DOCTOR WHO ~SB~ Overture do Picadeiro Cinzento
2 Número II: O Salto dos Trapezistas Renegados
O ar nos corredores da CIA cheirava a metal e ozônio — aquele cheiro específico de tecnologia temporal que nunca saía completamente das roupas. Passava por mais uma câmera de segurança, olho vermelho piscando no intervalo de sempre.
Precisava de ajuda.
Não era pânico, era cálculo. Por mais que minha percepção temporal fosse afiada, por mais que o Vórtice tivesse deixado marcas na minha voz, investigar uma conspiração nos níveis mais altos da CIA sozinha seria suicídio espetacularmente estúpido. E por mais que Elvatrix nunca me deixasse esquecer que eu era impulsiva — ela não estava errada nisso, mas estava errada em quase tudo o mais.
A CIA estava fora de questão. Especialmente depois do confronto, quando a máscara de Narvina caiu e a realidade das últimas semanas finalmente fez sentido: cada missão atribuída, cada relatório devolvido com tinta vermelha, cada promoção que sumia no horizonte. Não eram falhas minhas. Era estratégia.
A raiva voltou a queimar no peito como brasa enterrada. Forcei uma respiração longa, contando os segundos entre inspiração e expiração. Técnica que Kirana me ensinou aos oito anos. Ainda funcionava. Nem sempre, mas funcionava.
Raiva não resolve nada. Ação resolve.
Dois nomes vieram imediatamente: Trixye e Kaelion.
Trixye — Velatrix Kanival, para quem não tinha permissão de abreviar — era do Círculo Obsidiano e carregava o peso disso como segunda pele. Conhecíamo-nos da Academia, onde nossas personalidades haviam colidido e depois, de maneira estranha, se complementado. Não éramos próximas no sentido que a maioria entenderia. Trixye mantinha distância emocional de praticamente todo mundo. Mas nos respeitávamos, o que para ela valia mais do que afeto.
Kaelion — Kaelion Vyntra, ex-ladrão do submundo gallifreyano, informante relutante da CIA — era uma categoria à parte. Astuto, sarcástico, perigosamente inteligente, e constitucionalmente incapaz de respeitar protocolo. Conhecera-o durante missão onde precisei de acesso a setor restrito e ele fornecera os códigos com um sorriso que sugeria que estava fazendo um favor que eu devolveria. Desde então mantínhamos uma relação estranha — reconhecimento mútuo de pessoas que não cabiam nas caixas que a sociedade tentava encaixotá-las.
Encontrar Trixye nunca era difícil para quem a conhecia. Enquanto a maioria dos Chronarchs do Círculo Obsidiano trabalhava nos andares superiores, ela preferia os subníveis. Cofres de dados antigos enterrados no subsolo, onde informação era poder bruto e não-filtrado.
Naveguei pelos corredores subterrâneos com a familiaridade de quem passou anos explorando áreas "restritas" durante a Academia. Minha impulsividade juvenil — que tantos professores haviam tentado corrigir — agora tinha uma utilidade prática. Sabia onde as câmeras tinham pontos cegos. Sabia quais rotas evitavam as patrulhas regulares.
Os subníveis do Capitólio eram outra civilização. Os escritórios da CIA eram assepticamente limpos; aqui embaixo, as paredes de bronze gallifreyano haviam desenvolvido pátina verde-azulada ao longo de séculos. Luminárias holográficas piscavam ou não piscavam, criando sombras dramáticas onde ninguém as havia planejado.
O ar tinha peso diferente — podia sentir as camadas: poeira de cristais de memória antiquíssimos, ozônio residual de experimentos há muito encerrados, umidade de pedra que não via sol há gerações.
A porta do cofre de Trixye estava entreaberta. Como sempre. Ela nunca a trancava completamente — gesto que a maioria interpretaria como descuido, mas que eu reconhecia como declaração deliberada.
Entrei sem fazer barulho.
O espaço era circular, com teto arqueado e prateleiras cobrindo cada centímetro de parede — cristais de memória em azul-safira e verde-esmeralda, drives holográficos zumbindo suavemente. Havia uma ordem no que parecia caótico. Sempre havia, com Trixye.
Ela estava curvada sobre o terminal no centro da sala, a luz azulada dos monitores cortando o perfil dela em planos precisos. Cabelos castanhos caíam em linha reta até os ombros. Seus olhos — penetrantes mesmo vistos de lado — moviam-se com a velocidade de alguém que lia dados mais rápido do que a maioria pensava.
