O dormitório ficava algumas quadras da agência, de longe era possível ver as luzes acesas e uma certa movimentação da janela da sacada. Uma noite antes da avaliação mensal deixava todos, de alguma forma, com a beira de um surto. Os mais novatos choravam ou apenas treinavam sem aparar até o último momento, já os mais experientes ficavam quietos, sabiam que se desgastar emocionalmente mais do que o necessário só levaria a uma apresentação insegura e fraca, mas perdiam o sono como muitos, embora exaustos.

No dormitório de dois quartos e dois banheiros em que Yuna dividia com outras dez trainees, todas com potencial para debutar em um futuro grupo da empresa. Cada quarto com duas beliches e uma cama de solteiro eram lugares apenas para dormir. Havia uma sala vazia, apenas com um grande sofá preto de quatro lugares e uma TV. A cozinha era separada da sala por um balcão com cinco cadeiras do lado da sala e uma mesa redonda amarela e cadeiras brancas na cozinha.

As garotas que lá moravam faziam parte do grupo ‘A’, mas um passo em falso e você seria colocado no do grupo ‘B’, trainees que eram excelentes, mas precisavam de mais experiência. Há uma constante rotação de membros entre os dois grupos que são decididas durante avaliações mensais. O clima de competição é sempre intenso entre os grupos e isso é constantemente incentivado pelos mentores. O grupo ‘C’ compunha trainees que dominavam sua habilidade principal, mas apresentavam uma evolução em todas as áreas – dança, canto, presença de palco e carisma – Já os indivíduos que eram talentosos apenas em sua especialidade e precisavam de lapidação ficavam em ‘D’. E por fim, o grupo ‘F’, onde ficam os recém-aprovados em audições ou recrutamentos. A avaliações mensal é a única forma de subir de nível, mas ser naturalmente bonito era uma vantagem.

Ao entrar no apartamento, era possível sentir o clima de tensão, algumas meninas estavam sentadas no sofá, apenas assistindo algum programa de variedade até o sono chegar. Os rostos não escondiam o peso do dia. Yuna acena com a cabeça para as garotas e diz um baixo boa noite que foi recebido com leves acenos.

No noticiário era feita uma retrospectiva da carreira de Jiyeon. A maknee do maior grupo da Coréia, a garota prodígio, estava envolvida no maior escândalo e na maior tragédia que a indústria havia visto. Na época as ações da empresa despencaram e alguns treinees terminaram seus contratos alegando justa causa. Assistir aquilo era perturbador e intrigante.

Uma garota vinha do corredor que dava para os quartos secando os cabelos com uma tolha e prestes a se juntar com as outras meninas que assistiam a televisão, quando Yuna entra no seu campo de visão. Seohyun era apelidada como a Miss Coréia e isso dizia muito sobre ela. Mesmo de cara lavada, ser comparada a uma boneca de porcelana era o mínimo que ela ouvia de alguns membros da equipe. Além disso já tinha certo reconhecimento ao participar como modelo em alguns MVs e desfilar.

— Praticou bastante? – seus olhos redondos correram Yuna de cima a baixo.

Yuna coloca uma das mãos na cintura e a encara.

Porque quer saber? – reponde de forma direta.

Arrumou uma maneira de disfarçar essa bunda grande de latina que você tem?

Imagina... vou dançar com ela até o chão amanhã – diz calmamente e com um leve sorriso – Já você, pergunto se ficar acenado e bajulando os outros pode ser considerado algum talento – Ela faz uma pequena pausa e debocha— mas acho que para ser Miss serve, não é?

Seohyun marcha a até Yuna que não move um centímetro — Do que você me chamou? Sabia que senti o seu cheiro de longe?— diz com os lábios serrados.

Yuna solta uma leve risada. Era exaustivo lidar com Seohyun. Tinham a mesma idade e quase o mesmo tempo de treinamento e desde que foram apresentadas nunca interagiram de outra forma. Começou de forma sutil, comparações, mas hoje em dia as coisas tinham escalonado.

A primeira vez que se viram fora durante uma aula de dança. Yuna era recém chegada quando foi pedida pelo professor que improvisasse uma dança aos demais trainees. Neste momento o mundo Seohyun tremeu.

