Da Infância à Adolescência

1 Capítulo I. Colégio Interno


Notas iniciais
Yo minna-san! Alguns leitores talvez percebam que eu escrevo mais yaoi do que romance tradicional, mas surpresa: eu comecei escrevendo fics de SieghartxElesis, porque os amo, do fundo do meu coração! Essa fanfiction em especial é uma das primeiras que escrevi e a que recebeu melhor retorno. Por isso, depois de muito tempo, eu resolvi fazer um remake, mas dessa vez com muito mais técnica de escrita, enredo e afins. Continua sendo uma fic de colégio. Para quem não sabe, eu fiz a 2ªtemporada (mas ela está parada, em Hiatus) e a história... A história foi para um lado que eu não desejava. ENFIM. Ignorem a 2ª Temporada porque eu vou fazer remake dela também quando terminar essa. Boa leitura!

Mapa:http://aokiriday.deviantart.com/art/Planta3-JPEG-610166999?ga_submit_new=10%253A1463774899.

...

—HEEEY! – gritava desesperadamente um rapazinho de cabelos vermelhos e olhos do tom do crepúsculo.

O menino corria atrás de uma jovem que andava tranquilamente, rente a um imenso muro, em direção a uma portaria por onde luxuosos carros saíam por vezes.

A menina, que podia-se perceber, tinha cabelos medianos e ruivos, presos levemente com uma fita acinzentada, virou-se para quem a chamava. Ela possuía belos olhos vermelhos, da mesma cor enigmática do outono. Seu rosto possuía traços suaves e arredondados, sua franja era cortada reta, porém irregular.

—Elesis! – o menino exclamou, parando em sua frente e recuperando o fôlego.

Eles pararam bem em frente ao portão do prédio do que parecia ser um colégio, aquelas grades prateadas grandes que iam até 3 metros de altura, sem dúvida, magníficas. A menina olhou para o perseguidor, um baixinho com cerca de 1,47m, cabelos flamejantes como uma fornalha voltados para cima, além de olhos tão expressivos quanto os seus próprios.

—Els! Eu falei que não era para vir atrás de mim…

A garota intitulada Elesis ganhou uma expressão intimidadora e negou com a cabeça em repreensão.

—M-Mas eu não quero que você me deixe! A comida do papai é horrível! – disse o menino, alterado, demonstrando um desespero cínico.

—Hunf. Já falei Els. Eu preciso estudar nesse colégio querendo ou não porque é o único que o pai permitiu. Esqueceu que por ele ser investigador nós corremos vários riscos? Usa essa cabeça um pouco tá'? E eu vou cozinhar para você no fim de semana. Está bom assim? – ela indagou com um meio sorriso, segurando a alça da bolsa.

—Aproveita e faz para a semana inteira… — disse o pequeno rindo.

Este garoto excêntrico e esperto não era ninguém menos que Elsword Elsteiner, o irmão mais novo de Elesis. Em seus míseros 12 anos de idade o garoto era bem diferente da irmã, calmo e ao mesmo tempo irritante, uma “coisinha” legal de vez em quando. Elesis acreditava que ele era uma criatura de outro planeta, mas continuava sendo seu irmão. Falando sério, não havia necessidade de ter ido até ali apenas para se despedir sendo que já tinham feito isso naquela manhã.

Ele foi embora com um sorriso irônico, mostrando a mochila nas costas para a irmã. Era lógico que ele só estava de passagem para ir para o próprio colégio. Elsword deixou a irmã em frente ao famoso colégio interno de Czara, o Colégio de Vermécia, a Elite da Elite, ao qual conseguira ingressar no 2º ano médio.

Elesis atravessava o largo jardim de entrada com admiração. Dava para perceber que ali prezavam sem dúvida os cravos e os crisântemos, que floresciam majestosamente naquele verão, misturando-se num show fosforescente.

Seus olhos não saiam das flores enquanto andava, envolvida pela mais forte sensação de não pertencimento, mas também, um conforto que lhe dava vontade de sentar e observar. A brisa, úmida demais, não a incomodava, na verdade combinava com a atmosfera clássica e de estilo.

