DOCTOR WHO ~S B~ Onde a Imaginação Ganha Vida

1 O Peso de Uma Decisão Brilhantástica


Eu fugi.

Não há muito brilho nessa palavra, né? Fugi. Curta demais. Feia demais. Sem música. Sem cortina vermelha se abrindo, sem nota aguda no fim, sem estrela dourada despencando do teto no momento certo.

Só eu.

A Aria.

E Gallifrey-Σ ficando para trás como um palco que pegou fogo enquanto a plateia ainda aplaudia.

Fiquei parada no centro da sala principal da minha STARDIS com meus dedos apoiados no console de ouro rosé.

O líquido luminoso do cilindro central subia e descia respirando junto comigo.

Acima, o teto estrelado brilhava como uma promessa malformada.

As fitas cor de vinho balançavam devagar sob luzes suaves. As paredes de neon piscavam em padrões geométricos — escolha recente de Aria, depois da minha última reforma.

Uma tenda de circo.

Minha tenda.

Nosso lar.

Eu tinha mudado tudo.

Não só os corredores, nem o console, nem a textura das escadas de vidro que cantavam notas musicais sob os pés.

Tinha mudado o centro da minha vida.

E, mesmo assim, por alguns segundos longos demais, tudo ainda cheirava a Cidadela.

Pó antigo. Metal frio. Ordem.

Ajustei a cartola violeta na cabeça, embora ela já estivesse perfeitamente no lugar. Um gesto inútil. Eu faço muitos gestos inúteis quando minha mente está tentando não despencar por dentro.

— Foi a coisa certa — falei para a sala vazia.

A sala não respondeu.

Aria respondeu com uma vibração baixa nas paredes, quase um abraço.

Fechei os olhos.

Não adiantou.

Atrás das pálpebras, vi fragmentos. Não a história inteira. Nunca a história inteira. A memória vem em lâminas quando quer me ferir.

Um corredor branco demais.

Uma porta que não deveria existir.

Símbolos sobrepostos ao Tear Temporal.

A voz de Elvatrix, macia como seda esticada sobre vidro quebrado.

A palavra "preservação" usada como faca.

E depois outra palavra, enterrada em arquivos que não deviam estar ali, entre relatórios falsos, autorizações apagadas e assinaturas de pessoas que sorriam em cerimônias públicas.

Domínio Temporal.

Meu estômago virou um nó de luz fria.

Eu não sabia tudo. Essa era a pior parte. Eu tinha visto o suficiente para entender que não era paranoia. Não era exagero meu. Não era "Echo sendo dramática outra vez", como diziam quando eu fazia perguntas demais, rápido demais, com brilho demais nos olhos e pouca reverência pelas paredes.

A Tecelã.

O nome ainda arranhava por dentro.

Elvatrix não era só Elvatrix. Não era só minha chefe. Não era só a mulher que corrigia minha postura, meus relatórios, meu tom, meus métodos, minha tendência "inconveniente" de achar que seres vivos importavam mais do que protocolos.

Ela era outra coisa também.

Ou talvez sempre tivesse sido.

Abri os olhos e o teto estrelado da Aria pareceu mais perto, como se as estrelas tivessem se inclinado para me ouvir. Engraçado. O universo sempre teve mais paciência comigo do que Gallifrey.

— Eu não sou covarde.

A palavra saiu fraca. Pequena. Sem confete.

Então veio a outra voz, a que eu detesto porque parece minha e não parece.

Covarde.

Eu apertei os controles com força.

Kaelion teria ficado em silêncio primeiro. Ele sempre fazia isso quando a situação ficava impossível. Aquele silêncio cheio de cálculos e culpa. Depois teria colocado uma mão no meu ombro, como se eu fosse uma tempestade que ele podia ancorar com cuidado.

Trixie teria falado demais para esconder que estava com medo. Provavelmente teria feito uma piada horrível sobre arquivos secretos, domínios malignos e chefes com nome de vilã de ópera. Eu teria rido. Não porque era engraçado, mas porque ela precisava que alguém risse.

Eles ficaram.

Kaelion, Trixie e Vashar. Investigando mais. Cavando onde o chão já estava rachando.

"Você não pode vir comigo", eu tinha dito.

Ou talvez eles tivessem dito primeiro.

Não lembro direito. Mentira. Lembro. Claro que lembro. Minha memória é uma constelação cruel. Cada estrela no lugar certo.

