DRAMIONE - ENQUANTO O ANO NÃO ACABAR
4 Capítulo 4 - Conflitos Internos
DRACO
Terça-feira, 17 de setembro de 1996
— Como expliquei ontem na biblioteca, não há qualquer chance de ocorrer mudança nas duplas Sr. Malfoy — Minerva Mcgonagall disse rispidamente, olhando o garoto louro por cima dos óculos — as duplas já foram escaladas e qualquer mudança bagunçaria tudo. Além disso, ninguém mais veio a minha procura em busca de mudanças. As duplas foram organizadas de forma que os pares se complementassem em seus estudos.
Draco Malfoy se encontrava em pé, no centro da sala pessoal da Professora Mcgonagall. Aquela manhã tirara um tempo antes de sua primeira aula para falar com a bruxa a respeito de sua dupla no programa de monitoria. Como havia dito no primeiro dia na biblioteca para seu próprio par, o garoto se recusava a ser ensinado pela garota, pois além de ser uma sangue-ruim, ainda fazia parte do trio que mais o atormentara nos últimos anos desde que chegara a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Em sua memória ainda era vivida a lembrança da noite anterior, quando Hermione quase o flagrara deixando a Sala Precisa, onde se encontrava tentando consertar o armário sumidouro. De início temeu que a garota o houvesse seguido e descoberto acerta do que andara fazendo, mas a julgar depois pela expressão da menina, se convenceu de que havia sido apenas uma infeliz coincidência.
— Mas professora — retomou Malfoy a palavra — Você sabe que eu e Granger não nos damos bem. Somos diferentes...
— Diferentes como Sr. Malfoy? — a bruxa arqueou as sobrancelhas por cima dos óculos. Draco sabia que a professora não gostava dele, mas devia tolera-lo por conta de seu trabalho — não vejo diferença alguma entre vocês. Me parecem perfeitamente normais e saudáveis. Apenas duas crianças tolas que resolveram fazer eu perder minha manhã hoje com assuntos banais. A Senhorita Granger também veio a minha sala mais cedo, e direi para você o mesmo que disse a ela. Minha palavra final é que me mantenho firme acerca disso, não mudarei as duplas e ponto.
— Sendo assim não vejo escolha a não ser desistir do programa — o garoto devolveu a fala, não fazendo mais questão de esconder o descontentamento em seu rosto — a senhora pode tirar meu nome da lista.
— Se essa é sua escolha Sr. Malfoy, então é só parar de frequentar a biblioteca a partir de amanhã, com três faltas será pontuado em seu nome como desistência — a professora se mantinha firme em sua fala, também não fazendo mais questão de esconder a chateação em suas feições.
— Com licença — Malfoy falou secamente.
Dando meia volta, retirou-se da sala de Minerva, seguindo para sua primeira aula do dia.
...
Fazia meia hora desde que Horácio Slughorn dera início a sua primeira aula de poções do dia, para o sexto ano. Alunos da grifinória e sonserina dividiam essa aula. O assunto da manhã era acerca das diferentes ervas utilizadas no preparo para um antídoto eficiente contra a poção do amor que o professor havia introduzido na semana anterior. O garoto dividia a mesa com Crabbe, Goyle e Pansy.
Draco estava aéreo. Na realidade, não se importava com nada daquilo que era dito naquela aula. O único momento em que de fato chegou a se interessar pelo estudo de poções foi quando o professor prometera um frasco de Felix Felicis ao aluno que conseguisse replicar a receita da poção do amor. Potter quem levou a melhor, e após esse episódio, o garoto louro se desligara totalmente das aulas do Professor Horácio.
Estava quente e abafado na sala, fazendo com que Draco perdesse mais ainda o foco, e vez ou outra seus olhos fechavam e precisava piscar várias vezes para afastar a sonolência. Com o intuito de preservar a temperatura ideal para os ingredientes da poção, a sala tivera as cortinas e portas fechadas, e a única fonte de iluminação do local era um candelabro aceso no meio do recinto.
Sentia sono pela noite mal dormida, pois após seguir para seu dormitório depois do encontro repentino com Hermione, Draco esperara todos adormecerem para retornar a sala precisa com o objetivo de retomar sua tarefa. Com a ajuda de Snape e sua promessa de ajudar o garoto no que fosse preciso, em sua caminhada de volta para a sala não fora interceptado por ninguém.
Sua cabeça pendeu um pouco para frente, piscou mais algumas vezes para afastar o sono. E ao levantar o olhar flagrou o trio de que menos gostava no mundo olhando para ele e cochichando algo entre si.
Uma pontada de raiva começou a tomar conta do garoto. Com certeza Hermione Granger deveria ter contado aos rapazes acerca do encontro da noite anterior, e a conhecer Harry Potter não demoraria muito para que o rapaz resolvesse meter o nariz aonde não era chamado.