Ela aproximou-se do prédio principal, dando a volta pela fonte formosa, onde uma mulher de pedra segurava no ombro um jarro de onde saía água e na outra mão uma balança.

O relógio analógico ao alto movia-se lentamente nos números oito e cinco, comprovando que não fazia muito tempo desde que ouvira os toques característicos do sinal de entrada.

Elesis não demorou a passar o caminho, todo marcado até as portas de vidro. Imediatamente ela foi recebida pelo clima ameno de dentro do prédio e a dureza que o chão de pedra lisa transmitia. Sem falar nas janelas enormes barrocas e nas paredes escuras. Quadros de cubismo e futurismo se espalhavam assim como esculturas clássicas. Ali era uma bagunça artística, mas apesar da mistura tudo era muito confortável.

Ela avançou em silêncio para o balcão de mármore que lembrava o atendimento de hotéis internacionais. E viu atrás dele uma sala fechada, lia-se ADMINISTRAÇÃO em letras claras no vidro desfocado.

Seu olhar passou rapidamente por cima do mármore e ao encontra-la, tocou a campainha. Uma mulher atravessou pela porta daquela sala e parou à sua frente atrás do balcão.

—Bom dia, o que deseja? –perguntou a mulher. Usava óculos e tinhas cabelos louros, olhos verdes e sorriso controlado. Aparentava uns 20 e seu sorriso de boneca enganava bem. Em seu peito havia uma targeta com o nome “Misty”.

—Oi, bom dia. Eu sou nova aqui e me pediram para conversar com a diretora antes de ir para o meu quarto... Er... Dir. Lothos? – Elesis perguntou ainda meio confusa. Quando lhe passaram as instruções, falaram no nome da diretora, mas ela não tinha uma memória tão incrível para nomes então acabou se esquecendo.

—Sim, claro, Srta. Elsteiner. Pode subir para o terceiro andar por aquele elevador. – apontou a secretária com gentileza. – Siga até o final do corredor da primeira esquerda e vai chegar até a sala da Diretora Isolet. – disse a mulher levantando-se da cadeira e acompanhando Elesis até o elevador.

Assim que deixada sozinha, Elesis não conseguiu deixar de pensar que aquele lugar estava em outro nível. Eram muitos os filhos de pessoas renomadas estudavam ali, então não era muito estranho receber aquele tipo de tratamento.

Apesar de Czara ser uma cidade relativamente pequena, ela funcionava como um polo comercial. Entre a capital Serdin e a famosa cidade histórica Canaban, Czara se situava e conectava as mais importantes cidades, sendo que servia de metrópole entre estas e Eruel, a famosa cidade das indústrias. Em volta do centro, reuniam-se os distritos da porção média da sociedade. Havia a reserva natural do sul, que tinha uma grande vegetação remanescente da floresta que cobria toda a região. No meio de Czara também passava a maior rodovia do mundo, que se estendia desde Serdin e atravessava o famoso Vale para chegar até o território de Canaban, a Rodovia 99.

E ali mesmo reuniam-se as mais variadas figuras. No Colégio de Vermécia podia estudar qualquer um que passasse no teste de admissão, por isso o lugar era o centro de diferentes personalidades.

Quando Elesis saiu do elevador, silencioso e de sistema analógico, se viu de frente para o corredor vazio, iluminado pela luz natural atravessando as grandes janelas. O chão era forrado de carpete vermelho e havia uma porta de mogno ao fim, nela uma maçaneta dourada que ela ficou até receosa de deixar digitais.

—Com licença.

A ruiva deu dois toques e ouviu uma voz séria de confirmação. Ela pôs a cabeça para dentro da sala e adentrou sem demora, com a postura ereta.

A diretora a cumprimentou com um aceno. Cabelos loiros estavam presos em coque e a franja longa e ondulada caída pelo ombro. Seus olhos vermelhos, menores que os de Elesis, brilhavam com maturidade embaixo dos longos cílios delineados e dos óculos negros. Vestia um conjunto branco, saia e paletó. No colarinho, uma gravatinha vermelha com um “v” de metal como prendedor. Era uma mulher belíssima.

—Seja bem-vinda Srta. Elsteiner, eu sou a diretora do colégio, pode me chamar de Lothos.

