Damage
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Entrou no carro e jogou a mochila no banco de trás, como se estivesse em casa, bom, Krieg já tinha feito sexo oral em Damien, não havia porque o recruta se comportar como se fossem estranhos.
– Você mora muito longe? – perguntou enquanto colocava o cinto de segurança.
– Um pouco. – respondeu, para ele eram apenas alguns minutos porque fazia o trajeto todos os dias, mas talvez para Damien fosse demorado.
– Ótimo. – o recruta sorriu.
Krieg não entendeu muito bem porque demorar para chegar em casa era bom, apenas girou a chave na ignição e tirou o carro do estacionamento indo para a estrada. Estava pensando em levar Damien para casa a algum tempo, quer dizer, era errado que se encontrassem somente no quartel uma vez que ambos concordavam que gostavam bastante um do outro. Ficar se pegando escondido por aí fazia parecer que estavam apenas envolvidos em algum rolo e que aquilo não passava de desejo físico o que com certeza não era verdade, Kazimir gostava mesmo do garoto e queria passar algum tempo de verdade com ele e não somente sórdidos minutos depois do trabalho.
Saíram finalmente do quartel, havia ainda alguns metros até a cidade que possuíam bosques de coníferas em ambos os lados da estrada, aquele ainda era território do quartel e do governo que provavelmente ia ser usado no futuro para alguma coisa. Já houveram projetos de galpões para aviões da aeronáutica, mas nunca saíram do papel. Kazimir gostava daquelas árvores, elas faziam o lugar parecer um pouco mais aconchegante e os ventos ali sempre tinham cheiro de terra molhada e madeira, não queria que fossem derrubadas.
– Mantenha a atenção na estrada. – Damien murmurou enquanto levava uma das mãos até o colo dele.
– O que está fazendo? – perguntou somente para lembra-lo de que estava ocupado no volante, Damien estava desabotoando seu cinto e o primeiro-tenente sabia exatamente porque. – Damien, estou dirigindo, não pode esperar até chegarmos em casa?
– Não. – arqueou uma sobrancelha e enfiou a mão por dentro da calça dele, tateou por cima da cueca indecentemente e finalmente enfiou-a para dentro do último tecido.
– Se eu bater o carro e morrermos você vai para o inferno.
– Nós dois vamos, ouvi dizer que homossexuais não vão para o paraíso. – corrigiu enquanto usava sua mão para estimulá-lo com sucesso.
Logo que sentiu algo mais consistente abaixou-se lentamente e o tocou com os lábios, percebeu a mão dele hesitando uma ou duas vezes em afastá-lo, mas o primeiro-tenente acabou não fazendo nada. Damien só não sorriu vitoriosamente porque sua boca estava ocupada, bastante ocupada. Ah, ele tinha ansiado bastante por tocar Kazimir ali e agora que o tinha entre os dentes o morderia se por um acaso o primeiro-tenente tentasse negligenciá-lo de novo, embora duvidasse um pouco disso já que ele parecia bastante excitado e sem dúvidas Damien o estava tocando nos lugares certos.
Percebeu que ele diminuiu a velocidade, deveriam estar entrando na área urbana, o que só fazia com que a expressão de preocupação no rosto de Krieg ficasse pior e isso de alguma forma fazia Damien se deliciar. Ele mesmo já tinha estado em uma situação parecida quando Krieg fez o mesmo com o recruta em pleno corredor, ele sabia exatamente qual era o sabor da mistura de preocupação e excitação. Seria uma bela vingança se o recruta por ventura também não estivesse gostando da carícia que aplicava no parceiro, levou espontaneamente uma das próprias mãos até sua ereção adquirida rapidamente e começou a masturbar-se.
– Seu indecente. – Kazimir comentou ao notar o que ele fazia e os sons nada discretos que produzia com a boca cheia. – Feche a janela, tem um semáforo a alguns metros.
