Dados e bisturi
1 Dados e bisturi
Notas iniciais
O fortuna
Velut luna
Statu variabilis
Semper crescis
Aut decrescis
— Carl Orff
“Não, senhor Ben, não é culpa tua...” — fala uma enfermeira, pondo gentilmente uma das mãos sobre o ombro ossudo do médico jovem a sua frente.
De olhos côncavos e negros, com revoltos e escuros longos cabelos pendidos por sobre a gola e os magros ombros num jaleco branco, o cirurgião fita pesarosamente as vistas de sua enfermeira, sem nelas encontrar qualquer consolo e, perdendo-se de lá para outro lugar — como se lhe atravessasse o brilho dos olhos —, trazia algo da morte em sua visão aterradora e tremeluzente.
“Oh! a jornada negra! A alma se despedaça...
Tremem as mãos... O olhar, molhado e ansioso, espia,
E vê fugir, fugir a ribanceira fria,
Por onde a procissão dos dias mortos passa.” — murmura melancolicamente o desconsolado médico.
E, saído do Hospital Vidal, como que fosse fantasma entre a gente, perpassou as três quadras ensolaradas que o separava de sua casa em tácitas e reptílicas passadas — passos que ele andejou como que trazendo uma cruz num dos ombros e tendo falta de outra ao coração.
Chegando ao lar solitário, pôs-se a fazer um desjejum com qualquer comida facilmente mastigável e de sustância qualquer — o gosto não lhe tinha relevância agora; era como se estivesse a provar o desgosto vazio e desinteressado da morte, a qual sua consciência se responsabilizou.
Por conseguinte, e sem necessidade de banho ou de ter os dentes escovados (do mesmo jeito que um defunto não tem necessidade dessas coisas), deitou-se ao lado do som da televisão, alto e em bom som ignorado por seu sono de pedra. E, como que uma catedral abandonada pelos homens, o sonho tinha em seu interior apenas pálidas e frígidas santas estátuas desacreditadas.
No sonho, como que tivesse os olhos colados ao céu, o médico sentia-se pairar por um oceano cinza e disforme onde achavam-se pálidas pessoas-estátuas fragilizadas e flores enchendo-as de perfume e pétalas graciosas. A morte se lhes aproximava; uma sombra viva, da cor azul da melancolia. Pobre médico que só de lá as podia observar, soprar-lhes um vento dos céus, para o qual as folhas e a fragrância de flores se acumulavam, mas nada podia contra a marcha da morte, que se lhes espreitava, devorando-os em cinza.
Quando, no piscar sombrio da noite, onde já mais nada via, e seu vento não soprava, uma voz chamava-lhe por nome: “as flores podem portar muita beleza e bom odor, mas se não houvesse feiura e mal cheiro, de nada valeriam suas qualidades.” O dono da voz aproximava-se com um acompanhante ao lado. Como todas as esculturas humanoides no mar cinzento, os dois que se aproximavam agora, meio à escuridão, tinham o corpo alvo e humano, mas envoltos em aura de luz, os únicos corpúsculos a serem vistos de lá.
“Benício, o teu trabalho nunca fora o de extinguir o valor da vida” — disse novamente a voz de um deles, já mais próxima, e sentindo que o olhavam, de alguma forma.
Benício, o desafortunado médico, logo viu-se imerso na lembrança de seu paciente morrer com o coração dele silenciado numa de suas mãos. Era a primeira vez que falhava, e não salvando o corpo do paciente, não lhe poderia tampouco garantir-lhe o estado da alma — quando os familiares do falecido procuravam rezar para que uma vida melhor após a morte levasse-o a algum paraíso, o cirurgião nada disse que não fosse a fala entristecedora de suas lágrimas, consciente da falta de fé que tinha.
Com tal memória invadindo a mente, tornou a ouvir a voz de um deles, mas diferente da primeira, mas grave e suave, sussurrante quase, chamava-lhe o nome apenas: “Benício...”.
Voltava a fitar o par, agora via-os melhor; bem mais próximos, pois. O que lhe acabava de chamar era mais alto, de cabelos ruivos e olhos negros, o mais baixo ao seu lado era loiro, com olhos tão negros quanto de seu acompanhante, e em nenhum dos dois era possível identificar claramente o traje — mais parecia que estavam vestidos com a própria aura rubro-luminescente.
“Como chamam-se?” — perguntou Benício.
E teve de resposta: “Furto”, do mais alto, e “Fortuno”, do baixo, cada qual com seu timbre característico de voz.
“O que são?” — tornou a perguntar o médico.
E um sussurro imediato respondeu-lhe: “eu fui tua visita de ontem; teu cocirurgião, se preferires.” Aquele sussurro parecia ter também algo de um calafrio que lhe dava em algum lugar da alma.
“Meu irmão... acho que podemos dar-lhe o benefício de nosso conhecimento sem maiores suspeitas.” — falou o mais baixo, parecendo referir-se ao mais alto à direita. E continuou, agora dirigindo-se ao médico — “sou a personificação da sua sorte, Fortuno. Furto, meu irmão, é o azar, ou o desfortuno, o qual tu ainda não conhecias em teu serviço, e que para o seu trabalho normalmente significa o furtar da vida...” — e a voz, numa pequena pausa, concluiu, mais brandamente — “cedo ou tarde haveria de te visitar”.
— Por quê?
— A razão disso não é óbvia como um dia irá te parecer. Mas o que realmente te importa saber e relembrar sempre é que sem a morte teu ofício não teria qualquer valor. Sequer teu ofício seria um ofício, um sacrifício, sacro ofício que falta alguma de fé extinguirá enquanto a morte bater-lhe à porta. Em verdade, como irmãos que somos, meu irmão com o azar há de te trazer algo da sorte e eu algo do azar; algo porém que há nele de mim e de mim nele só se podem realizar quando ambos te visitamos.
— Mas o que quero eu, enquanto alguém que estende a vida, com a morte e a doença que a contrai e extingue?
— Ora, é como te falei mais cedo das flores, caro Benício. Qual o valor de uma vida eterna? Se fosse esse o caso, tenha certeza que as pessoas te procurariam para lhes tirar a vida e não o contrário.
— Sim, eu entendo. Mas teu irmão, o azar, será sempre meu inimigo.
E o azar, quieto até então, vem a lhe sussurrar num tom mais agudo, como que em cor vermelha: “sim... e não...” — continuando depois de trocar olhares com seu irmão: “se só meu irmão te acompanhasse, o mérito de teu trabalho nunca seria teu, mas da sorte que te abraça o trabalho eternamente. Porém, como eu também venho ao teu lado, tu deves, na superação de nós dois, da sorte e do azar, dedicar-se ao aprimoramento de seu trabalho; nunca satisfeito por completo dele, graças a mim, e nunca insatisfeito por completo, graças ao meu irmão Fortuno; é pela conjunção de nossas sombras à tua sombra que podes gozar de mérito próprio e de aprimoramento infindo — concluiu o alto Furto.
Dito isso, com as auras dos irmãos esmaecendo, ambos desapareceram na escuridão completa, e ao som de um canto brusco e dramático a romper na solidão, despertou-se o jovem médico. O canto, a refulgir do televisor, reverberava:
♪ ... Sors salutis sorte
Et virtutis
Michi nunc contraria ... ♫
[O destino da saúde
E virtude
Agora me é contrária]
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