—O-Oh, prazer. Meu nome é Elesis Elsteiner.

A mulher sorriu gentilmente.

—Eu vou te passar as regras do colégio e te passar um mapa. Seu material já está no armário reservado apenas para a sua utilização no corredor do 2º andar, assim como o de todos os alunos da sua turma. Tem alguma dúvida? Está ansiosa para o começo das aulas? – perguntou Lothos com um largo sorriso e estranha empolgação enquanto tirava os óculos e cruzava os dedos sob o queixo.

—Com certeza, Diretora. – Elesis respondeu com um sorriso. – Ainda que nervosa...

—Bom, todos ficam. – Lothos suspirou levemente, arrumando uns papéis e estendendo para a ruiva. – Existem alguns assuntos que tratamos com os alunos à parte, por questão social. Considere que aqui é um colégio interno, então temos regras que gostaria para que atentasse. Nós, responsáveis, precisamos interferir muitas vezes. Entendemos que são jovens, então precisamos deixar as coisas claras. Tivemos problemas seríssimos com a conduta de alguns dos nossos alunos uns anos atrás, por isso garantimos em esclarecer as essas regras aos recém-chegados. Certo?

Elesis não teve outro remédio a não ser assentir vigorosamente. Pelo visto até um lugar aquele tinha seus problemas.

—Bem. Não é permitido consumir álcool, ficar andando pelos corredores depois do horário permitido, usar aparelhos eletrônicos durante a aula exceto os que os professores indicarem, como calculadoras. Desacatar funcionários ou colegas é imperdoável. Brigas pessoais dentro da escola resultam em detenção e isso conta no currículo pessoal do colégio. Temos um sistema de pontos e ele influencia na avaliação final e pessoal do aluno. Armas brancas e de fogo não são permitidas. Cuidado com os materiais escolares, entendido? E mais uma coisa… Não é permitido entrar nos dormitórios do sexo oposto. Se for pega em flagrante será suspensa. Entendido?

—Sim, Dir. Lothos. – Elesis.

—Obrigada, Elesis. Posso ver que é uma garota responsável e fico feliz por isso. Bem... Na verdade essas regras estão todas em escrito e você recebeu uma cópia junto com o seu material, de modo que depois você poderá ler atentamente. O que realmente é necessário deixar claro aos alunos novos é o motivo de certas regras.

A menina piscou confusa, por um momento sentindo seu coração acelerar uma batida.

—A transição nos dormitórios era livre para todos os estudantes. Era um meio de aproxima-los. Acontece que um dos nossos alunos acabou levando a amizade longe demais e se envolveu com uma aluna dentro do colégio. – Lothos explicava em tom pensativo, até um pouco desolada. – Você pode imaginar os problemas que isso acarretou.

—S-Sim...

Elesis apertou a alça de sua bolsa, olhando o chão. Provavelmente nada de bom havia ocorrido depois disso. Os pais deviam ter ficado doidos e o casal provavelmente terminou bem mal. Dois idiotas. Ela uma idiota, ele um canalha.

—A aluna terminou grávida e os pais dos dois alunos nos processaram. Então dividimos os dormitórios e o combinado foi permitir que eles não fossem expulsos e continuassem estudando. É bem frustrante ter que deixar isso evidente para cada um que entra no colégio, mas é o melhor a se fazer e evitar desentendimentos. Isso é tudo. Você precisa ir para seu quarto e conhecer suas colegas.

—Muito obrigada, Diretora. Eu vou tomar cuidado. – Elesis disse agora mais relaxada. A conversa tinha sido franca, então ela não tinha nada a se preocupar se ela seguisse as regras.

A loira sorriu outra vez e assentiu com a cabeça.

—Bem-vinda.

—Obrigada.

A troca de olhares foi como um misto de aviso com sinceridade. Elesis foi abatida por um instante por um sentimento de preocupação. Como se talvez ela estivesse em perigo...

Como uma pessoa comum, ela ignorou completamente.

Por fim, ela se levantou pegando a mala e acenando antes de sair em direção ao elevador.

