Da minha cura veio a sua dor

2 ATO II - A possessão


Notas iniciais
Estou de volta! Preciso admitir que esse capítulo exigiu um pouco mais de mim tanto pelos personagens que introduzi aqui, quanto pela sequência de diálogos que desenvolvi sem que parecessem repetitivos ou mesmo cansativos de se ler. Enfim, desejo a todos uma boa leitura! :) P.S. A próxima atualização que virá vai ser da fic "Decifrando seu coração", minha primeira PaccioxFinn. Depois disso, estarei alternando entre a postagem dos capítulos das duas fics.

O badalar dos sinos às 18 horas em ponto anunciava o tão ansiado término de mais um cansativo dia repleto de alta carga de estudos e de árduo treinamento. Em meio a algazarra que os demais estudantes estavam fazendo nos corredores do convento, famintos pelo jantar que se aproximava, Finn encontrava-se perdido nos próprios pensamentos acerca do ocorrido de mais cedo enquanto caminhava em direção ao refeitório.

De acordo com Max, uma das duas únicas pessoas nas quais o rapaz depositava toda a sua confiança e para as quais havia confessado a respeito desse fenômeno bizarro pelo qual estava passando, ter sonhos repetidos poderia sinalizar que o Universo estaria tentando se comunicar com ele utilizando a imagem de Rosalyn, ou talvez a própria antepassada estivesse querendo lhe passar uma mensagem através de suas próprias memórias num passado distante.

O aspirante a freira não julgava ser este o caso, porém. Ele não conseguia sequer imaginar a ínfima possibilidade de alguém, que morrera há vários séculos, estar confidenciando os seus segredos mais profundos para um completo desconhecido agora no futuro. Ainda que possuíssem laços consanguíneos, que razão Rosalyn teria para lhe contar tudo isso se nem chegou a conhecê-la pessoalmente em primeiro lugar?

Por mais detalhados que fossem as coletâneas de tomos que, em tese, compilavam todas as informações mais relevantes das famílias mais influentes da época, nenhum deles falava sobre as singularidades dos membros de suas respectivas linhagens. Era quase como se Finn estivesse defronte de descrições superficiais e completamente apáticas, sem um brilho de humanidade em meio a todas aquelas gravuras impressas nos livros.

Sendo franco, não havia ninguém que conhecesse um pingo sobre a verdadeira personalidade de Rosalyn, muito menos sobre seus maiores e mais profundos desejos. Esse era o tipo de informação que nenhum livro seria capaz de fornecer e Finn sabia disso perfeitamente. Ademais, era no mínimo suspeito que, de toda a sabedoria ali conservada, absolutamente nenhum livro trazia qualquer informação a respeito da família Luo-Yang. Não fosse pela história recontada no decorrer das gerações graças à tradição oral, ninguém hoje saberia que eles alguma vez já existiram.

Embora não tivessem páginas rasgadas, era como se os próprios livros estivessem propositalmente tentando apagar essa linhagem da nossa história, como se fosse algum tipo de erro cometido.

“Mas se fosse o caso, não seria melhor reportar o que deu errado para que não se repetisse outra vez? Qual o sentido em esconder algo assim? A menos que não queiram que saibamos de algo..., mas o quê?” – Refletia Finn e, de tão imerso que estava em seus próprios pensamentos, não se deu conta de que os corredores, até então repletos de alunos encontravam-se completamente vazios agora. De súbito, no instante seguinte, ele teve sua linha de raciocínio cortada por um estudante que ao se aproximar sorrateiramente por detrás, empurrou-o com tudo ao chão.

— Olhem só quem temos aqui! É o Ames inútil! – Exclamou o estudante agressor em tom de escárnio acompanhado por dois outros enquanto cercavam o rapaz, que agora se esforçava para levantar-se após o baque repentino.

— Um lixo como você nem merece estar aqui conosco. Só de olhar para a sua cara patética me dá nojo! – Disse o outro aluno do trio cuspindo as palavras com desprezo enquanto com um de seus pés sobre as costas de Finn forçava-o a manter-se ajoelhado perante eles.

