Damage

20 Capítulo 20


Notas iniciais
O capítulo de hoje é um pouco tedioso. e-e Me desculpem, mas futuramente eu vou precisar de algumas informações dele. -q

Estava preocupado.

Antes de Arthur fazer aquela pergunta durante o almoço ele só estava envergonhado por Krieg ter visto aquele desenho, mas agora não conseguia parar de imaginá-lo sendo repreendido por Henry. O capitão era cruel e suas punições eram piores ainda, sabia disso não só pelas que ele aplicava durante o dia, mas pelo estado físico que Astrophel sempre aparecia depois de fazer uma visita à sala dele. Aqueles com certeza eram castigo bastante interessantes, mas de forma alguma Damien desejava que Kazimir fosse acometido pelo mesmo tratamento. Ah, meu deus. Subitamente se pegou imaginando o que o capitão podia vir fazendo com o primeiro-tenente, que tipo de punição já não tinha sido aplicada nele.

Arregalou os olhos e ficou pálido, naquele dia na piscina Henry disse que conversaria com Kazimir depois, o que tinha acontecido? Krieg estava machucado? Ele tinha sido punido por sua culpa, Damien tinha provocado as duas situações onde ele conversou a sós com Henry.

– Saeger! – Hans chamou sua atenção de repente.

O recruta finalmente voltou sua atenção para o que estava fazendo e percebeu que picava uma maçã. O vermelho do sangue que escorria levemente do corte recente se misturava a casca brilhante da fruta e tornava impossível diferenciar o que fazia parte da maçã e o que deveria estar em seu corpo. Não era um corte grande, mas seria algo pelo qual ele daria escândalo, já que Damien costumava fazer isso por bem pouca coisa, no entanto o corte pareceu algo tão bobo e trivial que ele simplesmente não deu muita atenção. Aquilo o fez de repente ficar ainda mais preocupado, imaginando quantas vezes Krieg já não tinha sangrado daquele jeito nas mãos do terrível capitão Wardraig.

– Me desculpe, senhor. – pediu ao cozinheiro-chefe.

– Me desculpe o caralho, se não está bem saia logo daqui. – ele respondeu dando um tapa em sua cabeça, Hans costumava fazer muito isso.

Damien tinha começado a ajudar na cozinha a algum tempo e odiava. Hans não era um bom líder, não era um bom ser humano e se importava mais com sua comida do que qualquer outra coisa, como se os ajudantes estivessem ali para servir aos vegetais e não o contrário. Bufou e jogou fora a maçã manchada de sangue, enfiando a mão embaixo da torneira. Hans disse que faria tortas com aquelas frutas para que fossem consumidas no café da manhã do dia seguinte, mas não precisava de maçãs com gosto de ferro.

– Vou pegar um band-aid – o cozinheiro-chefe disse desvencilhando-se do olhar curioso de Damien.

Era um pouco estranho que deliberadamente ele fizesse tal gesto de solidariedade já que Damien sempre acreditou que se o cozinheiro tivesse que escolher entre salvar uma melancia de ser esmagada ou salvar Damien de ser esmagado ele escolheria a melancia sem remorso algum. Bem, esperou alguns minutos até que o cozinheiro-chefe apareceu com um curativo e colocou em eu dedo, delicadamente.

– Você está bem? – perguntou desconfiado, quando o diabo é bom demais é porque quer sua alma.

– Não. – ele respondeu. – Eu vou estar bem quando tiver ajudantes que não sejam idiotas o suficiente para cortar o próprio dedo.

Damien bufou, constatando que ele tinha voltado ao seu humor normal e rotineiro. Pegou a faca de novo e voltou a cortar o restante das frutas, dessa vez sendo mais cuidadoso para não cortar-se de novo, não queria abusar da bipolaridade de Hans.

Terminou de fazer todas as suas tarefas dentro da cozinha em um instante e logo estaria livre se o cozinheiro não tivesse lhe pedido para lavar a louça também. Quem geralmente lavava a louça era um garoto novo que tinha ficado ali por apenas alguns dias antes de Bursliet manda-lo embora com vários palavrões e ofensas que deixaram até Damien um pouco constrangido. O recruta costumava ser esse tipo de pessoa, que sente vergonha pela ignorância alheia e no momento estava bastante decepcionado consigo mesmo.