O casaco dela era o de sempre: preto fosco com detalhes metálicos que capturavam a luz intermitente dos monitores. O Temporal Prismator pulsava no pulso, padrões complexos que ela ajustava e reajustava como quem afina um instrumento.
Esperei dez segundos na entrada. Finalmente, limpei a garganta.
Sem se virar completamente, ela falou:
— Echo. O que te traz aqui nessa hora?
Havia algo na inflexão — leve demais para ser notado por quem não a conhecesse. Para Trixye, aquilo era equivalente a qualquer outra pessoa cruzar a sala em pânico.
Respirei fundo.
— Algo está muito errado. O Tear Temporal está sendo manipulado. Deliberadamente. — Pausa. — E acho que a CIA está envolvida.
Ela se virou completamente. Movimento controlado, deliberado. Postura mudou de forma sutil — avaliação de ameaça.
O silêncio durou seis segundos.
— Sempre com suas teorias mirabolantes... — murmurou. Mas o tom carecia da convicção de verdadeira descrença. Depois: — Mas se você está certa, e conhecendo você, está, temos que agir rápido.
Dedos voaram sobre os controles holográficos, abrindo canal de comunicação criptografado.
— Já chamei Kaelion para se encontrar conosco.
Simples assim. Declaração que carregava volumes — Trixye não daria esse passo sem estar convencida. Senti alívio tão físico que quase doeu.
— Obrigada — sussurrei.
— Guarde gratidão para depois. — Ela já estava copiando dados relevantes no terminal. — Se estivermos realmente enfrentando conspiração dentro da CIA, vamos precisar de plano, recursos e muita sorte. Sugiro o corredor no setor abandonado perto dos jardins externos. Uma hora.
Assenti e saí tão silenciosamente quanto entrara.
* * *
O corredor que Trixye escolheu ficava no que eu mentalmente chamava de "zona crepuscular" do Capitólio — negligenciado o suficiente para que presença ocasional pudesse ser explicada, mas não completamente abandonado.
Cheguei primeiro. Naturalmente. Impulsividade também significa chegar cedo para tudo.
O espaço se estendia por trinta metros, paredes de bronze com pátina verde-azulada e teto arqueado coberto por mosaico fragmentado — pedaços da constelação de Kasterborous em pedras semipreciosas. O chão misturava granito cinza dos Picos Etéreos, basalto negro dos Desertos e mármore translúcido do Mar de Vidro Líquido. Luminárias holográficas piscavam em ritmo descompassado, criando bolsões de sombra. A luz tinha qualidade âmbar-dourada, como entardecer perpétuo.
Trixye dobrou a esquina precisamente no horário marcado, terminal contra o peito. Olhos encontraram os meus: segura, sem seguir, pronta.
Abri a boca, mas ela levantou a mão. Dedos em língua de sinais: Espere. Ele vem.
Ficamos em silêncio.
E então — sem aviso, sem som — Kaelion estava simplesmente ali.
Um momento o corredor estava vazio, no seguinte ele estava encostado contra a parede como se tivesse materializado do ar. Truque que ainda não entendia completamente — parte habilidade, parte tecnologia, parte timing que desafiava explicação.
Cabelos escuros com mechas prateadas, a estrutura óssea forte com sombra de barba recente. Casaco preto com corte assimétrico e detalhes em metal escurecido, calças ajustadas, botas gastas de couro que conheciam muita fuga. Mas o que chamava atenção era o Cronógrafo Invertido — bracelete de metal escuro com cristais embutidos que pulsava em padrões inquietos, distorcendo a percepção temporal ao redor. Mesmo a distância, dava para sentir.
Kaelion notou a direção do meu olhar. Sorriso provocativo, braço erguido para os cristais capturarem a luz.
— Olá, meninas. Qual é essa confusão toda?
— Estamos lidando com algo que pode virar o universo de cabeça para baixo — respondi, mantendo a voz firme.
Ele se endireitou, expressão mudando.
— Isso parece ou muito lucrativo ou muito perigoso. Considerando que você está envolvida, Echo, aposto na segunda opção.
Trixye, dispensando qualquer preliminar, já conectava o terminal ao dispositivo holográfico.
— Observem — disse simplesmente.
E o universo explodiu em luz ao nosso redor.
