DIGIMON R-C.A.S

5 Capítulo 5 – O esgoto, o chamado.


Estamos descendo uma pequena escada, que vai bem abaixo da terra. Estamos indo para o subsolo, o esgoto.

Sinto um cheiro impregnado e ruim que vai piorando a cada vez que eu desço. Realmente estamos no esgoto, e não é diferente do mundo normal.

“Obrigado por tudo” – Fala Amanda olhando pra cima. Onde um pequeno Digimon de metal fecha a porta cuidadosamente. – “Trevol, achei incrível o quanto esses digimons nos acolheram na aldeia deles.”.

“Sim, realmente estou grato. Até curativo colocaram em mim, me ajudaram.” – digo, olho para os dois caminhos que há no esgoto com pouca clareza – “Por que caminho nós vamos?”.

Guilmon e Labramon, nossos digimons, estão cheirando atentamente o esgoto. Eles devem estar procurando um cheiro que seja familiar a algo seguro. O faro dos digimons é realmente inexplicável.

“Labramon, sentiu algo estranho?” – Pergunta Amanda, olhando para os dois caminhos do esgoto.

“nada” – diz sua digimon, Labramon – “o Guilmon não sentiu nenhum Digimon por perto.”.

Estamos parados, pensando em qual dos dois caminhos do esgoto seguir. Enquanto o cheiro horrível fica cada vez mais impregnado em meu nariz.

Nossos digimons olham para nós, aguardando o que iremos fazer agora.

E então, escutamos uma explosão.

Eu olho ao mesmo tempo pra Amanda, e então percebemos. Acima de nós, a aldeia está sendo atacada.

“Não, NÃO!” – Amanda vai em direção à escada para subir.

Corro em sua direção e a puxo para trás.

“Não, você não deve ir!” – Exclamo para ela.

“Me solta” – Ela tira meu braço de perto dela – “Eles nos acolheram, nos salvaram, e agora estão sendo mortos acima de nós.”.

“NÃO faça com que as mortes e toda essa destruição SEJAM EM VÃO” – Grito para ela.

Amanda para e olha para mim e para o seu Digimon. Seus olhos parecem estar lacrimejando. Apegamo-nos há tão pouco tempo com esses seres chamados Digimons, que construímos um laço, não apenas com o nosso, mas com todos os bondosos seres que convivem neste mundo.

“Vamos sair daqui” – Ela passa a mão em seus olhos e logo aponta em direção ao caminho direito – “Antes que eles venham até nós”.

E assim, seguimos em direção ao caminho direito do esgoto.

Passam-se alguns minutos, e gotas de água é a única coisa que escutamos ao longo do percurso. Não escutamos explosões, ou gritaria, ou ataques. Apenas um longo silêncio com pingos de água.

Guilmon e Labramon estão alguns metros a nossa frente, cheirando e fuçando algo esquisito ou algo que seja importante e que nos leve para algum bom caminho.

“O que está achando de tudo isso?” – Pergunto, cortando o silêncio.

“Eu estava pensando que tudo era um grande pesadelo.” – Amanda diz, andando – “mas foi depois que apareceu meu Digimon, e depois que salvamos você e o seu digimon, que vi que realmente estávamos em uma imensa realidade.”.

Fico me perguntando se o Digivice também mostrou a ela, a aldeia destruída. Ou se para cada um de nós foi algo diferente, mas provavelmente deve ter sido igual para todos.

Toco no meu bolso esquerdo, e sinto o Digivice nele. Pensei que havia deixado na aldeia no meio da correria; Minhas costas não estão mais em dor, mas meus passos estão lentos. Não consigo correr muito.

“Eu me lembro de você ter dito lá, que havia algo que iria me interessar” – Olho de relance para ela.

“Sim” – Ela pega seu Digivice. É o mesmo aparelho que o meu. Apenas a cor que é diferenciada. – “Você também foi tele transportado pra um lugar, não foi?”.

“Sim! Pelo Digivice.”

“Então. A voz de uma mulher me mostrou uma aldeia destruída, bolas de fogo vindo do céu. E eu procurei por respostas, queria saber como que concluiríamos o nosso objetivo.” – Realmente, ela viu as mesmas coisas que eu – “Após eu perguntar isso, simplesmente o céu ficou em plena escuridão. E sete imagens apareceram no céu, como se fosse sete elementos. Eu fiquei sem entender. E a única coisa que ela me disse antes de eu voltar para cá foi... Destruam eles antes que os sete nasçam”.

“Destruam eles antes que os sete nasçam.” – repito – “Você entendeu?”.

“Não muito. Parece ser algo que pode acabar destruindo todo este mundo” – Ela continua andando, guarda o Digivice em seu pequeno bolso – “Já parou pra pensar que desde que chegamos aqui, não tivemos quase nenhum minuto de descanso?”.

Isso é verdade o que a Amanda diz. Tudo seria explicado no palácio do Angemon, mas simplesmente fomos atacados. E o Digivice não deve ter sido “Programado” para uma explicação mais precisa.