Era tão descuidado, o que lhe custava ter ficado quieto na carteira? Mesmo que não tivesse conseguido prestar atenção na aula só precisava ter ficado parado imóvel. O que lhe custava ter prestado atenção naquele dia na piscina? O que lhe custava ter dito a Krieg que não conseguia carregar aquelas caixas? Kazimir entenderia se ele dissesse, o primeiro-tenente era compreensivo, não tanto quanto uma pessoa normal, mas bem mais que Wardriag era.

Wardraig. Como podia caber tanta maldade dentro de alguém tão baixinho? Essa era uma das questões que jamais teriam resposta, junto com a “Como diabos Arthur se apaixonou pelo demônio?”. Segurou um prato cheio de sabão na mão e imaginou-se jogando aquilo na cabeça de Henry, com bastante força, mas logo quis jogá-lo na sua própria ao lembrar-se de que o capitão só estava repreendendo o primeiro-tenente tantas vezes por sua própria causa.

– Eu sou um idiota. – murmurou para si mesmo.

– Concordo. – Hans disse enquanto passava por ele com as mãos envoltas em luvas e uma torta em cada uma delas. – Termine isso logo, já está perto da hora de irmos embora.

Hans cozinhava bem apesar de ser odiável, quando passou pelo recruta o cheiro gostoso o hipnotizou por alguns minutos, mesmo as maçãs de verão davam um aroma gostoso e sabor sublime às tortas que logo foram colocadas para esfriar. Damien se sentiu tentado a furtar um pedaço de alguma delas, mas logo se lembrou de que não merecia sentir as doces tortas em sua língua quando era tão descuidado a ponto de causar tantos problemas para a pessoa que amava.

– Já estou terminando. – respondeu, faltavam apenas mais alguns copos para terminar o restante da louça que foi abandonada ali para que ele lavasse.

Van Bursliet somente balançou a cabeça e voltou para tirar o restante das tortas de dentro do forno. Damien soltou um longo suspiro novamente e retirou as luvas amarelas das mãos depois de terminar sua última tarefa na cozinha. Passou por Hans ao sair e se despediu dele, mas o cozinheiro apenas balançou os ombros e continuou organizando as tortas em cima do balcão de mármore.

Ainda havia algum movimento no pavilhão, a maioria dos recrutas perambulava sem rumo aproveitando um breve momento livre entre o momento da última refeição e a hora em que eram obrigados a ir dormir. Damien dirigiu-se para o prédio dos dormitórios, estava relativamente cansado, embora a maior parte da sua fadiga fosse na verdade frustração então resolveu ir logo para o dormitório ao invés de ficar vagabundeando sem rumo e motivo. Na verdade ele teria ido procurar por Krieg e pedir desculpas pelo ocorrido, mas agora estava envergonhado demais para fazer isso, chegar à conclusão de que ele era o motivo do primeiro-tenente estar sendo punido tantas vezes o fez pensar um pouco sobre o que estava fazendo.

Krieg já era um primeiro-tenente e seria muito ruim para sua reputação se descobrissem que ele mantinha uma relação com um dos recrutas, com outro homem. Henry não teria problemas com Arthur porque todas as pessoas com um mínimo de noção já sabiam qual era sua orientação sexual e o que ele fazia, mas ninguém desconfiava que o primeiro-tenente estivesse se envolvendo com Damien daquela forma. Não queria estragar tudo o que ele já tinha conseguido por simplesmente deseja-lo, isso seria egoísmo e Damien não costumava ser assim.

– Hey, espere! – o primeiro-tenente o chamou enquanto apertava o passo para alcança-lo. – Estava procurando você, Arthur disse que deveria estar na cozinha e...você está bem?

Não respondeu no primeiro minuto, porque logo que avistou o primeiro-tenente ao seu lado percebeu que jamais conseguiria afastar-se dele, mesmo que para o bem de ambos. Damien era egoísta, era extremamente egoísta e por isso ao invés de responder a pergunta que ele tinha feito abraçou Krieg imediatamente e afundou seu rosto no peito dele, aconchegando-se da melhor forma que conseguiu e por alguns minutos acreditou piamente que o peito do primeiro-tenente acolhia seu rosto de tal forma que parecia ser um encaixe perfeito para ele.

– Damien...? – Kazimir perguntou, um pouco assustado, o recruta parecia estar tão bem da última vez que o tinha visto e agora de repente parecia estar desmontando.

– Eu...estou causando problemas para você, não...estou? – o menor perguntou sem afastar seu rosto dele.

– Claro que não! É por isso que está preocupado? – indagou e ele balançou a cabeça positivamente. – Que idiota, se você estivesse me causando problemas eu já teria te dado um pé na sua bunda.