Garotas! Acalmem-se, por favor, isso não vai ser bom para nossa apresentação amanhã!— diz uma voz aguda.

Choon-Hee, pode ficar tranquila, nós já acabamos, não é mesmo? — Suas brigas geralmente eram rompantes de raiva e normalmente em dias difíceis.

Yuna não responde, apenas vira e acompanha Choon-Hee até a cozinha, enquanto a outra marcha de volta para os quartos.

Unnie...vai um caldo quente?— enquanto servia uma tigela. Tinha 18 anos e vestia seu pijama de inverno com cauda de gato. Usava duas tranças até o fim das costas e não era muito alta, ficava abaixo dos ombros de Yuna.

Nossa! Leu a minha mente — disse Yuna enquanto pendurava o casado na cadeira – Conseguiu terminar aquele verso?

— Acho que sim! Quer ouvir? – disse ela abrindo seus olhos de raposa.

Yuna sorri de leve enquanto toma um gole da sopa direto da tigela – Desembucha.

A garota sem põe de pé e com uma colher começa a soltar suas estrofes em um ritmo acelerado.

Eles falam de mim, eles riem de mim

Eu passo e penso na sorte de ser a queen

Não vejo competição, não ligo pra sua intenção

Só enxergo um sem noção

Não seja preguiçoso, chega mais e me encara

Não fique pelas minhas costas achando que não sei de nada

É a rata, é a rata

Era impossível não reparar na cauda do pijama balançando energicamente ela soltava suas rimas. Choon-Hee era o que se podia chamar de moleca. Entrou um ano depois de Yuna e havia acabado de entrar para o grupo de elite. De acordo com os rumores, ninguém nunca a viu chorar.

E então?

Eles pediram para que você se expressasse de forma mais sincera e acho que você mandou o recado para algumas garotas do ‘B’, não é mesmo? Acho que vamos ficar bem na nossa apresentação em grupo— e solta uma piscadela confidente para a pequena.

Choon-Hee olha de canto para Yuna com os braços cruzados – Ficar bem? Unnie... É da avaliação direto para o debut! Isso se você e a Seohyun não se pegarem no braço amanhã depois dessa cena de MMA.

Yuna reclina na cadeira e suspira – Na boa. Estou muito cansada para brigar, acho que iria preferir me pegar com a Seohyun— Choon-Hee fica vermelha.

Ambas riem e acabam levam um ‘xiu’ das meninas na sala. Yuna solta um leve suspiro – Pode ficar tranquila, normalmente eu sei lidar com a Miss. Hoje só estou um pouco mais cansada em sem paciência, eu acho. Sobre debutar, bom, na verdade isso pode estar mais próximo do que você poça imaginar, parece que a empresa está planejando um novo grupo feminino e para logo, até uma equipe nova estão contratando!

Como você ficou sabendo disso? – os olhos da menina ficam arregalados.

Bom, eu...foi...é...— Ela não estava com uma desculpa na ponta da língua para justificar o que sabia. Falar sobre Moon seria loucura e a única pessoa que sabia disso, além dos dois, era Mina, que como uma aparição ela simplesmente surge por detrás do balcão da cozinha.

Fui eu. Eu fiquei sabendo através de um manager amigo meu e contei para a boca aberta aqui..., mas isso ainda é segredo em baixinha— Ela diz com uma piscadela, recebendo a mesma resposta de Choo-Hee.

Podemos conversar um pouco? Ou você está muito cansada?— Enquanto inclina o pescoço e dá duas longas piscadinhas para Yuna. Este era o máximo de fofura que Mina poderia chegar.

No dia em que entrou na ‘HS’ foi inevitável. Mina e Yuna se entreolharam. A primeira curiosa em sabem quem era a novata e a segunda admirada em ver Jin Mina. Ela tinha certo reconhecimento dentro da indústria. Havia participado do “Trainee Life”, uma reality show onde trainees cotados como grandes apostas de diferentes empresas faziam covers de singles famosos, além de acompanhar suas rotinas de treinamento. Com apenas 13 anos, ela conseguiu ficar entre em 1º lugar. Todos estavam encantados com a menina esperta e sagaz. Em seguida estreou como atriz em um dorama de sucesso, era vista como a trainee prodígio da empresa, mas este foi seu último trabalho desde então.