* * *
Os hologramas materializaram-se no ar entre nós em explosão de luz e geometria — azuis para dados históricos, verdes para anomalias, linhas vermelhas de paradoxo entrecruzando tudo com frequência aterrorizante. O projetor de Trixye cabia na palma da mão, mas criava campo holográfico que se estendia por quase três metros em todas as direções.
Minha sinestesia respondeu imediatamente: os sons dos dados tinham cor, as cores tinham textura, tudo se mesclando em tempestade sensorial que fez a cabeça zunir.
Forcei foco. Estreitei atenção para elementos individuais.
O primeiro símbolo: evento temporal em Zenthara Prime, três anos atrás. Linha esperada versus linha real — a civilização deveria ter sobrevivido através de uma facção pacifista cujo líder morreu em acidente com probabilidade de 0.003% de ocorrer naturalmente.
Estômago apertou.
Movi os olhos. Outro planeta, mesmo padrão. Desvio minúsculo em momento crítico, consequências massivas. Evento após evento. Dezenas deles. Centenas se eu começasse a contar os menores.
Cada um conectado por linhas vermelhas convergindo para um ponto. Segui a teia: dúzias conectando a seis, seis a três, três a...
Um.
Nó singular que brilhava não em verde de anomalia nem em azul de dado histórico, mas em branco puro e cegante.
E abaixo dele, em caracteres que pareciam queimar:
MORDAXIS
A palavra tinha peso. Minha sinestesia reagiu — som de sino rachado reverberando, gosto de cobre e cinzas, cheiro de tempo queimado.
Mordaxis. Planeta fortaleza nas bordas externas. Lar de artefatos temporais mais perigosos já catalogados. Lugar que nenhum Chronarch sensato se aproximaria voluntariamente.
— Cada um desses padrões — ouvi minha própria voz, distante — representa uma falha no tecido temporal. Não são anomalias isoladas. É como se algo estivesse deliberadamente puxando os fios da realidade.
— Olhe aqui. — Os dedos de Trixye moveram-se pelos hologramas. — Esses sinais não pertencem a nenhum protocolo conhecido da CIA. É como se o próprio tempo estivesse sendo reescrito.
Indicou sequência específica de assinaturas de energia temporal — relacionadas à tecnologia gallifreyana em estrutura, mas o refinamento era de outra categoria.
— Mais avançado que qualquer coisa que a CIA possui oficialmente. — Pausa deliberada. — Ou alguém tem acesso a pesquisa décadas à frente, ou tem acesso a conhecimento ancestral que foi deliberadamente suprimido.
Kaelion havia se aproximado sem fazer barulho, curvado para frente sobre os dados. Expressão completamente diferente da máscara sarcástica de antes — rosto tenso, olhos rastreando linhas de conexão. O Cronógrafo pulsou mais intensamente.
— Algo não se encaixa aqui. — Voz baixa, quase para si mesmo.
Recuei mentalmente, deixando os olhos desfocarem levemente, processando os hologramas como totalidade.
Os eventos não eram aleatórios. Havia uma geografia neles — padrão orgânico se espalhando para fora de um único epicentro.
— É lá que está acontecendo tudo — disse. — Mordaxis. É lá que estão fazendo isso, seja quem for.
O nome do planeta pairou entre nós como sentença.
Trixye desativou a projeção. Os hologramas colapsaram sobre si mesmos e o corredor pareceu repentinamente mais escuro.
Kaelion foi o primeiro a falar:
— Alguém dentro da agência está por trás disso. Alguém com acesso nos mais altos níveis. Que pode manipular missões, alterar relatórios, esconder evidências.
— Sabemos que é um grupo fechado — acrescentei. — Mas quem?
Mente percorreu possibilidades automaticamente. E Elvatrix — aquele movimento compulsivo dos dedos, os desaparecimentos inexplicados, a rejeição sistemática. Peças se encaixando em padrão que doía olhar de frente.
— Precisamos descobrir não apenas quem — disse Trixye, já digitando freneticamente — mas por quê. Qual o objetivo final?
— Seja qual for o motivo — respondi, determinação endurecendo a voz — não podemos permitir que continuem. O Tear Temporal não é algo com que se brinque impunemente.
Não precisei terminar. Todos sabíamos das consequências.
— Vamos para Mordaxis — declarei, olhos fixos no ponto branco-incandescente que ainda ardia na minha retina. — É lá que encontraremos respostas. Talvez nossos inimigos. Possivelmente nossa morte. Mas pelo menos morreremos sabendo, fazendo alguma coisa.