Kaelion disse que alguém precisava ficar para seguir os rastros.

Trixie disse que, se todos corressem, ninguém saberia quem estava puxando os fios.

Ela só olhou para mim com aquela expressão de agente que já enterrou mais segredos do que amigos e falou:

"Vai. Antes que eles lembrem que ainda podem te chamar de Echo."

Echo.

O nome caiu dentro de mim sem som.

A agente perfeita. A pesquisadora obediente. A Chronarch que observava, registrava, voltava para a base e entregava tudo em relatórios limpos, impecáveis, mortos. Echo, a menina brilhante que eles tentaram transformar em instrumento. Echo, que tinha o Vórtex nos olhos e deveria aprender a olhar sem tocar.

Eu nunca quis só observar.

Nunca.

O universo gritava o tempo todo. Em cores. Em notas. Em cheiros impossíveis. O medo tinha gosto de cobre azul. Esperança tinha textura de fita de cetim sob os dedos. Uma linha temporal ferida soava como violino desafinado atrás de uma parede.

E eles queriam que eu anotasse.

"Não interfira."

"Não se envolva."

"Não improvise."

"Não cante."

Essa última ninguém dizia com todas as letras, mas eu ouvia mesmo assim.

Respirei fundo. Um coração bateu antes do outro. Depois os dois se acertaram, meio contrariados.

— Eu não fugi porque tive medo — falei, encarando o console. — Quer dizer, eu tive medo. Muito medo. Um medo bem grande, enorme, espetaculoso de horrível. Mas não foi por isso.

Aria emitiu um bipe suave.

— Tá, talvez um pouquinho por isso.

Outro bipe. Mais seco.

— Não começa.

Passei a mão pela borda do console. A superfície respondeu ao meu DNA com um brilho quente, dourado, quase divertido. A Aria estava me observando sem olhos, me escutando sem ouvidos, me segurando sem mãos.

Minha espetacular carreta mágica.

Talvez isso dissesse muito sobre mim.

— Eu fugi porque, se eu ficasse, eles iam me dobrar até eu caber. E eu não caibo. Nunca coube. Nem nos uniformes, nem nos corredores, nem nas salas de reunião com cadeiras simétricas e pessoas que falam como se emoção fosse falha de projeto.

O silêncio que veio depois não era vazio. Era um silêncio de bastidores. Aquele momento antes da cortina abrir, quando dá para ouvir a própria respiração e pensar: agora não tem volta.

Eu ri. Baixinho. Quase sem alegria.

— Parabéns, Doutora. Primeira grande decisão da sua nova vida: abandono, roubo de STARDIS e colapso emocional moderado dentro de uma tenda circense dimensionalmente transcendental. Que estreia.

A palavra nova brilhou por dentro.

Doutora.

Eu ainda estava me acostumando. Não era título de Gallifrey, não era função da CIA, não era nome registrado na Matrix com tinta solene e expectativas sufocantes. Era uma escolha.

Eu era a Doutora porque queria ajudar.

Não como agente. Não como peça. Não como Echo.

Como eu mesma.

O Vórtex se estendia lá fora, invisível e infinito. Eu sentia ele passando pelas paredes da Aria.

Lilás, nas bordas da percepção.

Som de coral distante. Cheiro de chuva num planeta que eu nunca conheci.

Apoiei-me no console e comecei a cantarolar.

Nada grandioso. Nada digno de palco.

Só uma melodia leve, meio torta, meio minha — um pedacinho da música do trenzinho do Casey Jr. escapando sem pedir licença.

A Aria gostava quando eu fazia isso. Eu também.

Cantar alinhava as coisas dentro de mim. Não consertava, exatamente. Mas dava ritmo ao caos.

Minha voz vibrou no ar da sala, fina, doce, um pouco cansada. O console respondeu com luzes suaves. As fitas no teto balançaram como se um vento impossível tivesse entrado na nave.

Cantei para não pensar em Elvatrix.

Cantei para não pensar nos olhos de Kaelion.

Cantei para não pensar em Trixie fingindo coragem.

Cantei porque, se eu parasse, talvez ouvisse a palavra covarde outra vez.

O Vórtex se aproximou de mim como uma criatura antiga e curiosa.

Senti suas correntes roçando minha pele — não fisicamente, mas do jeito que o tempo toca quem nasceu com a alma aberta demais.

As possibilidades brilhavam em manchas rápidas.

Douradas. Cinzas. Vermelhas como alerta.

