Notas iniciais
Leiam o próximo capítulo. Lá não há história, mas tem coisas que é interessante saber.
“Pois digo-lhe, leitor; não vale minha vida à mim tanto quanto aos que se distem.”

Com essa frase, reflexão minha, principio o capítulo quinto e, sabe quem lá, o derradeiro.

No que diz respeito à circunstância lhes deixada, mantém-se a mesma. Por conveniência ou, antes, mera comodidade... Irei aqui relatar a continuidade um tanto fora do paradigma anteposto. Deixo-lhes, também, a questão a ser solucionada; e sim, por igual comodidade o faço, pois não somente eu devo trabalhar, é dever daqueles que acompanham suprir com o que meu ócio não permite.

Sem delongas, sem mais reflexões... Redirecionemo-nos ao aspecto que é de interesse geral.

Calmamente, um véu esbranquiçado, parcialmente acinzentado, tomou para si a escuridão no céu, e o tilintar das gotas por sobre as janelas extinguiu-se, como num piscar de olhos; a feição que antes nostalgicamente o atormentava foi-se, tornando com uma pálida claridade, a princípio. Houve, naquilo, certo ímpeto de erguer-se e voltar ao outro, como numa instantânea reação cujas proporções não passaram de um súbito suspirar, acompanhado do entreabrir de pálpebras. Ora, por mais árduo que lhe fosse os pensamentos, não aceitava o intento de retornar. E o que era aquele emaranhado de emoções, confusão de ideias que o levava ao mais profundo abismo? Não, leitor, tampouco eu compreendo a faculdade humana, nem a minha, menos a de um indivíduo distinto.

Certo, certo; e o que mais? O que mais há de fazer-se? Aguardar, aguarde.

E sucederam horas desde então, o sol deixou-se ressurgir como uma pequena flor a desabrochar no bosque, desencadeando uma mobilização geral que buscou exercer a mesma atividade; assim comparo aos raios que foram tomando a extensão numa ânsia incontrolável; logo, haviam para si adquirido tudo quanto lhe havia pelo caminho. Não tardou em alcançar a face do moreno, iluminando o semblante opresso, deixando clara a fisionomia deteriorada do ser; e quão complicado é descrever com exatidão a fúnebre expressão de Hibari, como se lhe houvesse arrebatado a última gotícula esperançosa que ele guardava em si com tanta destreza. E isso leva-nos ao princípio uma vez mais; pois, estando ele defronte a algo de relativa obviedade, qual seria a razão lógica de esquivar-se, quando a situação por si pede total atenção? Há horas em que, tomados pelo momento, acometemos coisas das quais não se faz tardio o sobrevir das consequências.

E nisso, concluiu ele, de si a si, que estava explícito o erro; que desde o princípio, independendo do que houvesse de se suceder, que deveria estar ao lado do amado; não era fraqueza, não havia, em momento nenhum, a manifestação clara de seus sentimentos, senão mera afabilidade e comoção se tratando de alguém que já lhe foi “mestre”. Não obstante, adentro, sabia ele claramente o que sentia com relação ao outro, o que só se dava diante de sua exclusiva presença; e como lhe era faltosa esta, e como sucumbia ele na ausência daquela criatura. Por fim, deu-se por vencido. Levantou, deixando ao lado toda a hesitação que pesava-lhe e, voluntariamente, pô-se caminhar em ritmo rápido, lançou-se escada abaixo, corredores e, saindo do recanto escolar, foi-se porta a fora tomando a rua como caminho.

Embora o interesse acerca dele seja evidente, deixemos Hibari a correr desesperadamente, e voltemo-nos ao enfermo, que também nos é de respeito.

Silenciosos, lúcidos e de atenção elevada, assim estavam todos diante da porta; os comparsas de Dino, ignóbeis como eram, e Tsuna juntamente com seus parceiros, não sobrepujando-os por sobre os anteriores, é claro; eram de feitio semelhante em todos os sentidos que se vê, e não digo por rabugice, mas por, diferente de vários indivíduos que tenho conhecimento, não valorizá-los como personagens tão contempláveis, tendo meu interesse mais voltado aos antagonistas; enfim, assim estavam. Ora, por razão do tédio, trocavam algumas palavras, porém de todo, o silêncio prevalecia persistente, a agonia, não lhe digo.

E foi, pois, nesta cena que nos aparece o que possui como atributo o título de protagonista, com aspecto atônito, pouco reparou da presença alheia, senão ter averiguado quantos e quais eram, porém, sem delongar notando as expressões; o que contemplou em completo escarninho e, com efeito, repeliu, foi o fato de que opuseram-se a ele, defronte à porta, um médico e uma enfermeira, afirmando que era proibida a entrada de qualquer que fosse a pessoa, por razão do estado crítico do doente.

