Damage
1 Capítulo 1 - The Sadistic Emperor, 1° Arco
Notas iniciais
Era o seu primeiro dia, ele estava de pé ao lado de vários homens, todos com fardas em estado perfeito e coturnos devidamente lustrados. Arthur não era exceção, os cabelos louros estavam penteados e arrumados embora vez ou outra a brisa morna da manhã tentasse bagunça-lo de novo. As mãos estavam juntas nas costas e os olhos verdes tentavam passar alguma confiança, embora falhamente. Ele estava nervoso, obviamente estava, não tinha se alistado porque sonhava com uma carreira militar ou era fascinado por armas, Arthur estava ali por causa da sua irmã e apenas por isso.
O pátio era grande e sem nenhuma cobertura, o sol não estava muito interessado naquele dia e por isso apenas alguns raios escapavam por entre as nuvens brancas e refletiam levemente em pequenas pedrinhas no chão de cimento.
– Ainda não entendo porque sou sempre eu quem tem que ficar com as garotas. – resmungou uma voz que se aproximava.
Arthur se sentiu tentado a virar o rosto para procurar pelo dono da voz, mas manteve a cabeça erguida e fitando o grande nada a sua frente. Escutou alguns passos e nada além disso, até que a sua frente um garoto passou sendo seguido por outro militar. As mãos dele descansavam nas costas assim como todos os outros, usava um uniforme preto e coturnos com as calças enfiadas dentro. Impecável, pensou imediatamente, suas botas provavelmente estavam tão bem lustradas que brilhavam como o faqueiro de prata da sua avó e o uniforme tão perfeitamente encaixado em seu corpo que chegava a ser irritante.
– Muito bem mocinhas, eu sou o Capitão Henry Wardraig e irei ser seu instrutor. – ele disse enquanto andava analisando cada um dos recrutas.
O louro levantou uma sobrancelha, surpreso. Ele era no mínimo um palmo mais baixo que ele, isso sem contar os cabelos negros e olhos azuis que complementavam as feições joviais do que podia dizer ser um garoto.
– Esse baixinho vai ser nosso instrutor? – ele sussurrou para o colega ao lado, que não conhecia.
O homem o fitou como se tivesse acabado de ver um fantasma e engoliu seco, Arthur podia até mesmo dizer que ele tinha tremido.
– O que disse?
O louro levou um susto quando percebeu que o capitão estava parado na sua frente o fitando com uma expressão extremamente séria e só então ele percebeu o quanto os bonitos olhos azuis eram assustadores de perto.
– Responda a pergunta do capitão! – o homem que o acompanhava gritou.
– Eu disse que é uma honra ter o Cap. Wardraig como instrutor. – mentiu, na verdade não fazia ideia de quem era aquele garoto.
– Que idiota. – ele disse com o canto da boca. – Tire suas roupas.
– O que? – o louro fitou o garoto com um olhar surpreso. – Não vou ficar pelado na frente de um monte de homens.
– Por que não? Tem alguma coisa que eles têm e você não? – o capitão ergueu uma sobrancelha, as mãos continuavam nas costas e a postura impecável embora ele tivesse de inclinar um pouco o rosto para fitar o louro. – Além disso, não quero que tire a cueca, não tenho interessa em ver o que quer que esteja debaixo dela.
Alguns recrutas deram alguma risadinha pelas costas dele e o louro corou. Ficou em silêncio alguns minutos esperando por um “Eu estou brincando, bem vindo ao exército”, mas nenhum veio.
– Ande logo, está desperdiçando meu tempo.
Arthur abaixou os olhos até o peito do garoto, o nome bordado depois da sigla “Cap.” certamente produzia algum peso sobre ele. Levou a mão até a barra da blusa branca e a tirou, em seguida desamarrou os coturnos e os retirou para que pudesse tirar as calças.
– As meias também, idiota. – o capitão disse e novamente alguns risinhos ecoaram pela formação.
O louro levantou os pés e tirou as meias jogando-as no chão com o restante das roupas. Henry ergueu os olhos sem alterar a expressão séria enquanto examinava o físico de seu recruta, ele era magro, mas não excessivamente e já tinha um contorno ou outro de músculo se formando. Nada que não pudesse ser melhorado.
– Agora corra 15 quilômetros ao redor do pátio. – ordenou.
Arthur sorriu e olhou para os lados ainda esperando que alguém aparecesse e dissesse que tudo não passava de uma brincadeira.
– Só de cueca?
– Sim, algum problema? – o garoto o fitou, um ar desafiador no tom de voz.
– Não senhor. – ele respondeu. – Ficarei feliz com 15 quilômetros.
– Ficará? – o louro balançou a cabeça positivamente. – Então corra 20, não quero vê-lo feliz.