— Essa posição combina bem mais com você! Ponha-se no seu devido lugar e continue nos reverenciando! – Debochou o terceiro discente, enquanto se abaixava para catar a varinha de Finn evitando, dessa forma, que ele tentasse algo para se defender.

Não que isso fizesse tanta diferença no fim das contas, pois a julgar pelas vestes, tratavam-se de 3 sacerdotes aprendizes, o que de acordo com a hierarquia de classes estabelecida no mosteiro, colocava Finn automaticamente em desvantagem.

Haja vista que os demônios são criaturas que possuem uma força bruta quase tão colossal quanto o seu poder mágico, travar uma batalha decisiva contra eles recorrendo apenas às magias de cura não seria uma estratégia plausível. Sendo assim, a depender de suas aptidões e personalidades, os estudantes eram encaixados em um dos 3 possíveis postos de ocupação assim que ingressavam no convento, sendo elas: Bispo, Padre e Freira.

Enquanto a classe dos bispos, composta pelos poucos magos de elite que dominavam as magias ofensivas mais intensas e efetivas, era o ás na manga da sociedade, os padres, por outro lado, estavam ali para fornecê-los suporte na guerra através de seu controle sobre uma vasta gama de feitiços menores, tanto ofensivos quanto gerais. Por fim, a tarefa de curar era exclusiva das freiras, que não possuíam qualquer tipo de magia ofensiva sendo, portanto, alocadas nas enfermarias para tratar dos doentes e dos feridos em combate.

Em outras palavras, Finn estava encurralado. Ele não conseguiria nem mesmo fugir dali dado que sua varinha havia sido tomada.

— P-Por favor, parem com isso... – Proferiu o rapaz da mecha amarelada em um tom quase inaudível tentando, ao máximo, disfarçar a dor que sentia pela pressão imposta em suas costas.

— Ou o quê, freirinha? Vai apontar sua cruz para mim? – Pronunciou-se o primeiro valentão fazendo desdém.

— Aposto que ele vai voltar chorando para os braços do irmão..., mas espera aí! Ele não está aqui, não é mesmo? Que peninha! Ele deve se envergonhar de alguém como você que só faz manchar a reputação da sua família, não o culpo! – Ridicularizou o segundo agressor.

A essas palavras, tão afiadas quanto uma faca cravada em seu coração, ele não podia nem se dar ao luxo de contestar. Não era como se estivessem espalhando mentiras. Tudo, absolutamente tudo o que tinham dito até então, especialmente no que diz respeito à relação distante e conturbada que ele tinha com seu irmão, era a verdade nua e crua. Quer ele gostasse ou não, era inegável que Rayne parecia não querer nada com um perdedor como ele e isso doía demais.

Suas feridas abertas haviam sido cutucadas inescrupulosamente fazendo com que Finn começasse a lacrimejar tanto pela imensa carga emocional que a lembrança do irmão lhe proporcionava, quanto pelo desespero nauseante de permanecer ali ouvindo aqueles fatos que ele, com todas as suas forças, tanto queria se esquecer.

— Vejam só, ele vai chorar! Ei, por que você não — – O terceiro estudante já iria continuar com as humilhações, quando sentiu uma mão dando dois leves toques em suas costas. Seu sangue gelou ao se virar e constatar quem era.

— Instrutor Kaldo! – Exaltou-se o valentão, chamando a atenção dos outros dois que rapidamente se viraram para estar defrontes da figura do mestre de combates.

— Cavalheiros, não acham covardia se agigantarem em cima de uma freira enquanto ninguém está por perto? – Pronunciou-se o albino ornado de seu costumeiro sorriso cínico.

— Quem, nós? Não! A gente só estava brincando um pouquinho com nosso colega como de costume, nada demais... – Escusou-se nervosamente o segundo aprendiz de sacerdote, enquanto retirava seu pé das costas de Finn.

— Estou vendo. Nesse caso, eu tenho uma sugestão muito melhor de brincadeira só para os três, senhores. – Retorquiu o professor de combates em um tom sádico e em seguida, começou a vasculhar no interior dos bolsos de sua robe azulada.

— Mestre, já vou avisando que o senhor não pode simplesmente nos fazer subir as escadarias do templo ajoelhados para pagar penitência. Esse tipo de castigo já foi banido há mais de 50 anos...– Replicou um dos agressores aflito pelo que os esperava após essas palavras aterrorizantes do instrutor.