Mina agora estava com 20 anos e na geladeira a quase cinco anos. Era agora conhecida como a trainee com mais tempo de casa na HM, já que seu primeiro contrato foi fechado quando tinha 8 anos. Literalmente crescer dentro da indústria não trouxe muitos benefícios a ela. Hoje entendia muito bem o jogo, mas quando se era apenas uma pré-adolescente, perder a cabeça era um caminho possível quando atingir as expectativas de todos parecia impossível, o que hoje ela sabe ser um fato.

Durante todo o dorama ela precisava manter um peso mais abaixo do que era exigido a um idol. TV estava simplesmente em outro nível. Assim, pílulas de emagrecimento começaram a fazer parte de sua dieta restrita, além disso, as pílulas tiravam-lhe o sono, e remédios para induzi-lo também entraram para o coquetel.

Ao final das filmagens, Mina estava totalmente dependente dos medicamentos e esconder isso da mídia se tornou prioridade da companhia que, para não perder sua credibilidade e evitar um processo, bancou todo o tratamento da garota, afastando-a dos olhos do público com a garantia de que ela iria debutar assim que estivesse em condições. De uma forma ou de outra ela devolveria todo este “investimento”. Agora, um pouco mais dura, Mina voltou a treinar com afinco após quase três anos de tratamento e terapia.

— Unnieee, não faz essa cara de psicopata...

Mina apenas olha de canto e, com as mesmas picadelas, vai em direção ao pescoço de Choon-Hee, que faz uma pose de karatê com os braços. E antes delas se tocarem, Yuna pena no braço de Mina – Depois vocês resolvem isso, vem, vamos na sacada.

Leu a minha mente.

Elas caminham até a sacada enquanto colocam seus casacos e o vento soprou na ponta do nariz. Yuna se debruçou-se na mureta encarando a cidade, não era a primeira vez que estavam ali. Mina sentou-se em um pequeno banco almofadado e encostou na mureta direita. Tirou um tubo amarelo do bolço do casado. De lá tirou um cigarro e suspirou ao acender seu zippo roxo.

Nossa, que pretencioso.

Se for para ferrar, que seja com estilo— Ela traga lentamente do cigarro, e solta o ar junto com um peso.

Ela olha do obro para Mina e a vê nos olhos – Você sabe que não devia, certo?

Eu sei, eu sei, só estou sob preção como todo mundo e esta é a minha válvula. Alguns se matam de treinar, outros choram, alguns vomitam, e outros...bem, eis um exemplo. Mas não é de mim que viemos falar— E trava mais uma vez. Um cheiro doce fica no ar.

Yuna agora olha para o céu, era difícil ver as estrelas, mas elas estavam lá – Porque você o fez vir falar comigo justo hoje?

— O seu garoto é bem lento. Ele queria falar com você e em troca eu pedi uma informação. Ele simplesmente me soltou que as coisas estão sendo preparadas. E já te aviso, fiquei sabendo que serão grandes.

Yuna olha para a rua – Não muda de assunto.

– E quem disso que estou...eu só achei que seria melhor que ele desse a notícia pessoalmente – Elas encaram-se – Você resolveu isso de uma vez agora?

O vento soprou um pouco mais forte, Yuna fica sem responder por um breve momento.

Eu acho que sim.

Acho? Você fica adiando esta conversa este tempo todo e quando realmente você tem como resolver eu escuto um “acho”?

Vai se ferrar Mina— Yuna pega o celular e diz “bloquear e deletar Moon” – e um som de confirmação salta.

Esperava um pouquinho de gratidão já que nós sabemos quem sairia perdendo nesta história de vocês— ela pausa e da mais um trago – O menor rumor que fosse.

Em tom baixo e mais calma Yuna concorda com a cabeça – Foi resolvido, ok?

Ok! – ela diz com um sorriso – Mas e agora? Vamos debutar?— ela faz uma careta maléfica.

Anda, fala logo! O que você escutou por aí?— enquanto chuta o pé da cadeira de Mina – Eu não esperava que eles começariam a preparar um novo grupo assim tão cedo.

