Notas iniciais
Bastante em cima da hora, esse texto corresponde a uma modesta participação no "Desafio de songfic - Fevereiro". A minha proposta foi criar algo que conseguisse alguma discussão moral interessante que envolvesse a sorte (tema da música desse dia 28/02), saiu isso. Desejo-lhes uma boa leitura e espero que gostem. :)

O fortuna

Velut luna

Statu variabilis

Semper crescis

Aut decrescis

— Carl Orff

“Não, senhor Ben, não é culpa tua...” — fala uma enfermeira, pondo gentilmente uma das mãos sobre o ombro ossudo do médico jovem a sua frente.

De olhos côncavos e negros, com revoltos e escuros longos cabelos pendidos por sobre a gola e os magros ombros num jaleco branco, o cirurgião fita pesarosamente as vistas de sua enfermeira, sem nelas encontrar qualquer consolo e, perdendo-se de lá para outro lugar — como se lhe atravessasse o brilho dos olhos —, trazia algo da morte em sua visão aterradora e tremeluzente.

“Oh! a jornada negra! A alma se despedaça...

Tremem as mãos... O olhar, molhado e ansioso, espia,

E vê fugir, fugir a ribanceira fria,

Por onde a procissão dos dias mortos passa.” — murmura melancolicamente o desconsolado médico.

E, saído do Hospital Vidal, como que fosse fantasma entre a gente, perpassou as três quadras ensolaradas que o separava de sua casa em tácitas e reptílicas passadas — passos que ele andejou como que trazendo uma cruz num dos ombros e tendo falta de outra ao coração.

Chegando ao lar solitário, pôs-se a fazer um desjejum com qualquer comida facilmente mastigável e de sustância qualquer — o gosto não lhe tinha relevância agora; era como se estivesse a provar o desgosto vazio e desinteressado da morte, a qual sua consciência se responsabilizou.

Por conseguinte, e sem necessidade de banho ou de ter os dentes escovados (do mesmo jeito que um defunto não tem necessidade dessas coisas), deitou-se ao lado do som da televisão, alto e em bom som ignorado por seu sono de pedra. E, como que uma catedral abandonada pelos homens, o sonho tinha em seu interior apenas pálidas e frígidas santas estátuas desacreditadas.

No sonho, como que tivesse os olhos colados ao céu, o médico sentia-se pairar por um oceano cinza e disforme onde achavam-se pálidas pessoas-estátuas fragilizadas e flores enchendo-as de perfume e pétalas graciosas. A morte se lhes aproximava; uma sombra viva, da cor azul da melancolia. Pobre médico que só de lá as podia observar, soprar-lhes um vento dos céus, para o qual as folhas e a fragrância de flores se acumulavam, mas nada podia contra a marcha da morte, que se lhes espreitava, devorando-os em cinza.

Quando, no piscar sombrio da noite, onde já mais nada via, e seu vento não soprava, uma voz chamava-lhe por nome: “as flores podem portar muita beleza e bom odor, mas se não houvesse feiura e mal cheiro, de nada valeriam suas qualidades.” O dono da voz aproximava-se com um acompanhante ao lado. Como todas as esculturas humanoides no mar cinzento, os dois que se aproximavam agora, meio à escuridão, tinham o corpo alvo e humano, mas envoltos em aura de luz, os únicos corpúsculos a serem vistos de lá.

“Benício, o teu trabalho nunca fora o de extinguir o valor da vida” — disse novamente a voz de um deles, já mais próxima, e sentindo que o olhavam, de alguma forma.

Benício, o desafortunado médico, logo viu-se imerso na lembrança de seu paciente morrer com o coração dele silenciado numa de suas mãos. Era a primeira vez que falhava, e não salvando o corpo do paciente, não lhe poderia tampouco garantir-lhe o estado da alma — quando os familiares do falecido procuravam rezar para que uma vida melhor após a morte levasse-o a algum paraíso, o cirurgião nada disse que não fosse a fala entristecedora de suas lágrimas, consciente da falta de fé que tinha.

Com tal memória invadindo a mente, tornou a ouvir a voz de um deles, mas diferente da primeira, mas grave e suave, sussurrante quase, chamava-lhe o nome apenas: “Benício...”.