Damien levantou o rosto e fitou o rosto de Kazimir, ele parecia estar falando sério e realmente devia estar, ele não era do tipo que ficava fazendo brincadeiras e ameaças sem fundamento.

– Você...é muito honesto. – murmurou e o louro sorriu resolvendo abraça-lo também. – Mas o capitão ficou bravo com você naquela vez da piscina, hoje quando viu meu desenho e tenho certeza que chamou sua atenção por causa da bagunça no depósito. Não quero que ele fique punindo você por minha causa.

– Não sei qual é o seu conceito de punição, mas ele não fez nada além de falar comigo no episódio da piscina e hoje. – disse. – E sobre o depósito, não sei se percebeu, mas o Henry é uma madame, ele não chega nem perto dos depósitos.

Damien riu com o adjetivo inusitado e empurrou de leve o primeiro-tenente, não seria legal ficar dependendo da sorte ficando abraçados daquele jeito no corredor.

– Não pode chama-lo de madame, ele é um homem. – comentou, embora tivesse plena certeza que Kazimir só tivesse dito aquilo para ressaltar a personalidade do capitão. – E ele só conversou com você...?

– Sim, ele não pode fazer nada além disso, pelo menos não comigo. – arqueou uma sobrancelha, imaginando se Damien não tinha pensado que de alguma forma o primeiro-tenente pudesse vir a ser punido da mesma forma que Arthur. – Olha só Damien, não sei o que imaginou, mas você precisa seriamente parar de tirar conclusões precipitadas.

– Não foram conclusões precipitadas, eu tive motivos para imaginar isso.

– Ah. – é claro que ele teve, também tinha imaginado que Kazimir participava de orgias sadomasoquistas e tinha bons motivos para tal. – Muito bem, gostaria de ouvi-los.

Damien levantou os olhos e os desviou de repente, na verdade ele só tinha imaginado aquilo porque pensou que Krieg tivesse se irritado com aquilo e logo Henry também e quando Henry fica bravo ele bate nas pessoas. Muito bem, na verdade ele não fazia isso, mas Damien...ele não tinha motivos mesmo. Se tivesse parado para pensar somente por um minuto teria se lembrado de que Kazimir era muito maior que Henry em qualquer proporção e que era mesmo impossível que o capitão estivesse fazendo algo com ele, mas isso não mudava o fato de que ele tinha tido conversas sérias com Wardraig por sua causa.

– Como vou saber que não está mentindo? – questionou, não tinha argumentos e não queria admitir que tirava conclusões precipitadas tão facilmente. – Você pode muito bem estar omitindo seu sofrimento ou... – deu de ombros.

– É sério? – ele riu, sem acreditar, mas Damien não deu o braço a torcer. – Bem, se estiver duvidando da minha palavra você pode me revistar.

– Revista-lo? – a ideia pareceu interessante, sorriu, mas logo se lembrou do que estava refletindo anteriormente, sobre estar causando problemas demais para ele. – Não posso fazer isso, quer dizer, você é um primeiro-tenente e...

– Quando eu disse que gosto de você não falei isso como Primeiro-Tenente Krieg, mas como uma pessoa comum. – respondeu, sem entender onde ele queria chegar. – Se você estiver se sentindo forçado a alguma coisa só porque sou seu superior então não vou fazer mais nada com você, me desculpe.

– Não, claro que não, meu deus, não é isso. – respondeu imediatamente ao ouvir aquilo. – É que eu sinto que só estou trazendo problemas para você como recruta e...acho que eu sou um problema para você como...homem...quer dizer, você gosta mesmo de mim...?

– Damien, eu gosto de você, não me importo que seja homem e se alguém me perguntar tenha certeza que eu vou dizer a verdade. Não está me trazendo problemas, de verdade, tirando o episódio da piscina eu não fiquei preocupado com o restante.

– Mas o capitão...

– Ele está se divertindo. – adicionou. – Não sabe o que eu passei hoje tendo de escutá-lo o tempo todo, ele chegou a dizer algo do tipo “Agora que você admitiu ser gay, podemos organizar uma orgia, eu, você, Arthur e o Damien. Vai ser divertido.”

Ok, por aquela ele não esperava, de verdade. Teve que rir, sempre soube que Henry era um pouco pervertido mas aquilo definitivamente ultrapassava tudo o que ele já tinha imaginado e com certeza era ainda mais engraçado imaginar qual a reação de Kazimir no momento em que o capitão disse aquilo com total naturalidade.