O mapa que recebeu, mostrava o prédio principal, que em comparação ao resto da estrutura do campus era menor que um grão. Foi aí que ela soube que teria que andar bastante para chegar até seu destino: o segundo prédio do dormitório feminino, o Bloco E.

XXX

A jovem de quinze anos não teve dificuldade em ler o mapa, mesmo porque o colégio já tinha sido estruturado de uma forma padronizada e fácil para se localizar. E ela estava familiarizada com cartografia, mapas e plantas, já que seu pai trabalhava com esse tipo de documentação quando estudava estratégia ou os lia apenas por curiosidade.

O problema era o tamanho. Os corredores pareciam não acabar e a distância do chão ao teto era tão grande que incomodava. Era colossal, parecia um palácio de pedra.

Ela demorou a sair do prédio de aulas e quando o fez se deparou com uma região enorme. Das portas de saída, havia um corredor coberto e cercado por muretas. Tudo era grama em volta e dezenas de árvores se espalhavam por esse espaço, que não era totalmente plano, mas confundia-se em planície.

Dali ela via o conjunto de prédios que reunia a população feminina do colégio, bem pequeno ao longe.

Elesis atravessou aquela área gigantesca, admirada pela extensão e pelo cuidado com que eram mantidas as áreas verdes. Era chocante para ela, que viera de uma academia de Canaban onde a única árvore era um carvalho, conhecido pelas famosas folhas que queimam vermelhas no outono, o símbolo da Academia Cavaleiros Vermelhos.

Alguns jovens conversavam sentados em mesas e embaixo das árvores mais copadas, provavelmente relembrando os anos anteriores e colocando a conversa em dia.

Elesis apertou nos dedos a bolsa e seguiu seu caminho, alcançando os grandes blocos depois de alguns minutos.

Eram 6 prédios que compunham o dormitório ao todo no campus, de acordo com o mapa, perfeitamente organizados e construídos especificamente para abrigar o número exato de 1000 alunos.

Uma Elite mesmo, era isso que aquele lugar era.

Os Blocos A, B e C pertenciam ao dormitório masculino, respectivamente para universitários, colegiais e fundamentais, no lado direito do terreno.

E os Blocos D, E e F compunham o dormitório feminino, assim como para os rapazes, respectivamente para as universitárias, colegiais e fundamentais, no lado esquerdo do terreno.

Ambos os dormitórios eram realmente distantes.

Pelo que ela se lembrava da conversa com seu pai, todos os prédios possuíam 5 andares, cada um com 30 quartos. Cada andar possuía 6 quartos. Em cada quarto moravam 6 estudantes.

Pelo menos as formações Fundamental e Colegial funcionavam com essa divisão, pois possuíam exatos 360 alunos cada. Já a Universidade possuía 280 alunos e acabavam sobrando quartos.

Enfim, Elesis não demorou a localizar-se rapidamente, avistando seu prédio, o Bloco E. Tomou o elevador direto para o quinto andar, aliás, o último, onde ficaria à frente do apartamento número 148, o antepenúltimo do andar.

Por educação ela bateu, ainda que hesitante, e esperou alguns segundos. Mas não recebendo resposta não teve remédio a não ser entrar por conta própria.

—Er... Oi? – Elesis indagou ao se deparar com uma pequena sala e nela uma menina empoleirada num sofá rosado assistindo à televisão.

A menina tinha cabelos curtos violeta, olhos grandes da mesma cor e acima deles uma franja em “v”. O tipo garota fofa que Elesis costumava ver bastante na televisão, a garota delicada pequena que arrancava corações com sua fofura. A tal desviou os olhos do programa de culinária que passava. Sua reação era de surpresa.

—Oh! – exclamou ela num sobressalto, voltando-se para a cozinha, juntando as mãos em concha. – Lire! Ela chegou!

Elesis a assistiu dar uma risadinha infantil e vir em sua direção, aquele mísero 1 metro e 39 centímetros de altura com olhos de animal de pelúcia, parando na sua frente sem falar nada.

Do que seria a cozinha do apartamento saiu uma garota de aparência mais madura que a anterior. Via-se pelos cabelos longos louros, de extensão e brilho invejável, além da pele clara e os olhos que eram duas esmeraldas vivas, que se tratava de uma dessas "Ladies" que falavam por aí, aquelas filhas de presidentes e artistas que comandam o país inteiro.