Eu também não, mas é real. E a empresa vai investir muito alto. Parece que vai envolver uma tecnologia avançada de inteligência artificial e avatares. Era algo para ser usado futuramente, mas agora decidiram apostar alto e adiantaram o protótipo. Toda a situação com a Jiyeon realmente foi um golpe, desde a exposição até o suicídio.

E nós seremos as cobaias desta aventura.

O vento forte pode ser sentido outra vez. Ambas se protegem do frio. Falar de Jiyeon deixava tudo mais pesado.

Não consigo acreditar que ela se foi daquele jeito. Ele deve ter se sentido tão sozinha e perdida no meio daquele furacão todo. As pessoas foram muito cruéis, nem as outras meninas do ‘Galaxy’ puderam mostrar suporte à própria integrante do grupo, todos se afastaram dela – diz Yuna com pesar.

Mina apaga o cigarro e abraça as pernas – Eu vi desespero nos olhos dela, aquele momento final ainda me assombra. Ter as suas nudes vazadas pelo cara que ela confiava deve ter sida demais para a cabeça dela. Imagine, nunca errar, sempre perfeita, e de repente, o mundo inteiro está te julgando.

— Eu acho que perdi a sanidade aquela noite.

— Todos nós perdemos. Você apenas escolheu fazer algo, digamos, mais gostoso – diz com um sorriso malicioso— Já eu, você me conhece, álcool e substâncias coloridas...Até hoje não sei como voltei para o dormitório.

Yuna agacha nas pontas dos pés e se apoia nos joelhos de Mina. Sabiam das dificuldades de cada uma. A amizade começou com troca de olhares em um dia, competições pessoais no outro, para pura admiração. Mesmo quando ainda ficavam competitivas, era algo que não as envenenava, mas as motivava.

Esta admiração mútua foi selada durante um dos desafios mensais em que trabalharam juntas. Há dois anos atrás estavam no grupo B vivendo com mais 20 meninas, todas sedentas para subir de posição. A turma B era conhecida por ser a mais difícil. Não apenas porque todas tinham potencial para subirem, mas os jogos mentais e as sabotagens eram a maior provação desta etapa. Yuna e Seohyun estavam no mesmo time, mas isso não foi o suficiente para uma trégua. Mina sempre servindo como intermediadora para que as coisas andassem, mas em uma noite, enquanto treinavam, Seohyun pisou pela segunda vez na unha encravada de Yuna, o que fez com que esta institivamente empurrasse a outra que, por puro reflexo, devolveu na mesma dose. Mina apenas observou e não deixou que ninguém mais interferisse, e durante toda a briga apenas alertava para que não atingissem os rostos, já que teriam que se apresentar.

Quando as duas caíram de joelhos exaustas, Mina agachou-se entre elas e disse-lhes calmamente:

— Espero que tenham liberado tudo o que estava guardado. Eu entendo exatamente este sentimento, estamos sempre a beira de algo. Mas sou obrigada a dizer que se ainda não conseguem controlar instintos tão primários, realmente não sei onde pensam que estão se metendo. Além disso, temos trainees mais jovem em nosso time. Tentem ser a inspiração e não duas cachorras de briga.

Naquele momento Yuna percebeu que Mina era a sua inspiração e ainda que sua vontade fosse a de destruir a cara de Seohyon, pediu-lhe perdão na frente dos presentes. Esta, mesmo sendo muito orgulhosa, devolveu o gesto. Após aquele evento, as rivalidades e picuinhas foram amenizadas e por aquela avaliação as três foram aceitas no time A.

O vento na sacada bate mais forte outra vez. Mina não olha para a amiga, mas pega em suas mãos como se fosse para não cair em um buraco. Embora nunca tivesse sentido na própria pele, a tia de Yuna não deixou a indústria do kpop sem algumas sequelas. Remédios para dormir e para ansiedade eram parte do coquetel. Não demorou muito para que Yuna notasse algumas semelhanças nas ações de Mina e sua tia. E mais uma vez, durante o período de avaliação, foi Mina quem não aguentou a pressão. Seu corpo começou a tremer acompanhado por uma sufocante pressão em seu peito. Na mesma hora Yuna identificou que aquilo era uma crise de ansiedade e conseguiu levar Mina para fora da sala, sem que os outros trainees percebessem a gravidade da situação. Embora algumas pessoas da empresa soubessem do histórico da jovem, Yuna era a única pessoa direta que sabia e entendia a real situação de Mina.