— Vou preparar equipamento — disse Trixye, desativando o terminal. — Sensores de anomalia, scanners de paradoxo, dispositivos de rastreamento. Monto o kit em uma hora.
Kaelion ajustou o Cronógrafo no pulso, dedos tocando os cristais.
— E eu conheço rotas discretas para sair de Gallifrey sem autorizações. Docas de contrabandistas que o Alto Conselho prefere não saber que existem.
Pausa.
— Uma vez que sairmos, podemos ser classificados como renegados oficiais. Se descobrirem, a CIA vai nos caçar. Não haverá volta fácil.
Nenhum de nós recuou.
— Docas restritas em duas horas — disse. — Aria está preparada. Venham separados e discretamente. Se alguém for interceptado...
— Os outros continuam — Trixye completou, firme. — Missão é maior que os indivíduos.
Assentimos. Pacto selado.
Começamos a nos separar — mas antes que pudéssemos dispersar completamente:
Passos.
Ecoando pelo corredor. Aproximando-se.
Passos de quem não precisa apressar.
Três pares de olhos se encontraram em pânico mudo. Kaelion se reposicionou para fuga rápida. Trixye deslizou o terminal para trás do corpo. Eu congelei.
A porta no fim do corredor abriu com rangido.
Silhueta alta na penumbra.
Agente Vashar.
Veterano da CIA. Círculo Carmesin. Exatamente o tipo de pessoa que não precisávamos encontrar.
Meus dois corações descompassaram ao mesmo tempo. Mãos fecharam-se.
Vashar entrou completamente, porta fechando atrás dele com click ominoso. Aproximadamente 1,85 metros, ombros largos, postura militar perfeita. Rosto de linhas duras: testa alta, sobrancelhas grossas em cinza-ferro, nariz aquilino, olhos profundamente encovados. Cabelos grisalhos cortados rente. A túnica carmesim e dourado do Círculo Carmesin era impecável de um jeito que contava a história do homem — tecido pesado que não vincava, bordados em Alto Gallifreyano ao longo da gola.
Mas era a expressão que fazia o sangue esfriar. Não raiva — seria mais fácil. Desconfiança fria e calculada.
Sobrancelhas erguidas minimamente. Olhos se movendo com método: Trixye primeiro, Kaelion, eu.
Lábios em linha horizontal perfeita. Esperando.
O silêncio se esticou. Podia ouvir meu próprio sangue, o zumbido dos sistemas de segurança, gotejamento de água condensada. Plink... plink... plink.
— O que exatamente vocês estão fazendo aqui?
Pergunta simples, pronunciada em tom que sugeria a resposta ser mera formalidade.
Kaelion reagiu primeiro. Descruzou os braços, sorriso tocando os lábios.
— Só uma checagem de sistemas. Rotina de segurança. Echo ficou paranoica sobre algumas flutuações e quis investigar pessoalmente. Trixye e eu fornecemos assistência técnica.
O leve deslocamento do pé — talvez dois centímetros — traiu nervosismo. O Cronógrafo pulsou mais intensamente.
Vashar não respondeu de imediato. Olhou para a área onde os hologramas haviam estado. Rastros residuais de energia ainda dançavam no ar — invisíveis para olhos não-treinados, provavelmente óbvios para veterano.
Os olhos voltaram para o terminal que Trixye escondia.
— Rotina de segurança? — repetiu, arqueando a sobrancelha. — É mesmo?
Pausa deliberada, deixando o silêncio trabalhar.
— Por que parece que vocês acessaram algo que não deveriam?
Trixye manteve o rosto:
— Echo ficou obcecada com algumas anomalias temporais e quis conferir certas informações. Só isso.
Estratégia era jogar na minha reputação — impulsiva, sempre perseguindo sombras. Usar minha inadequação como cobertura. Funcionaria, se eu deixasse.
Doeu de qualquer forma.
— Só isso? — Vashar repetiu, perigosamente calmo. — Porque o que vejo é acesso não autorizado aos registros do Tear Temporal.
Palavras caíram como sentença.
E foi então que cometi o erro. Palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las:
— Estamos tentando entender quem está manipulando o Tear!
Voz saiu alta demais, carregada demais.
O momento que as sílabas saíram, senti a magnitude do erro — sensação física de queda. Estômago contraiu. Sangue drenou do rosto.
Trixye apertou os lábios por fração de segundo.
Kaelion me lançou um olhar incrédulo.
