Damage
46 Bônus: Berserker
Notas iniciais
O despertador nunca era cuidadoso, sempre tocava alto e desesperadamente como se uma catástrofe estivesse para acontecer, mas a única que o primeiro-tenente conseguia ver era o fato dele ter que levantar cedo em uma manhã fria de segunda-feira. Estavam ainda no segundo mês do ano e embora o gelo estivesse derretendo, as brisas que vinham do sul ainda tinham notas nada suaves de neve e lembranças do inverno. Desligou o bipe e continuou de olhos fechados, quando Isabel começou a ganir do lado de fora do quarto, dizendo que estava com fome e precisava de atenção.
Resolveu que finalmente teria de abandonar a cama e se levantou deixando um espaço enorme atrás das costas de Damien para que o frio entrasse e o acordasse de repente. O garoto puxou os cobertores para tampar o desfalque originado do abandono de Krieg, mas nem assim conseguiu suprir o calor e segurança que seu amado lhe fornecera durante toda a noite. As férias de fim de ano tinham oficialmente acabado e logo restava para os reles mortais trabalharem, exceto Damien que tinha decidido abandonar o exército depois da visita do seu pai. O primeiro-tenente olhou de leve para o garoto enquanto ele lutava para conseguir dormir de novo, Kazimir nunca o tinha visto tão arrasado quanto naquele dia, ele fingiu que estava tudo absolutamente bem, mas o primeiro-tenente se lembrava de tê-lo ouvido chorando enquanto tomava banho.
Eles não o ofenderam ou algo do tipo, o que o havia verdadeiramente ferido tinham sido os sorrisos e lágrimas de orgulho dos seus pais, porque Damien sabia que nunca seria capaz de proporcionar aquilo para eles de verdade. Era apenas uma mentira e Damien não se sentiu mal por mentir, na maioria das vezes não se sentia, ele foi consumido pelo fato de que estava fingindo ser alguém que não era e nunca tinha deixado seus pais tão felizes. Desde a adolescência ele só era motivo de discórdia e vergonha e quando finalmente conseguiu fazê-los se orgulharem era por alguém que ele não era e uma personalidade que jamais teria. Não queria conversar sobre aquilo porque não queria remoer tudo de ruim que lhe passava pela cabeça, e quis amar Kazimir mais do que já amava quando ele colocou dois copos na mesa e os encheu de bebida alcoólica, disse que ele não precisava falar se não quisesse, e os dois beberam a noite toda até perderem a consciência e acordarem com uma forte ressaca no dia seguinte, abraçados no tapete da sala.
Contudo, é claro que ele não tinha desistido do exército para ficar em casa dormindo o dia todo e muito menos para ser “dona de casa” como Kazimir tinha sugerido tantas vezes, aparentemente nada deixaria o primeiro-tenente mais satisfeito do que ter Damien em casa o dia todo, e obviamente isso era o que o garoto menos queria para a sua vida. Na verdade no começo do ano tinha feito sua matrícula em uma universidade que ficava na cidade vizinha e até então estava esperando suas aulas começarem, o que seria em breve, embora não tanto quando Damien desejava que fosse. De qualquer forma, ainda estava muito cedo, ainda podia dormir mais uma hora ou duas sem que isso fosse atrapalhar suas atividades rotineiras, mas naquele dia tinha decidido que iria dar um fim à algo que o estava incomodando todas as manhãs. Estava se levantando com o plano na mente quando ouviu a porta do banheiro se abrindo de novo, deixando escapar uma nuvem de vapor quente.
Kazimir passeava com Isabel todas as manhãs antes do trabalho, quando a neve permitia isso, e depois dele ainda ficava duas horas em uma academia à algumas quadras da sua casa. Duas atividades muito saudáveis que a primeira vista Damien aprovou fortemente, mas depois de perceber que duas das vizinhas sempre saíam de casa para fazer caminhada no mesmo horário que ele passeava com Isabel começou a reprovar. E reprovou mais ainda quando descobriu que uma delas só trabalhava após o almoço em um escritório de contabilidade, e obviamente deveria haver um motivo para ela acordar tão cedo e no frio, e Damien desconfiava muito que fosse para manter a boa forma. Ao decorrer das férias conseguiu fazer com que o primeiro-tenente abandonasse a academia por alguns dias, e ele não pareceu se importar muito, disse que só costumava frequentar porque não tinha nada para fazer e não queria ficar em casa sozinho. Mas recusou parar de passear com Isabel pelas manhãs, segundo ele seria como uma punição para a pobre cadela que ficava o restante do dia sozinha em casa. E depois de muito tempo tendo paciência e ouvindo os “Oh, bom dia Krieg!” animados da secretária loura resolveu que ia dar um fim nisso. Não da forma que Hans tinha sugerido, porque quando deixou escapar seu flagelo para Samuel o cozinheiro acabou escutando e disse “Chama ela pra um double penetration com você e o Krieg”, iria seguir o conselho de Samuel, que era muito menos escandaloso e mais normal. Na verdade Damien tinha induzido Samuel à lhe dar aquela sugestão, para que não sentisse o peso sozinho caso algo desse errado.
– Vai levantar? – Kazimir indagou com uma curiosidade visível.
– Não, só vou com você até a porta. – respondeu enquanto calçava as pantufas azuis e colocava o sobretudo por cima do pijama.
– Até a porta? – ele arqueou uma sobrancelha sem entender enquanto colocava a coleira em Isabel que não parava de pular e abanar o rabo com ganidos ansiosos.
– É.
