Damage

15 Capítulo 15


Primeiramente Damien hesitou, quer dizer, que tipo de cretino teria coragem de acordar um homem daquela forma? Krieg parecia uma criança dormindo, sinceramente, aquela imagem havia acabado de destruir toda a imagem de carrasco do inferno que Damien tinha dele.

Bem, ele não tinha escolha. Aproximou-se do corpo jogado preguiçosamente e tentou pensar no modo mais formal para se acordar um primeiro-tenente do exército, um superior que lhe trata como cachorro de rua todos os dias e o mesmo homem que tem poder para te chutar do estabelecimento. Engoliu seco e pensou em apenas chamar pelo nome dele, ele acordaria facilmente se Damien só o chamasse pelo título e sobrenome, mas aquilo parecia ser tão simples que chegava a ser entediante. Quer dizer, quantas vezes na vida ele iria ter uma chance como aquela? Provavelmente nunca mais ia ver Krieg naquela posição comprometedora, de alguma forma tinha que aproveitar o momento, por mais errado que isso fosse. Damien nunca respeitou a privacidade masculina alheia, de qualquer forma.

Semicerrou os olhos e aproximou sua mão até o rosto dele, lentamente, tocou o pescoço com a ponta do indicador e subiu até o lóbulo da orelha contornando a bochecha dele seguindo a mandíbula, sua barba estava feita, mas mesmo assim Damien ainda podia sentir os pelos com a ponta do dedo. Parou de mover a mão quando alcançou seu queixo, os dedos perigosamente abaixo do lábio inferior. Naquele momento Damien quase podia sentir o sabor do pecado na ponta da língua que por um breve momento viajou em sensações deliciosamente fantasiosas. Não costumava ser imprudente, mas naquele momento a audácia falou mais alto dentro de si e ele ousou levantar o dedo indicador até tocar finalmente o ponto desejado. Kazimir tinha lábios macios, excessivamente provocantes e que contrastavam perfeitamente com a rudeza que as bochechas ásperas pela barba possuíam.

Damien rapidamente recolheu sua mão ao perceber a testa do primeiro-tenente se franzindo, inconscientemente ele levou a mão até os lábios para coçá-los de leve, sentindo que algo estivera por ali antes e em seguida enfiou a cabeça no travesseiro para o que quer que tivesse estado ali não voltasse a incomodá-lo.

Os olhos do recruta brilharam como brasas por um breve momento e então impetuosamente ele ergueu a mão até os próprios lábios, tinha uma boa imaginação, quase podia sentir a maciez tocada anteriormente em sua boca. Woah, um espasmo correu por seu corpo de repente tentando finalmente alertá-lo de que estava ficando demasiadamente excitado e uma breve ereção começava a florescer entre suas pernas, lutando contra o tecido apertado da cueca.

Engoliu seco e lembrou-se por um momento da noite em que teve de cavar valas junto com Heiner e Arthur. Era um milagre que todos possuíssem os dedos dos pés intactos quando tinham manejado aquelas enxadas no mais escuro breu da noite cavando as malditas valas. Aquela tinha sido com certeza a noite mais sofrida da sua vida. Pronto, a ereção desapareceu.

– Primeiro-Tenente? – disse em tom um pouco mais alto, para acordá-lo. – Hey, Krieg?

Ele não fez menção de abrir os olhos, apenas mexeu-se um pouco e soltou um longo suspiro.

– O que é? – perguntou como um dragão furioso que tinha sido acordado do seu sono milenar.

– O capitão exige sua presença. – respondeu.

Ele entreabriu os lábios de repente e abriu os olhos espantado por ver Damien ali, provavelmente tinha achado que era Nikolaevich ou o próprio Wardraig no momento em que acordou. Sentou-se na cama com certa pressa e puxou os calçados para si mesmo, parecendo no mínimo constrangido por Damien tê-lo visto daquela forma.

– Ele não podia ter feito isso por si mesmo, droga? – balbuciou irritado. – Tudo bem, vá para o refeitório, já estou indo.

– Sim senhor. – Damien respondeu um pouco frustrado e o obedeceu saindo da enfermaria.