A melodia falhou na minha garganta.

Aria emitiu um bipe.

Curto.

Agudo.

Urgente.

Levantei a cabeça.

— Aria?

O segundo bipe veio antes que eu terminasse de respirar.

Depois outro.

E outro.

As telas holográficas se abriram ao redor do console com violência. Mapas temporais explodiram no ar em linhas douradas, vermelhas e violetas. A sala inteira mudou de tom. O céu estrelado no teto escureceu por um segundo, e as luzes das paredes ficaram vermelhas, depois douradas, depois vermelhas de novo.

— Ai minhas estrelas.

A Aria virou.

Não "desviou". Não "corrigiu rota". Virou.

A nave inteira se inclinou como se alguém tivesse puxado o tapete do universo.

Fui jogada para o lado, bati o quadril no console e agarrei uma borda luminosa antes que minhas botas saíssem do chão.

— ARIA! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?!

A resposta veio como uma sequência de bipes tão rápida que qualquer outra pessoa teria ouvido só pânico eletrônico. Eu ouvi frases. Emoção. Direção. Uma imagem comprimida dentro do som.

Perigo.

Urgência.

Chamada.

Não minha. Não dela.

De algum lugar.

De algum quando.

— Não, não, não, não, não. Eu acabei de fugir, sabia? Fugir geralmente inclui ir embora de problemas, não fazer uma curva coreográfica direto para um novo!

A Aria soltou um bipe indignado.

— Eu sei que fugir de problemas não é meu estilo, mas eu estava tentando experimentar coisas novas!

As telas piscaram. Uma coordenada temporal surgiu, mas se desfez em faíscas douradas antes que eu conseguisse ler. O Vórtex bateu contra minha hipersensibilidade como um tambor.

Então eu senti.

Não vi. Não ouvi.

Senti.

Um ponto no tempo-espaço latejava à frente, quente e instável.

Não era uma catástrofe completa. Ainda não.

Era como ver uma corda prestes a arrebentar durante o número principal. A plateia não percebeu. Os artistas talvez também não.

Mas a corda sabia.

E eu sabia.

Meu corpo reagiu antes da minha coragem.

Os dois corações aceleraram em compassos diferentes. Minha pele se arrepiou sob o sobretudo violeta.

A culpa, que até então estava sentada no meu peito com botas pesadas, levantou a cabeça.

Aria bipou de novo.

Mais baixo.

Mais claro.

— Você detectou uma anomalia — murmurei.

Bipe.

— Não. Não só anomalia. Um pedido.

Bipe-bipe.

— Uma janela frágil. Um evento de alta carga simbólica. Muita gente, muita esperança, muito futuro condensado num único ponto. Uau. Isso tem gosto de algodão-doce com eletricidade.

A Aria pareceu vibrar sob meus pés.

Eu soltei uma risada curta, incrédula. Aquelas coordenadas ainda piscavam em pedaços quebrados, mas a sensação era inconfundível. Alguém precisava de ajuda. Algo estava errado. E, pela primeira vez em toda a minha vida, não havia uma voz atrás de mim dizendo para observar e registrar.

Não havia Elvatrix.

Não havia Conselho.

Não havia relatório.

Só eu, Aria e uma corda prestes a arrebentar.

Meu sorriso veio devagar, como amanhecer com medo de ser visto.

— Aria, minha amiga... você tá vendo isso?

Passei os dedos pelas telas, reorganizando informações que se moviam mais rápido do que qualquer manual recomendaria. Eu não precisava do manual. Nunca precisei. Manual é só uma sugestão com complexo de autoridade.

— Eu posso ajudar. De verdade.

A frase me atravessou inteira.

Fiquei parada por meio segundo, mão suspensa no ar, sentindo o calor subir pelo peito. Não era arrogância. Não era euforia vazia. Era encaixe. Uma peça que ficou décadas no bolso errado e finalmente encontrou seu lugar.

— Sem alguém dizendo o que eu posso ou não fazer — continuei, a voz ficando mais viva. — Sem ter que me conter. Sem transformar dor em nota de rodapé. Isso... isso é o que eu sempre quis.

Aria respondeu com um bipe animado, tão brilhante que quase dava para ver estrelinhas saltando dele.

Eu levei a mão ao peito. O calor ali era suave. Dourado nas beiradas. Um pouco lilás no centro.

— Então é isso.

As palavras saíram mais baixas. Mais verdadeiras.