O primeiro-tenente olhou de soslaio para o amante, mas não pediu por uma explicação mais detalhada, ele tinha acabado de acordar e estava com expressão de sono, além disso, Damien fazia muitas coisas que Krieg não entendia, como ficar bravo quando uma mulher ou outra lhe pedia para pegar algo que estava em uma prateleira mais alta no supermercado. Bom, na verdade isso era em parte sua culpa, porque quando Damien perguntou-lhe se ele ainda se sentia atraído pelo sexo oposto o primeiro-tenente deixou escapulir a resposta “Alguns seios são impossíveis de ser ignorados, Damien” e ele ficou muito bravo. Quando pediu algum conselho para Henry ele riu escandalosamente e disse que Krieg era extremamente idiota e que se a intenção dele era irritar seu amante então também deveria ter adicionado que estava com saudades de beijar vaginas.
Segurou Isabel, inquieta, pela coleira e se dirigiu com certo receio até a porta, abriu-a e então chegou ao jardim de alguns metros que se estendia na frente da casa, também tinha uma macieira antiga plantada ali que para o primeiro-tenente só dava trabalho desde que havia comprado a casa. No outono tinha de recolher as folhas todos os dias ou pagar algum moleque para fazer isso, e no verão eram tantas maçãs que a maior parte acabava caindo no chão e apodrecendo, obrigando Kazimir a limpar aquilo ou recorrer aos moleques do outono.
– Sorria e finja que está conversando comigo. – ele disse do nada.
– O que?
– Só faça isso. – Damien franziu de leve o cenho.
– Eu acho que nós deveríamos conversar sobre isso. – Kazimir sorriu como tinha sido lhe ordenado, embora só tenha entendido o verdadeiro motivo de tudo aquilo quando uma de suas vizinhas se aproximou com os cabelos amarrados em um rabo de cavalo balançando conforme caminhava. – Eu não acredito que está mesmo tão bravo por causa do que eu disse há duas semanas atrás.
– Você está indo bem, continue assim. – Damien respondeu sem prestar atenção no que ele dizia, mas fitando a mulher com o canto dos olhos. Até que ela mordeu a isca, gritou um bom dia para o louro. – Não responda, continue conversando.
– Eu gostaria de saber o que estamos fazendo. – ameaçou virar o rosto, mas acabou não fazendo. – Por que eu não posso retribuir uma gentileza de uma vizinha?
– Não é uma gentileza, amor, é ela dando em cima de você, só que você é tão ingênuo que não percebe isso. – ele disse sorrindo com uma expressão relaxada, mantendo sua verdadeira intenção. – Agora, quando ela estiver na frente da casa você me beija.
– O que? Damien, ela não está... – começou a dizer quando ele o puxou e o beijou de leve na ponta dos lábios, colocou a mão em seus ombros e murmurou um brando “Tenha um bom dia” antes de abrir a porta e entrar para dentro de novo, fechando a porta sem devaneios ou conversa.
O louro ficou parado por ali durante um segundo ou mais, refletindo consigo mesmo se estava sendo um mal namorado ao dar aberturas para que Damien se sentisse tão inseguro. Abaixou a cabeça de leve até encontrar o rosto de Isabel que levantou as orelhas e o fitou sem entender o que estava acontecendo, apenas balançou a cauda de leve como se perguntasse quando iriam passear. Soltou um longo suspiro e seguiu com a cadela que foi saltitante ao lado do dono.
Damien por outro lado voltou a dormir, com um certo gosto de vitória nos lábios, e só acordou de novo quando sentiu Isabel lambendo seu rosto e lhe arrancando os sonhos que tinha conseguido obrigar sua mente a produzir com tanto esforço. Empurrou o rosto dela com a mão e tampou o rosto com o cobertor, mas ela teve a audácia de ir até seus pés, morder uma das bordas e puxar.
– Porra, Isabel. – murmurou enquanto enfiava a cabeça no travesseiro, e ficou curioso para saber quantas horas eram.
Olhou para o relógio, eram 11h:23min, a cadela deveria estar com fome. Levantou-se sonolento, arrastando os pés no piso de madeira da casa conforme se dirigia à área de serviço, devido à neve Isabel estava morando ali. Pegou o saco de ração dentro de um dos armários e despejou um pouco para ela, Krieg sempre dizia para dar só uma ou duas xícaras, mas ela sempre ficava com cara de criancinha africana que passa fome e Damien de vez em quando dava para ela o quanto ela queria. Talvez por isso ela recorresse à ele e não ao verdadeiro dono quando estava com fome.
Deixou a labradora comendo e dirigiu até a cozinha para alimentar a si mesmo, não estava com muita vontade de cozinhar, mas não ia comer qualquer coisa. Teria feito cachorro-quente se tivesse salsicha, mas da última vez que foi fazer compras com Kazimir acabou não comprando porque o primeiro-tenente disse que odiava e isso com certeza rendeu muitas piadas idiotas geradas pela infantilidade de Damien que ousou dizer coisas do tipo “Mas você é gay, como assim odeia salsicha?”. E na verdade ele não deixou de comprar por isso, mas porque Kazimir insistiu em dar um discurso sobre como a carne das salsichas não tinha procedência e coisas do tipo, e o menor acabou cedendo e dizendo “Desculpa russo, vê se tem uma carne de puma aí e vamos levar então, ou talvez você prefira de urso, mas eu ouvi dizer que vocês usam ursos só como montaria na Rússia”. Porque depois do Hitler as salsichas eram praticamente o símbolo do país e negá-las era como dizer-se não alemão, coisa que Kazimir não era inteiramente.
Acabou providenciando uma macarronada, salada e suco de laranja. Foi um pouco frustrante almoçar sozinho, porque depois de tanto tempo tendo Krieg como companhia em todas as refeições ter de comer sem ele lhe deu um certo buraco no coração. Que logo foi preenchido quando ele migrou para a sala, não que estivesse passando algo muito divertido na televisão. Kazimir assinava uns cinquenta canais de futebol e tinha o costume de conversar com os jogadores como se eles estivessem todos presentes na sala. Damien por outro lado não via muita diversão no esporte, mas gostava de ver Krieg entrando em desespero quando seu time começava a perder e por isso fazia companhia para ele algumas vezes.