- Dou-lhes, se querem saber, três opções. Primeira – proferiu, erguendo o indicador, suspirou e prosseguiu-, vocês podem desocupar-me a porta. Segunda – o médio, de imediato – vocês prevalecem onde se encontram e, por fim –

- Acalma-te! — Interrompeu o médico em tom soberano, dando um leve empurrão no busto de Hibari, com as mãos inteiramente abertas, como a privá-lo de reação – você não está autorizado a adentrar e, por conta do ordenado, não o fará ainda que –

- ... Terceiro – e em completo ignorou-o, irreverente. Prosseguiu calmamente, indiciando o anular, num sumptuoso gesto de manifestação facial, deixando que os cabelos dessem-se ao lado e a feição sádica tomasse por completo seu aspecto. — você se cala, e então irei bater-lhe até a morte; não lhe restando nem sequer um resquício reconhecível de que, em algum momento, na vastidão desse mundo, sua existência ocorreu de fato.

Trêmulo, ocorreu-lhe uma sensação gélida na espinha; podia ouvir o palpitar do coração como se o possuíssem em mãos apoiando-o por sobre a orelha. Desviou seus passos, liberando passagem. E o mesmo fez a moça, igualmente temerosa, pálida, agiu maquinalmente, calada como estava.

Hibari não tardou em voltar-se ao que lhe era imponente, e prosseguiu ao encontro do outro, inanimado, jazendo com a ajuda de aparelhos que agiam em diversas partes de seu corpo. Quem diria que, em dado momento, haveria ele de estar ao pé de um doente, como a cuidar-lhe. Riu e deixou-se ignorar tais pensamentos, trancafiou a porta e lá ficou ao lado dele, só, sucedendo horas desde então. Esgotado, cessou por completo quaisquer que fossem os pensamentos que sua mente duvidosa trazia-lhe, fossem positivos ou negativos, prostrando-se e, assim, escorou-se na cama, a dormir.

Sonhos que fossem, tranquilizavam-no duma forma que a supressão do cansaço era certeira. Acordar, então, era mero detalhe. Enquanto dormia, seus sonhos traziam consigo lembranças, recheadas de acontecimentos agradáveis, medianos e, cá e acolá, desolados. Detalhes, apenas detalhes. \'Mas, afinal, o mais valioso da vida são os detalhes; são deles que se compõem as maiores obras, deles que se deterioram os piores e maiores vilões, mocinhos e os meio-termo. Mas, em verdade, não ultrapassam a categoria “detalhes”; não por singelos que sejam, mas porque poucos são aqueles capazes de notar. Daí surgem as diferenças entre os seres humanos, que nem todos atentam aos detalhes; afinal, boas oportunidades não surgem para os de médio intento, mas sim aos de grande percepção, aqueles que absorvem os detalhes como se faz com o essencial.

Um vento frio transpassou-lhe o pescoço, fazendo um calafrio percorrer-lhe o corpo; junto a isso, não, acompanhando-lhe, sentiu um afago, julgou ser ação eólica e permaneceu como estava; não fosse a carícia nos cabelos, não haveria ele notado que não era ação natural, mas um fator próximo, deveras próximo. Levantou-se de súbito com o intermédio das mãos, foi quando então pôde contemplar à frente a benévola imagem de Dino, desperto. Olhava-o plácido, esboçando um sorriso lhano; as olheiras eram claramente profundas, a face e o corpo estavam com aspecto abatido; respiravam ruidosamente, os olhos entreabertos não aparentavam possuir aquela característica por decisão de seu senhor, estava brando.

- Acordei-te? — interrogou naquele tom sereno, arrebatador de melancolias.- perdão.

- De sorte que o fez. — Respondeu prontamente, segurando a mão gélida do outro com a própria, sentia a fraqueza de seus dedos a tentarem entrelaçarem-se aos de Hibari, não tendo forças que suprissem com a necessidade solicitada.

- Devo concordar... Hibari, eu realmente lamento. Jamais imaginei que tal circunstância daria-se.

E então explicou-o que agiu por impulso e o que mais havia pensado quando presenciou a cena entre ele e Mukuro. Utilizando a situação proporcionada, relatou também Hibari ao outro o que de fato sucedeu-se no momento em que encontrou-o. Ambos conversavam, trocavam palavras como velhos amigos, o que não eram(óbvio) ; Ora e outra, Dino mostrava-se pálido, faltava-lhe ar e a voz não lhe alcançava. Ao preço de um ou dois copos de água, tomados arduamente... prosseguiam com o diálogo até que, numa pausa demorada, o loiro pediu a atenção de Hibari, em seriedade.