Damien levantou-se passando a língua nos lábios e o obedeceu, deixando apenas alguns centímetros da janela aberta para que alguma ventilação circulasse ali dentro, ameaçou voltar ao que fazia antes, mas no exato momento que aproximou sua boca do membro do primeiro-tenente ele parou no semáforo e isso queria dizer que tinha as mãos e a atenção livres por um minuto. Segurou o queixo dele e o trouxe para perto do seu rosto rapidamente, beijou-o de leve e mordiscou os lábios até que as mãos puxaram a camiseta do recruta até que ela fosse retirada.
– E sou eu o indecente? – Damien sorriu ao ter a peça de roupa jogada no banco de trás.
– Você me induziu a fazer isso. – justificou-se como se o argumento fosse válido e cravou os dentes no pescoço do garoto.
Desceu a boca percorrendo a pele dele com a ponta da língua até encontrar um dos mamilos que por ventura já estava duro, lambeu-o e mordeu de leve para só então notar com certo prazer que o mamilo ficou ainda mais duro que antes e tal evento foi acompanhado por um gemido mais alto que foi bem recebido pelos ouvidos do primeiro-tenente.
– K-Kaz...o semáforo...! – teve de lembrá-lo quando os carros atrás deles começaram a buzinar.
Krieg já tinha se esquecido de que estavam dentro do carro e corrigiu a postura novamente ao tomar o volante em mãos, um pouco agradecido pelos vidros serem escuros, apesar de que isso não garantia que os carros aos lados não haviam ouvido os eróticos gemidos de Damien.
– Chegue mais perto. – pediu.
Damien apoiou as mãos na porta do lado do motorista, de modo que seus joelhos ficassem na beirada do banco de Krieg, um dos braços dele passasse exatamente no rumo do seu abdômen e suas nádegas ficassem próximas ao queixo dele. Bom, se houvesse um buraco na rua Damien iria bater a cabeça no teto com bastante força.
– O que vai fazer?
– Só fique quieto e não empurre meu braço. – alertou-o de que um dos seus braços estava próximo ao abdômen do recruta.
Kazimir soltou uma das mãos do volante e a levou até a parte de trás da calça já aberta de Damien, puxou-a para baixo junto com a cueca de uma só vez. Deu um breve sorriso desejando ver a expressão no rosto de Damien, mas ainda tinha que presta atenção no trânsito. Abaixou um pouco o rosto até que sua língua pudesse alcançar a nádega dele e a mordeu com gosto escutando um gemido vindo dos lábios do amante.
– P-Preste atenção! – pediu um pouco preocupado com a concentração de Kazimir estar mais voltada para ele do que para a pista.
– Estou fazendo isso. – respondeu levando dois dedos até a boca e os mergulhando em saliva.
O primeiro-tenente levou o indicador até os últimos ossos da coluna vertebral de Damien e em seguida o escorregou até alcançar a entrada do recruta que soltou um gemido curioso e desejou desesperadamente que Kazimir parasse de apenas provoca-lo e fizesse logo aquilo. Sentiu o indicador dele o massageando delicadamente antes de tocá-lo com um pouco mais de força e adentrá-lo com cuidado, Damien soltou algum som mais alto e deixou a boca aberta para que o ar quente saísse mais facilmente de dentro dos pulmões. Seu rosto estava colado à janela e ele podia ver tudo o que se passava lá fora, desde os outros carros até pessoas passando em frente a lojas variadas.
– Q-Quanta audácia p-primeiro-tenente. – comentou ao senti-lo ameaçando colocar um segundo dedo dentro de si. – Sempre tão sério, quem ia imaginar que...ah!
Damien colocou a mão na boca para preservar o que restava da sua decência ao sentir-se sendo invadido novamente. Mesmo que fossem apenas seus dedos, era como um sonho sendo realizado, finalmente ter Krieg o tocando daquela forma, o estimulando daquela forma tão profunda e pecaminosa. O recruta sentiu o líquido pré-ejaculatório escorrendo da sua glande à medida que seus gemidos se tornavam mais intensos e incontidos.