Ficou alguns minutos indo de um canal para o outro e quando concluiu que não encontraria nada acabou ligando seu notebook e se concentrando em outras coisas aleatórias que a internet proporciona. De repente recebeu uma mensagem e quando foi abri-la no celular notou que eram 14h:32min e imediatamente teve uma epifania que atingiu suas memórias da mesma forma que a flecha do cupido atingiu Dafne, no entanto, aquela era a flecha do desespero, porque naquele momento se lembrou de que tinha dito a Krieg na noite anterior que ele podia dizer à empregada para não vir enquanto ele estivesse à toa. Se lembrava perfeitamente de Kazimir dizendo “Tem certeza?” e ele mesmo respondendo “É claro que sim, até parece que eu não consigo fazer isso, pfff”.
Jogou seu notebook em um canto do sofá e foi imediatamente para a cozinha, começou a lavar a louça com a agilidade que Hans tinha lhe dado na tarefa e terminou logo, não havia mais do que a louça do café da manhã e a do seu rápido e preguiçoso almoço. Damien não era ágil em tarefas domésticas, porque não costumava fazê-las, mas se empenhou em passar o aspirador de pó por toda a casa, organizando alguma coisa que estivesse no caminho. Também usou uma flanela úmida para limpar aqui e ali, mas mesmo tendo feito tudo isso rápido quando terminou faltavam somente uma ou duas horas para Kazimir chegar do quartel. Resolveu fazer uma torta com esse tempo que lhe restava, separou maçãs, framboesas e morangos e as usou para o recheio. Estava colocando a obra de arte no forno quando Isabel começou a arranhar a porta da cozinha anunciando que queria sair para brincar.
– Eu vou deixar porque você ficou presa o inverno todo, mas não faça bagunça. – disse enquanto ainda fechava o forno com uma das mãos.
A cadela passou correndo para o lado de fora e Damien até ficou atordoado com aquele sentimento que as pessoas tem quando fazem uma boa ação. Voltou os olhos para a louça que tinha sujado de novo e dirigiu-se até a pia, concordando com a sua mãe que sempre costumava reclamar em voz alta a frase lendária “Quanto mais louça eu lavo mais louça tem para lavar”. Bom, mas aquilo não era nada comparado ao que havia para lavar no exército então Damien acabou lavando tudo sorridente. Pelo menos alguém tirava proveito disso, porque sempre que via Hans dizendo à alguém que era cozinheiro do exército rapidamente ouvia “Coitado, deve lavar tanta coisa!” e mal sabem essas pobres almas que a única coisa que aquele ruivo faz dentro da cozinha é mandar nos seus ajudantes e agir como se fosse um monarca.
Levantou os olhos até a janela que ficava logo em cima da pia e viu de longe Isabel, cavando a grama e jogando terra logo no mármore ao lado da piscina vazia. Largou a colher que ensaboava e correu até ela para interromper sua diversão, a cadela ficou bastante decepcionada quando Damien a puxou pela coleira para dentro de casa de novo. Soltou-a para fechar a porta e quando procurou por ela de novo o garoto quase podia escutar “Olha minha obra de arte, mamãe!” ao ver a cadela correndo saltitante pela casa e deixando não pegadas no piso de madeira, mas crostas de terra úmida por causa da neve que estava derretendo sobre ela.
– Isabel! – gritou com a esperança de que ela se aquietasse, mas só conseguiu com que ela corresse animada pela casa em uma brincadeira que encontrou seu fim quando Damien a acertou com uma almofada. – Porra, Isabel, por que?!
A cadela soltou um ganido e ficou deitada no chão como se tivesse sido atingida por um tiro, mas balançou a cauda alegremente quando Damien se aproximou, por mais que ele estivesse puto da vida. Teria agora de limpar tudo de novo, além de é claro as próprias patas da cadela. Pensou em arrastá-la até o banheiro e lhe dar um belo banho, mas estava muito frio para isso e como não poderia sair para fora ela ficaria se esfregando nos móveis até se livrar da água. Damien duvidava muito que Krieg tivesse um secador de cabelo para resolver esse problema. Além disso, já tinha limpado o banheiro e não queria fazer isso de novo.
Encheu uma tigela com água e colocou as patas da madame dentro, tirando a terra com os dedos conforme ela ia se amolecendo. Isabel pareceu bastante à vontade e ficou parada durante o processo, embora tentasse lamber as patas a todo momento e acabou que Damien ficou uns bons minutos empenhado nisso, pois depois de tudo ainda teve de enxugar suas patas, uma por uma e entre os dedinhos. Quando terminou a labradora saiu saltitante pela sala como uma criança que ganhou sapatos novos, convidando Damien para rolar um pouco com ela no chão em alguma brincadeira sem pé nem cabeça e o garoto teria aceitado se de repente o aroma da torta de frutas vermelhas não tivesse chegado ao seu nariz.
Levantou-se e correu até o forno, mas a àquela altura sua obra de arte já tinha sido destruída pela exposição excessiva à uma alta temperatura. Soltou um palavrão e em um ato de reflexo pegou uma das luvas azuis grossas e agarrou o tabuleiro dentro do forno, mas com o peso da torta na ponta dos dedos a gravidade fez o restante e a puxou para baixo. Damien soltou uma série de palavrões dessa vez, e teve de cercar Isabel para que ela não comesse o que tinha caído no chão.