Me desculpa. Eu não devia ter deixado você sozinha.

Mina olha para a amiga.

Não seja boba, eu não sou sua responsabilidade. Além disso, eu também não fiquei com você. Eu apenas fugi.

Você ligou para o seu traficante, não foi? Foi ele que te trouxe de volta para o dormitório

Mina volta a desviar o olhar a apenas concorda com a cabeça. Yuna suspira com desapontamento – Eu realmente achei que isto já estava superado.

Estava até eu ver aquela cena. Foi chocante demais pensar que eu já cogitei algo assim. Mas fique tranquila, não sou tão hipócrita, já apaguei e bloqueei.

Yuna a envolve em abraço fraterno – Ei, o que você acha de diminuir um pouquinho o nível do drama na casa e contarmos para o pessoal que a empresa está preparando um novo grupo?

Algumas vão vomitar.

Yuna solta uma gargalhada e levanta estendendo a mão para Mina. Elas entram no apartamento e agora Seohyon e Choon-Hee estão sentadas no sofá. Os créditos do documentário de Jiyeon começam a subir e no meio das duas estava Tomoko, a trainee japonesa prodígio. Ela fazia parte de um grupo de jpop, mas abandonou tudo para tentar ingressar no mercado de kpop pelo apelo global que o gênero havia conquistado. Com apenas 16 anos, mas uma aura de 30, a jovem quebrou todos os parâmetros da empresa e chegou no grupo A sem passar pelas outras etapas. Era um pouco mais alta do que Choon-Hee, o que não era difícil, e usava dois coques altos. Na mesa de centro estava um tabuleiro Ouija.

Cara, a nossa maknee é bizarra— diz Choon-Hee para as duas que chegavam.

Não a desconcentre Choon-Hee!— disse uma nevosa Seohyon.

Seohyon, você é sempre a primeira se borrar por estas coisas. Além disso, é óbvio que isso é tudo armação.

Não ofenda ao tabuleiro e muito menos as entidades com as quais eu me comunico Choon-Hee— alertou calmamente Tomoko ainda concentrada e de olhos fechados – Lembre-se que foram vocês que decidiram perturbar meu sono reparador para isso.

Choon-Hee engole seco e Seohyon abraça a almofada. Yuna e Mina sentam-se no chão em lados opostos da mesinha de centro.

Primeiro, você tem apenas 16 anos, não precisa de sono reparador. Segundo, que loucura é essa? Já não bastam as cartas de tarô, agora isso!— questionou Mina.

Ela tem se comunicado com o espírito de Jiyeon por um tempo pelas cartas— sussurrou Seohyon, ainda abraçada com a almofada.

— Fala sério, não existe essa de falar com espíritos ou prever o futuro. A Tomoko faz isso para iludir essas garotinhas tontas que acreditam em amor verdadeiro— zombou Choon-Hee enquanto recebia um olhar fulminante das outras três.

Vamos deixar a maknee explicar melhor— disse Yuna.

Tomoko estava em posição de meditação, com as pernas cruzadas e com as mãos apoiadas sobre cada uma das pernas. Ela respira profundamente antes de começar a falar.

Eu não estava presente no dia do suicídio. Eu estava aqui, dormindo. Mas fui despertada. Era um choro baixinho...mas com muita dor. Cheguei a pensar que poderia ser uma das poucas meninas que ficaram aquela noite. Observei ao redor do quarto, mas elas dormiam. De repente, o choro sessou e tudo ficou quieto por um momento.

Tum, Tum, Tum. As outras quatros pulam com as três batidas que Tomoko dá na mesa.

Eu não sei quanto tempo levou, mas o silêncio foi quebrado por batidas contra a madeira. Não foi a primeira vez que tive experiência mediúnica, segundo minha mãe minha bisavó também tinha o dom, mas eu nunca senti algo tão concreto, por falta de uma palavra melhor.

O que aconteceu depois?— perguntou Yuna.