—Olá! – ela cumprimentou com um sorriso radiante. – Me chamo Lire, sou a filha mais nova da Família Eryuell. A diretora disse mesmo que você chegava hoje! Muito prazer!

A ruiva assentiu, gostando um pouco mais da loura, que era muito educada, mas sincera. Enquanto esta usava um vestido verde-claro de babados sob o avental branco de cozinha, a pequena usava uma saia lisa rosa-bebê e uma blusa de alças rosa de listras. A diferença de personalidades era palpável.

—Sim. Me chamem de Elesis. – apresentou-se brevemente, contendo um pouco do nervosismo da sensação "primeiro dia na escola nova".

As duas se entreolharam antes de rirem um pouco entre si e pararem.

Não soube por que, mas Elesis se sentiu deslocada. Foi seu sotaque? Era verdade que ela falava duro como um tenente, seu pai a criara assim e as pessoas de Canaban falavam assim.

—Eu sou a aluna gênio da renomada Academia Violeta, de Serdin! Arme, da Família Glenstid. – disse a baixinha gabando-se até os dentes. Sua pose era de nerd convencida, mas não incomodou Elesis completamente. Sabia bem que os alunos da Academia Violeta eram todos superdotados, então não tinha o que discutir.

A reação da ruiva foi apenas um sorriso fraco para a garota. Ela apenas não suportava pessoas que se achavam muito especiais e só discutia com elas caso se viessem provocá-la. O mesmo valia para a tampinha com ego maior que o corpo.

—Então, Elesis... Vou te mostrar a casa, sim? – a loura ofereceu-se simpática, estendendo a mão para indicar o caminho.

A cozinha era compacta, prática e limpa. Comportava uma pia, um armário de parede, onde guardavam os utensílios básicos de cozinha, a geladeira e o microondas. Os aparelhos ficavam nos armários de baixo e os produtos. Os ímãs de geladeira tinham rostos, parecendo muito com Lire e Arme, além de mais dois rostos, uma menininha de chiquinhas rosadas e uma de cabelos longos e ondulados, rosados também. Na mesa de três lugares havia uma bandeja repleta de biscoitos recém-assados aparentemente feitos por Lire.

A sala, como tinha visto antes, possuía o sofá estofado de três lugares num tom salmão, uma televisão LED na parede e da janela, que era mais uma vidraça comprida, podia-se ver o imenso jardim que separava o dormitório feminino do masculino, visto através das árvores bem ao longe.

—O banheiro é bem normal. – Lire disse, apontando para uma porta. – Mas sem banheira, o que é uma pena.

—Hmm. – Elesis assentiu. Na verdade ela não ligava, mesmo porque ela se lembrava das fontes termais de Canaban, aliás, muito famosas no país e não gostava muito delas porque sempre era arrastada pelas colegas a ficar nua e estar o tempo todo entre elas, sendo lembrada sempre de "como seus peitos são pequenos". Não a agradava muito a ideia mesmo que fosse uma banheira.

—Os quartos são em três e cada apartamento tem seis moradoras. – explicava Lire, gentilmente abrindo as portas dos primeiros dois quartos.

—Eu estou com outra menina! – sorriu Arme. – E a rainha do dormitório é a Rey por ser mais velha. A companheira dela não fica muito no quarto. Na verdade é bem raro ela estar aqui, por isso você não vai vê-la muito.

A ruiva assentiu com a cabeça, ignorando o ar de "Você vai ter que se adaptar aqui, querida" que a garota baixinha expelia de maneira insolente.

"Então são mesmo dois por quarto... Mas não é muita gente?" Indagou a si mesma. “Podiam colocar alunos nos quartos que sobravam do Bloco E”.

Lire tomou a frente, se dirigindo ao quarto ao fim do corredor. Bateu duas vezes e esperou alguns segundos, mas não recebeu resposta alguma.

—Deixa para lá. Você quer arrumar suas coisas? – perguntou a loura, sorrindo com aquele jeito de moça respeitável. – Você vai ficar comigo se não se importar.

—Sim, claro.