E Vashar... sorriu. Curvatura mínima, mas brilho de triunfo nos olhos.
— Ah — disse simplesmente. — Ah.
Saboreou a palavra.
Trixye tentou controle de danos:
— O que ela quis dizer foi que estamos investigando anomalias teóricas. Exercício acadêmico. Nada oficial ou baseado em dados reais...
Voz normalmente firme tropeçou.
Vashar não estava comprando. Peso deslocando-se para frente.
Kaelion tentou com sorriso falso:
— Você conhece a Echo. Sempre exagera quando vê padrões estranhos. Teoria da conspiração típica.
Transparente.
Vashar nos analisou por mais uns segundos antes de soltar um suspiro pesado.
— Certo... — disse lentamente. — Mas não se envolvam em algo que não podem controlar.
Olhos fixando cada um sequencialmente.
— Se Elvatrix souber disso, vocês terão problemas sérios.
Ameaça velada embrulhada em aviso. Subtexto cristalino: eu sei. Não vou contar... ainda.
Vashar lançou o último olhar penetrante e se virou. Passos ecoando em ritmo medido até desaparecerem.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Kaelion quebrou primeiro:
— Sério, Echo?
Duas palavras carregadas de descrença.
— Seis anos na CIA e você ainda não aprendeu quando ficar quieta?
— Eu sei. — Passei a mão pelo rosto. — Não era para eu ter dito aquilo. Mas segurar essa verdade estava me matando.
Trixye cruzou os braços, olhos fixos em mim:
— O que está acontecendo com você, Echo?
— Desde que encontrei aquele artefato — comecei — é como se pudesse sentir os próprios fios do tempo sendo puxados. Distorcidos. E sei que se não agir, algo catastrófico acontece. Não consigo observar desta vez. Não consigo.
Kaelion estalou a língua, balançando a cabeça:
— Vashar está desconfiado. Precisamos ser rápidos.
Puxou um scanner, varreu a área procurando dispositivos de rastreamento. Bipes satisfatórios. Guardou o dispositivo.
— Três horas. Talvez menos. É quanto tempo temos antes que ele tome uma decisão.
Trixye já digitava:
— Estou apagando logs e inserindo rastros falsos. Compra tempo. Não invisibilidade.
Fiquei parada, o cérebro processando.
Vashar sabia. O relógio corria.
Mas pela primeira vez em seis anos estava fazendo algo que importava de verdade.
— Mordaxis — repeti, voz mais firme que antes. — Nos encontramos nas docas em duas horas.
— Confirmado — disse Trixye, já se movendo.
Kaelion hesitou, o olhar encontrando o meu por um segundo — seja esperta — antes de desaparecer nas sombras.
* * *
Fiquei sozinha no corredor.
Não sei por quanto tempo. A adrenalina distorce a percepção temporal de um jeito que o treinamento da Academia nunca resolve completamente. As luminárias continuavam seu piscar irregular, sombras dançando nas paredes de bronze oxidado.
O ar ainda cheirava ao ozônio residual dos hologramas.
Encostei o ombro na parede mais próxima. Metal frio, mesmo através do macacão tático — tecido preto fosco absorvendo o frio sem transmiti-lo completamente, mas suficiente para sentir. Reconfortante, à maneira estranha de sensações físicas concretas.
Respirei: cinco segundos, pausa de dois, sete para exhalar.
Mãos que haviam estado cerradas em punhos lentamente relaxaram. Podia sentir a pulsação voltando às pontas dos dedos.
Preciso me mover. Ficar processando não ajudava ninguém.
A direção era clara: subir seis níveis até as docas restritas. O caminho não seria direto. Três seções para atravessar, áreas de tráfego alto para evitar.
Duas horas. Docas em duas horas.
Comecei a andar, passos deliberadamente silenciosos. A sinalização holográfica guiou pelo grid racional dos corredores superiores — setas brilhantes em azul-elétrico, pulsando em ritmo sincronizado.
Passando pela sala de briefing, fragmentos de conversa escapando antes de a porta fechar. Pela estação de equipamento, um técnico calibrando pacientemente algum dispositivo. Pelo quartel onde gallifreyanos jogavam algum jogo tradicional, risadas ocasionais lembrando que sob todas as camadas de treinamento ainda éramos gente.
Ainda vão rir quando descobrirem o que fiz?
Provavelmente não. Me veriam como traidora.
A menos que eu tivesse sucesso.
Sobreviver primeiro. Vindicação depois.