Damien fechou os olhos e deixou a mão que tampava os lábios descer até abaixo do abdômen e começou a tocar a si mesmo, estimulando-se, não aguentaria por muito tempo. Kazimir retirou os dedos do recruta, lentamente e um de cada vez, precisava daquela mão para apertar o botão do portão da garagem que abriu mais devagar do que ele queria.
– Não consigo descer com você em cima de mim. – arqueou uma sobrancelha.
Damien ofegou olhando para a parede da garagem, tinham chegado finalmente, Krieg nem morava tão longe afinal. O recruta moveu-se e sentou sobre o colo dele adequadamente e fitou seus olhos, a parte azul que refletia o brilho dos faróis ainda acesos. Inclinou-se um pouco para beijá-lo e Kazimir levou as mãos até sua ereção puxando-a até tocar a sua própria, de modo que quando o primeiro-tenente movia as mãos estava masturbando não só a si mesmo mas a Damien também. O recruta o fitou surpreso com o ato extremamente erótico e entreabriu os lábios para morder os dele, mas sentiu que tinha chegado ao seu limite.
– K-Kaz... eu vou...! – murmurou para avisá-lo, mas ele não pareceu se importar muito e continuou movimentando a mão até senti-la se molhando com o clímax do recruta que soltou um gemido mais alto e deixou a cabeça cair no ombro de Kazimir.
O primeiro-tenente abriu a porta com a mão ainda limpa e a empurrou, segurou Damien pelas coxas e desceu do carro indo até porta da garagem que dava para um corredor.
– Eu quero você. – Damien sussurrou para ele, mordendo de leve o lóbulo da sua orelha. – Quero agora.
O recruta podia sentir em seu abdômen a ereção de Kazimir ainda roçado contra a sua própria, ele ainda não tinha chegado ao seu ápice e Damien esperava realmente receber alguma coisa do primeiro-tenente naquela noite.
– Eu sei. – ele respondeu colocando o corpo dele em cima da cama, fitou-o por alguns minutos, como se procurasse algo. – Eu gosto tanto de você.
– Eu sei. – repetiu com um sorriso.
Kazimir levou as mãos até a calça de Damien e a puxou deixando o recruta completamente nu. Levou a mão até as próprias roupas e começou a se despir também, os olhos dourados de Damien brilharam e ele levou lentamente as mãos até o peito do primeiro-tenente. Nunca havia visto Kazimir nu, uma vez que ele já o tinha visto usando somente uma sunga no mínimo dez vezes, passou suas mãos pelos músculos enrijecidos e pele quente até que ele se distanciou para sentar na beirada da cama e tirar a calça e cueca. Abriu a primeira gaveta do criado mudo ao lado da cama e alcançou um pequeno tubo branco de tampa amarela.
– Quando arrumou isso? – perguntou, seria interessante saber isso.
– Ontem. – confessou. – Henry ficou me enchendo o saco.
– Me lembre de agradecê-lo. – riu.
O primeiro-tenente balançou a cabeça com um sorriso bobo no rosto e ajoelhou-se entre as pernas de Damien, afastando-as para que pudesse ficar entre elas, deixou um pouco do líquido transparente escorrer na mão e a levou novamente até a entrada do recruta. Damien sentiu o lubrificante gelado na sua pele e se arrepiou com um sorriso no rosto, naquele momento seu próprio corpo estava tão quente que qualquer coisa que o tocasse estaria gelada. Kazimir despejou um pouco do líquido em sua própria ereção e depois posicionou-a no pequeno anel rosado, mas hesitou uma vez antes de prosseguir.
– Damien, eu não vou machuca-lo se fizer isso, não é? – perguntou fitando os orbes dourados do menor.
– Não, claro que não. – respondeu um pouco surpreso pelo questionamento repentino.
Krieg o fitou por mais um segundo e empurrou-se para dentro de Damien. O recruta agarrou o lençol claro da cama e o apertou entre os dedos sentindo o calor de Krieg misturar-se ao seu próprio, jamais conseguiria descrever com êxito o que sentiu quando Kazimir o penetrou. A princípio foi um doloroso tê-lo, embora Damien tivesse de confessar que gostava um pouco daquela dor inicial, pois era quando ele mais sentia o volume dentro de si e o primeiro-tenente aparentemente era mais amado pelo criador que ele mesmo.