— Não é sobre fugir. É sobre finalmente poder escolher ajudar.

O console iluminou minhas unhas coloridas. Eu sorri de vez.

A culpa ainda estava lá. Claro que estava. Culpa não some porque a gente faz uma frase bonita. Mas ela ficou menor. Ou talvez eu tenha ficado maior.

Ajeitei a cartola. Girei uma tela holográfica para o lado. Puxei duas alavancas que não eram alavancas, só projeções táteis com intenção dramática, porque eu merecia um pouco de drama funcional.

— Tá bom! Vamos nessa! Vamos ver o que tá acontecendo!

Aria cantou.

Não exatamente. Mas quase.

O som da materialização começou a crescer ao redor de nós, harmônico e sibilante, com uma camada musical que só ela tinha. Normalmente, era lindo. Uma entrada triunfal digna de cortina, fumaça e aplauso cósmico.

Dessa vez, pareceu um carrinho de montanha-russa descarrilhando em câmera lenta.

— Ah. Isso não é bom.

As telas ficaram vermelhas de novo.

— Aria?

Bipe tenso.

— Interferência? Que tipo de interferência?

Bipe.

— Temporal ou espacial?

Bipe-bipe.

— As duas? Claro. Porque começar simples seria falta de imaginação.

A nave chacoalhou.

O chão sumiu debaixo das minhas botas e voltou um centímetro fora do lugar.

Agarrei o console com as duas mãos.

Meu sobretudo bateu contra minhas pernas, a capa dupla voando atrás de mim como se eu estivesse num número acrobático planejado por alguém sem seguro de vida.

— Estabilizador de feedback síncrono, vamos lá, minha estrelinha, conversa comigo!

As telas responderam com símbolos que se sobrepunham. A Aria estava tentando, eu sentia. Ela empurrava contra algo invisível. Alguma resistência no ponto de chegada, alguma camada de ruído temporal grudada no destino como chiclete no sapato do universo.

A materialização ficou mais alta.

Alta demais.

— Suprimir efeito sonoro externo! — gritei.

Bipe constrangido.

— Como assim "não dá"? Aria, discrição! Nós conversamos sobre discrição!

Bipe.

— Conversamos sim! Eu estava reclamando do circuito camaleão e você fingiu que era problema filosófico!

A nave deu um solavanco final.

Por um instante, tudo virou luz.

Vermelho. Dourado. Lilás.

E então silêncio.

Não um silêncio total, graças às estrelas. Se fosse total, eu teria odiado. Era silêncio de chegada. Aquele tipo de pausa em que o universo segura a respiração e espera alguém tropeçar.

No caso, alguém era eu.

Endireitei o corpo bem devagar. Minha cartola tinha descido torta sobre um olho. Empurrei-a para cima com dignidade quase convincente.

— Todos os membros no lugar?

Olhei para minhas mãos.

— Duas mãos. Ótimo. Duas pernas. Excelente. Dois corações ofendidos, mas funcionais.

Aria emitiu um bipe pequeno.

— Você também está linda. Um pouco dramática, mas linda.

O scanner interno se abriu no monitor em forma de estrela perto do teto. A imagem tremeluziu, cheia de interferência, depois estabilizou.

Local: Terra.

Eu pisquei.

— Terra?

Data: 17 de julho de 1955.

Meu sorriso começou antes que eu autorizasse.

Anaheim, Califórnia.

O sorriso ficou perigoso.

Área próxima à Main Street U.S.A. Disneyland.

Eu congelei.

Por um segundo inteiro, meus pensamentos se atropelaram tão rápido que nenhum conseguiu terminar a frase.

Disneyland.

Dezessete de julho de mil novecentos e cinquenta e cinco.

Um dia antes da abertura oficial para o público. Dia de inauguração para convidados, imprensa, ensaio de caos, sonho ainda com cheiro de tinta fresca.

Walt Disney estava ali.

Walter. Elias. Disney.

Eu agarrei a borda do console.

— Não.

Aria bipou.

— Não, não faz essa carinha sonora comigo.

Outro bipe.

— Eu não estou surtando.

Bipe.

— Tá, eu estou cintilando de alegria em nível possivelmente perigoso.

Aproximei o rosto do scanner, como se isso fosse me fazer ver através das paredes da nave.