Voltava a fitar o par, agora via-os melhor; bem mais próximos, pois. O que lhe acabava de chamar era mais alto, de cabelos ruivos e olhos negros, o mais baixo ao seu lado era loiro, com olhos tão negros quanto de seu acompanhante, e em nenhum dos dois era possível identificar claramente o traje — mais parecia que estavam vestidos com a própria aura rubro-luminescente.

“Como chamam-se?” — perguntou Benício.

E teve de resposta: “Furto”, do mais alto, e “Fortuno”, do baixo, cada qual com seu timbre característico de voz.

“O que são?” — tornou a perguntar o médico.

E um sussurro imediato respondeu-lhe: “eu fui tua visita de ontem; teu cocirurgião, se preferires.” Aquele sussurro parecia ter também algo de um calafrio que lhe dava em algum lugar da alma.

“Meu irmão... acho que podemos dar-lhe o benefício de nosso conhecimento sem maiores suspeitas.” — falou o mais baixo, parecendo referir-se ao mais alto à direita. E continuou, agora dirigindo-se ao médico — “sou a personificação da sua sorte, Fortuno. Furto, meu irmão, é o azar, ou o desfortuno, o qual tu ainda não conhecias em teu serviço, e que para o seu trabalho normalmente significa o furtar da vida...” — e a voz, numa pequena pausa, concluiu, mais brandamente — “cedo ou tarde haveria de te visitar”.

— Por quê?

— A razão disso não é óbvia como um dia irá te parecer. Mas o que realmente te importa saber e relembrar sempre é que sem a morte teu ofício não teria qualquer valor. Sequer teu ofício seria um ofício, um sacrifício, sacro ofício que falta alguma de fé extinguirá enquanto a morte bater-lhe à porta. Em verdade, como irmãos que somos, meu irmão com o azar há de te trazer algo da sorte e eu algo do azar; algo porém que há nele de mim e de mim nele só se podem realizar quando ambos te visitamos.

— Mas o que quero eu, enquanto alguém que estende a vida, com a morte e a doença que a contrai e extingue?

— Ora, é como te falei mais cedo das flores, caro Benício. Qual o valor de uma vida eterna? Se fosse esse o caso, tenha certeza que as pessoas te procurariam para lhes tirar a vida e não o contrário.

— Sim, eu entendo. Mas teu irmão, o azar, será sempre meu inimigo.

E o azar, quieto até então, vem a lhe sussurrar num tom mais agudo, como que em cor vermelha: “sim... e não...” — continuando depois de trocar olhares com seu irmão: “se só meu irmão te acompanhasse, o mérito de teu trabalho nunca seria teu, mas da sorte que te abraça o trabalho eternamente. Porém, como eu também venho ao teu lado, tu deves, na superação de nós dois, da sorte e do azar, dedicar-se ao aprimoramento de seu trabalho; nunca satisfeito por completo dele, graças a mim, e nunca insatisfeito por completo, graças ao meu irmão Fortuno; é pela conjunção de nossas sombras à tua sombra que podes gozar de mérito próprio e de aprimoramento infindo — concluiu o alto Furto.

Dito isso, com as auras dos irmãos esmaecendo, ambos desapareceram na escuridão completa, e ao som de um canto brusco e dramático a romper na solidão, despertou-se o jovem médico. O canto, a refulgir do televisor, reverberava:

♪ ... Sors salutis sorte

Et virtutis

Michi nunc contraria ... ♫

[O destino da saúde

E virtude

Agora me é contrária]

Notas finais
A primeira fala do médico no conto, ao início da trama, é uma citação ipsis litteris do primeiro quarteto do soneto XII (A morte) de Olavo de Bilac, que se encontra em seu livro As Viagens.Entre as etimologias não explicitas no texto, mas que podem ser de interesse para a compreensão dele, temos: o nome do protagonista, Benício, que vem do latim (de 'bene' e 'ire') e significa aquele que vai bem ou que está sempre bem; o nome do hospital, Vidal, que sugere vida; e os dois irmão, Fortuno e Furto que vem de fortuna (destino, sorte, ventura) daí o título da música , o último, Furto, sugere também, por homonímia, o ato de furtar (roubar secretamente).
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!