Kazimir amarrou os coturnos e se levantou depois de alguns minutos, estava faminto por não ter tomado sequer um café da manhã e ansiava comer alguma coisa, mas o simples ato de se lembrar que Henry provavelmente o excomungaria durante o almoço já o fazia desistir do almoço. Não tinha escolha, uma hora ou outra teria de encará-lo pessoalmente e escutar toda e quaisquer verdades que pudessem sair de seus lábios e elas com certeza sairiam de forma direta e tão afiadas como canivetes, porque o primeiro-tenente não se lembrava de Henry já ter usado eufemismos.

Passou pela mesa de Nikolaevich e pegou as duas cartelas de comprimidos, escutando brevemente uma risadinha curiosa.

– O que foi? – perguntou com os olhos semicerrados.

– Nada. – ele sorriu de forma suspeita e voltou a escrever novamente no papel, como se nada tivesse ocorrido.

Krieg bufou e enfiou os remédios no bolso, saindo da enfermaria, Henry costumava dizer que de tanto estudar algumas pessoas ficavam loucas. Talvez fosse o caso de Nikolaevich. Bem, que seja, apertou o passo indo em direção ao refeitório.

Chegando lá se deparou com o salão cheio de conversa e cheiros, algumas ocasionais risadas e conversas fiadas. Alguns se calaram e fitaram o primeiro-tenente por um instante, curiosos, depois voltaram suas bocas para os ouvidos dos companheiros de mesa e cochicharam alguma coisa. Kazimir agarrou um prato de vidro e por um momento pensou em jogar um em cada cabeça que sussurrava fofocas, mas só não o fez porque de repente avistou Henry com uma carranca no rosto e o prato cheio de sobremesas. Montou também seu almoço e se juntou ao capitão.

Qualquer um diria que o fato de Henry estar comendo somente doces naquele dia era pura coincidência, mas Krieg não era qualquer um e sabia perfeitamente que o capitão só comia doces em dias de estresse. Quanto mais doce mais irritado ele estava. Naquele dia estava comendo pudim, o que significava que Kazimir ia ouvir muita coisa.

– E então? – ele disse cruzando os braços. – Tem alguma coisa para me dizer?

Ele balançou a cabeça e deu uma garfada em um pouco de macarrão, devorando tudo de uma só vez. Mastigou bem e engoliu, respondendo só depois desse tempo, precisava de alguns segundos para pensar na melhor resposta já que a mínima vírgula errada resultaria em palavrões feios.

– Me desculpe. – disse. – Eu prometi que não ia bater em mais ninguém, mas bati, então me desculpe.

– Krieg, você deu um soco em um dos recrutas. Na frente de todo mundo. – exaltou as palavras com indignação. – Bater no Arthur a sós é algo, bater no Saeger na frente dos outros recrutas é completamente diferente. Sabe que aquele bastardo pode acabar com a sua vida se quiser, não é?

– Não acho que ele vá fazer alguma coisa agora.

– Por que não? Ele tem todo o direito e se não fizer é muito burro. – cruzou os braços.

– Eu sei lá, só acho que ele não vai fazer, minha intuição diz isso. – respondeu dando outra garfada na comida. – E eu já cumpri sua punição, não era para estar satisfeito?

– A finalidade de uma punição não é me dar satisfação, mas sim fazer você pensar sobre a merda que fez. – rosnou. – Se fosse pra me dar satisfação eu ia te amarrar em um poste e chicotear suas costas até ver suas vértebras, seu inútil.

– Olha só, me desculpe, mas ele me empurrou na piscina, o que queria que eu fizesse? – franziu o cenho.

– Se fosse uma pessoa decente teria arrastado ele até a administração e o expulsado, mas pelo jeito você é um animal! – disse dando uma colherada no pudim. – Estou muito decepcionado com você, Kazimir, de verdade, não achei que fosse quebrar uma promessa tão facilmente.

A segunda frase foi a única que conseguiu atingi-lo, porque de certa forma ambos acreditavam mais na palavra de alguém do que no próprio dinheiro e Krieg tinha dito que não bateria mais em ninguém e bateu.

– Muito bem, eu admito que sou algum tipo de ser primitivo que usa da força bruta para resolver os problemas, mas eu não fiz aquilo por querer, foi como uma explosão de raiva.

– Ah, não fez por querer. – ironizou. – Acho que vou enfiar um canivete na sua cara 42 vezes sem querer também.