A Seção E se anunciou pela mudança no ar — mais frio, pressurização diferente, atmosfera controlada para desmaterialização. A porta de acesso era dupla, bronze reforçado, símbolos cobrindo a superfície como parte de matriz de contenção.
A barreira de segurança era séria. Verificação telepática, biométrica, análise de artron. Mantive o foco: verificar Aria, preparar para emergência, sistemas operacionais. Não completamente mentira.
PING. Verde. Aprovado.
"Echo — Observadora Passiva — Acesso concedido para Doca 7 — Duração: 2 horas — Propósito: Manutenção preventiva."
Duas horas.
A porta deslizou com sussurro pneumático. Ar gelado fluiu para dentro, ozônio e energia temporal.
O hangar se estendia numa escala que desafiava lógica espacial — teto cinquenta metros acima, paredes por centenas de metros em todas as direções. Chão coberto com marcações luminosas. Dezenas de STARDIS em formas diferentes: pilares de pedra, caixas metálicas, formas que o cérebro recusava classificar.
Mas os olhos encontraram a minha imediatamente.
Doca 7.
Aria.
Mesmo de cinquenta metros, o vínculo telepático puxou como ímã. Minha STARDIS: coluna vertical de bronze gallifreyano vivo de três metros, cor variando de âmbar-dourado profundo para reflexos esmeralda e púrpura dependendo do ângulo da luz. A superfície revelava padrões microscópicos de circuitos de perto. O topo, coroado pela estrutura giratória de hastes fractais com cristais pulsantes.
A porta era o elemento mais distintivo — emoldurada por vinhas e flores esculpidas, emitindo brilho prateado suave. No topo da moldura, estrela de cinco pontas dentro de uma de oito. Cristal temporal âmbar-mel translúcido, com a inscrição gravada: "O tempo pode mudar, mas a bondade permanece eterna." Abaixo, corações entrelaçados em azul-pervinca e dourado-âmbar. A maçaneta era uma esfera de cristal quente e pulsante.
Atravessei o hangar acelerando conforme a distância diminuía.
Aria sentiu a aproximação. Pulso de reconhecimento atravessou o vínculo como onda quente. Piloto — retorno — lar — segurança — juntas.
A porta brilhou dourado-radiante por um instante, símbolos de status piscando em sequência.
Sorri. Senti sua falta.
Resposta como abraço telepático. Também — preocupada — sentida — feliz.
Toquei a maçaneta — superfície lisa e quente pulsando com energia. Flash de conexão. Girei. A porta deslizou aberta, ar interior levemente mais quente, cheirando a ozônio temporal e algo que só conseguia descrever como verde.
Entrei. A porta fechou com click satisfatório.
O corredor de entrada se estendia antes de abrir para a sala do console, paredes de material orgânico-tecnológico em âmbar-dourado com veios mais escuros. Textura morna e ligeiramente macia ao toque. As paredes respiravam — expansão microscópica sincronizada com o suporte de vida. Iluminação emanava delas próprias, brilho de tarde ensolarada perpétua.
Ao longo das alcântaras: fragmentos de cristal azul-safira, estatueta de pedra negra, flor preservada em estase temporal. E o espelho ornamentado com inscrição das Mães: "Veja sempre a estrela que você é."
Caminhei devagar, dedos trilhando a parede. Ritual de reconexão.
Aria respondeu com ondas de contentamento. Através do vínculo: motores aquecidos, escudos em stand-by, sensores em varredura passiva, suporte de vida perfeito.
Tudo normal.
Exceto que estava prestes a usar Aria para missão não-autorizada.
Alcancei a sala de console — circular, quinze metros de diâmetro, teto arqueando em domo. No centro, elevado em plataforma hexagonal, o console. Híbrido que havíamos desenvolvido ao longo de anos: bronze gallifreyano mesclado com cristal temporal, botões e alavancas tradicionais coexistindo com interfaces holográficas. No centro, o rotor temporal — cilindro de cristal imóvel, brilhando âmbar-dourado.
Hesitei, a mão acima da superfície.
Preciso te contar uma coisa*, projetei. *Importante. Complicada. Potencialmente perigosa.
A atenção de Aria se focou completamente.
Vamos numa missão. Não autorizada pela CIA. Há corrupção. Conspiração. Pessoas manipulando o próprio tempo.
O conceito de "corrupção" se traduziu como dissonância. Harmonia quebrada.