O primeiro-tenente ficou sobre ele roçando seu peito ao de Damien, movendo-se dentro dele de uma forma quase melodiosa, seu corpo encaixando-se perfeitamente ao de Damien a cada estocada. O recruta levou a mão até a nuca dele, trazendo-o para mais perto e o primeiro-tenente o fitou por alguns segundos, enfiando a cabeça na curva de seu pescoço logo em seguida e acariciando sua pele com os lábios úmidos e a respiração quente. Damien podia sentir os pulmões dele indo e vindo sobre os seus, podia escutar seu coração batendo cada vez mais rápido e podia jurar que conseguia Kazimir podia ouvir seus pensamentos, escandalosos e nada sutis.
Damien o desejava, o desejava cada vez mais e cada vez mais fundo de modo que seu peito se tornava cada vez mais apertado e ele sentia com mais certeza de que o coração não caberia mais dentro das costelas. Damien era envolvido cada vez mais naquele calor intenso que seu companheiro exalava e sentia seu interior sendo abraçado, aconchegado. Era intocável, podia afirmar isso a qualquer um, naquele momento sentiu que nada além do próprio Kazimir poderia tocá-lo com êxito.
– K...K-az... – ele sussurrou algumas vezes para o amante em meios aos gemidos não contidos, não era agradável guardar sua voz dentro da garganta e provavelmente ninguém escutaria.
Não conseguia acreditar que tinha aguentado até aquele dia para sentir seu amante daquela forma, escutar sua respiração rápida e o calor dele o invadindo, lutando contra seus músculos que começavam a se tornar um pouco mais rígidos à medida que Damien se aproximava novamente do seu clímax. Ah, se ele já o tivesse tido antes então eles provavelmente já teriam um cotidiano tão agitado quanto Arthur e Henry.
Apertou o lençol com mais força, suas mãos ansiavam por tocar a ereção molhada, mas Damien se sentia mais que na obrigação de aguentar um pouco mais, Kazimir o excitava demais com apenas simples toques e fazia com que o calor crescente dentro do corpo do recruta estivesse constantemente a ponto de explodir. Procurou pela imagem do primeiro-tenente, ele ofegava e algumas gotas de suor escorriam pela pele clara, ziguezagueando os pelos arrepiados, mas Damien não conseguia ver sua expressão porque os cabelos louros que costumavam estar sempre penteados debaixo do chapéu pendiam em seu rosto abaixado, não conseguia ver seus olhos.
Chamou seu nome uma segunda vez e percebeu que as mãos dele tremeram momentaneamente. Kazimir levou uma delas até a ereção do recruta ao perceber que ele clamava por alívio e bastou alguns segundos de atenção e Damien pintou seu próprio abdômen e parte da mão do primeiro-tenente com branco de novo. Quando Kazimir retirou-se por um momento sussurrou vagamente o nome do recruta enquanto finalmente sentia o líquido orgástico quente escorrendo pelos dedos, mas não deixou Damien contemplar o azul de seus olhos.
–x-
Damien balançou um pedaço de panqueca de um lado para o outro na frente dos olhos dourados e curiosos, a cauda balançava ansiosa e mal movia um músculo, queria muito aquela panqueca.
– Por que o nome dela é Isabel? – perguntou sorrindo com a forma com que a cadela acompanhava a panqueca com os olhinhos pidões.
– Originalmente era Laika, mas Henry a acostumou como Isabel. – justificou enquanto terminava de preparar uma panqueca. – Isabel Henriqueta de Hesse-Cassel foi a primeira esposa do primeiro rei da Prússia.
