John estava sonolento, eram segunda feira 10:00 am, havia acordado cedo para uma entrevista no RH da universidade, era estudante do curso de Direito e há tempos vinha passando maus bocados por causa da falta de dinheiro, era bolsista logo não precisava se preocupar com as despesas do curso porem sua dispensa de comida estava vazia há uma semana e as contas de luz e agua estava por ser pagas desde o mês passado.

— Bom dia – disse o assistente social sem ao menos erguer os olhos para ver quem entrava na sala, era um homem de meia idade, magro e careca, seus olhos castanhos se repousavam atrás de um óculos de aro redondo bem antiquado, a visão seria engraçada se o momento não fosse tão trágico – como posso ver aqui em seu currículo sr. John, você nunca trabalhou antes e não tem nada que possa ser útil para nós no que diz respeito a habilidades especificas... Não sei se realmente precisamos dos seus “serviços”.

A entrevista ia de mal a pior, se não conseguisse convencer o assistente social de que realmente precisava de um emprego teria que trancar o curso e voltar para a casa dos pais em sua cidade natal, não queria aquilo, algo tinha que ser feito!

— Me desculpe sr... Carlos – viu escrito em uma plaquinha sob a mesa do assistente social – Mas eu realmente preciso de um emprego, sou estudante aqui na universidade, não posso largar tudo e voltar para casa, não à esta altura do campeonato! Faço o que for preciso! Qualquer coisa! É só me contratar!

Carlos olhava com curiosidade para o garoto, era incrível como algumas pessoas assumiam posturas totalmente diferentes quando confrontadas, aquele garoto parecia ter potencial, mas ainda restava saber uma coisa antes de aprova-lo.

— Compreendo... – disse enquanto se inclinava para trás em sua cadeira – motivação, sr John, é algo que prezo muito. Antes de tomar qualquer decisão, preciso saber: Qual a sua motivação? Por que devo contrata-lo para que você possa continuar nessa faculdade? Por que escolheu o curso de Direito?

A resposta pareceu simples: “preciso de dinheiro” é o que seu lado irracional responderia, mas uma coisa era fato, seu lado irracional nunca falava pois ele na verdade não existia.

— Quero trabalhar para poder continuar estudando aqui – disse sem alterar o tom de voz, era uma habilidade que o curso de direito vinha o aprimorando – sei que há muitos estudantes por aqui, alguns deles pagam até mais do que eu para estarem aqui (era verdade, afinal ele era um bolsista), mas eu preciso estar aqui, eu TENHO que me formar, por que não posso deixar impune aquele que arruinaram com a minha vida.

O silencio surgiu acompanhando aquela resposta, John não sabia ao certo os motivos, mas estava confiante, Carlos deixou escapar um sorriso de canto de boca.

— Se apresente na sala 7 hoje à tarde – disse escrevendo informações em um cartão que apanhara em uma das gavetas da mesa escrivaninha – chegue antes das 14:00, e por favor não se atrase.

O cartão continha informações sobre horários na parte em branco, trabalharia de 14:00 às 18:00 todos os dias da semana e de 10:00 às 18:00 aos sábados, a sala ficava no bloco “E” próximos aos laboratórios na parte mais afastada do Campus, do outro lado no cartão se lia em letras douradas as siglas D.E.A.T.H – Departamento de Estudos Avançados em Tecnologia Humanística.

D.E.A.T.H ... Era uma surpresa descobrir que seu mais novo local de trabalho se chamava “Morte”, provavelmente alguma piada infame de algum aluno veterano, mas isso não importava, o importante era que havia conseguido um emprego e que poderia continuar estudando.

Já eram quase 12:00, o garoto tinha fome embora os poucos trocados dentro dos bolsos fossem suficientes apenas para comprar um pacote de batatas, comia aquilo com o pesar de quem comia ração de sobrevivência, queria mesmo era um bom prato de arroz e carne, algo que desse animo para o dia inteiro, aqueles salgadinhos industrializados serviam apenas para enganar o apetite.

Terminara de comer e resolveu andar um pouco pelo campus, quem sabe, até encontrar um trajeto mais simples para o bloco “E”, já que deveria frequentá-lo todos os dias seguintes.

Os prédios na universidade tinha características e padrões próprios, cada curso ocupava um prédio, logo já se imagina a quantidade de prédios dentro daquela universidade, eram muitos, cada um indicado com uma letra do alfabeto, o curso de direito ficava no prédio “A”, engenharia civil no “B”, e assim subsequente, alguns prédios eram enormes com até seis andares, outros já eram mais simples com dois andares, entre um prédio e outro haviam corredores, praças e ares de interação, se parecia com uma mini cidade, o que não era muito impossível pois entre alguns prédios de cursos haviam sobrados, ou prédios residenciais, as “republicas” onde moravam os estudantes.