Henry voltou a andar de novo pedindo que os restantes dos recrutas seguissem-no. Arthur suspirou olhando para si mesmo, mal podia acreditar que logo no primeiro dia já tinha passado tamanha vergonha na frente de todos os recrutas e ainda por cima, ficado seminu na frente do capitão.
– E quando terminar volte para a aula, imediatamente. – adicionou.
–x-
Quando o louro finalmente terminou suas coxas ardiam com a atividade física repentina e seus poros jorravam suor. Olhou para o centro do pátio e notou que suas roupas ainda estavam lá, no entanto dobradas ao lado dos coturnos. O louro ergueu uma sobrancelha e avistou um senhor com uma vassoura varrendo o pátio gigantesco, ele demoraria no mínimo um dia todo para varrer todo o espaço o que fez Arthur se sentir tentado a oferecer ajuda, mas Henry tinha sido bastante claro ao dizer “imediatamente”.
Suspirou e alcançou as roupas para vesti-las novamente, apertou os cadarços e jogou os cabelos para trás, eles estavam úmidos e Arthur fez uma careta ao perceber que provavelmente ele fedia como um cavalo. E pensar que aquilo poderia ter sido evitado se ele não tivesse soltado o infame comentário sobre a estatura do seu capitão. Bem, agora que a punição já tinha sido cumprida Henry se esqueceria do que tinha ouvido.
– Boa sorte. – murmurou o senhor com a vassoura.
Arthur parou de caminhar e se virou, fitando o velho.
– O Cap. Wardraig, ele costuma dar esse tipo de punição? – perguntou, aquele senhor deveria trabalhar ali um bom tempo.
– Sim. – respondeu. – Só que na maioria das vezes os recrutas estão vestidos.
O rosto do louro corou e ele se virou de novo, apertando o passo em direção à sala de aula. Os prédios principais eram grandes e tinham características coloniais, na verdade podiam muito bem ser chamados de castelo, já que eram grandes com torres pontudas e tinham vários andares cheios de pequenas janelas. As paredes eram pintadas de branco e o fato de estarem com algumas lascas e trepadeiras subirem por algumas delas indicavam que havia algum tempo desde que os prédios tinham sido reformados.
Entrou em um dos prédios e pediu ajuda para uma mulher que passava com alguns papéis em mãos, ela sorriu e apontou para a sala que Arthur pertencia.
Ele se aproximou da porta e ergueu uma das mãos para bater, mas antes que o fizesse escutou alguma coisa lá dentro e se interrompeu.
– Eu conheço crianças retardadas que são mais inteligentes que você! Saia daqui antes que eu resolva fazê-lo engolir os olhos! – a voz não pareceu irritada, mas as palavras ditas foram o suficiente para saber que o capitão estava fazendo uma nova vítima.
A porta se abriu de repente e um garoto saiu de dentro da sala com um ar decepcionado e frustrado, mas no momento em que olhou para Arthur o rosto dele se encheu de esperança. Ele era o garoto que tinha sido expulso da sala, mas nunca seria o que correu 20 quilômetros de cueca no pátio principal, no meio de todos os prédios e com todas as janelas apontadas para si.
– Está fedendo como um porco. – Henry apontou um chicote para ele, provavelmente o mesmo que estava usando para apontar palavras no quadro.
– Me desculpe senhor. – o louro respondeu. – Mas é que o senhor disse que... – ele começou a dizer, mas foi interrompido.
– Como ousa interromper a minha aula e se apresentar diante de mim dessa forma? – ele caminhou lentamente até o louro ainda com o braço estendido e tocou a ponta do chicote ao seu queixo forçando-o a levantar o rosto e fitá-lo. – Por acaso está sugerindo que a minha sala de aula é um chiqueiro?
– Não senhor! – ele disse rapidamente, em tom mais alto.
– No entanto está grunhindo como um animal. – ele se referia ao fato de Arthur ter aumentado o tom de voz. – Volte para o pátio e corra mais 20 quilômetros.
– Sim. – respondeu com pesar quando o capitão virou as costas.
– Acho que se esqueceu de um “senhor” nessa resposta. – ele continuou de costas. – Corra 30 quilômetros e depois vá para a piscina olímpica.
– Quantas voltas? – rapidamente se corrigiu. – Quantas voltas na piscina, senhor?
– Nade até eu mandar parar. – o capitão respondeu.
– Sim senhor. – o louro respondeu antes de deixar a porta da sala de novo e voltar pelo mesmo caminho que antes até o pátio.
Mentalmente resmungou vários palavrões até seu vocabulário se esgotar, aparentemente Henry não se esqueceria tão cedo do adjetivo usado por Arthur. Ele tinha dito “imediatamente” logo o louro imaginou que deveria ser assim que acabasse de correr, se tivesse ido tomar um banho então logo deixaria de ser imediatamente, mas tinha certeza de que se mencionasse isso ele teria ganhado mais dez quilômetros adicionais.