Damien balançou a cabeça e decidiu parar de torturar a cadela marrom, ela tinha pelos tão brilhosos e bonitos que pareciam feitos de chocolate. Na verdade Isabel parecia um daqueles animais feitos de chocolate que ganhamos na páscoa, se houvesse um laço vermelho em seu pescoço estaria perfeita. Jogou o pedaço de panqueca para ela e os dentes ágeis pegaram a peça molhada em caramelo ainda no ar.
– Ela não tem cara de Isabel nem de Laika, tem cara de Maggie. – concluiu depois de tomar um gole de café e analisar o rosto do animal sentado ao lado da sua cadeira mendigando pedaços de panqueca.
– Ah, não me diga. – disse despejando caramelo em cima das próprias panquecas e dirigindo-se ao balcão. – E eu tenho cara de que?
– Você tem cara de... – pensou bem antes de dizer aquilo. – Você tem cara de O-que-diabos-aconteceu-ontem-a-noite-? É disso que você tem cara.
– O que? – ele arqueou uma sobrancelha e colocou o prato em cima do mármore, junto com o café.
– Não foi legal, você não gostou. – disse o que vinha martelando em sua cabeça desde que havia acordado naquele dia.
– Do que está falando? É claro que eu gostei. – ele sorriu e Damien quase acreditou.
– Você mente muito bem, deve estar aperfeiçoando isso a muito tempo. – respondeu, não estava bravo, mas queria a verdade e nada além dela.
– Não estou mentindo, de onde você tirou que eu não gostei?
Damien arqueou uma sobrancelha e sentiu-se tão desafiado quanto insultado. Levou a mão até a xícara de café e deu um longo gole, repousou-a lentamente na mesa e fitou Kazimir. Ele tinha olhos muito bonitos, isso era fato, mas eles não passavam de pintura. Eram impenetráveis, Damien nunca conseguiu olhar nos olhos dele e dizer o que se passava na cabeça do primeiro-tenente, eles eram azuis como o céu, mas eram tão nublados que era impossível ver algum sol, alguma luz ou qualquer resquício dela.
– Bom, você não olhou nos meus olhos nenhuma vez, não disse absolutamente nada além do meu nome uma única vez e tão vagamente que parecia estar falando sozinho. – começou. – Não dormiu mais que cinco minutos sem acordar e ficar se mexendo na cama essa noite e já tomou três comprimidos para dor desde que acordou. – continuou. – Está comendo só três panquecas, o que não deve ser metade do que come normalmente para manter esse físico, e está bebendo café preto sem açúcar. – listou. – Preciso dizer mais alguma coisa?
Kazimir o fitou perplexo por alguns minutos e puxou o açucareiro para perto da sua xícara, adicionando algumas colheres na sua bebida. Não disse nada.
– Você parecia estar gostando bastante até ter que me foder. – desabafou. – A primeira vez foi incrível, eu realmente gostei, mas foi cruel quando percebi que não estava gostando.
Continuou sem resposta.
– Pode conversar comigo, por favor? – pediu dando outro gole no seu café.
– O que quer que eu diga? – ele perguntou dando um gole no café depois de dissolver todo o açúcar.
– Quero que me diga se eu fiz algo errado.
– Você não fez nada errado. – não estava mentindo. – Me desculpe se foi tão ruim assim.
– Foi ruim porque você parecia estar sofrendo o tempo todo. – não queria as desculpas dele, havia um porquê de Krieg não ter gostado e é isso que ele desejava saber. – Por favor, me conte o que aconteceu, eu quero saber se eu o machuquei de alguma forma, se você não quer que eu deixe minha voz muito alta ou...
– Damien, você não fez nada errado. – interrompeu-o.
– Vai me contar ou não?
– Contar o que? – ele deu outro gole no café.
Damien o fitou indignado, completamente frustrado. Levou a mão até os cabelos molhados do banho recente e os ajeitou, gostava mesmo de Kazimir, mas se ele tinha algum segredo então provavelmente não daria certo.
– Se você não me disser o que houve de errado ontem eu juro que vou sair daqui agora e você nunca mais vai conversar comigo fora do quartel. – ameaçou, não tinha coragem de fazer aquilo, mas precisava fazer Kazimir abrir o bico. – Você tem três segundos.