Então precisamos operar fora da estrutura oficial. Por isso preciso que você proteja suas memórias. Crie um compartimento lacrado. Registre nos logs oficiais como manutenção de rotina.
Aria processou.
Concordo. Mas — condição.
Qual condição?
Quando estiver segura. Quando a missão terminar... você me conta tudo. Nenhum segredo entre piloto e STARDIS.
Calor se espalhou pelo peito.
Prometo. Quando acabar, conto tudo. Sem barreiras.
Satisfação através do vínculo.
Os sistemas começaram a reconfigurar. O rotor pulsou azul-elétrico brilhante. Três minutos depois, o console emitiu tom suave — sino cristalino.
Compartimento criado. Lacrado. Logs oficiais mostram manutenção de rotina, seis horas estimadas.
Obrigada. Por confiar em mim.
Sempre juntas. Piloto e STARDIS. Uma.
Fechei os olhos, focando na presença telepática de Trixye.
Trixye. Status?
Resposta em cinco segundos:
Confirmado. Equipamento seguro. Nenhuma interceptação. Chego na Doca 7 em aproximadamente sessenta minutos. Kaelion confirma também. A rota está limpa.
Entendido. Quando chegarem, fazemos o briefing dentro e partimos imediatamente.
Até logo. Fique segura.
Conexão cortou.
Abri os olhos, sorrindo apesar de tudo.
Estava realmente fazendo isso.
Era aterrorizante. Era exaltante. Era certo.
Voltei ao console, verificando sistemas:
Motores do Vórtex: verde, 100%. Escudos defensivos: âmbar, stand-by. Suporte de vida: verde brilhante. Navegação e sensores: amarelo-verde, prontos. Comunicação: azul, funcional. Arquivo e memória: dois conjuntos agora — "Padrão/Acessível" e "Selado/Restrito."
Tudo perfeitamente funcional.
Tentei meditar. Sentei na cadeira que emergiu do chão, fechei os olhos, respirei.
A mente não queria quietar.
E se Vashar reportar? E se Elvatrix descobrir? E se for armadilha?
Abri os olhos, desistindo.
Quinze minutos depois, senti a mudança. Duas presenças se aproximando.
Estão aqui, Aria confirmou.
Fui ao corredor no momento exato em que o toque telepático de Trixye pressionou contra a barreira da porta. Ela entrou primeiro, movimentos eficientes, equipamento distribuído nos bolsos do casaco. Kaelion seguiu, o Cronógrafo pulsando mais intensamente que o normal.
A porta fechou.
Silêncio por três segundos — carregado com o peso de uma decisão coletiva sem volta.
Trixye quebrou primeiro:
— Equipamento está seguro. Verificação completa. — Os olhos percorreram o interior. — Transcendência dimensional impressionante para Type 97. Você modificou a configuração padrão?
— Aria e eu colaboramos. Anos de ajustes. — Gesticulei. — Explorar depois. Agora...
— Agora revisamos o equipamento e partimos — ela completou, já se movendo para a sala do console.
Kaelion ficou quieto, olhos escaneando o ambiente com atenção de quem sempre mapeia saídas. Parou brevemente diante do espelho ornamentado, olhando não para o reflexo mas para a inscrição: "Veja sempre a estrela que você é."
Expressão que cruzou o rosto foi complexa e fugaz — reconhecimento doloroso, ironia amarga — antes de a máscara deslizar de volta.
Na sala de console, Trixye extraiu o equipamento item por item:
Sensor de anomalia — PADD de carcaça prata-escura com veios azul-elétrico. Calibrado para detectar manipulação temporal em escala micro. Alcance de cinquenta metros.
Scanner de paradoxo — cilindro de metal polido, lente cristalina que brilhava púrpura ao ser ativada. Essencial para identificar onde o Tear foi reescrito. Paradoxos deixam cicatrizes.
Dispositivo de rastreamento temporal — esfera de doze centímetros coberta com escamas metálicas, núcleo âmbar-dourado. Pode seguir assinatura de energia temporal através do Vórtice por até cinco anos-luz.
Escudos telepáticos portáteis — três discos de cristal. Azul para Trixye, verde para mim, vermelho para Kaelion. Caso encontremos resistência psíquica.
Peguei o disco verde, calor pulsando contra a palma. Guardei no bolso interno.
E finalmente: disruptor sônico modificado.
Kaelion olhou para a arma:
— Esperando resistência armada?
— Esperando tudo — respondeu Trixye, sem hesitar. — Planejando o pior caso. Prefiro ter capacidade defensiva e não precisar.