O quarto de Elesis já tinha sido decorado. O toque delicado de Lire estava impregnado no lugar, as flores adesivas na parede clara, assim como o quebra-cabeça completo, de uma paisagem natural, emoldurado sob as duas escrivaninhas e o tapete felpudo verde-musgo gostoso de pisar. Além disso, as cortinas eram claras e leves, deixando a brisa entrar no espaço lentamente.

O guarda-roupa era embutido e tinha exatamente dois espaços grandes o suficiente para o dobro do que tinha trazido de casa.

A cama de baixo do beliche já estava ocupada. A roupa de cama era delicada, verde cheia de flores brancas. Dava para perceber que a companheira de quarto parecia adorar essas coisas.

Elesis considerou o ambiente confortável.

—Me desculpe se exagerei. Se algo te incomodar... – a loura começou, rindo envergonhada.

—Está ótimo assim, eu não sou muito exigente.

A menina balançou a cabeça, concordando, e a deixou para poder organizar seus pertences que haviam chegado pela manhã.

"Não vai demorar muito...". Elesis pensou, puxando suas malas para perto do guarda-roupa.

Dentre suas coisas, havia uma infinidade de roupas que seu pai fazia questão de comprar toda vez olhava para uma vitrine, isso ainda em Canaban algumas semanas antes da mudança. Ela gostava de se lembrar, ainda mais porque seu irmão menor atrevido ficava reclamando o tempo todo que ele era ignorado naquela família.

Seu pai lhe dissera diversas vezes: "Você não pode esquecer suas origens, Elesis. Pode levar o que quiser daqui, eu compro". E ela agradecia o gesto do pai, ainda que as roupas fossem fabricadas em outra cidade. Mas o velho não precisava saber disso.

Olhando melhor, ela percebia mesmo que era diferente.

Não havia como comparar. Ela vestia-se bem pouco com vestidos e saias, exceto a saia do uniforme. Suas calças deixavam em evidência apenas suas pernas e cintura, as camisas eram sempre lisas e unicolores, geralmente pretas ou vermelhas, para combinar com o cabelo. E de calçados ela tinha garantido umas sapatilhas para variar, mas geralmente ela resumia seu dia a dia na bota de couro que era um presente de seu pai de uns dois anos atrás e que ela nunca deixou de usar.

Como nativa de Canaban, era inevitável que as pessoas ao redor percebessem seu sotaque, conhecido por ser rígido e gutural, além do modo direto de conversar. Ela viera para esse lugar com consciência de que as cidades próximas de Serdin, a capital de Vermécia, consideravam a "Cidade Vermelha" uma cidade ultrapassada, mesmo que ela tivesse sido a capital original do país. Sabia que seu pai não tivera escolha a não ser vir à Czara por causa do trabalho.

Elesis sabia que tinha que encarar a realidade, mesmo que ela não se importasse muito consigo mesma, apenas para deixar seu pai e seu irmão tranquilos, sem causar aos dois únicos parentes nenhuma vergonha. Ela se tornaria "uma garota da cidade" para não causar problemas a si mesma e a eles também.

Terminado o serviço ela trocou de roupa, dirigindo-se ao banheiro.

"Resta apenas conhecer o colégio. A cerimônia de abertura é amanhã e não estou a fim de ficar perdida por aí". Ela sorriu, tirando o mapa do bolso, dobrado em quatro partes. "Isso é tudo o que preciso".

—Isso vai ficar solto. – Elesis discutiu consigo mesma frente ao espelho, desfazendo o rabo de cavalo e reajustando a franja sobre a testa. Ela ajeitou os fios naturalmente ruivos próprios de sua família e os deixou cair sobre os ombros.

"Não faz tempo que eu desisti da franja repicada. Ainda me sinto estranha, mas é melhor evitar qualquer problema como antes. Assim parece... Como dizem? Mais fofo".

Elesis concluiu sua conferida no espelho e esfregou as mãos, decidida. Estava pronta para ir conhecer o colégio interno, de ponta a ponta.

—Ok. – ela sorriu, virando-se para sair.

Logo que abriu a porta, percebeu dois vultos passando à sua frente. Curiosa, ela saiu do banheiro e olhou as costas das pessoas que vieram da direção dos quartos.

