concordou em ajudar na cozinha a única coisa que pensou foi que poderia faltar a um ou outro treinamento físico, mas depois do almoço quando viu as pilhas de louça suja ele desejou desesperadamente correr em volta do pavilhão quantas vezes Henry quisesse. Samuel tinha uma irmã mais velha que vivia reclamando sobre lavar a louça e o recruta sempre achou que ela era dramática e preguiçosa, mas depois de vinte minutos lavando ele queria ligar para ela e pedir desculpas pelas vezes que zombou dela. Quanto mais pratos ele lavava, mais pratos havia para lavar, aquilo parecia infinito mesmo tendo ajuda para lavar e quando foi a hora de lavar as panelas Samuel quis olhar para Hans e pedir misericórdia. O quartel precisava alimentar muitas pessoas e logo as panelas eram gigantescas como as de cantina de escola.
Correr no pátio repetidas vezes era ruim, fazer flexões era ruim, mas lavar a louça era desumano.
– E então, como está indo, escravo? – Hans perguntou com um sorriso irônico, ele era o únic dentro daquela cozinha que ainda não tinha ajudado a lavar nada embora tivesse cuidado da limpeza dos balcões e fogões.
– Eu odeio você. – respondeu fitando os olhos azul-acinzentados dele.
– Eu sei. – ele levou a mão até a bochecha do garoto a apertou como se ele fosse um bebê. – Se chorar eu o deixo ir.
– Você é ridículo, solte a minha bochecha.
– Ridículo é você, nunca vi alguém sofrer tanto só pra lavar uma louça. – apertou. – E eu vou soltá-lo quando achar que devo fazê-lo, você não tem autoridade sobre mim.
Samuel franziu o cenho e ficou vermelho ao notar que alguns dos outros ajudantes olhavam para ele com risinhos indiscretos e outros ainda cochichavam piadinhas. Hans sorriu com a situação e soltou sua bochecha eu ficou dolorida por alguns segundos, mas o cozinheiro-chefe realmente não pareceu ficar incomodado com isso, na verdade caminhou alguns passos e cutucou um dos seus assistentes com o cotovelo cochichando algo em seu ouvido que fez o homem olhar para o garoto e rir. Samuel semicerrou os olhos e fitou o sorriso idiota no rosto de Hans, ele o estava desafiando? Ah, como o recruta queria lançar um daqueles pratos no rosto do cozinheiro-chefe até desfigura-lo completamente, queria que ele escorregasse no chão molhado pelas gotas de água e sabão das pias, queria que ele fosse cortar um tomate e acabasse cortando um dedo junto. Rangeu os dentes e voltou ao seu trabalho, quanto mais cedo terminasse, mais cedo ficaria livre do ruivo e não teria que olhar para o rosto debochado dele o tempo todo.
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