— Aria, você entende? Isso é a Disneyland antes de virar Disneyland. É sonho em montagem. É futuro ainda usando andaime. É um dos maiores espetáculos terrestres de imaginação aplicada, e Walt Disney pode estar logo ali, andando com aquele bigodinho e aquela cabeça cheia de impossíveis, e eu posso... eu posso...

Pare.

Pare agora.

Endireitei as costas. Respirei. Um coração. Depois o outro.

— Eu não posso ter um ataque fangirl.

Bipe divertido.

— Não posso! Porque se eu encontrar Walt Disney e começar a falar "sabia que isso vai dar muito certo? Tipo, absurdamente certo? Parques, filmes, império cultural, debates éticos complicadíssimos, merchandising, criogenia falsa, não, essa parte não, esquece", eu posso destruir uma linha temporal inteira por excesso de entusiasmo. E seria um jeito muito constrangedor de começar minha carreira.

O scanner piscou.

Lá fora, vi formas borradas. Pessoas trabalhando. Estruturas recém-pintadas. Movimento apressado. Um calor amarelo vibrando no ar.

A anomalia ainda estava lá. Fraca. Escondida debaixo do brilho do lugar.

Isso me ajudou a focar.

— Certo. Missão primeiro. Walt depois. Talvez Walt nunca. Talvez só uma olhadinha respeitosa à distância. Com autocontrole. Eu tenho autocontrole.

Aria fez um som que pareceu uma gargalhada digital.

— Zero espetáculo, Aria.

Peguei a varinha sônica, conferi os modos com o polegar e enfiei no bolso interno do sobretudo. O cartão psíquico veio depois, acomodado com cuidado. Pochete pastel? Não. Aquela era uma estreia. Eu precisava de bolsos dramáticos, não de pochete.

Caminhei até a porta.

Do lado de dentro, ela se abriu com suavidade. A escada de vidro colorido apareceu, cinco degraus suspensos, cada um esperando meu pé para tocar sua nota.

Pisei no primeiro.

Plim.

A nota ecoou pela minha barriga.

Segundo.

Plam.

Terceiro.

Plim.

— Não é fuga — sussurrei para mim mesma.

Quarto.

— É escolha.

Quinto.

— É ajuda.

A porta externa deslizou.

E eu tropecei.

Não de um jeito elegante. Não de um jeito "artista circense em queda coreografada". Tropecei mesmo. Minha bota prendeu em alguma irregularidade do chão, meu corpo foi para a frente, minha cartola quase voou, e eu precisei girar os braços como uma gaivota desesperada antes de recuperar o equilíbrio.

— Entrada triunfal adiada — resmunguei.

Ajeitei a cartola e virei para trás.

A Aria estava camuflada.

Tecnicamente.

Fiquei olhando.

Piscar não ajudou.

Ela tinha assumido a aparência de um banheiro.

Um banheiro.

Não uma cabine charmosa de manutenção. Não uma bilheteria antiga. Não uma casinha de ferramentas. Um banheiro.

Eu senti meu rosto inteiro esquentar.

— ARIA!

Lá dentro, o console respondeu com uma sequência de bipes satisfeitos.

— Não. Não, não, não. Você não fez isso.

Bipe.

— Funcional?

Bipe.

— Discreta?

Bipe.

— Apropriada ao contexto?

Apontei para a fachada improvisada, tentando manter algum resquício de autoridade.

— Você é uma STARDIS Tipo 97, crescida nas Catacumbas do Tempo, com núcleo dimensional transcendental, consciência sofisticada e uma sala do coração mais bonita do que qualquer templo gallifreyano. Você não é um banheiro temático!

Bipe curto.

Cruzei os braços.

— Isso é por causa da minha reclamação sobre o circuito camaleão?

Silêncio eletrônico.

— Sabia! Isso é vingança.

Bipe ofendido.

— Não me venha com "solução estratégica". Eu conheço esse tom. Esse é seu tom de "eu fiz de propósito e ficou hilário".

Um homem passou a certa distância carregando uma tábua, sem olhar para mim. Mais dois trabalhadores atravessaram o caminho discutindo alguma coisa sobre pintura. Ninguém parecia notar a nave que tinha acabado de surgir com fumaça, barulho alto e a sutileza de uma fanfarra temporal.

Franzi a testa.

— Hm. Percepção seletiva local? Campo de desatenção residual? Ou seres humanos da década de 1950 são simplesmente muito comprometidos com prazos de inauguração?

Aria bipou.

— Não, você não ganhou essa discussão.

Dei um passo para perto da porta.