“Eles, os que nos atacaram e que continuam nos atacando, devem achar nós uma ameaça enorme” – Digo a primeira coisa que vem em minha mente, e a que tenho certeza que é a certa. Tornamo-nos uma ameaça para eles, cinco humanos.

“Foi horrível” – Amanda relembra – “o atropelamento. Eu me vi morta. Alguns segundos antes de bater, tudo parece ter parado. Eu realmente havia morrido”.

Lembro-me novamente do assalto, e dos dois tiros que pararam bem em minha frente, antes de tudo congelar e se despedaçar.

“Não podemos morrer” – tento não pensar nisso, mas é sempre a primeira coisa que penso todos os minutos – “Isso tudo é como uma segunda chance para nós. Eu poderia ter morrido naquela hora da explosão. O Saberdramon poderia ter me levado e me matado, mas eu sobrevivi mais uma vez.”.

“Vamos tentar” – Amanda mexe em um pequeno anel em sua mão – “Nós temos que tentar. Sobreviver, e concluir toda essa missão que nos foi dada”.

Fico pensando nos outros DigiEscolhidos, nos três humanos. Será que eles morreram? O que realmente aconteceu com eles? Acho que quanto mais pessoas, e quanto mais estivermos unidos, melhor, mas por onde será que eles possam estar? Não faço nenhuma ideia.

“Trevol. Acho que estamos muito longe de alguma escada que nos leve para cima”. – Fala Guilmon, alguns poucos metros à minha frente.

“Tudo bem” – ressinto – “É melhor ficarmos por aqui mesmo, por enquanto. Vamos continuar andando.”.

Essas criaturas digitais nem a ciência deve conseguir explicar. Por isso penso o pôr que, criaturas tão nocivas e unidas, lutando entre si.

Não sinto nenhuma fome, ou dor de barriga. Eu comi pequenas folhas de menta na aldeia, que pareciam ser horríveis. Mas ao digerir, havia um gosto delicioso de chocolate de menta.

No longo do percurso, aparecem outros caminhos. Seguimos pelo que achamos o com menos escuridão. Mas parece não adiantar. Cada vez mais a escuridão está penetrando todo o esgoto.

“Trevol” – alguém chama minha voz lentamente.

Olho para os três, mas nenhum parece ter escutado.

“Vocês me chamaram?” – Pergunto confuso.

Eles fazem uma negativa mexendo a cabeça como um “Não”. Pode ter sido minha imaginação.

Vejo pequenos tubos de ventilação, estão parados. E o caminho está ficando mais estreito.

“Trevol” – novamente minha voz é chamada.

Olho para trás. Não há ninguém.

“Guilmon, há algum Digimon por perto?” – Pergunto, sem entender.

“Não” – diz ele cheirando os arredores do esgoto.

Será que o cheiro do esgoto está impedindo ele de localizar algo? O cheiro é muito forte e estranho.

Olho novamente para trás. Realmente não há nada.

“Trevol?” – Amanda me chama – “O que foi?”.

“Você que está me chamando direto?” – Pergunto indo em sua direção.

“Não. Como assim te chamando direto?” – Ela faz uma cara de confusa.

“Esquece, é apenas imaginação minha” – Digo, terminando o assunto.

Guilmon e Labramon continuam a caminhar. Não parecem estar com fome ou sono. E a Amanda continua com uma cara de entediada, mas atenta.

“Ali” – aponta Labramon com sua pata – “Há uma pequena abertura.”.

Olho atentamente, e logo vejo que há como se fosse uma porta aberta, só que deitada e bem longa. Poderíamos passar por ali deitados, rastejando.

“Provavelmente deve ter algo após esse feixe. Alguma coisa que após ele, pode acabar nos levando para cima, quem sabe. Vamos.” – Fala Amanda, atenta.

Chegamos à pequena abertura. Guilmon é o primeiro a passar, ele passa rastejando, com um grande esforço, mas consegue passar pelo feixe.

Labramon é cuidadosamente empurrada pela Amanda, que consegue passar também pelo feixe. Os dois nos aguardam.

Amanda coloca o pé para subir, e logo após se deita, e se movimenta com suas mãos para seu corpo ir em direção ao lado do esgoto que estão nossos Digimons.

“Trevol” – a voz dessa vez é mais alta. E não é da Amanda, nem do Guilmon, e nem muito menos da Labramon.

Olho para trás, um grande vasto de esgoto. Sem nenhuma presença humana.

Eles não parecem ter escutado meu nome sido chamado.

“Falta só você” – diz Amanda do outro lado.

Coloco primeiro minha cabeça, e me empurro com minhas mãos, para assim entrar. Realmente a abertura é longa, tanto que continuo me rastejando por alguns segundos.

Paro de me movimentar, e olho para eles. Um vulto acabou de passar por trás deles.

“Não para não, vem logo! Se não a gente te deixa aí” – Exclama Amanda, rindo.

Volto a me movimentar para sair do feixe. Faltam só alguns centímetros. Todo o esgoto está em pleno silêncio.

E então, duas mãos puxam minha perna para trás com toda a força.