Notas iniciais
Ah, a dúvida... uma interrogação muda o mundo. Duas podem mudar você...

Um policial estava ferido e o outro infelizmente veio a falecer no próprio local do tiroteio. Eu não o conhecia, são muitos policiais e eles se revezam, sendo impossível de decorar o nome de todos. Porém, qualquer que seja o nome dele, eu sei que as pessoas que o circundavam com certeza irão sentir sua falta.

Após o Raio sacrificar a sangue frio um dos nossos na nossa frente, ele fechou a porta e correu para os fundos, onde provavelmente havia um carro à sua espera.

Dois policiais ficaram responsáveis pelos dois baleados, que estavam cheios de sangue. O restante seguiu comigo para nossas viaturas, para uma caçada à esses monstros.

Jess foi para o lado do motorista e eu para o passageiro. Ele dirigia muito bem. Partimos com tudo e quando demos a volta no quarteirão, vimos o carro do Raio a toda velocidade. Nossos pneus cantaram e Jess começou a falar no rádio.

—Atenção Central, aqui é o detetive Jess, viatura 2402, perseguindo suspeito pela Avenida Um. Entendido. Somos eu e mais uma viatura, a outra está levando um policial ferido e outro morto. Sim, ok, entendido. Câmbio desligo.

— O que eles disseram?

—Estarão nos monitorando e será enviada mais uma viatura para apoio.

—Só uma?

—As outras estão em uso.

—Quando a gente precisa é sempre assim! Aí ó, ele virou à direita. Vira aqui.

Jess faz uma curva brusca e entra na avenida que leva ao centro da cidade. Eles queriam ir até lá para os perdemos de vista. As ruas do centro são muito parecidas e para se perder lá basta uma piscada de olhos. Um deles coloca a cabeça para fora, junto com a arma e começa a atirar. Eu e Jess nos abaixamos para nos protegermos.

Eu abro o teto solar da viatura e me levanto. Agora estou em pé no banco de trás, com metade do tronco para fora do carro, com uma arma e começo a atirar neles. Eles ziguezagueiam e paro de atirar. Os tiros podiam acertar algum carro civil.

Eles chegam ao centro, que tem as ruas cheias. Rapidamente o carro deles se mistura aos tantos outros existentes ali.

—Ele tá ali! Três carros à nossa frente! Atenção 5671, suspeito seguindo pela Avenida Principal sentido sul. — eu falo no rádio com a outra viatura que estava mais à frente. Eles poderiam pará-lo.

—Estamos aguardando em posição capitã — me responde um homem que estava na viatura 5671.

O Raio chega até eles. A viatura, ao ver os fugitivos, avança para interromper a passagem deles e os dois veículos se colidem. A batida foi forte, e os carros estão muito amassados. A viatura que acompanhava a nossa também chegou e juntos fizemos um cerco. Todos os policiais saíram do carro com as armas apontadas para o carro deles.

Dessa vez os pegamos!

—Saiam do carro com as mãos para cima, vocês estão cercados! Não façam movimentos bruscos! — grita um policial em um alto-falante. Meu coração estava muito acelerado, eu aguardava esse momento há muito tempo.

Esperamos um pouco e uma porta se abriu vagarosamente. De dentro do veículo saiu um homem com a cabeça cortada e olhando para baixo. Sua arma estava em sua mão.

—Largue a arma e ajoelhe-se agora! Mãos na cabeça! — continua o policial, mas o homem o ignorava completamente, com os olhos mirando o chão.

—Vocês vão pagar pelo que fazem conosco! O meu povo sofre, e agora é a vez de vocês! — ele grita olhando para todas as pessoas que assistiam a cena. As pessoas estavam assustadas e com medo, crianças choravam, o trânsito havia parado ao nosso redor.

Ele olha fixamente para Jess e em um gesto rápido levanta a mão que segurava a arma. Ele ia começar a atirar diretamente no meu parceiro. Eu gelei. Antes que ele começasse a atirar, disparei minha arma. Os outros policiais também fizeram isso. Em um instante o capanga do Raio estava no chão.

Morto.

Tiros começaram a sair de dentro do carro em que o Raio estava. Meus policiais atiraram contra todo o veículo. Quando fiz sinal para que parassem de atirar, furos estavam por toda a lataria e os vidros estavam espalhados no chão. As pessoas que antes nos cercavam já não estavam mais lá, fugiram em desespero.

Um silêncio se instalou em meio àquele caos. Fiz um sinal com a mão para que eles avançassem.