Veio um cheiro doce, como o de um perfume caro. Mas depois um odor forte tomou conta de tudo, não sei como as demais não acordaram, era metálico, lembrou-me sangue. Eu estava tremendo, mas de alguma forma sabia que não podia parar. O som vinha da entrada do apartamento. E quanto mais eu me aproximava mais forte o som e o cheiro ficavam. Tentei ascender a luz, ela apenas piscou. Mas foi o suficiente para ver uma figura de cabelos pretos de joelhos virada para aquela parede, ao lado da parta. Ela não parou de bater a cabeça até perceber minha presença...neste ponto eu havia me aproximado o máximo que pude. Não, não, NÃAOO, a aparição gritou antes de voar em minha direção. Parecia que ela vinha para o meu pescoço. Eu fui ao chão, e ela sumiu.

Meu Deus...eu estou toda arrepiada— choramingou Seohyun.

Desde aquela noite eu venho tentando me comunicar com o espírito de Jiyeon através das cartas. Muito medo, muita angústia...muita raiva. Eu vinha fazendo um trabalho de purificação, mas faz dois dias que não consigo contato algum.

Talvez ela finalmente tenha encontrando a luz – ponderou Mina, mas Tomoko faz um sinal negativo com a cabeça.

Eu estava trabalhando para que chegássemos a isso. Posso dizer que ela estava um pouco mais calma, mas longe de pronta para ficar em paz. Fico me perguntando porque ela veio parar aqui depois do suicídio.

Aqui foi o dormitório dos membros do que viriam a ser o ‘Galaxy’— revelou Mina.

Talvez ela tenha sido feliz aqui...antes da fama— disse Yuna.

Wow...vocês estão realmente levando isto a sério?— indaga Choon-Hee

Choon-Hee, o clima ficou mais pesado. Desde aquele dia eu não tenho dormido. Sinto-me esgotada o tempo todo e sem paciência— lamentou Seohyon.

Fala sério, é claro que as coisas não estão como antes, muitas de nós vimos um suicídio acontecer na nossa frente!— rebate Choon-Hee.

Já lhe pedi para ter um pouco mais de respeito Choon-Hee— interrompe Tomoko – Seja como for, há dias que não consigo me comunicar com o espírito de Jiyeon. Por isso decidi tentar um novo canal de comunicação através do tabuleiro Ouija. Ele é uma ferramenta que requer mais energia e já que o destino se encarregou de juntar cinco de nós neste momento, acredito que seja energia mais do que suficiente para tentarmos contato com o outro plano. Vocês sabem como o tabuleiro funciona?

A minha mãe é brasileira e adepta ao espiritismo, uma religião popular por lá. Uma vez contei a ela que joguei o tabuleiro com alguns amigos de escola, apenas por brincadeira, tenho certeza que nada real aconteceu. Mas mesmo assim ela ficou preocupada e pediu para que eu não fizesse mais isso, já que nenhum de nós saberia lidar com um espírito maligno.

Sua mãe está corretíssima Yuna. O tabuleiro abre uma peque janela para o mundo espiritual e pode ser imprevisível o que vai passar através. Eu cresci em um templo budista e desenvolvi minha mediunidade, prometo que estaremos seguras enquanto realizamos a sessão. Como vocês podem ver temos impresso no tabuleiro todo o alfabeto e as palavras “Yes” e “No”. É desta forma que o espírito irá se comunicar. Além disso temos este pequeno ponteiro triangular em que colocaremos nossos dedos indicadores para canalizar a energia. O espírito irá movê-lo pelo tabuleiro formando palavras e respondendo a perguntas e sim ou não. Entenderam?

Todas concordam com a cabeça.

Então vamos começar. Choon-Hee, apague as luzes por favor. Vou pedir para que cada uma de vocês ascenda uma vala e sentem-se ao redor da mesinha de centro.

Com as luzes apagadas, era possível ver o rosto iluminada de cada uma das meninas com uma pequena vela em frente a cada uma delas. Tomoko iniciou o que parecia ser uma reza em voz baixa. Em seguida ela estende as mãos para Choon-Hee e Seohyon que estavam ao seu lado. Estas repetem o gesto para Yuna e Mina respectivamente, que finalmente também se dão as mãos. O círculo está formado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.