–x-
Depois de uma breve análise foi fácil perceber que havia alguns garotos promissores naquele ano, embora outros fossem tão ruins que Kazimir não os mandaria nem para a faxina, o que costumava fazer com os recrutas que não serviam para nada. Os mais engraçadinhos mandou para a cozinha, Hans cuidaria deles e com sorte em dois ou três meses estariam com a personalidade macia de um cavalo velho após ser açoitado por toda uma vida. O primeiro-tenente não se dava bem com o ruivo, mas tinha de admitir que ele fazia um bom trabalho com seus ajudantes, seja lá o que fizesse, no fim do ano todos eram submissos e traumatizados.
– Mais depressa, recruta! – gritou com um garoto de cabelos castanhos que corria ferozmente no circuito, embora isso não fosse o suficiente. No momento um pouco depois que Kazimir gritou com ele, o mesmo escorregou em uma poça e caiu sentado nela. – O que está fazendo sentado, animal?! Por acaso te mandei descansar?!
– Não, senhor, me desculpe, senhor! – ele respondeu, com os olhos quase que cheios de lágrimas.
– Essa água está aí para que você passe por ela, não para refrescar tua bunda! Levanta daí, depressa! – gritou, mesmo que estivesse próximo o bastante para conversar em tom normal. – E você, seu arrombado, por que desviou da poça? É pra passar na poça!
– Mas senhor...
– O que foi? – gritou. – O coleguinha tá na poça? Passa por cima dele, recruta!
Depois de hesitar fortemente ele passou correndo ao lado do garoto na poça, jogando-lhe lama no rosto e no corpo, a àquela altura sua farda já estava mais suja que pano de chão.
– Porra, recruta, você passou por cima do seu aliado! – entrou na frente dele e apontou para o garoto sentado.
– Mas você me mandou...
– E se eu te mandar sentar no meu pau, você vai? – ele não respondeu, apenas o fitou com os olhos arregalados. – Responda!
– Não senhor! – disse de volta.
– Então volta lá e ajuda ele, que com sorte ele senta no seu! – esclareceu e o garoto voltou imediatamente, confuso com as ordens que o primeiro-tenente dava. – Está achando difícil, recruta? Devia ter pensado nisso antes, quem não tem cu largo não faz trato com pau grosso, agora corre ao redor daquela árvore ali e quando eu esquecer de você é porque faltam vinte voltas!
Ele ajudou o garoto na lama a se levantar e correu até o antigo carvalho, xodó do Coronel. Provavelmente quando aquela ideia de plantar as árvores surgiu Souteran jamais tinha imaginado que o carvalho serviria como base para inúmeras das punições que Kazimir aplicava nos seus recrutas, com muito mais ênfase na primeira semana do que no restante. Precisava selecionar os melhores treinando-os arduamente e punindo-os sem motivo, porque desse modo logo os mais frágeis desistiriam e o primeiro-tenente poderia começar o treinamento de verdade.
Deu uma breve olhada no restante dos recrutas e depois de perceber que Henry estava tomando conta da maioria voltou até o garoto na lama, colocou a mão em seu peito e o empurrou de novo no chão. Nem precisou usar muita força, a substância úmida na qual ele estava em pé facilitou bastante a queda. Kazimir se abaixou na frente do garoto e fitou seus olhos profundamente, como se procurasse a fraqueza dele em meio aos códigos escritos na alma. A expressão assassina fez o recruta encolher a cabeça entre os ombros.
– Se você não consegue sair da lama sozinho então não merece sair dela. – sussurrou. – Fique aí refletindo sobre isso até a meia-noite, tem minha permissão para tomar banho depois disso e ir dormir, entendeu recruta?
– Sim senhor. – respondeu abaixando o rosto, como se previsse que sofreria com o frio até poder ir tomar seu banho.
– Que bom. – esboçou um leve sorriso de escárnio e se levantou para ir atrás do restante dos recrutas.
Ordenou que terminassem logo a volta no circuito e interrompessem o treinamento, pois faltavam apenas alguns minutos para o dia chegar ao fim e Krieg finalmente poder ir para casa. Gostava do seu trabalho e não se arrependia de ter se alistado no exército, mas lidar com os garotos mimados que se apresentavam no primeiro dia sempre testava sua paciência e a levava ao limite. Era idiota por parte das famílias daqueles meninos pensar que era só mandar os arruaceiros para o exército e eles voltariam para casa como ótimos homens, acontece que as pessoas se esquecem que o exército é uma organização com bases iguais à maioria das outras e não tem sentido manter um recruta que obviamente não daria lucro algum.
Mandou-os fazer mais algumas flexões e então os liberou para ir tomar banho e finalmente comer, a maioria devia estar faminta. O primeiro-tenente em contrapartida se dirigiu para o vestiário a fim de abandonar sua farda ali e vestir outras roupas, os corredores a àquela hora estavam sempre bastante movimentados e Kazimir topou com um ou outro oficial à quem foi obrigado a prestar continência. Aquilo sempre o fazia se lembrar de que a maioria das únicas vezes em que Henry foi repreendido foi exatamente por se recusar a prestar continência aos seus superiores. Segundo o capitão isso feria seu orgulho, porque de certa forma era um ato explicito de submissão e ele considerava humilhante. Bom, Henry tinha muitas manias que Krieg não entendia ou achava idiota, essa com certeza sempre seria uma delas.
O vestiário estava quase vazio, a não ser pela ilustre presença de Hans e Sven que pareciam estar acabando de sair do banho, nenhum dos dois estava nu, mas estavam com toalhas ao redor da cintura e com a pele molhada. Sven estava rindo descontroladamente, embora Hans não aparentasse estar muito satisfeito, apesar de que ele nunca parecia alegre ou satisfeito com algo, pelo menos não quando Krieg o encontrava.