Vagarosamente os policiais se aproximaram do carro. Analisaram-no e então relaxaram a postura. Deram positivo para que nos aproximássemos. Eles abriram as portas e nos revelaram quatro cadáveres perfurados por vários tiros. Cinco mortos ao todo. Mas o Raio. Bem, o Raio não era um deles.

Ele não estava lá.

Como ele podia não estar lá? Como conseguira fugir? Como?

Ele tinha que estar lá, tinha que ser esse o seu fim! Ele nos passara a perna mais uma vez. Que tola fui.

—Calma Luce! — tentava me acalmar Jess.

—Calma? Como quer que eu fique calma? Esse desgraçado tinha que estar morto junto com os outros! Como ele fugiu? Só havia um carro! Ele não pode ter trocado de veículo! Não deu tempo!

—E quem lhe garante que ele fugiu no carro? Nós nos preocupamos tanto na perseguição, que não paramos para pensar se ele realmente ele estaria lá.

—É como ele fugiu? A pé?

— E por que não? Como ele sabia que nunca pensaríamos nisso, deve ter feito. Ele nos passou a perna direitinho.

—Burra, Burra, Burra! Eu sou muito burra!

—Não teria como você saber disso, ninguém poderia saber. E você não é burra! Você é uma heroína, salvou minha vida! — diz ele, me abraçando.

—Todos os policiais atiraram, não fui só eu — falo com o rosto colado em seu peito, ainda com a voz dominada pela raiva que estava sentindo.

—Ei, calma! Não estrague o momento! — ele diz e ri, eu rio também. Só ele conseguia me fazer sorrir quando estava nos piores momentos.

—Eu não poderia deixar que machucassem meu parceiro, isso não, teriam que passar por cima de mim primeiro! — eu falo e ele me aperta mais forte.

—Já me sinto até mais seguro!

Nós dois nos acalmamos e um policial, o qual nem havia notado, pigarreia para chamar nossa atenção.

—Com licença detetive, capitã, mas gostaria de saber se podemos chamar a perícia.

—Claro, façam isso. Isolem a área também. Diga à perícia que quero o relatório imediatamente depois de terminarem aqui. — eu falo com ele.

—Entendido — ele responde e sai.

—O quê fazemos agora? — pergunta Jess para mim.

—Bem nós vamos... — meu celular então começa a tocar. Era da delegacia. — Alô? Sim, sou eu. O quê? Mas como? Ele não estava protegido? Droga! Estou indo para aí.

—O quê foi?

— Assassinaram o vice-prefeito.

—Como? Ele não estava sob segurança especial?

—Estava, mas de algum jeito eles sabiam onde ele estava. A sorte era que a família estava em outro lugar, se não todos estariam mortos agora. Bom, já sabemos para onde o Raio foi depois de sair da central de distribuição.

—Eles estão conseguindo eliminar o comando sobre a cidade. Isso vai gerar muita confusão.

—Nem me fale. É melhor irmos até lá para ver se encontramos algo.

Nós começamos a andar e o telefone do Jess toca.

—Olá, alguma novidade? Do apartamento? E as câmeras de segurança? Ah, entendo. Que cor? Sem placa, nossa. Mas não é possível que ninguém viu o sujeito! Ah. Certo, obrigado. — ele olha para mim e sem que precise perguntar ele começa a falar — era o Bob. Ele e Rachel descobriram que o atirador da Kate estava no apartamento no terceiro andar do prédio em frente à delegacia. Checaram as câmeras de segurança e viram um sujeito com roupa preta e o rosto coberto saindo de um carro vermelho. Ele carregava uma sacola grande, que deve ser a arma.

—Vermelho? — imediatamente me lembro do carro que pensei estar vigiando minha casa. Eu acreditava que era vermelho. — qual o modelo?

—Era um modelo esportivo.

Era exatamente assim que me lembrava. Um carro nesse estilo vermelho. Então eram eles mesmo que estavam me vigiando.

Seguimos de carro até o local onde o vice-prefeito fora morto. Decretaram estado de alerta e ouvi boatos de que o prefeito estava querendo renunciar, pois todos agora que tinham envolvimento com política e economia na cidade estavam ameaçados. O cargo de capitã seria um alvo também, se eu já não fosse antes de me tornar uma.

De início eu e Jess pensávamos que o vice-prefeito, o Alex, estava em sua residência sob proteção quando fora morto, mas para nossa surpresa quando chegamos no local ficamos sabendo que ele fora assassinado enquanto era transportado para uma reunião com o prefeito e demais políticos.

Alex havia levado três tiros, um no abdômen, um no ombro e o tiro fatal foi na cabeça. Morreu instantaneamente.