Sorriu com escárnio para os três. Harry e Rony fecharam a cara em retorno, e Hermione permanecia com uma expressão neutra. Se havia algo que ainda acendia em si uma faísca de divertimento, algo que quase perdera por completo nos últimos meses, era chatear o trio queridinho da escola. Aquilo ainda o divertia bastante, e era incrível o prazer que aquilo o proporcionava.
Ainda se entretendo, Malfoy deu uma piscadela proposital para Hermione que na mesma hora mudou sua expressão neutra para algo entre a raiva e o embaraço. Harry fazia uma cara de nojo ante a provocação. E o rosto de Rony agora estava da cor de seus cabelos.
Contendo uma gargalhada, Draco fez bico e mandou um beijo silencioso para Hermione. Era palpável no ar a vontade que Rony Weasley tinha agora de se levantar e atacar o rapaz de cabelos louros.
— Ãh ram, creio que a poção do amor que ensinei a vocês semana passada realmente funcionou — Horácio Slughorn pigarreou, chamando a atenção de todos, incluindo dos quatro, para si — e vejo que o Senhor Malfoy não tem interesse algum em aprender um antídoto para isso, pelo que parece está mais interessado em trocar flertes diretamente com a Senhorita Granger.
Foi a vez de Malfoy de ficar vermelho. Todos os alunos presentes na sala viraram para olhá-los, com interesse. Crabbe e Goyle não haviam entendido o que o professor falara, e Pansy o olhava pelo canto do olho, desconfiada. O trio no outro canto da sala se encolheu, e Hermione quase afundara totalmente em sua cadeira.
— Peço desculpas se estou atrapalhando os pombinhos — o professor de poções olhava seriamente para Draco e Hermione — mas vão ter que continuar com isso em outro lugar, agora se me permitem voltarei para minha aula. E menos dez pontos para a Sonserina e Grifinória pela distração causada.
Ouviu-se murmúrios de descontentamento pela sala, e logo todos se aquietaram temendo perderem mais pontos.
Malfoy ainda estava vermelho, fechara as mãos com força, escondendo-as ao lado do corpo. Pressionava fortemente suas unhas na pele, tentando conter a raiva.
"Como esse velho se atreve a insinuar uma maluquice dessas", pensou. Sentindo a fúria agora tomar conta de si. "Preferia a minha própria morte a ter que me relacionar com uma sangue-ruim".
Sua marca agora coçava em seu antebraço. Aquilo o irritou mais ainda, e uma súbita vontade de arrancar aquilo de sua pele surgiu. Odiava aquela marca com todas as suas forças. Era como se toda vez em que sentisse raiva ou irritação, aquilo multiplicasse seus sentimentos negativos, fazendo com que diversas vezes chegasse a perder o controle. E mais do que qualquer coisa no mundo, Draco odiava perder o controle. Odiava ser tomado pela fúria. O rapaz sabia que não tinha o temperamento fácil, mas também sabia que aquilo não era ele, e acima de tudo não gostava de não se sentir como ele mesmo. Odiava sentir sua personalidade sendo arrancada de si e substituída por algo sombrio do que conseguia imaginar.
Passou o restante da aula com o olhar baixo e as unhas cravadas na pele, tentando manter a calma.
...
A aula de poções por fim terminou. O quarteto da sonserina: Draco, Crabbe, Goyle e uma Pansy que o indagava com irritação o que havia acontecido mais cedo, seguiam em busca de sua próxima sala.
— Vá se ferrar Malfoy! — Draco ouviu do outro lado do corredor, logo atrás de si, a voz de Rony Weasley se aproximando — por causa da sua gracinha idiota você fez a gente perder ponto!
— Rony, para de dar vexame — Hermione o acompanhava logo atrás, esbaforida, seguida por Harry.
— Rony não vale a pena... — Harry apressou o passo para acompanhar o garoto.
— O que é Weasley? Pontos é? Por acaso está com ciúmes da namoradinha? — Draco respondeu com um sorriso sarcástico — se eu soubesse que isso o irritaria tanto teria mandado logo dois beijos.
Foi a vez de Crabbe, Goyle e Pansy ficarem sem palavras. O ruivo a sua frente gaguejou buscando uma resposta ante a provocação, Hermione ficara vermelha e Harry fez cara de desgosto.
— Que nojo Draco — Pansy se adiantou, com desdém — isso é demais até pra você — Insinuar isso mesmo de brincadeira pra essa ai.
— Parkinson não enche tá? — Hermione respondeu com rispidez.
— Você é mesmo um mal caráter sua doninha — Rony demonstrava fúria em suas feições.
Alguns alunos que passavam pelo corredor pararam, curiosos com o que estava acontecendo.
— Relaxa Weasley, jamais faria qualquer coisa com sua namorada. Pelo menos da minha parte, já da dela não sei, acho que ela tem me seguido ultimamente, é bom você ficar de olho nisso ai — com um último sorriso maldoso em direção a Hermione com o intuito de irritar mais ainda o rapaz ruivo — te vejo amanhã Granger, no horário combinado — deu uma piscadela para a garota e saiu sendo puxado pelo braço por uma Pansy Parkinson furiosa, com Crabbe e Goyle boquiabertos logo atrás.