Olhou nos olhos dele, sério, o primeiro-tenente retribuiu o mesmo olhar e deu um gole no café, despreocupado. Damien contou mentalmente e quando o tempo acabou se levantou da cadeira sem remorsos.
– Espera! – Krieg gritou depois que ele deu dois passos, não conseguia deixar Damien ir embora daquela forma. – Tudo bem, eu falo.
O recruta cruzou os braços e continuou de costas, sem fazer menção de voltar a se sentar.
– Fale.
– Não me sinto à vontade conversando com as suas costas. – disse com certo tremor na voz, mas Damien fingiu não ter ouvido. Soltou um longo suspiro, imaginando como dizer. – Eu não sinto nada.
– Como assim? – Damien virou-se e olhou para ele. – Está dizendo que não sentiu nada ontem? Nem um pouquinho de prazer?
– Estou dizendo que eu nunca senti nada, não só com você mas com qualquer outra pessoa. – pegou os talheres e cortou um pedaço das panquecas. – Só depois do ato, meu corpo fica dolorido como se eu tivesse levado uma surra de bastões de baseball.
Agora sim ele tinha dito coisas para surpreendê-lo.
– Está brincando com a minha cara?
– Que droga Damien, eu pareço estar brincando? – rosnou. – Estou falando sério, sinto prazer nas preliminares, mas transar em si é algo extremamente desconfortável para mim, é como se estivesse anestesiado.
O recruta voltou a se sentar e esperou que ele mastigasse um pedaço de panqueca, enquanto aguardava o restante das revelações Damien deu outro gole no café. Esperava que ele fosse dizer que não tinha gostado porque os dois eram homens, porque Damien era escandaloso ou algo do tipo. O que o primeiro-tenente tinha acabado de dizer não havia nem passado pela sua cabeça e olha que ele costumava ser bastante precipitado.
– Eu sou a primeira pessoa com quem você fala sobre isso?
– Além de um médico, sim, você é. – respondeu. – Quando as minhas ex-namoradas disseram a mesma coisa que você eu as deixei ir embora.
– Me sinto honrado. – pigarreou. – Quero dizer, o que o médico disse?
– Que fisicamente não tem nada de errado comigo.
Se não era algo físico então provavelmente era alguma barreira psicológica criada por ele.
– Aconteceu alguma coisa que o traumatizou ou algo do tipo?
– Não.
– Está mentindo de novo.
– Não estou.
– Olha só, eu vou embora mesmo. – semicerrou os olhos.
– Nossa, como você é dramático, vai embora só porque não quero te contar algo ruim? – rosnou.
– Se você não me contar o que te incomoda nunca vai conseguir transar com alguém sem que essa pessoa sinta que está abusando de você. – deu de ombros. – Mas você é quem sabe, transar é opcional, ser feliz é opcional e ter namorado também é.
Aquilo soou mais como um desafio que uma ameaça e por alguns segundos Kazimir pensou realmente em dizer tudo, mas não podia simplesmente despejar tudo em cima de Damien como se o problema fosse dele. Fitou o café na xícara, o líquido preto se movimentando a medida que balançava, mas se ficasse parado quase podia ver seu reflexo no líquido.
– Você vai me odiar.
Damien cravou seus olhos na figura do primeiro-tenente, embora ele não tenha se mexido ao dizer aquilo, apenas ficou parado olhado para a própria bebida como se algum tipo de resposta divina pudesse partir dela a qualquer momento e solucionar seu problema.
Não conseguia imaginar o que é que ele tinha feito de tão errado que o fazia simplesmente repudiar sexo e ainda achar que Damien o odiaria. Gostava bastante de Kazimir, não deixaria de gostar por qualquer coisa, mas quando escutou aquelas palavras simplesmente tomou um gole do seu café e começou a comer suas panquecas. Não fez mais nenhuma pergunta ou comentário sobre o assunto durante todo o restante do café da manhã.
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