Uma tinha o contorno de uma mulher. Alta, cabelos longos e incrivelmente ondulados, róseos. Tinha curvas marcadas e corpo esbelto. Ao lado dela, uma pessoa ainda mais alta, só que esta tinha ombros e costas, ou melhor, tudo muito mais musculoso e mais bronzeado sob a camisa sem mangas negra.

"Hm... Um cara". Elesis piscou lentamente, andando na direção deles. "Um cara?"

Ela relembrou a conversa com a diretora uns minutos mais cedo.

—U-U-Um cara! – Elesis exclamou automaticamente, apontando na direção daquela pessoa.

Ao ouvi-la, ambos viraram.

—Olha, Rey. Uma garota nova. – disse o rapaz, encarando-a sem nenhuma preocupação na face.

Ele tinha um olhar forte que combinava com sua cor morena. O cabelo era curto, mas arrepiado como um ouriço em cima e comportado em baixo, todo roxo. Os olhos eram afilados e as pupilas finíssimas, como as de um gato, roxos de uma aura sombria. Ele soava como aqueles caráteres selvagens. Até mesmo seus caninos eram meio pontudos e seus cílios eram longos e apaixonantes.

—Ora. – respondeu a acompanhante, que por acaso era a "rainha do quarto", como Arme havia apelidado. – Meu nome é Rey Von Crimson, mas você deve saber quem eu sou.

Elesis fechou a boca, endurecendo seu olhar. A garota era realmente uma rainha pelo visto para falar assim. No entanto, antes que respondesse com toda sua boa educação, o rapaz interferiu.

—É raro vermos uma estudante tão peculiar por aqui. Você não é aquela que todos estão comentando? A Elsteiner?

Peculiar em que sentido?— Elesis murmurou a si mesma e então o questionou. -Sim... Como sabe meu nome? E por que estariam comentando?

Para ser sincera, ela não esperava que logo antes das aulas já soubessem que ela estava ingressando. E quem era ela para as pessoas se interessarem?

—Ah, você não sabe? – ele indagou num sorriso. – É bastante difícil passar no teste do Colégio de Vermécia. Você é um dos poucos nomes que foi anunciado logo que lançaram as aprovações e também teve uma publicação da lista de matriculados.

—Sério? Então meu nome já é conhecido por aqui? – Elesis perguntou hesitante. Não queria isso, não queria que as pessoas soubessem quem ela era enquanto andava pelo corredor. Tinha pensado que ia ficar mais ou menos nas escuras da sociedade! Foi tudo em vão!

—Bem. Os mais velhos ficaram impressionados porque você é ingressante do segundo ano, não do primeiro... E também é a primeira estudante que se transferiu de Canaban. Seu nome tem origem de lá e, sinceramente, é bem raro uma pessoa daquela cidade tentar formação em outro lugar.

Era verdade. Elesis olhou para o chão. Havia uma profunda rixa com Serdin na história do país desde a fundação e Canaban sempre fora uma cidade militar separada do restante. O orgulho canabano era conhecido até os tempos atuais.

O silêncio fez o rapaz mudar de assunto.

—A propósito, meu nome é Dio. – ele estendeu a mão para a ruiva, com um sorriso gentil. — Dio Burning Canyon. Deve ser difícil para você encarar essa mudança, mas essas garotas vão cuidar bem de você, eu garanto.

Elesis fugiu de seus pensamentos, fitando o rapaz, meio desconfiada e meio agradecida pelas palavras de incentivo. Parecia um empresário falando, até os gestos, apesar de a roupa não fazer jus à atitude.

—Eu devia mesmo acreditar num cara que está quebrando uma regra do colégio? – Elesis perguntou automaticamente, levantando a sobrancelha, encarando a mão que lhe era oferecida.

Neste instante a garota ao lado segurou uma risada zombeteira.

—Rey! – o rapaz, Dio, a olhou repreensivo. Mas não tinha jeito, ele suspirou, ainda mantendo a mão. – Você não precisa acreditar, Ruiva. Eu sou um cara de palavra e não concordei com nenhuma das que Lothos disse a mim quando ingressei também.