– O que você respondeu? – perguntou tentando conter a risada.

– Eu disse não, obviamente, não acredito que me perguntou isso. – teve que sorrir também ao se lembrar da cena, ao lembrar da expressão de pavor que fez ao ouvir aquilo. Sério, Henry costumava dizer coisas assustadoras, mas daquela vez conseguiu mesmo deixa-lo com um pouco de medo. – Por que? Queria que eu tivesse aceitado?

– O que? Não, claro que não, isso seria muito estranho. Eu nunca participei desse tipo de coisa.

– Que bom. – o primeiro-tenente deu de ombros. – Não gostaria de estar andando com você na rua e de repente alguém aponta-lo e dizer “Aquele não é o cara que estava na orgia?”. Eu ficaria muito puto.

– Andando comigo na rua? – seus olhos brilharam subitamente.

– Ah, bom, não quer sair comigo?

– Sim, só não imaginei que fosse me chamar para sair com você. – respondeu corado. – É que você disse que era heterossexual e bem, não achei que fosse me levar tão a sério.

– Eu estou levando você a sério. – arqueou uma sobrancelha e sorriu. – Até guardei seu desenho, vou colocá-lo em uma moldura e pendurar na parede da sala.

– Piedade por favor, eu estava entediado. – retrucou.

– Ficou adorável. – ele riu enfiando a mão no bolso e mostrando o papel para ele, provando que realmente o tinha guardado. – Quando Henry me chamou achei que tivesse desenhado um monte de putaria.

– Eu não sou tão pervertido assim. – sorriu com o canto dos lábios, porque sabia que era mentira. – Eu nunca nem te vi pelado, como vou desenhá-lo fazendo coisas pervertidas?

– Você é criativo, pode usar sua imaginação.

– Eu uso. – riu malevolamente. – Quer saber como usei minha imaginação ontem antes de dormir?

– Você não tem dois colegas de quarto? – semicerrou os olhos.

– Heiner tem sono pesado e o Arthur não estava lá quando cheguei. – não era a primeira vez que fazia aquilo e era mesmo muito arriscado, mas que tipo de cara fica confinado dentro de um quartel sem fazer absolutamente nada? – E eu também não sou escandaloso.

– Bom, que seja. – o primeiro-tenente deu de ombros, ainda um pouco enciumado por Damien fazer esse tipo de coisa enquanto Heiner dormia, quer dizer, sabe-se lá se o cara estava dormindo mesmo. – Está ficando tarde, tenho que buscar meu cachorro no veterinário.

– Não vou ganhar nem um beijinho hoje? – resmungou quando o loro ameaçou ir embora só com aquela despedida.

– Você é muito mimado. – o primeiro-tenente suspirou e o puxou para mais perto pela cintura.

Damien podia se contentar com o beijo que Kazimir lhe deu, mas não iria. Assim que o primeiro-tenente lhe envolveu em um abraço e ocupou sua atenção e boca em seus lábios o recruta habilmente escorreu sua mão até uma parte mais divertida do corpo do primeiro-tenente, justamente aquela com a qual tanto tinha usado sua criatividade na noite anterior. Krieg afastou os lábios da boca de Damien por um minuto para dizer alguma coisa, mas o recruta o mordeu antes que ele o repreendesse por tocá-lo indecentemente daquele jeito.

– É sério, eu preciso mesmo ir. – ele disse segurando o pulso de Damien quanto este vitoriosamente já tinha conseguido desabotoar o cinto e a calça. – Quer mesmo tanto assim que eu faça alguma coisa com você?

– Quero. – deu de ombros. – Mas se você precisa mesmo ir então tudo bem.

Kazimir o fitou por alguns segundos sem responder e soltou um longo suspiro, porque tinha mesmo que buscar sua cadela no veterinário, não estava inventando aquilo só para não ter que fazer nada com Damien.

– Bem, vejo você amanhã. – Damien sorriu, mas o primeiro-tenente percebeu que ele estava um pouco frustrado por não ter tido sua libido acalmada.

De novo ficou ali plantado olhando para o recruta se distanciando. Damien não estava bravo, o garoto tinha entendido que Krieg não estava mentindo, mas de alguma forma sentia que ele estava adiando o ato, procrastinando inutilmente. A consequência de qualquer envolvimento romântico é o sexo e era a segunda vez que o primeiro-tenente o rejeitava. Bem, em um momento ou outro aquilo teria de acontecer.