Assim que o velho o viu soltou uma risada e entregou uma garrafa d’água para ele.
– Você sabia. – pegou a garrafa da mão dele e deu um longo gole deixando algumas gotas escorrerem pelos lábios até o pescoço. – Por que não me avisou?
– Me desculpe garoto, mas não sou eu quem vai estragar a diversão do Capitão Wardraig. – o velho disse antes de voltar a varrer, com aquele sorriso no rosto a diversão parecia ser dele e não de Henry.
– O que quer dizer?
O velho ergueu a cabeça apontando para uma das janelas do prédio principal. Cretino, Arthur pensou imediatamente quando avistou o capitão parado em frente à janela com os braços cruzados na frente do peito, o louro não resistiu e acabou balançando a mão com um sorriso cínico no rosto. Henry ergueu uma sobrancelha e não retribuiu o gesto voltando a explicar alguma coisa para os recrutas que ainda restavam na sala.
Fez uma careta enquanto corria se lembrando do modo como ele o havia repreendido por não ter acrescentado senhor na frase. Como se ele fosse tão mais velho. Olhou novamente para a janela depois de já ter corrido alguns quilômetros e não o encontrou lá de novo, Henry realmente não parecia ser tão mais velho, mas isso deveria ser somente a aparência, ele era um capitão e isso indicava que ele tinha no mínimo mais de vinte. Mesmo assim, Arthur ainda conseguia parecer mais velho que ele.
Imaginou como Anne iria reagir àquilo se tivesse presenciado todo o espetáculo, sua irmã caçula provavelmente começaria a rir indiscriminadamente até que começasse a chorar. Mas ela não estava mais ali, não mais.
–x-
O céu estava escuro e a lua desenhada com brilhantes ofuscava as estrelas salpicadas no preto, uma brisa fria soprava por sobre a piscina e fazia os pelos de Arthur se arrepiar com o frio. Mas já não se incomodava tanto quanto antes, os músculos estavam quase todos adormecidos e só vez ou outra sentia alguma pontada, até mesmo as pontas dos dedos estavam enrugadas depois de tanto tempo na água.
Tinha terminado de correr os trinta quilômetros adicionais um pouco antes de o almoço ser servido e foi comer antes de ir para a piscina. Estava lá desde então, indo e vindo dentro da água com braçadas fortes no inicio, mas agora parecia um defunto boiando.
– Achei que tivesse mandado você nadar, está se debatendo dentro da água. – disse à voz que se aproximava.
Arthur sentiu um alívio percorrendo a espinha quando percebeu que era o capitão quem estava ali, sem um mínimo de piedade nos olhos.
– Me desculpe senhor. – ele parou de nadar perto de uma das bordas e fitou os olhos azuis do capitão, que pareciam brilhar com o céu negro atrás de sua figura.
– Eu mandei você parar? – o louro balançou a cabeça negativamente. – Então continue nadando. – o capitão cruzou os braços. – Eu tenho cara de surdo?
– Não senhor.
– Então me responda com palavras. – disse.
– Me desculpe senhor, é que eu estou realmente cansado. – tentou tocar o coração do garoto, mas ele não fez nada além de franzir o cenho.
– Então implore. – sugeriu. – Implore o meu perdão e eu deixo você ir.
– Eu vou continuar nadando, senhor. – respondeu imediatamente e afundou a cabeça de volta na água.
Jamais imploraria alguma coisa a alguém, isso seria humilhação demais. Correria o pátio de novo e novo usando só sua cueca, mas nunca imploraria nada. Nadou mais algumas horas até que o capitão finalmente resolver levantar a voz de novo.
– Volte para o pátio e continue correndo até mudar de ideia, não quero pagar uma indenização para a sua família se você desmaiar aí dentro e morrer afogado. – ele disse antes de dar as costas e sair sem dizer mais nada. Arthur podia jurar ter visto um breve sorriso em seu rosto.
O louro nadou até a borda da piscina e notou que não havia nenhuma escada, provavelmente havia sido retirada e alguma coisa dizia a Arthur que tinha sido algo estritamente proposital. Apoiou as mãos no mármore que cercava a piscina e deu um pulo dentro da água para sair, mas seus músculos tremeram e ele acabou não tendo força alguma para suportar o próprio peso e sair. Seu corpo doía, cada músculo e centímetro de pele estavam doloridos, ele certamente não estava pronto para tantos exercícios físicos de uma vez só depois de tanto tempo sem nenhum esforço.
Suspirou e apoiou as mãos de fora da piscina de novo, pulando mais alto dessa vez e rolando para fora da água de barriga para cima. Olhou para o céu e imaginou se ele estava realmente preparado para isso, se era isso o que Anne realmente queria para ele.
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