Daempning
1 Prólogo
Notas iniciais
Cacos de vidro quicavam como bolas de gude por todo o chão da sala e forravam irregularmente o piso. Um som assustadoramente agudo percorreu todos os cômodos da casa e retornou ao seu ponto de origem, mesclando as cantorias do desastre com os meus gritos de dor e os gritos de desespero de mamãe.
Todos tão desafinados.
A dor era imensurável e torturava por completo todo meu corpo, embora só meus olhos fossem vítimas do vidro estilhaçado. Sentia aquele líquido quente escorrer da minha vista, sangue diluído em lágrimas, e pintar todo o meu rosto de vermelho como uma obra de arte macabra de Beksinski.
Alissa! Alissa! Ah meu Deus, Alissa!
Não tive tempo de me despedir do mundo ilustrado e pigmentado; se eu ao menos soubesse que isso me ocorreria teria passado mais tempo observando os dias inexpressivos de Alborg, que só agora me pareciam tão vivos e tão coloridos. Teria lido pela última vez todos os meus livros de contos de fada, tão esquecidos e empoeirados... Teria passado um dia inteiro olhando para o rosto cansado daquela mulher que, felizmente, eu podia chamar de mãe. Teria corrido para o jardim, rodopiado com os braços abertos enquanto olhava para o céu e gargalhava sob o espetáculo de cores daquele ensolarado dia de Outubro. Entretanto, a última imagem viva que meus olhos conseguiram fotografar foi a de Mamãe tentando impedir que meu pai destruísse o avantajado monumento do Arcanjo Miguel, onde eu sorrateiramente me escondia para observar a briga de casal que extrapolara no momento em que meu pai apoderou-se do taco de baseball dos Rainmers.
Foi de propósito. Não foi de propósito. Ele sabia que eu estava lá. Ele nunca imaginaria. Foram estas controvérsias que, principalmente, moveram as mãos de minha mãe a assinar a papeleira do divórcio, pouquíssimo tempo depois deste ser legalizado por toda a Dinamarca.
Para mim, de fato, já não importava mais. A escuridão agora era minha única companhia e embora tão íntima, eu sabia que era traiçoeira; mergulhar em seu mundo me traria consequências muito desagradáveis, jamais poderia comer um fruto de seu banquete e confiar em sua imensidão me levaria ao suicídio.
Notas finais
Obrigado pela leitura!
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