Elesis riu mentalmente. Ele tinha lábia, o safado.

—A propósito, meu nome é Elesis.

—Elesis. – ele repetiu, como se experimentasse o nome em sua boca, segurando também um sorriso esperto.

A ruiva enfim apertou-lhe a mão. Não devia ser a primeira vez dele naquele quarto, então ela nada tinha a dizer, seu silêncio valia muito mais na situação em que estava.

Rey encarou-os um tempo. Seus olhos eram verdes, mas diferente de Lire, eram muito grandes e seu tom era levemente mais escuro. Usava batom rosado e brilho nos lábios pequenos e muito bem desenhados.

Dio, que havia terminado o aperto de mãos, deu uma risada.

—Você é a primeira que realmente apertou minha mão.

Elesis enrubesceu, surpresa. Não tinha entendido bem.

—E não era para apertar? Era um cumprimento, então eu retribui só isso. – ela respondeu sem hesitar.

Ele sorriu para Elesis, assentindo a cabeça, e depois para Rey.

—Até depois. – ele inclinou-se e beijou os lábios dela, segurando-lhe a face.

Elesis pode ver os cílios dela, longos e perfeitos fechando-se enquanto compartilhavam um beijo rápido, mas profundo.

Por maior que fosse sua surpresa, Elesis percebeu num instante que aquela intensidade só podia ser parte de um laço muito forte. Não havia nunca visto dois adolescentes se beijarem com aquele sentimento que só se vê entre os pais.

Ela ficou tão impressionada que a deixaram ali e ela ainda estava parada, pensando. Depois de uns instantes, ela foi chamada por Arme.

—Você não parece ter namorado.

Elesis não pôde conter o rubor em sua face, visível por culpa de sua condição ruiva.

—Uau! – a baixinha riu cheia de zomba. – Não precisa ficar com vergonha não. Nesse lugar há dezenas de caras bonitos e ricos que podem acabar se apaixonando por você.

Elesis pensou um pouco. Ah, que garota de dezesseis anos não quer namorar? Ter o cara mais bonito da sala aos pés? Beijar pelos cantos até cansar? Ela mentiria se dissesse que não, mas também não mentiria dizendo que ela era um sucesso em sua antiga academia.

—Não estou muito interessada nisso agora.

Lire irrompeu na conversa, agora despida do avental.

—Para com isso. Há muito para ver ainda nesse lugar. Tem muitos idiotas, mas também tem uns rostos que você não pode deixar passar. – ela aproximou-se de Elesis, falando sonhadora. – Você tem que aproveitar enquanto é jovem.

Arme riu, levantando-se do sofá.

—Lire fala como se fosse muito velha.

A loura a olhou, irritada.

—Não sou velha, sou realista. – ela apontou. – Agora nós vamos para a pré-cerimônia, ainda bem que você se trocou Elesis. Falta batizarmos você agora.

—Batizar?

—Puxa, eu quase pensei que você era um caso perdido quando entrou aqui. – Arme comentou enquanto segurava seu braço. – Mas você é muito bonita, claro que vai fazer sucesso.

—Do que está falando? – Elesis indagou confusa. – Como assim batizar?

Rey interferiu na conversa.

—Parem de enrolar... O apelido só pode ser Eli, não é? Não adianta pensar muito sobre isso. – ela inferiu, aproximando-se da ruiva e pondo a mão no seu ombro. – Seu apelido vai ser Eli porque não consigo pensar em um melhor, entende? Isso é seu batizado.

—Reyyy! Não tira a graça da brincadeira! – reclamou a garota menor, bufando.

Lire deu de ombros apenas.

—Eu também pensei em Eli. – Lire sorriu.

—Ei, vocês...

Elesis depois ainda tentou ter uma palavra na conversa, mas acabou sendo ignorada e tratada apenas como "Eli-chan" de qualquer forma.

Continua

Notas finais
Yo minna-san!Se você leu a versão original, olá de novo! Se você está lendo agora, muito bem vindo!Eu sei que 4000 palavras às vezes é cansativo, mas esse é o meu número agora.Espero que gostem da fanfiction! Me esforçarei para entreter vocês a partir daqui!Um abraço, da autora