— Ora, você tem toda a razão! – Disse Kaldo fingindo surpresa fazendo com que os três estudantes suspirassem aliviados apenas para continuar logo depois:

— Por isso mesmo que vocês vão limpar todo esse corredor de cima a baixo! Quero vê-lo brilhando até às 6 da manhã sem falta! – Complementou, então, retirando alguns baldes e esfregões de dentro da sua robe.

“De onde ele tirou tudo isso?!” – Tanto Finn quanto os seus agressores estavam assustados e confusos com as ações de seu professor. Quando ele queria, conseguia ser realmente ameaçador.

— Tá brincando, não é? Isso é impossível! – Protestaram os três estudantes desordeiros engolindo em seco após terem ouvido em alto e bom tom as sentenças deles.

A julgar pela extensão quase infinita daquele corredor e pela enorme quantidade de poeira que se acumulava por ali no decorrer dos dias, seria preciso muito mais do que algumas horas para deixá-lo em perfeito estado. De repente, a ideia da penitência na escadaria não pareceu mais tão ruim assim...

— Ou talvez vocês queiram se entender com o senhor Wahlberg, afinal. Tenho certeza de que ele adoraria saber que foram vocês os responsáveis pelo incêndio na sala de poções do ano passado, ou daquele dia que vocês atraíram uma horda de dragões ferozes para a escola por terem roubado os ovos deles, ou, ainda, quem sabe, daquela vez em que vocês provocaram um alarde entre os estudantes espalhando o boato de que havia um demônio disfarçado entre nós. – As palavras saíam tão serenas da boca do albino como se não fosse estarrecedor o suficiente que ele possuísse tantas informações detalhadas a respeito daqueles três estudantes.

— Confiem em mim, eu tenho as provas à minha disposição. Se quiserem, podemos todos ir até a sala do diretor agora mesmo para colocar o papo em dia... – Insinuou Kaldo já se preparando para conjurar um portal à dita sala.

— N-Não há necessidade, senhor! Nós limparemos tudo por aqui, sim! – Adiantou-se um dos estudantes desesperadamente.

— Esplêndido! Então, vocês já podem começar. Finn, acompanhe-me, por favor! – Disse o instrutor, enquanto aproximava-se de Finn estendendo-lhe a mão para que pudesse se levantar.

— Ah, sim! Antes que eu me esqueça, para cada vez que eu flagrar um de vocês o incomodando novamente, a quantidade de corredores, como este, que os senhores terão de limpar dobrará. – Complementou, enfim, o albino antes de voltar a caminhar junto de Finn na direção oposta dos três valentões.

Depois de ter presenciado essa cena, o jovem só podia agradecer por ter o apoio de alguém como Kaldo em sua vida. Ao mesmo tempo, no entanto, ele cogitava o quão infernal seria tê-lo como um inimigo em sua cola.

"Que assustador..."

~*~

Enquanto isso, um novo dia era anunciado no mundo inferior. Os pássaros cantavam melancolicamente acompanhando aquele alvorecer sepulcral e, em contraste com a atmosfera inquietante do local, era possível de se escutar nas proximidades de um córrego, uma terna e aconchegante melodia do dedilhar de um piano ecoando do interior de uma mansão solitária.

Desde o princípio da relação de suserania e vassalagem entre as famílias Luo-Yang e Macaron, o ritual de cântico todas as manhãs prevaleceu através da linhagem de seus descendentes. Tradição essa que estava prestes a ser interrompida por um certo demônio de cabelos castanhos-avermelhados.

— Margarette! – Gritou o demônio, escancarando as portas do salão onde a pianista acinzentada estava.

— Bom dia para você também, Carpaccio! – Alfinetou a musicista se esforçando para não estourar ali com ele pela falta de sutileza.

Seja por não ter compreendido ou por simplesmente não se incomodar com a provocação, Carpaccio apenas prosseguiu:

— Acho que estou possuído...

Notas finais
Por alguma razão, não me soa estranho que o Kaldo fizesse algo assim para proteger Finn, haha Mas o que está acontecendo com o Carpaccio? Quem o estaria "possuindo", afinal?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.