- Ouça-me, Hibari... — rouco, forçou-se a continuar – antes que eu dê-se meu último suspirar, eu gostaria de dizer-lhe algumas palavras; ouça-as, e tornará ameno o sofrimento de minha alma.

- Não fale assim, não diga como se de fato fosse morrer. Não sonhe, nem sequer sonhe nessa possibilidade, débil.

- … É incrível como se pressente a morte com tamanha facilidade, é como se, em algum ponto de meu interior, jazesse ela a alertar-me. Entristece-me dizer-lhe que estou partindo, mas deixe-me lhe dizer o que é de maior valor, peço-lhe que ouça.

- Certamente, daqui há alguns dias, quando estivermos partindo desta espelunca, você estará são e irá rir junto a mim destas palavras que agora proferirá. hm.

- Não sabe como desejo que assim fosse; porém, infelizmente a vida não é justa, ouça-me.

E começou a relatar-lhe de como foi na viagem em que não avisou que partiria. Detalhou a cidade, os habitantes como agiam, o que havia feito lá e, especialmente, os momentos em que encontrou-se só; disse o quanto pensou em Hibari, o quanto seu corpo desejava-o e sua alma, acima de tudo. Por fim, tossiu, sentindo uma enorme fadiga no peito. Alterou o tom de voz inúmeras vezes até que, enfim, arrematou a narração. Prevendo o fim próximo, ergueu a mão com a pouca força que lhe restara, movendo os dedos como a convidar uma aproximação. Hibari, atendendo-o, foi acerca dele, levando a face ao encontro da outra.

- Beije-me... Beije-me, Hibari; desejo senti-lo uma última vez, e por fim partirei com o doce gosto de teus lábios nos meus, tendo para apreciar eternamente essa contemplável lembrança. Agora, não delongo mais, apenas toque meus frígidos lábios nos teus e finde meu sofrimento.

Assim se fez; Hibari, desfazendo-se em pranto, tocou-lhe nos lábios e beijou-o avidamente, como a levar as mão à face do outro, houve a correspondência, sucedida por uma breve mordiscada e, com efeito, aquilo em verdade foi o remate do resquício existencial que ainda restara em Dino. Ao notar que osculava um corpo privado de vida, sentiu imensa angústia. Deixou-o na cama, com a face à mostra; morreu sorrindo.

- Idiota... No fim, não pude bater-lhe até a morte.

Como se dormisse, jazia o corpo na frieza da morte, aguardando a putrefação e os vermes que haveriam de se alimentar. Aqui paro, cabe à natureza fazer o que lhe convier sem que se faça útil quaisquer comentários meus. Enfim, Hibari destravou a porta, saiu da sala, e o que se sucede não me diz respeito.

[E] Assim concluo minha história; não da melhor maneira que pude, mas de forma que ao menos o ímpeto de uma lágrima jorrar-se pela face, este fez-se.

[D] Isso foi... Bem, eu realmente não me interesso na morte, não por agora...

[H] Ficou ótima, embora algumas atitudes descritas por você não possuam nem sequer a mais mísera das possibilidades em acontecer. E, bem... você alterou de pessoa em diversos pontos. Isso explica-se por sua pouca idade, então... Está bom.

[E] Ora, quando principiei a história não sabia o que fazer no começo, quem dirá no fim. Daí a razão pela qual fiz daquela maneira, porque a história tomou um rumo diferente. Então, não pense que foi um erro.

[H] Já lhe ensinei, mocinha... — disse, puxando-lhe as vastas bochechas – que não deve atribuir desculpas aos teus erros.

[E] Mas isso não foi um –

[D] Você deseja minha morte, filha?

[E] Pai, nunca vi indivíduo mais CDV que você.

[D] Como é? Onde há respeito por aqui? Ademais, você me matou.

[E] Eu não o matei, DER.

[D] E o que foi aquilo, afinal?

[E] Aquilo?... Bem, aquilo é o que chamo de final perfeito. A morte compensa tudo. Tudo...

[H] Está, porventura, desenvolvendo indícios de sadismo?

[E] O que é sadismo?

[H] Ignore.

[E] Ok.

[D] Mas eu realmente não penso em morrer...

Fim.

Adicional.

[E] Ethel

[D] Dino

[H] Hibari

Notas finais
Fui escrevendo tudo rápido, sabe lá Deus as merdas que saíram aí. XDD Enfim, não vou mudar, morro de preguiça. q