...
Já era quase fim de tarde quando Draco chegou aos pés da escadaria que levava ao corujal. Aquele havia sido um longo dia, e para piorar Pansy ainda passara metade dele grudada no rapaz demonstrando ataques de ciúmes de tempos em tempos. A garota levara a brincadeira a sério demais e aquilo o cansava, pois não havia nada entre eles, pelo menos da parte do menino não. Na verdade, raríssimas eram as coisas que não o cansavam ultimamente. Nada prendia sua atenção o suficiente para que chegasse a achar algo interessante, até o quadribol de que tanto amava não parecia mais tão importante e divertido. As poucas vezes em que o rapaz possuía tempo para descansar preferia o gastar deitado em sua cama, olhando para o teto e vendo os minutos passarem.
Era terça-feira e sabia que era dia de receber correspondência dos pais, pois combinaram assim. Apesar de definirem códigos a serem ditos por meio das cartas, para evitar qualquer problema caso as interceptassem, o pai, principalmente, passou a preferir que ele as recebesse em outro local que não o Salão Principal, longe dos olhares dos professores.
Lúcio Malfoy quase fora pego no incidente do Ministério de Magia, contudo, para sua sorte não fora avistado por ninguém, diferente de sua tia Belatriz que todos agora sabiam que havia matado Sirius Black. O pai não fora flagrado e não haviam provas concretas contra ele, mas agora mais que nunca estava sendo vigiado, pois as suspeitas em cima do chefe da família haviam crescido.
Por conta da frustração de estar sendo perseguido onde quer que fosse, Lúcio se tornara um homem extremamente amargo e grosso, e passou a destinar todo o seu mal humor a Draco e Narcisa. Forçando ainda o menino, e também por coação do Lorde das Trevas, a se comprometer logo como comensal da morte, apesar dos pedidos desesperados e chorosos da mãe de que ainda era muito cedo para tal.
Adentrou a sala das corujas, onde não havia mais ninguém além do menino louro, sendo inundado logo em seguida por um cheiro forte de excremento. Cobriu o nariz com as mãos, a fim de evitar o mal cheiro e se dirigiu até o bicho da família. Uma águia-coruja da eurásia de pelagem marrom esperava pelo garoto, observando-o com seus grandes olhos vermelhos. Era a maior coruja do recinto, e a julgar pela expressão do bicho, ele sabia disso e demonstrava orgulho.
Em sua pata se encontravam duas cartas, a primeira de caligrafia delicada, pertencia a mãe.
Quebrou o selo e leu:
Meu querido filho,
Sei que faz somente duas semanas desde que você partiu, mas quero que saiba que sinto sua falta todos os dias. A casa ultimamente está mais silenciosa que nunca, principalmente por que você não está aqui.
Rezo todos os dias por você. Pela sua saúde e segurança. Sei que esse ano não será fácil, pois é seu penúltimo ano e você está crescendo cada dia mais rápido, e junto disso vem responsabilidades maiores. Mas apesar de tudo quero que saiba que sua mãe está aqui para o que precisar, e sempre estarei.
Não se esqueça de focar nos estudos, e sei que a ideia da monitoria não lhe agradou mas eu fiz isso pelo seu bem, depois me conte como tem sido. Tire notas boas meu filho, o dia de amanhã nunca sabemos como será.
E Por favor não se esqueça de se alimentar bem e praticar exercícios. Não deixe de cuidar do seu corpo.
Amo muito você.
Com amor,
Narcisa Malfoy.
Malfoy esboçou um sorriso ao terminar de ler a carta. Prestes a eclodir a Segunda Guerra Bruxa e sua mãe ainda se preocupava se o garoto iria tirar notas boas ou não.
"Mães...", pensou.
A segunda carta de tão curta que era estava mais parecida com um bilhete. A caligrafia era mais desleixada.
Draco,
Sua mãe esqueceu de acrescentar, mas você esqueceu algumas roupas em casa. Semana que vem iremos enviá-las. Já fazem duas semanas desde que partiu e deve estar sentindo falta delas.
Lúcio Malfoy.
Sentiu bile subir pela garganta. Seu estômago embrulhou e se sentiu tonto. Aquilo era um sinal. O sinal que eles haviam combinado.
Desde que chegara Draco ainda não havia dado notícias acerca do conserto do armário sumidouro. Trabalhara incansavelmente desde então, mas nada parecia funcionar e já estava começando a entrar em desespero. O garoto já sabia que não seria fácil e demandaria tempo, mas não pensara que em duas semanas ainda não haveria tido nenhum progresso. E agora eles queriam testar para ver o andamento das coisas... ainda era muito cedo. O Lorde das Trevas deveria estar com pressa.
O sonserino foi inundado por uma onda de pânico. Sentiu muito medo por si e pela família.
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