Da morte para a vida.
1 O peso da morte.
Notas iniciais
É só a morte... Nada sério. — Já dizia um samurai chamado de “O imperdoável”.
O campo de batalha já era rotina para mim. Os sons de espadas se chocando se tornavam cada vez mais uma representação do esporte nada saudável que eu praticava. Neste exato momento, sinto que minhas ações me levaram a estar ali, ao mesmo tempo em que me arrependo da minha presença. Cada impacto causado por minha espada traziam à tona lapsos de memória em minha mente, momentos estes que eu preferiria esquecer, justamente por serem as coisas de maior valor que eu possuo. Lembranças que me dão motivação para continuar vivendo e lutando para encontrar aquela que um dia me acolheu mesmo em tantos erros cometidos.
— Você ousa me insultar com esse rosto pensativo no meio do campo de batalha?!?! – Aquelas palavras me trouxeram de volta à realidade. Graças a elas, tive tempo para reorganizar meus pensamentos e defender-me do golpe fatal que estava prestes a receber. Levei meus braços, que seguravam o cabo de minha wakizashi, até próximo do meu rosto, apontando o metal da pequena espada para baixo. Fiz com que a lâmina de meu oponente deslizasse ao longo da minha. Espantei-me com a força do golpe, que seguiu até o chão ao meu lado, causando uma pequena fissura. Imediatamente, pulei algumas vezes para trás e mantive-me em posição de combate, ofegante.
— Se você continuar achando que pode me derrotar com a mente conflituosa desse jeito, está muito enganado. – Com apenas uma mão, ele tirou a grande espada do chão. Até o momento, não tinha certeza que tipo era aquela, mas parecia muito uma gládio.
Respirei fundo e de olhos fechados. Tentei esvaziar a minha mente por enquanto. Teria que lidar com os meus conflitos mais tarde, ou então, tinha convicção meu oponente venceria facilmente. Inspirando fundo novamente, soltei o ar lentamente. Consegui ouvir os furiosos passos de meu inimigo. A armadura que ele utilizava era completa, mas mesmo assim, sua agilidade era impressionante. Aberturas em todas as suas articulações mais importantes, um interessante modelo. Diferentemente de mim, que estava com apenas umas poucas placas metálicas embaixo de minhas roupas sem nalguma proteção de cabeça, pois tinha total confiança em minhas habilidades, e sabia que não seria ferido se executasse tudo da maneira correta. Um típico guerreiro egocêntrico, eu diria. Minhas armas eram apenas a wakizashi e um par de tonfas.
Ao abrir os olhos, ele já estava com o ataque preparado. Uma gládio e uma adaga atacando de lados diferentes com um ataque vindo de cima... Que desperdício. Decerto, ele era muito forte e ágil, mas seu intelecto fez muita falta neste momento final. Se ele não tivesse pulado, teria uma facilidade grande para bloquear meu ataque, entretanto, este não era o caso. Esperei o momento certo e empurrei ambas as lâminas para longe em um golpe vertical cruzado, partindo de perto da minha cintura e utilizando apenas a mão esquerda, soltando a espada pequena logo após. Então, puxei ambas as tonfas e, com um golpe certeiro em uma abertura na parte do pescoço, fiz com que ele voasse por uns dois metros, mais ou menos. Pude ouvir o som de ossos quebrando... Que desconfortante. Isso fez com que ele perdesse todas as forças que tinha por alguns segundos, tendo dificuldades para retomá-las ao cair de costas no chão. Seu capacete, já danificado de várias batalhas, quebrou-se por completo ao receber o impacto, os pedaços, voaram a mais alguns centímetros, alguns ficando abaixo da cabeça do nobre.
— Ei você, qual o seu nome? – Dizia eu enquanto me aproximava. Mesmo já sendo tão acostumado, matar alguém ainda é um peso muito grande pra mim. – Fiquei impressionado com suas capacidades físicas, mesmo com um corpo tão magro. – Ouvir os soluços do homem faziam eu me sentir mal. De certeza, eu estava muito sentimental naquele dia.
— Meu nome é Artífice. – Disse em tom sofrido, com falta de ar. Fiquei impressionado com seu nome, era bem incomum.
– Bem, que seu Deus possa te receber com amor, acima de tudo, mesmo você recebendo o sofrimento eterno. Amém. – Um som de impacto pôde ser ouvido. Artífice já não estava mais ali.
Não sei como, mas pude ouvir o som de todas as vidas que deixei de salvar ao executar esta morte. Que seja. Esses pensamentos são insignificantes, então descartei-os de imediato.
Uma coisa eu sei, nada disso aqui foi em vão. Irei fazer valer essa morte e realizar o último pedido daquela pessoa. Vou causar a morte de todos aqueles que se oporem à liberdade do próximo. Andei em direção ao horizonte.
Me recuso a ser levado pelo passado a morrer inutilmente por conta de memórias que já não me trazem mais conforto. Viverei pela minha espada... Que irônico, samurais já foram meus maiores inimigos, agora estou falando como um deles. Se for pra morrer, que eu morra sendo alguém.
Fale com o autor