O carro dele parecia mais um queijo de tantos buracos de bala que tinha em sua lataria. Mais uma vítima do Raio. Faria de tudo para que ele pegasse pena perpétua.

Não achamos nada no lugar do tiroteio. Estava mais do que óbvio de quem fez aquilo e por que. Já que não conseguiríamos nada ali, Jess e eu deixamos que a perícia examinasse o local e nós voltamos para a delegacia.

Ao chegar lá reuni todos em uma nova sala, já que a Apocalipse fora corrompida. Esta não possuía janela, apenas uma mesa e um quadro, além de um data show. . Em cinco minutos todos estavam lá. Rachel, Bob, Vanessa com sua papelada, Jess e Tyler. Todos os cinco estavam sentados em volta de uma mesa redonda e somente eu estava em pé.

—Como vocês sabem infelizmente nosso vice-prefeito, o senhor Alex, foi assassinado esta tarde pelo Raio e seus capangas — eu comecei a falar — Estive pensando no caminho para cá e fiquei refletindo sobre como o Raio está sempre um passo a frente de nós. Não importa o que fazemos, ele sempre está adiantado — Jess olhou para mim com os olhos arregalados, parecia que já sabia o que eu iria falar em seguida — a morte de Alex foi o que faltava para que eu enfim pudesse chegar a uma conclusão.

— Que nós somos um bando de burros que não conseguem vencer um cara como o Raio? — debocha Bob. Eu apenas olho para ele e ele entende minha repreensão.

—Alex estava em um local seguro — eu prossegui — Seu transporte era confidencial. Não havia como suspeitar que aquele veículo levava o vice-prefeito.

—Mas suspeitaram, ou então não haveriam matado no. — diz Rachel

— Ou então há alguém infiltrado entre nós.

Todos param e olham para mim. Um silêncio invade a sala que logo seria a Apocalipse II. Jogar uma acusação dessas não era nada fácil, mas era a única resposta para não conseguirmos prender o Raio.

—O Raio desde o início tenta me afetar. — começo a andar em volta da mesa — Ele sabe meu número de telefone, sabe onde eu moro. Ele sabia da reunião com a promotora, a qual era confidencial, e agora sabia do transporte do vice-prefeito. Há alguém infiltrado aqui.

—Você não deveria estar sob segurança? – pergunta Tyler.

—Parece que isso não tem feito diferença, não é mesmo?

—Quem sabia dessas coisas? — pergunta Rachel.

—_Todos nessa sala e os policiais que o guardavam.

—Deve ter sido algum deles, mas quem? — pergunta Vanessa. Era difícil ouvi-la em reuniões.

—Eu queria muito saber — falo colocando as mãos sobre a mesa e deixando-me sentir o peso que estava em minhas costas. Olho para eles e eles para mim. De repente Vanessa, que mexia em um de seus arquivos se surpreende com algo que encontra.

—Minha nossa, era tudo que não precisávamos. — diz ela colocando a mão sobre sua boca.

—O quê foi?

—Não me lembrava disso! Amanhã às 20 horas o prefeito tem uma conferência com líderes políticos de outras cidades. Será um grande evento! — ela fala fazendo gestos nas mãos que indicam a importância. — toda a atenção da cidade estará voltada para esse evento. Gente importantíssima vai estar lá. Sempre gostei, as roupas são tão elegantes! — ela diz apoiando sua mão em seu rosto como se visualizar se tudo

—Será o momento perfeito para um ataque ao prefeito! — exclama Bob.

—Faremos nós mesmos a sua segurança — eu informo todos — Bob, você e Rachel irão no carro com o senhor prefeito. Jess e eu estaremos no local os aguardando. Tyler, quero você no controle de tudo: câmeras, portas, sistema de transmissão... Não quero nenhuma surpresa. A segurança do prefeito será prioridade total. Venham preparados amanhã.

Todos fazem um gesto com a cabeça concordando comigo.

—Até lá, estão dispensados.

Todos se levantam e vão embora, de menos eu e Jess. Amanhã teríamos que ter total concentração. Com certeza o Raio iria tentar se aproveitar da ocasião. Eu só queria saber quem o estava informando. Não quero acusar nenhum dos meus amigos, não acho que eles sejam os responsáveis. Com certeza foi algum dos homens que faziam a segurança do vice-prefeito. Tinha que ser.

Quando todos saem, Jess se levanta e vem até mim.

—Você está bem Luce?

—Não, não estou nada bem. Tem alguém entre nós infiltrado. Como posso trabalhar com uma equipe sem confiança? Sem ela nós não fazemos nada. Pode ser qualquer um, até mesmo você.