– Eu não acredito que ele teve um sonho desses! – Sven disse enquanto mentalmente tentava montar uma imagem com os dados que o ruivo tinha lhe passado. – Você contou para o Krieg? Não, sério, eu acho que ele deveria saber.
– É claro que não, Sven, você é meio retardado né, como é que eu vou contar um negócio deles pra ele? – o cozinheiro-chefe apontou para o primeiro-tenente da mesma forma que se aponta para um cachorro na rua.
– Se for sobre o sonho que Lieppert teve eu já sei. – Kazimir arqueou uma sobrancelha, sem querer mostrar alguma expressão para ele. – E eu tenho um pouco de pena de você porque nem em sonho você ficou por cima de mim
Sorriu brevemente com ironia e deu de ombros, seguindo até seu armário, no entanto, se tivesse olhado para Hans por mais alguns segundos teria visto seus olhos se desfazendo em magma, tamanha raiva que o invadiu.
– Não me sinto tão mal, eu provavelmente nem senti você dentro de mim. – retrucou e concentrou-se em começar a se vestir.
Krieg riu de leve e começou a despir-se, lembrando do dia em que encontrou Damien aos prantos, rindo incontrolavelmente enquanto lia uma mensagem no celular e sem conseguir se expressar por meio de palavras o garoto só jogou o aparelho para o primeiro-tenente e o mandou ler a mensagem de Lieppert, um conjunto de palavras chulas que formava um pequeno texto erótico sobre um sonho que Samuel tinha tido enquanto dormia no avião.
– Quem sabe. – disse empurrando a cueca para baixo e se virando de frente para o ruivo, com a toalha jogada em um dos ombros e o sabonete em uma das mãos.
Hans rangeu os dentes e não desviou os olhos do rosto do primeiro-tenente, embora Sven tenha começado a soltar algumas risadinhas abafadas ao ver o quão puto da vida o cozinheiro tinha ficado ao perceber que estava redondamente enganado.
– Eu espero que com trinta anos você não consiga mais uma ereção e seja obrigado a tomar remédios. – praguejou. – E eu espero que esses remédios te causem algum câncer e você morra depois de pelo menos dois anos internado em um hospital, definhando.
– Sua imaginação é tão fértil quanto a do seu namorado. – bufou e se dirigiu até a porta que levava aos chuveiros.
Teria entendido mais alguns palavrões vindos do ruivo se não tivesse ligado a água e entrado debaixo dela, havia outros dois chuveiros ligados que o louro não tinha percebido e não sabia por quem estavam ocupados. Os chuveiros do vestiário dos oficiais eram separados por placas de vidro temperado escuro e jateado, de forma que não se podia ver através dos cubículos, outro aspecto diferente do dos recrutas era que a água das duchas era quente e por isso o local costumava estar quase sempre coberto por vapor.
Krieg ficou ali alguns minutos, molhou os cabelos e deixou a água escorrer pelo corpo para tirar os excessos de poeira acumulados durante o dia acompanhando recrutas no pátio, ensaboou a pele e depois de se enxaguar abandonou o chuveiro. Estava sozinho no vestiário, então se permitiu não vestir suas roupas apressado e tropeçando como fazia quando não estava sozinho, quando não é para provocar alguém se torna desagradável ficar nu na frente dos seus colegas de trabalho, a não ser é claro que você esteja prestes a transar com algum deles, e isso nunca era o caso do primeiro-tenente. Resolveu voltar com a farda para casa naquele dia, e o colocou no corpo com um meio sorriso que com certeza não prestava, porque se lembrou imediatamente de que no final do ano anterior Damien o fez vesti-la somente porque o garoto o achava sexy, e durante os vários contatos físicos que desenvolveram ao longo das semanas juntos Krieg obviamente já havia percebido o certo gosto de Damien pelo lado militar arrogante e brutal que o primeiro-tenente possuía. Bom, depois disso, uma vez que secou seus cabelos com a toalha já estava pronto para ir embora e fez isso sem delongas, refletindo durante o caminho se iria ou não para a academia naquele dia.
Ligar o carro e ir direto para lá já tinha se tornado tão parte da rotina que Krieg nem percebia mais que fazia isso, no entanto esse hábito mudou depois que teve Damien em casa, porque acabava sempre se lembrando dele e seu rosto vinha subitamente a sua mente. Por mais que o garoto de vez em quando implicasse com as suas manias ainda assim Kazimir sentia uma vontade imensa de burlar sua rotina e ir direto para casa. Bem, faltar uma vez ou outra não faria muita diferença, principalmente porque Krieg tinha começado a se exercitar mais para ter o que fazer do que manter a boa forma. Henry também costumava brincar que sua saúde era excelente porque ele não tinha amigos que o chamassem para beber nos finais de semana, reflexo do seu humor muitas vezes chamados de “podre” pelos outros oficiais, contudo, as pessoas começavam a perceber que isso tinha se suavizado bastante depois que o primeiro-tenente passou a ter mais atividades noturnas onde gastasse sua energia e não a tivesse para brigar no dia seguinte. Damien era, no final das contas, a melhor terapia que Kazimir podia ter.
Apertou o botão para que o portão se abrisse e entrou com o carro na garagem, mas teve algumas dificuldades para adentrar finalmente em casa, pois quando abriu a porta foi atacado por Isabel cuja alegria quase se assemelhava à fúria no momento em que pulou sobre o primeiro-tenente ganindo e balançando a cauda com tanta força que o ato quase a fazia se desequilibrar. Teve de se abaixar à frente dela depois de resistir por alguns segundos e lhe dar a tão merecida atenção, Isabel costumava ser bastante mimada, talvez por ser filha única, e sempre exigia no mínimo alguns minutos do tempo de Kazimir antes que ele entrasse em casa e desse início às suas atividades normais. Quando finalmente se cansou dos carinhos e palavras do primeiro-tenente ela deu de costas e seguiu até a sala, olhando para trás no intuito de ver se Krieg a seguia. Abaixou-se cuidadosamente ao lado de Damien e com o focinho levantou um dos seus braços para que deitasse por baixo dele, exatamente como estava antes do seu dono chegar em casa.