O peso da implicação assentou. Até ali havia mantido a ilusão de meramente investigar. Armas significavam outra coisa.
Kaelion extraiu as próprias contribuições: cabo de fibra óptica, lock picks mecânicos, gerador de campo de estase, e — por último — um cristal de memória.
— Mapas. Layouts de Mordaxis. Fragmentos coletados de fontes variadas ao longo de anos.
Trixye pegou o cristal com algo próximo à reverência.
— Como você obteve isso?
Ele sorriu — expressão complexa.
— Quando você é informante da CIA, coleta muita informação que não compartilha. Seguro de vida. Nunca pensei que usaria para algo que realmente importasse.
O silêncio que seguiu foi diferente dos anteriores.
Cada um havia contribuído algo precioso. Juntos formávamos algo maior que a soma das partes.
Trixye retornou ao pragmatismo:
— Equipamento revisado. Plano: materializar em órbita de Mordaxis, varredura passiva inicial, descida em local afastado. Abordagem a pé. Infiltração. Coleta de evidências. Extração rápida se comprometidos.
— Tempo de viagem? — perguntou Kaelion.
Fechei os olhos.
— Aproximadamente cinco minutos em velocidade padrão. Poderia reduzir para três empurrando os motores, mas prefiro chegar com energia plena.
— Cinco minutos é aceitável — concordou Trixye. — Conservação de energia mental vai ser importante.
Aproximei-me do console. Dedos encontraram os controles familiares. Aria respondeu imediatamente — sistemas acelerando, o rotor temporal começando a girar, cristal transitando de âmbar-dourado para azul-elétrico e verde-esmeralda.
O som era inconfundível. Começava como zumbido subauditivo, crescendo gradualmente até preencher a sala inteira com presença que se sentia nos ossos.
Minha sinestesia explodia: som com cor de azul-índigo transitando para violeta, sabor metálico e levemente doce, textura de seda em velocidade impossível.
Monitores atualizando:
Motores do Vórtex: verde, 100%. Coordenadas de Mordaxis carregadas. Rota calculada.
Kaelion foi para a estação lateral:
— Quanto tempo antes de alguém notar?
— Aria registrou oficialmente como manutenção de seis horas. O sistema não aciona alarmes até o tempo expirar. Mas verificação manual... minutos.
— Então — disse Trixye calmamente — sugerio que paremos de falar e comecemos a voar.
Tinha razão.
Respirei fundo, abrindo a mente para Aria.
Pronta?
Sempre pronta. Piloto e STARDIS. Juntas voamos.
Juntas voamos.
Sequência praticada — cada movimento parte de memória muscular:
Ativação final dos motores. Alavanca puxada com click. Rotor acelerando até borrar em luz branca-pervinca.
Liberação da ancoragem. Tremor percorrendo a nave.
Inicialização de desmaterialização. Matriz energizando.
O som mudou — rugido profundo subindo em tom, distorcendo a visão nas bordas.
— Segurem — avisei.
Kaelion agarrou a borda do console. Trixye alargou a postura.
O exterior de Aria começou a brilhar — dourado-âmbar, depois branco-incandescente, depois azul-elétrico cegante.
E então—
Whooorp whooorp whooorp
O som característico. Vibrações penetrando até o núcleo dos ossos.
O mundo externo começou a desvanecer. Paredes tornando-se translúcidas, transparentes, ausentes.
Por um momento infinitesimal, existimos no lugar-entre-lugares.
E depois—
WHOOOOOM.
Realidade puxou. Estômago virou.
Monitores piscaram:
Localização: Vórtice Temporal. Status de voo: Estável. Rota: travada. Destino: Mordaxis. ETA: 4 horas 52 minutos.
Havíamos partido.
Soltei a respiração. Músculos relaxando.
Virei para Trixye e Kaelion.
— Não há volta agora. Próxima parada: Mordaxis. Próximo objetivo: verdade.
Trixye assentiu, já se movendo para análise de dados.
Kaelion soltou o console, Cronógrafo pulsando.
— Verdade. E depois? Quando descobrir que é pior do que imaginávamos?
Respondi com convicção que surpreendeu até a mim mesma:
— Então fazemos o que sempre fizemos. Enfrentamos. Lutamos. E fazemos a escolha certa, não importa o custo.
Porque no fim não era sobre autorização ou política.
Era sobre proteger o tecido da realidade.
E valia tudo.
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