Krieg abriu a boca para pedir desculpas, mas desistiu, não adiantava ficar pedindo desculpas para Henry quando isso não iria satisfazê-lo de forma alguma. Cravou o garfo na comida e comeu mais um pouco enquanto assistia o capitão deliciar-se com seu pudim, o açúcar acalmava seus nervos de uma forma incrível.

– Não vou deixar passar de novo.

– Tudo bem, eu sei que não. – respondeu.

– Kazimir, se acontecer de novo você vai preso. – colocou o garfo ao lado do prato e semicerrou os olhos. – Você tem transado muito?

O primeiro-tenente se engasgou com a comida de repente e engoliu uma boa quantidade de água para finalmente fazer descer junto com as palavras de Henry que não tinham sido pronunciadas com a cautela devida. Tossiu para tentar melhorar a garganta dolorida e depois olhou em volta para constatar se mais alguém tinha escutado aquilo.

– Estou falando sério, quem sai batendo em todo mundo desse jeito é porque não anda transando muito. – explicou.

– Henry! – ficou assustado com a normalidade do assunto. – Estamos almoçando!

– Eu sei, não ligo. – deu de ombros. – Você está precisando comer mais essa sua namorada, não sei, pede para ela te fazer uns boquetes.

– Já ouviu falar que o momento das refeições é sagrado?

– Não sou religioso. – comeu outro pedaço de pudim. – Além disso, não é como se estivéssemos falando alguma mentira, olha pra você, parece que não goza a um bom tempo. – acrescentou. – Sei que você disse “não”, mas eu continuo aqui e...

– Henry, eu não vou comer você.

– Por que não?

– Você não está em algum tipo de relacionamento com o Arthur? – indagou.

– Temos um relacionamento aberto. – o capitão disse imediatamente.

– Ele sabe disso? – arqueou a sobrancelha desconfiado.

– Provavelmente não.

– É, imaginei.

Aparentemente Wardraig já estava se conformando com o fato de Krieg ser algum tipo de brutamontes que espanca as coisas sem pensar, embora o próprio primeiro-tenente tivesse um pouco de vergonha das suas explosões de raiva. Tomou mais um gole de água e olhou de relance para a mesa onde estava Arthur, aquele garoto sempre conseguia parecer alheio a tudo ao seu redor. Heiner e Damien também estavam sentados junto com ele, como sempre, o trio estava sempre unido de alguma forma, embora às vezes Samuel se juntasse a eles para conversar durante o almoço.

– Por que mandou Saeger me acordar?

– Porque você é pago para trabalhar e não para dormir na enfermaria. – respondeu com convicção.

– Por que você mandou um recruta me acordar ao invés de ir por você mesmo? – reformulou a pergunta.

– Estava com fome e ele se ofereceu para fazer isso. – deu ênfase na vogal como se fosse algo importante a se ressaltar. – Por quê?

– Porque eu fiquei constrangido. – respondeu.

– Constrangido por que um recruta viu você dormindo? – surpreendeu-se. – Lembra-se de quando você pediu para o Arthur me carregar enquanto eu estava desmaiado? Pois é. – adicionou. – Aliás, você tomava até banho comigo, está com vergonha do que?

– É diferente, nós éramos crianças, eu ainda acreditava que os bebês eram trazidos por cegonhas.

– Eu não. – Henry comeu mais um pedaço grande de pudim.

– Você sempre foi uma criança precoce.

– Eu? Não foi você quem me pediu em casamento? – sorriu, adorava lembrar daquilo.

– Você tem mesmo que falar sobre isso toda vez que fica bravo comigo?

– Ah, mas foi tão bonitinho, você ficou tão decepcionado quando sua mãe disse que dois homens não podiam se casar. – riu.

– Eu tinha sete anos. – semicerrou os olhos. – E se você disser mais uma palavra sobre qualquer coisa relacionada à minha infância eu vou me retirar.

– Lembra-se daquela vez que... – Henry começou a dizer e o primeiro-tenente empurrou a cadeira para trás na intenção de se levantar. – Hey, hey, tudo bem, já parei.

Krieg o fitou por alguns instantes e o capitão voltou a comer seu pudim, delicadamente como se comesse as pétalas de uma flor. Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas comendo e digerindo as palavras da discussão anterior, até Wardraig finalmente colocar a colher ao lado do prato e o fitar sério.