O louro semicerrou os olhos e cruzou os braços por alguns segundos, analisando as duas figuras deitadas de conchinha em cima do carpete da sala, dormindo confortavelmente, Isabel nem tanto, pois olhava para Krieg com o canto dos olhos e abanava a cauda, mas Damien parecia ter desmaiado ali no chão. Pelo cheiro de produtos de limpeza e também de torta queimada o garoto deveria ter tido um longo dia na companhia da cadela e o mais louvável a se fazer seria dar a ele o merecido descanso. Mas Kazimir não conseguiu simplesmente pegá-lo no colo e leva-lo até a cama, precisava desfrutar por no mínimo alguns minutos daquela cena e fazer parte dela. Abaixou-se atrás de Damien e se deitou envolvendo o garoto com seus braços, o que não foi muito difícil de se fazer, pois ele era pequeno o suficiente para que fosse envolvido em um abraço como se fosse uma lagarta em um casulo, ou talvez fosse só Krieg que era grande demais.
Damien sorriu de leve ao perceber o louro atrás de si, recolheu uma das mãos e a levou até a do primeiro-tenente, segurando-a por alguns segundos e depois arrastando-a até o botão da sua calça. Krieg riu de leve com o ato e a expressão de ambos fez Isabel se levantar e sair com aquela careta que as crianças fazem quando veem adultos se beijando.
– Nem o cachorro concorda com as suas atitudes. – Krieg murmurou no ouvido dele mordiscando seu lóbulo de leve.
– O cachorro é virgem, caso contrário, concordaria. – Damien respondeu virando o rosto até o de Kazimir na expectativa de encontrar seus lábios, mas antes que tomasse a iniciativa o primeiro-tenente o beijou.
Havia vários tipos de beijos que Damien podia ganhar dependendo da situação, mas aquele que o impedia de se impor era o melhor deles, porque nunca conseguia resistir muito à Krieg antes que seu peito começasse a tremer como se todo um batalhão marchasse em cima dele e o fizesse perder as forças. Damien costumava se cansar depressa dos seus amantes, por isso a falta de relacionamentos duradouros em seu histórico, mas de alguma forma Kazimir conseguia evitar esse efeito e sempre manter acesa aquela chama incontrolável dentro do garoto, e fazê-la crepitar como nunca, através de gestos, palavras, mordidas.
Damien ameaçou levar uma das mãos até o rosto de Krieg quanto este apertou os dedos no local um pouco abaixo de onde o garoto tinha deixado sua mão, mas o primeiro-tenente resolveu afastar-se bruscamente e se sentou ao lado de Damien. Não tardou a levar a mão até o zíper da própria calça para abri-lo, depois de fazer o mesmo com o cinto de couro negro. O garoto lhe mostrou um meio sorriso e tirou as costas do chão também, inclinando-se entre as pernas do primeiro-tenente para alcançar sua ereção por baixo do pano, mas antes que seus lábios pudessem tocá-lo de fato o louro levou uma das mãos até a gola da sua camiseta e o puxou até que estivesse na altura do seu próprio rosto.
– Me desculpe, eu já tinha me esquecido que você é tão experiente. – arqueou uma sobrancelha.
– É que eu nunca tive problemas para dar, ou comer. – deu ênfase na informação, somente para vê-lo franzindo o cenho ao ser contrariado.
Kazimir bufou e largou a gola da camiseta de Damien levando a mão até sua nuca e o empurrando bruscamente até sua cueca de novo. O garoto abaixou a peça com uma das mãos e envolveu a glande do primeiro-tenente com a língua, e só depois de molhá-la com um pouco de saliva é que colocou o que podia dentro da boca, masturbando a base com uma das mãos. O ato ligeiramente rude do amante tinha sido mais que um aviso de que a conversa entre os dois havia acabado, mas isso nunca significou necessariamente que Krieg não queria ouvir a voz do garoto, e vez ou outra ele soltava uma reclamação sobre o primeiro-tenente estar forçando sua cabeça com a mão. Por motivos ainda inexplorados, Kazimir gostava de ver as sobrancelhas de Damien se juntando quando seus dedos ameaçavam empurrá-lo, gostava de saber que esse era o máximo que ele podia fazer junto com alguns palavrões, porque querendo ou não o primeiro-tenente ganhava com folga em força física e isso além de lhe dar a capacidade de poder conter Damien facilmente no caso de uma rebelião também o fazia se sentir uma espécie de proprietário sobre o garoto. A ideia de pensar no amante como um objeto existente ali somente para sua satisfação era extremamente errada e Kazimir repudiava pensar sobre isso quase tanto quanto se excitava facilmente ao impedir Damien de se mover e manda-lo calar a boca quando este começava a soltar reclamações.
Ele se interrompeu de repente e olhou para o primeiro-tenente de soslaio, levando as orbes carameladas até a própria calça depois, suspirou de leve enquanto recolhia a saliva ao redor dos lábios e abriu o zíper da calça, até ser interrompido pela mão de Kazimir que segurou seu pulso o impedindo de avançar.
– Nada disso para você hoje. – ele disse movendo a mão até o peito de Damien e o empurrando carinhosamente de costas no chão, tão impaciente quanto contraditório.
