Da corte ao Altar
5 Capítulo 5
— Bom dia – Anthony fez uma mensura assim que viu Lucy na porta – desculpe-me por chegar tão cedo. Avisei à meu pai que seria indelicado, mas ele não me ouviu.
— Fique tranquilo. Já havíamos terminado o desjejum. Aceita um chá? – Lucy fez um biquinho de lado – ou um pseudochá?
— Não obrigado. – Lucy fez um gesto para ele se sentar e ele se sentou.
— Soube o que está acontecendo no palácio.
— George está péssimo.
— Como está o rei?
— Foi gravemente ferido na barriga. Os melhores médicos estão cuidando dele, mas ele terá que se afastar dos assuntos reais por enquanto.
— Quem cuidará do reino?
— Angelina é a mais velha, mas não existe uma forma dela governar. George foi emancipado. Vai se tornar príncipe regente.
— Tão jovem... Com um reino inteiro pra cuidar. Não é justo.
— O povo precisa de um rei.
— Angelina poderia muito bem governar – Anthony a olhou com seriedade. – O que foi? Só porque é mulher não pode conduzir Londres?
— Não estamos prontos para sermos governados por mulheres.
— Já passou da hora de termos um lugar de destaque. Seja nas universidades ou no governo, a mulher pode ser de grande valia.
— Tenho a mais absoluta certeza disso. Mas infelizmente esse tempo ainda não chegou. Eu realmente espero viver para ver o dia em que uma mulher seja coroada rainha e governe com plenos poderes.
— Você seria um bom rei.
— Eu? Não almejo tanto.
— Sim. Você é justo. E isso é mais do que muitos reis conseguem ser.
— Infelizmente justiça não é a única habilidade que um rei deve ter. Mas você, com certeza seria uma bela rainha. Não uma rainha figurativa, na qual só é valorizada pela beleza, mesmo que pudesse desempenhar esse papel de forma brilhante. Mas uma rainha com voz e atitude, seria revolucionária.
— Ora Anthony... – Lucy corou – Obrigada.
— Não tinha a intenção de deixa-la constrangida. Perdoe-me.
— Nossos pais falam sobre o atentado?
— Provavelmente sobre nosso casamento. Não se preocupe, vou conversar com meu pai hoje ainda sobre o nosso acordo.
— Tudo bem. Mas creio que eles não irão gostar muito. Acho que poderíamos falar sobre isso com eles juntos, afinal decidimos isso juntos.
— Você é quem manda. – brincou Anthony. Lucy olhou em volta para garantir que não havia ninguém por perto que pudesse entrar na sala de estar de tons primaveris da mansão Kress e quando teve certeza de que não havia ninguém, se levantou e sentou ao lado de Anthony, no mesmo sofá, numa distância menor que o decoro permitia.
— Gostaria de lhe agradecer por ontem à noite.
— Ah, não há motivos para agradecer. Creio que o nosso acordo é a forma mais justa de sermos felizes.
— Não me referia a isso, mas obrigada por isso também. – Lucy riu – Me refiro a Penélope.
— Perdão?
— Você a convidou para dançar quando ninguém mais teve essa coragem.
— Eu pretendia convidar você, mas uma terceira dança seria muito comprometedora. Penélope é uma ótima dançarina, mas é tímida, mal trocamos duas palavras.
— Ela não esperava ser convidada, por causa da mancha em sua saia.
— Eu só a percebi porque você havia mencionado antes. Era discreta, não chamava muita atenção.
— Achamos que chamaria Alina.
— Alina não é o tipo de mulher com quem eu compartilharia uma dança. Muito provavelmente ela chamaria o padre e nos casaria antes mesmo da ultima nota ser tocada – eles riram juntos.
— De fato. Alina não é conhecida por sua sutileza, sempre deixou claro sua vontade de conseguir um bom casamento.
— Eu não a julgo – disse Anthony – no fundo é o que todos querem.
— Você concorda com ela? – Lucy perguntou surpresa.
— Não disse isso. Eu também quero um bom casamento, entretanto creio que a concepção de "bom" de Alina se difere da minha. Ela acha que um bom casamento se resume a riquezas e a possibilidade de se obter um título. Pra mim isso é o menos importante.
— E o que é importante para você?
Anthony a olhou de forma tão profunda que Lucy sentiu que ele pudesse ver sua alma, foi como se ela estivesse conectada ao olhar dele e não houvesse nada no mundo capaz que quebrar aquela ligação. Parecia que Anthony estava tocando-a da mesma forma que a tocou na noite anterior. Um toque de carinho, compromisso, intimidade, com uma pitada de prazer e assombro. Lucy sentiu suas bochechas queimarem, mas nem isso foi capaz de fazê-la desviar o olhar. Ela queria saber a resposta de Anthony.
— Eu quero dormir e acordar todo dia sabendo que fiz a melhor escolha. Quero me apaixonar todos os dias e ter a certeza que encontrei meu caminho, minha alma gêmea. Quero uma esposa não só para compartilhar minha herança, eu quero alguém pra compartilhar a minha vida.
Lucy não percebeu que prendia a respiração e se sentiu tonta. Sabia que o motivo era que queria ser merecedora de Anthony, ela queria viver tudo àquilo com ele e retribuir a altura. E foi nesse momento que soube que independentemente do acordo que firmaram na noite passada, sua escolha sempre seria Anthony. Anthony sabia que Lucy se sentou ali apenas para falar com mais privacidade sobre Penélope. Mas ele foi incapaz de deixar de admirar Lucy assim de tão perto. Quando terminou de falar ele queria completar com um “eu quero que esse alguém seja você”, mas ele sabia que era cedo demais, rápido demais e ele queria ser escolhido por ela.
Deus sabe o quanto ele queria. Por isso ele se manteve de boca fechada e passou a contemplar o rosto de Lucy. Viu a pequena cicatriz em cima da sobrancelha de Lucy, que foi provocada quando os dois eram pequenos e brincavam juntos na propriedade de sua família. Viu que os olhos castanhos dela tinham um pouco de âmbar circundando a pupila e aquele sutil e discreto detalhe fez com que ele perdesse completamente o controle e ele se aproximou ainda mais dela.
— Lucy... – ele disse com a boca seca, dessa vez olhando para os lábios entreabertos de Lucy. Ela os umedeceu e Anthony ficou hipnotizado. Um gesto tão comum, mas que ao ser feito por Lucy ganhava outra conotação. Quando ela desviou o olhar para os lábios de Anthony que estavam muito perto, ele acabou com a distância que existia entre eles.
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