Dama de Sangue
14 Depois da festa...
Notas iniciais
Saíram da festa naquele mesmo instante, apesar de não ser o desejo exato de Livia. Ela ainda queria poder se aproximar do mistério daqueles olhos, daqueles mesmos olhos que tanto a perseguiam em seu subconsciente. Pensou em formas para rever aquele olhar. Poderia voltar à festa em algum outro dia e se James não estivesse por ali, ela, com toda certeza, poderia perguntar às pessoas do local onde encontra-lo. Poderia também esperar que os sete dias se completassem, na esperança de que fossem realmente os mesmos olhos. Essas duas eram as principais possibilidades que pôde pensar... E entre agir ou esperar por um milagre, obviamente, Livia, como todos os outros, decidiu esperar por um milagre. Era, sem dúvida, mais confortável e ainda muito mais seguro.
Nessa espera, começou a ansiar pelo dia em que sua anunciada morte lhe bateria à porta. Voltou a ela a mesma sensação estranha que teve na presença de James. Era novamente o desejo, o medo, o susto, a vontade, a necessidade de aproximação... Eram novamente vontades contraditórias que lhe subiam a mente e a torturavam.
Durante o dia, as dúvidas lhe dominavam... E nada mais lhe importava. Os gritos irritados de Heitor ao descobrir a fuga simplesmente passavam de um ouvido ao outro. O som do telefone a tocar era simplesmente desimportante.
Durante a noite, a continuação daquele tão tranquilo quanto macabro sonho lhe vinha. Nadava no rio de sangue, bebia "a água" dele, tudo com a mesma vontade de quem encontra um rio no meio do deserto. A sensação que tinha era reconfortante, revigorante... A sensação de acordar e se lembrar que tudo aquilo fora pensado de forma possitiva era terrível e lhe fazia voltar às dúvidas.
Nesse contínuo ciclo de dias e noites continuos, o tempo passou depressa e, quando se deu por si, já era o grande dia.
Livia se vestiu como se à um encontro. Em sua mente, estava certa de que veria James novamente, com todo o seu sorriso, todo o seu corpo, toda a sua dúvida. Por isso, escolhera seu vestido de festa mais bonito, um de festa preto que lhe caíra até o joelho. Passara no rosto muita maquiagem para disfarçar as olheiras de uma semana de confussões. Estava com os olhos bem marcados em lápis preto, com a boca muito vermelha de batom escarlete, com a face muito pálido de um uso exagerado de uma mistura de pó de arroz com corretivo.
Suas mãos pareciam querer dar-lhe uma aparência mórbita, enquanto seus olhos desejavam vê-la apenas linda. Nessa indecisão, tornou-se morbitamente linda e nada mais. Tinha aspecto de um fantasma, mas um fantasma de uma mulher que já fora belissíma. Seus dedos parecia mestar tentando se preparar para a transição entre a vida e a morte...
Depois de pronta, sentou-se na cama e esperou. Espero que a morte lhe chegasse de súbito. Esperou que James aparecesse para roubar-lhe a alma ou algo do gênero. Esperou que aqueles olhos surgissem na escuridão provisória em que seu quarto se encontrava. Esperou tanto que cansou-se de esperar e acabou deitando-se na cama, novamente...
Fechou os olhos e quase que prontamente dormira.
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