Não aproximou-se dele imediatamente, engatinhou primeiro até sua cintura e arrancou as calças junto com a cueca de tom escuro do amante que apenas permaneceu imóvel esperando o próximo movimento do homem exigente que o possuía no momento. Franziu o cenho quando Krieg levou a mão até a sua camiseta e com um “tsc” contrariado ele a tirou normalmente, diferente da semana anterior quando tinha rasgado a camiseta preferida de Damien, que por causa do calor do momento nem ao menos o repreendeu, chorando pelo leite derramado só depois enquanto organizava o quarto e encontrou o tecido rasgado em um canto.
– E como espera que eu goze sem me tocar?
– Você vai, eu garanto. – o primeiro-tenente respondeu se levantando para abandonar Damien sozinho em cima do carpete e quando o garoto ameaçou ficar impaciente ele apareceu de novo com o lubrificante, algo essencial para aquele tipo de relação. No entanto, sem delongas ou rodeios ele meneou o rosto de leve para o garoto e despejou uma quantidade na palma da mão. – De quatro.
O garoto arqueou uma sobrancelha, Krieg não costumava lhe dar ordens, mas Damien tinha de admitir que adorava quando ele fazia aquilo com o rosto tomado por uma expressão alheia e o uniforme militar perfeitamente encaixado no corpo realçando sua masculinidade, essa que de tão natural em seus movimentos e voz grave faziam o louro parecer uma figura animalesca criada à partir da melhor combinação possível entre os ancestrais nórdicos por parte da mãe alemã e os selvagens tribais russos por parte do pai. Damien podia jurar tê-lo ouvido rosnando quando olhou de soslaio para o garoto e viu que ele ainda não o tinha obedecido. Bom, nesse momento ele se limitou a obedecer imediatamente, ficando na posição exigida, sem se tocar, embora tivesse sentido sua ereção queimar quando o líquido gelado na mão de Kazimir tocou sua pele.
O primeiro-tenente segurou sua cintura enquanto fazia aquilo, com força, como se o garoto estivesse prestes a fugir, e inseriu os dedos lambuzados em lubrificante com a mesma delicadeza, ignorando os gemidos indignados de Damien, que não se atreveu a pedir por mais calma e paciência. Depois de algumas interações com o amante ele não só percebeu que Kazimir conseguia ser tão carinhoso e dócil quanto um gatinho, mas também que ele conseguia ser um leão voraz que se tornava somente cada vez mais rude conforme era contrariado. Damien particularmente gostava dessas duas metades do louro, mas tinha de admitir que tudo parecia mais emocionante e o calor era mais forte e persistente quando Kazimir lhe deixava com marcas roxas nos pulsos e escoriações pelo corpo. Gostava do ronronar manhoso e abraços delicados, mas era a fera que o enlouquecia.
Soltou um suspiro quando Kazimir resolveu que era o suficiente, apesar de não ser, mas a ereção dele parecia implorar por tanta atenção quanto a sua própria quando foi envolvida pelo restante do lubrificante que repousava na palma da mão do primeiro-tenente. Ele usou uma das mãos para empurrar a cabeça do menor de encontro com o carpete e os dedos se entrelaçaram aos fios de cabelo arrancando gemidos de Damien que agarrou o carpete com as mãos incapazes de conter a força do louro. Ele não demorou para enrolar a outra mão ao redor da cintura do menor e trazer suas nádegas para tão perto da ereção que o simples ato de tentar encontrar uma posição melhor fazia Damien roçar com força no membro de Kazimir, que obviamente recusou qualquer tentativa do garoto para apoiar os joelhos de forma melhor no chão. O manteve imóvel usando o próprio corpo como barreira, pois era maior e mais pesado, e isso significava que quando Damien estava embaixo dele e em tal posição uma sombra se projetava sobre o garoto, mas não tampava as expressões que brotavam em seu rosto conforme Kazimir esfregava sua glande contra a entrada do menor e ameaçava entrar.
Krieg permaneceu com o braço envolto na cintura do garoto, mesmo que isso significasse que o membro dele ficaria espremido entre o próprio corpo e o tecido do uniforme de mangas compridas que ainda cobria seu corpo. Apertou-o com mais força, para que não se movesse enquanto o louro abria caminho para finalmente entrar no amante, e Damien soltou gemidos misericordiosos enquanto tentava mover seus quadris para frente e era impedido de realizar tal ato.
– D-Devagar! – reclamou quando seu interior começou a denunciar a pressa do primeiro-tenente em forma de ardência e incômodo.
– Fique calado. – ele rosnou e Damien conseguiu conter outro aviso choroso que se preparava para abandonar sua língua.
O primeiro-tenente no entanto entendeu em parte a necessidade do amante de se acostumar com o volume para ter algo além de dor, e lhe deu um tempo parado que renderam aos ouvidos do louro alguns suspiros e pedidos. As orbes azuladas correram pelas costas do garoto até chegar ao fim delas, ainda não havia entrado totalmente no corpo de Damien, mas não costumava fazer isso, então sem aviso prévio moveu-se para trás e os músculos lhe apertaram com uma ganância regada em pecado e não conseguiu se conter mais, nem mesmo percebeu quando sua cintura começou a se mover com uma aparente vida própria para incitar sua ereção a explorar o interior do amante. Damien entreabriu os lábios de novo e pediu para que começasse devagar, mas Krieg nem mesmo pareceu ouvi-lo, pois o depravava com a mesma força com que segurava sua cabeça contra o carpete e agarrava seus cabelos.