— Quando voltarmos, eu vou recalibrar seu circuito camaleão com glitter.

Bipe alarmado.

— Glitter técnico.

Bipe mais alarmado.

— Glitter técnico permanente.

Fechei a porta antes que ela pudesse reclamar mais.

Então me virei para o mundo.

O calor me abraçou na hora.

Não era o calor seco e controlado de Gallifrey, nem aquele ar antigo filtrado por sistemas que achavam que conforto era uma equação.

Era calor terrestre. Década de cinquenta. Califórnia.

Poeira, tinta fresca, madeira serrada, suor humano — e alguma coisa doce vindo de longe.

Talvez pipoca. Talvez promessa.

O sol estava alto e atrevido, dourando tudo com força demais.

Meu corpo ajustou a temperatura quase de imediato — células reorganizando tolerância, respiração calibrando umidade, pele aceitando estação e latitude com a competência brilhante que meus professores fingiam não admirar.

Dei outro passo.

Meu pé afundou um pouco.

Olhei para baixo.

O asfalto estava mole.

— Ah, espetacular. Vim salvar a Disney e o chão está tentando virar pudim.

Puxei a bota com um som discreto e nada digno.

— Primeira missão da Doutora: impedir desastre temporal, evitar spoiler histórico para Walt Disney e sobreviver ao asfalto derretido. Quem foi que aprovou esse roteiro?

Sorri antes de conseguir evitar.

Porque, apesar de tudo, havia vida ali.

Muita vida.

Pessoas corriam de um lado para o outro com ferramentas, pranchetas, fios, latas de tinta.

Algumas roupas estavam impecáveis demais para a poeira. Outras já tinham desistido completamente da dignidade.

Vozes se sobrepunham. Marteladas. Rodas rangendo. Instruções gritadas. Passos apressados.

O parque ainda não parecia pronto.

Parecia uma respiração antes de virar canção.

E era lindo.

Não lindo como uma paisagem perfeita. Lindo como um ensaio geral cheio de falhas. Lindo como alguém tentando construir alegria com prazo curto, orçamento apertado e fé suficiente para parecer maluquice.

Main Street U.S.A. aparecia mais à frente, ainda sendo ajeitada — memória inventada de uma cidade que talvez nunca tivesse existido exatamente daquele jeito.

Fachadas novas brilhavam sob o sol.

Janelas reluziam.

Bandeirolas e detalhes decorativos tremiam no ar quente.

Eu caminhei com cuidado, desviando das partes mais moles do chão. Meu sobretudo era quente demais para Anaheim em julho, mas eu me recusava a sacrificar estética no primeiro episódio da minha vida.

— Terra — murmurei.

A palavra tinha gosto de limonada e poeira.

Levantei o rosto para o céu azul, tão simples, tão aberto, tão diferente das cúpulas controladas de Gallifrey. Lá, o céu parecia sempre estar vigiando. Aqui, parecia convidar.

Meu peito apertou.

Não de culpa dessa vez.

De possibilidade.

— Eu acho... — comecei.

A frase ficou presa por um instante. Aria estava atrás de mim, disfarçada de banheiro rancoroso. Gallifrey estava longe. Kaelion e Trixie estavam longe. Elvatrix, a Tecelã, o Domínio Temporal, todos aqueles fios escuros ainda existiam, puxando alguma coisa nas sombras.

Mas eu também existia.

Inteira demais. Barulhenta demais. Colorida demais. Viva demais.

Dei mais um passo. O asfalto reclamou sob minha bota.

Ri.

— Eu acho que agora eu posso ser feliz.

Não foi uma conclusão grandiosa. Não teve música subindo, nem estrela caindo do teto, nem aplausos do público invisível. Só eu, parada no calor de 1955, sorrindo feito uma idiota cósmica diante de um parque inacabado.

Então ouvi algo.

Não com os ouvidos.

Com aquela parte de mim que sentia o tempo como tecido e música.

Uma nota errada.

Baixinha.

Quase escondida sob martelos, motores e vozes.

Virei a cabeça na direção da Main Street.

O show estava prestes a começar.

E alguma coisa, em algum lugar daquele sonho recém-pintado, já tinha entrado em cena com o papel errado.

Meu sorriso ficou mais afiado.

Ajeitei a cartola. Sacudi a barra do sobretudo. Dei um tapinha no bolso onde a varinha sônica descansava.

— Bora, então.

E fui explorar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.