—Pera lá Luce. O que você disse?! – ele faz uma careta para mim.

—Foi um exemplo seu bobo. Só estou preocupada.

—Vamos para casa, você deve estar exausta, está desconfiando até de mim.

Olho para ele de cara fechada e ele sorri para mim. Que besta.

Nós vamos andando até o carro. No trajeto de casa Jess dorme. Isso estava virando rotina. Jess dormia ao meu lado enquanto eu olhava para a rua, mas minha mente estava em outro lugar. Eu não conseguia parar de imaginar quem seria o infiltrado.

Ter raiva de uma pessoa é normal. Você sabe que não deve se envolver com ela, se distancia e pronto. Mas a confiança? Você não saber se pode ou não confiar em alguém é a pior coisa, pois você terá que fazer o teste. É como estar aprendendo a andar de bicicleta. Você começa com uma pessoa te ajudando, na confiança de que ela vai te segurar se você cair. Pode ser que se você vacilar ela te segure, ou pode ser que não. E se ela não o fizer você irá se machucar. E muito.

Assim é a confiança com qualquer coisa. Caso ela seja quebrada, alguém irá se machucar.

Quando viro a esquina da rua de minha casa vejo algo estranho: há um carro do outro lado da rua em frente à minha casa. Não pude ver direito, pois ele estava sob a sombra de uma árvore.

Vou dirigindo e quando chego em frente à minha casa há um homem parado olhando-a. Ele se vira para mim e é ninguém mais ninguém menos do que Michel. Droga! Ele agora? Aqui não.

Saio do carro sem acordar Jess e ando rápido em sua direção. Ele sorri para mim e me abraça.

—Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vem até Maomé. Olá Luce!

—Michel... É, oi! Que surpresa você aqui.

—O que? Vai me convidar para uma xícara de café? – ele debocha de mim – eu vim até aqui, já que você não me ligou.

Não liguei? Então ele vem até aqui porque eu não liguei? Ele acha que eu não faço nada?! Eu acabei de sair de um tiroteio, por favor! Não consigo disfarçar a insatisfação em meu rosto. Ele olha para mim e abaixa o olhar.

—Já sei, você não gostou de mim, não é mesmo? Desculpe, é que eu achei que nós...

—Não, Michel, olhe, não é nada disso. Apesar de eu achar muito cedo para haver algum nós nessa sua frase, não é por você. É que hoje foi um dia difícil e eu estou cheia de problemas como sempre. Desculpe.

—Há algo que eu possa...

—Não! – ele se assusta com minha ração e dá um passo para trás. Eu respiro fundo. Isis será difícil. E se ele ver o Jess? Não quero nem pensar no que ele fará. – olha, eu não sou uma boa companhia agora...

—Você nunca é, não é mesmo? Nem mesmo no dia em que a gente se conheceu. Lembra-se daquele dia da boate? Ou você já esqueceu?

—Você não sabe nada da minha vida, então cala a sua boca! – ele olha para o céu, a lua estava cheia, mas havia pouquíssimas estrelas. Eu apoio o peso do meu corpo em uma só perna e cruzo os braços.

—Você não me conta nada da sua vida! Sempre que o assunto é sobre você, você desvia o assunto.

—É complicado. Eu sou complicada! – bato a mão em meu peito — Escuta, eu não quero brigar com você...

—Acho que já é tarde de mais.

—Eu não quero brigar com você. Entendeu? É melhor a gente conversar outra hora.

—Quando? Quando você me ligar? – ele abre os braços em forma de confronto — Eu vim ate aqui, na sua casa...

—Exatamente! Você-veio-até-a-minha-casa! – eu falo pausadamente. Quem ele acha que é? Veio até aqui, sem mais nem menos, sem... Eu arregalo os olhos e aponto para ele – Michel, como você sabia onde eu morava?

—Como?

—Eu falei grego? Como você sabe onde eu moro? Eu nunca lhe falei isso!

—Eu... Bem... é que...

—Você! – de repente tudo fica claro! – foi você todo esse tempo! – eu corro até o outro lado da rua, onde o carro dele estava. É ele! – Seu carro é vermelho! É você! – eu olhava para ele e para o carro, passo a mão em minha cintura onde está minha arma.

—Do que Diabos você está falando? – ele pergunta para mim, completamente confuso.

—O que está acontecendo aqui? – Jess sai do carro, passando a mão em seus olhos e bocejando.

—Quem é ele? – pergunta Michel para mim apontando para Jess.

Pronto, agora o circo está completo!

Notas finais
Fatos nos cegam quando os vemos somente por um ponto de vista.