Andou bastante até perceber que não encontrara prédio algum com a inscrição E, devia haver algo errado já que em tese os prédios mantinham uma desordenada ordem alfabética, porem do bloco “D” já se pulava para o “F”, aquilo estava errado.

— Com licença – disse para o zelador que passava por ali varrendo alguns panfletos que voavam pelo chão, tinha aparência cansada e em seus olhos havia um visível ódio daqueles estudantes – Com licença, o senhor pode me informar onde fica o bloco “E”? Estou procurando há um tempão e até agora não encontrei o prédio.

— Talvez pelo fato de que ele não seja visível – disse o zelador como se contasse uma piada antiga que só ele conhecia – na verdade o bloco “E” fica no subterrâneo. A entrada fica na lateral do prédio “D”, atravesse a porta, desça as escadas e siga até o fim do corredor não tem erro.

— Obrigado – agradeceu enquanto partia, porem antes que pudesse sair de vista ouviu o velho dizer “pobre garoto” e dar uma risada medonha.

Exatamente como o velho havia dito estava lá a porta lateral, a escada rumo ao subterrâneo e uma letra “E” de ferro enferrujada marcando a parede do bloco fantasma.

Respirou fundo, havia ido até ali, mesmo que sua espinha parecesse sair do corpo a cada calafrio, não podia voltar atrás, aquela era sua chance.

Entrou no corredor frio, o barulho do ar passando pelos dutos era bizarro, o corredor estava razoavelmente limpo, não havia entrada alguma para luz, a iluminação artificial dava ares de hospital ao corredor, estava a pelo menos 18° C lá dentro, o que era completamente o oposto do lado de fora onde deveria estar há pelo menos 28° C, não havia porta alguma em nenhum dos lados do corredor, a princípio imaginou que o frio era por causa de algum laboratório de química ou anatomia, mas não havia nenhum dos dois até aquele ponto.

Ao fim do corredor ele se bifurcava e uma placa apontava para as duas direções, de para esquerda havia a sinalização “laboratórios”, para direita, havia apenas um grande número “7” pichado com spray preto.

John engoliu em seco, estava no mínimo apavorado, estudava na instituição a pelos menos três meses e nem ao menos suspeitava que pudesse haver algo assim em todo o campus, virou para direita, no rumo do 7 que imaginou ser a sala 7 onde começaria a trabalhar aos poucos a iluminação no corredor diminuía, a poeira sob o chão aumentava, e um calor estranho tomava o ambiente fazendo que o John tirasse a jaqueta jeans, um barulho ensurdecedor de maquinas tomava o lugar, uma casa de maquinas se encontrava ao fim do corredor, estava em pleno funcionamento queimando carvão e levando calor pelas tubulações para alguma sala por ali.

Ouviu o som de uma porta se fechar perto de si, olhou para os lados e se deparou com uma porta branca de madeira que sequer havia percebido.

Na porta estava uma folha de papel impressa “Departamento de Estudos Avançados de Tecnologia Humanística”, coisa de nerd foi o que pensou tentando afastar pensamentos mais sombrios do que o nome bizarro e localização daquele departamento, com as mãos tremulas tocou a maçaneta, girou-a e escutou um clique, a porta estava destrancada. Com um rangido entrou na sala e fechou a porta atrás de si.

A sala era ampla, havia uma grande mesa de madeira ao centro com diversas cadeiras confortáveis distribuídas à sua volta, eram 7 cadeiras, contou mentalmente, alguns computadores próximos às paredes, e uma prateleira havia diversos potes de vidro com formol onde coisas estranhas flutuavam, havia um sofá de couro preto em algum ponto mais isolado na sala, alguns pufes espalhados próximo ao que parecia ser uma tela de 50” embutida na parede, era um lugar extremamente agradável, totalmente contrastante com o corredor bizarro do qual acabara de sair.

Em cima da mesa havia uma caixa de donuts aberta, dois deles já haviam sido consumidos, John pensou não haver mal em pegar um, mais tarde agradeceria e até mesmo pagaria pelo doce se fosse preciso, sentou-se no sofá de onde pode olhar mais atentamente para a sala, havia um relógio de parede pendurado no centro da parede frontal, seu tiquetaquear era constante, o que poderia ser incomodo dependendo do momento, no lado esquerdo havia um termostato que marcava agradáveis 23°C, sentia ao mesmo tempo a ventilação gelada vindo dos dutos acima de sua cabeça, e um calor agradável que por instinto sabia provir daquela estranha casa de maquinas, tudo ali parecia perfeito.

— Você deve ser um dos novatos – disse alguém sentado de costas para a mesa na cadeira ao centro, John em momento algum havia percebido que ele estava ali – Fique tranquilo, pode ficar à vontade, pegar outro donut se quiser, logo os outros cinco devem estar chegando à propósito, meu nome é Vinicius. Líder da D.E.A.T.H e seu superior imediato.