– Eu estou falando sério, não faça isso de novo, não quero que vá preso, você é minha única família. – disse por fim o que almejava dizer com todas as repreensões.

– Não vou fazer. – respondeu, novamente, dessa vez com um pouco mais de convicção e talvez mais sentimento do que devia na voz.

–x-

Damien soltou um longo suspiro e cutucou o purê de batatas.

Se Krieg tinha ficado irritado só por ter sido visto enquanto dormia por Damien então o recruta mal podia imaginar o que ele faria se soubesse o que ele tinha feito com os dedos, ou pelo menos não tinha curiosidade alguma em se aventurar imaginando isso. Sentiu-se decepcionado, mas também conformado, o primeiro-tenente tinha deixado bem claro que não nutria nenhum gosto por pessoas do mesmo sexo e isso era no mínimo frustrante.

– E então? – Heiner perguntou curioso. – Por que não fez nada? Cara, você teve a chance pela qual todos nós esperamos a vida inteira e negou isso. É como achar uma lâmpada mágica e usá-la para fazer chá.

Ele levantou os olhos da sua comida até os companheiros de almoço, todos pareciam bastante interessados e o fitavam com os olhos arregalados. Menos Arthur, ele parecia sonolento e não parecia preocupado com isso.

– Não vejo porque eu tinha que prejudicar o primeiro-tenente. – deu de ombros. – Ele nunca puniu ninguém sem um bom motivo.

– Sim, mas ele é um filho da puta, ele merece isso. – acrescentou um recruta que também estava sentado à mesa, mas Damien não o conhecia. – Você perdeu uma chance de ouro.

– Não perdi não. – retrucou. – Eu não vou prejudicar ninguém, nem o primeiro-tenente, nem o capitão, nem o cara da cozinha ou qualquer ser humano desse mundo só porque tenho poder para tal. Não sou esse tipo de pessoa.

– Mas podia ter feito alguma coisa, sei lá, você o salvou de ir para a prisão, eu teria cobrado no mínimo um boquete. – Heiner deu de ombros e mordeu uma asa de frango assado.

– E é por isso que você conhece duas pessoas desde que chegou ao quartel. – Damien fez questão de lembrar a Heiner o quão antissocial e odioso ele era.

O homem o olhou de lado desejando resmungar alguma coisa, mas ficou em silêncio, já era bom o bastante ter somente dois amigos naquele lugar, não queria perder um deles. Isso se pudesse contar Arthur como amigo, porque naquele dia ele era um zumbi.

– O capitão também pareceu bem irritado. – Heiner adicionou.

– É, ele estava. – Arthur se pronunciou finalmente. – Meu deus, como ele estava bravo.

De repente Damien viu uma sombra de sofrimento passando pelos olhos verdes de Arthur e decidiu que não queria saber o que havia acontecido, porque a julgar pelo seu estado ele tinha tido uma noite bastante conturbada. Damien não precisava conhecer mais Henry do que já conhecia para ter certeza de que a única coisa que provavelmente lhe dava algum prazer pleno era o sofrimento alheio. Sentiu um frio percorrendo a espinha e de relance avistou o capitão almoçando com o primeiro-tenente.

– Bom, uma coisa temos de concordar: todo mundo ficou feliz com o primeiro-tenente sendo pisado daquela forma. – Heiner comentou.

– Hum, claro. – respondeu aquele recruta que Damien não conhecia e mais uma dúzia de outros que estavam nas mesas próximas ouvindo a conversa alheia. – Foi quase extasiante ver o capitão falando com ele daquela forma.

– Já pararam pra pensar, por um único minuto, que vocês estão ficando tão ruins quanto Wardraig? – rosnou.

– Hey, tem alguma coisa errada com você? – alguém perguntou. – Por que está defendendo-o assim?

Damien ficou levemente corado e abaixou o rosto para voltar a comer, o tempo do almoço era curto e bom demais para ser desperdiçado com aqueles idiotas. Arthur fazia bem em estar em silêncio, se é que ele não estava daquele jeito apenas por causa do sono. Soltou um longo suspiro, não estava defendendo Krieg, não tinha motivos para fazer isso, mas ultimamente vinha contestando seu conceito sobre ele, quer dizer, Kazimir não era o demônio que todos tinham plena certeza que ele era.