Damien levou uma das mãos até o braço do primeiro-tenente e sentiu a textura do tecido entre seus dedos quando o apertou ali, soltando sons tão eróticos quanto cruéis para um ouvinte que se movia repleto de luxúria e uma pitada de egoísmo ao privar Damien de masturbar a si mesmo. E se mantinha firme nessa decisão, mesmo que seu braço pudesse vir a proporcionar algo à ereção do garoto isso não seria muita coisa, pois devido ao fato de o estar segurando para mantê-lo imóvel enquanto o penetrava o tecido que podia ser considerado áspero para a pele sensível daquele ponto não se movimentava ao longo do membro dele. Damien cerrou os olhos, seus ouvidos foram imediatamente inundados pelos próprios gemidos e o som do tilintar que a fivela do cinto de Kazimir fazia enquanto balançava acompanhando os movimentos que se tornavam mais rápidos ou mais lentos a cada minuto, variando sem aviso prévio de uma forma que fazia a respiração do primeiro-tenente se tornar logo audível também.
Ele nem se deu ao trabalho de despir-se, observou Damien em certo ponto, com um meio sorriso e pernas trêmulas. Duvidou seriamente da garantia que o amante lhe deu quando a coisa toda começou, mas a cada minuto que se passava, via-se tomado não só pela aura submissa e inerte que Kazimir o obrigava a sentir, mas também pela luxúria que o louro derramava dentro dele cada vez que ia e vinha massageando todo o seu interior e empurrando bruscamente os músculos que tentavam impedir sua passagem. O sentimento era bom, não havia como negar, mas havia algo dentro do menor que o fazia querer incessantemente não chegar ao ápice sem se tocar, para não dar tão cedo um fim ao frenesi que corrompia Kazimir naquele momento e também para não lhe dar a satisfação de estar certo. Sentiu os joelhos tremerem de novo, aquela posição e a força que era exercida sobre seu corpo faziam Damien se sentir como um principiante de novo, a mercê do prazer alheio, mas acima de tudo fazia Damien sentir com cada vez mais convicção que era um brinquedo frágil demais nas mãos de uma criança empolgada de mãos firmes e fôlego inacabável.
– V-Você vai me q-quebrar desse j-jeito! – balbuciou enquanto movia a mão do cotovelo do amante até sua coxa, na intenção de conter um pouco seu ritmo, mas o máximo que conseguiu foi sentir os músculos rígidos embaixo do tecido com o qual já estava familiarizado.
A mão de Krieg que segurava sua cabeça dirigiu-se até o carpete poucos centímetros ao lado do lugar de origem, e Damien conseguiu respirar um pouco soltando um suspiro levemente mais alto e abrindo os olhos de leve para fitar o rosto de Kazimir acima dos seus ombros, ele fitava o garoto sem muita expressão, embora os olhos mostrassem certo interesse que se transformava em algo diferente quando em conjunto com as sobrancelhas franzidas. De qualquer forma, quando o garoto percebeu o leve ranger de dentes do primeiro-tenente soube que ele já estava próximo do próprio ápice e se encolheu quando ele o segurou com mais força e o obrigou a ficar imóvel enquanto buscava algo mais fundo em seu ser, empurrando-se para mais dentro no momento exato em que os joelhos de Damien ameaçaram finalmente ceder às proezas ferais do amante. O menor soltou um gemido mais alto, algum parente distante do que um dia podia se tornar um grito, quando Kazimir se confortou inteiramente dentro do seu corpo e continuou segurando-o mesmo depois que as pernas do garoto já haviam desistido de mantê-lo em tal posição.
É claro que Krieg teria ficado parado daquela forma por mais tempo apenas aproveitando o coquetel de sensações que seu ápice podia lhe proporcionar se Damien não tivesse dirigido uma das mãos trêmulas até sua própria e a apertado em um tom de súplica desanimado de quem estava prestes a desistir. Kazimir o soltou e ele deixou o corpo cair no chão, encolhendo-se conforme o primeiro-tenente abandonava sua entrada agora molhada pelo clímax do próprio, e foi nesse momento, e só nesse momento, que Krieg pensou que pudesse ter exagerado um pouco. Contudo, com um ar um pouco irônico dos eventos, ele deixou os olhos escorrerem de leve pela figura de Damien, os cantos do seu rosto estavam suados e algumas gotículas do mesmo teor escorriam por suas costas e peito enquanto os pelos do corpo se mostravam eriçados, talvez algo à ver com o líquido esbranquiçado que descansava em parte no braço do louro e outra no próprio carpete. Nesse momento toda a culpa e vontade de perguntar se o menor estava bem se esvaíram e ele soltou algumas risadinhas sarcásticas, um pouco sádicas e irônicas talvez, mas essas gargalhadas são comumente conhecidas pelo mundo todo e identificam logo de cara um mau-vencedor. E naquele momento tudo o que o ego animalesco e sedento de Kazimir precisava era o incremento da vitória.
– Eu não disse que conseguiria?
– Cala a boca, sai de perto de mim, achei que ia me machucar de verdade. – Damien respondeu corando e tampando o rosto cansado com as mãos, embora as bufadas de ar que seus pulmões exalavam fossem impossíveis de ocultar tão facilmente.
– Bem que você queria. – riu de leve novamente e aproximou os lábios da pele do menor para beijá-lo e proporcionar algum conforto, embora Damien tenha recusado estes inicialmente, até que com certa facilidade cedeu e puxou o rosto de Kazimir para mais perto do seu.
O primeiro-tenente afundou a cabeça na curva do pescoço dele depois de roçar seus lábios aos do garoto, as mãos dele agarraram suas costas enquanto a sua própria descia até a ereção dele para finalmente lhe dar algum apoio. Damien tinha um cheiro quase tão bom quanto o gosto e textura da pele que Kazimir adorava agarrar com os dentes, além disso, aquilo parecia completar sua personalidade constantemente mutável. Embora o louro gostasse de todas elas.
– Seja um pouco mais carinhoso dessa vez. – pediu, mas em um instante pensou melhor. – Só um pouco.
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