Da corte ao Altar
9 Capítulo 9
Sim, Anthony gritou. Se antes as coisas estavam ruins, agora piorariam ainda mais, pensou Lucy. Ela só queria fugir dali. Como, por Deus, as coisas mudaram tão depressa? Estava tendo o melhor momento da sua vida nos braços de Anthony e agora estava tão magoada e envergonhada que se pudesse se atirar na frente da primeira carruagem que visse, Lucy faria sem hesitar. Mas ela percebeu que Anthony estava firme, decidido. Sua voz não vacilou e ele não recuou diante do olhar desafiador que seu pai lançou sobre eles.
— Não vou tolerar mais esse tipo de comportamento.
— Não vai tolerar? – Vincent riu – Quem você pensa que é?
— Você sabe muito bem, afinal foi você quem me criou.
— Pelo visto eu falhei com você.
— Peça desculpas à Lucy. – Anthony disse entredentes.
— O que? Tá maluco?
— Eu não estou brincando. – Vincent deu um passo à frente.
— Nem eu. – Anthony deu um passo também, não tão longo quanto o de seu pai, afinal Lucy estava bem ali atrás dele, tinha que protege-la.
— Não vou mais admitir que nos tratem como uma fonte de riqueza infinita. Não ligo se vocês fizeram acordos, se querem quebrar acordos... É a nossa vida. Não vão decidir por nós. Vamos nos casar, se nós quisermos. – impulsionada pela coragem de Anthony, Lucy se colocou ao lado dele e todos puderam ver que estavam de mãos dadas.
— Decidimos não cumprir o acordo.
— O que? – Anastácia perguntou.
— Anthony tem razão. Não quero me casar por conta de um acordo, quero me casar por amor.
— Ah, pelo amor de Deus – sua mãe levou a mão à testa e resmungou. De fato estava irritada, ela nunca resmungava em público. Lucy, por outro lado, tentou não ficar feliz com isso.
— Vocês não podem quebrar o acordo. – Nathan disse.
— Ah podemos sim. Não deviam nos envolver nisso. Se querem uma união entre as famílias, casem-se vocês. Nós estamos fora disso. – disse Anthony com ousadia.
— Você é um moleque.
— Eu prefiro ser um moleque a ser ambicioso como o senhor. Dinheiro é o que menos importa em um casamento para mim. Eu só quero ser feliz. Lucy merece o mesmo.
— Eu estou orgulhosa meu filho – disse Lady St. Clair pela primeira vez – já era hora de acabar com essa palhaçada. Você não é um moleque. É um homem correto, justo e sensato. Eu não poderia estar mais feliz por quem se tornou.
— Não incentive Catherine.
— Ora Vincent sempre fui contra isso. Esse acordo é um absurdo. Não devia estar surpreso por meu posicionamento.
— Vocês estão esquecendo a principal questão – disse Nathan – Independente de ter um acordo ou não, Anthony beijou Lucy. Se ele não a pedir em casamento esta noite, ao amanhecer travaremos um duelo pela honra de minha filha. – Lucy apertou a mão de Anthony.
— Será que vocês poderiam nos deixar a sós? – Lucy pediu delicadamente.
— Pra vocês se atracarem de novo, alguém ver e vocês serem realmente obrigados a se casar? – Vincent perguntou — Eu acho que não mocinha.
— Eu posso ficar por perto – disse Catherine. – Vocês podem ir lá pra dentro, se despedirem do príncipe enquanto acalmam os nervos. Eles conversam e pela manhã decidimos o que fazer. Pode ser assim?
— Amanhã? – Nathan perguntou.
— Paciência conde Kress, paciência. É a maior virtude dos homens.
— Conversem o quanto quiserem – cedeu o pai de Lucy – mas se não houver um pedido de casamento dentro de 24 horas, haverá um duelo. Torça para ter uma boa pontaria Anthony.
Contrariados, os pais de Lucy e o pai de Anthony os deixaram.
— Eu sinto muito por tudo isso. – disse Lady Catherine. — Vocês têm muito que conversar. Não se preocupem comigo. Estarei por ai, fingindo que estou observando vocês, mas longe o suficiente para não ouvi-los. – ela se virou para sair, mas retornou – Lutem pela felicidade de vocês, independente de estarem juntos ou não... Lutem pela felicidade. – então ela partiu. Anthony se virou para Lucy e a abraçou bem forte. Ele era bem mais alto que ela, de modo que quando a alinhou em seu peito, repousou seu queixo no alto da cabeça dela.
— Você está gelada – disse beijando a testa dela e a apertando ainda mais nos seus braços. – e tremendo.
— Vai ficar tudo bem.
— Vai sim.
— O que vamos fazer Anthony? Meu pai te desafiou em um duelo. Eu estou com medo.
— Fique tranquila. Não tenho a menor pretensão de duelar com ele. – ela se soltou de seu abraço e olhou para ele.
— Então vai se casar comigo?
— Não vou força-la a nada. Se você não quiser, não se sinta na obrigação. Darei um jeito. Ser duque deve servir pra alguma coisa.
— Um casamento por amor... – Lucy refletiu.
— É como tem que ser. Eu sinto muito. Fui muito descuidado.
— Com o que?
— Você sabe... nosso beijo.
— Tá se desculpando por ter me beijado? – Anthony viu a dor em seus olhos – Você se arrepende?
— Não! De forma alguma. Como eu disse, há muito tempo eu ansiava por isso. Mas eu devia ter verificado se havia alguém por perto. Por sorte foram nossos pais.
— Sorte?
— Se fosse qualquer outro, daria um escândalo. Tenho certeza que nos matariam.
— Sua mãe lidou bem com a situação.
— Graças a Deus ela é bem mais sensata que meu pai.
Um silêncio se instalou. A verdade, Lucy pensou, é que assim como ela, Anthony estaria procurando uma alternativa de fugir de um casamento por obrigação, sem ter que ir a um duelo com seu pai. Ela gostaria de ter uma resposta, de saber como agir. Olhou para as mãos que ainda estavam entrelaçadas com as de Anthony e de repente não quis mais saber a resposta. Não seria um casamento por obrigação, pelo menos não pra ela. Ela respirou fundo e puxou Anthony de volta para o banco onde há pouco se beijaram. Não estava cansada, só tinha que fazer alguma coisa. Talvez resgatar um pouco dos instantes mágicos que teve naquele mesmo banco uns minutos atrás.
— Lucy, eu... – Anthony parou e engoliu seco.
— Você?
— Preciso conversar com você.
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