Dó, Ré, Eli
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Notas iniciais
Capítulo Dois.
Acordei zonzo, sentei no sofá esfregando os olhos. Como não me alimentava direito há alguns dias, sentia-me fraco. Porém, estou aliviado por estar em casa depois de ter escapado do ultimo episódio da minha falta de sanidade. Levantei devagar, seguindo em direção ao banheiro, precisava de um longo banho e depois tentaria comer algo, antes que eu desmaiasse. Caminhei até o banheiro e logo fui tirando a roupa, entrei no box, abri o chuveiro e deixei que a água morna escorresse pelo meu corpo. Isso me traria uma paz momentânea.
Liza, eu me lembro de você ter me prometido uma massagem relaxante. Suas massagens eram melhores do que qualquer banho tranquilo. Como pôde ir embora e deixar essa dívida comigo? Sua presença sempre me deixava mais calmo, não consigo raciocinar direito. Estou confuso. É como se antes de você, eu estivesse sempre sozinho. Espera ai! Estou sendo injusto com meus amigos fiéis, Antonio, Arthur, com meu irmão e com Francis, o qual você não gostava nem um pouco. Mas foi ele quem me avisou para ter cuidado, que eu seria pego por você. E ele acertou.
Você não era só meu calmante, mas também o dos meus amigos bêbados, como você gostava de dizer. Toda sexta-feira eu os chamava depois do expediente para bebermos, enquanto ouvíamos você tocar piano. Parecia que você estava logo ali, tocando. Você tocava divinamente. Sempre canções alegres, que me levavam para longe dos problemas da editora. Como eu amava vê-la e ouvi-la tocar. Eu poderia fazer isso para sempre. O som das notas se espalhando pela casa parecia tão real nesse momento. Fechei os olhos ainda debaixo do chuveiro, tentando me concentrar na melodia em minha cabeça, eu não conseguia me lembrar direito. Engraçado, pensei que soubesse de cor todas as suas músicas.
Parecia que o piano chorava, a música tinha um ar deprimente. Mas espera um pouco! Abri os olhos e fechei o chuveiro tentado pensar. Essa música não pode ser dela. Além do fato, dela não esta mais aqui. Liza também nunca tocou uma única canção triste. Dizia que tocava por que isto lhe proporcionava felicidade, assim, era incapaz de fazer seu piano se lamentar. Então, que música é essa?
Sai do box secando-me apressadamente. Tinha que ver de onde vinha esse som. Não seria um ladrão, seria? Claro, um ladrão viria só para tocar piano na casa de estranhos, ótima dedução Gilbert. Corri para meu quarto, que ficava do lado do banheiro, nem terminei de me secar direito e peguei a primeira blusa velha que vi e um short preto, que estavam em cima da bagunça da cama. Andei cautelosamente, seguindo o som das notas. Será que eu encontraria o fantasma da Liza? Poderia ser algum vizinho, porém não me lembro em nenhum momento de ter ouvido musica decente sair da vizinhança, que provavelmente nem sabe o que é um piano de verdade. Antes de olhar de vez para varanda, respirei bem fundo umas três vezes, criando coragem, assim talvez, evitaria ter um enfarte caso fosse o fantasma da Liza.
Finalmente pude olhar para a varanda, que no momento estava sendo iluminada apenas pelos últimos raios do pôr do sol e sentado ao piano havia alguém tocando...
– Roderich!? – meu queixo caiu na hora que o reconheci.
Ele se assustou batendo as mãos nas teclas, levantando-se rapidamente.
– Eu... Eu sinto muito ter invadido sua casa assim... Sei que foi muito atrevimento da minha parte, mas eu realmente preciso conversar com o senhor... — disse-me envergonhado.
– Eu não acredito nisso. Como? Como você chegou aqui? – O que eu faço agora, eu realmente tinha ficado maluco. Senti vontade de sair gritando.
– Eu o segui e... Senhor, perdão por estar me metendo na sua vida pessoal, entretanto, não é apropriado ir dormir e deixar a porta destrancada, e se eu fosse um ladrão? – Ele pareceu meu irmão por um instante.
–Agradeço pela sua preocupação, agora... Saia da minha casa! Saia da minha cabeça! – Já estou exaltado. Droga, eu não consigo mais entender o que esta acontecendo comigo.
– Por favor, mantenha-se calmo. – Dizendo isso, virou-se um pouco para pegar algo em cima do piano e mostrar para mim.
Reconheci na hora o objeto em suas mãos, era meu...
– Seu livro! Eu pude ler algumas páginas que me intrigaram muito. E preciso fazer algumas perguntas a você. Como o senhor sabe tanto sobre mim e Elizaveta? Como pode saber de tantas coisas, tantos detalhes? – Perguntou com o livro estendido em minha direção.
Não interessa o quão real ele pareça estando aqui na minha frente. Eu só posso concluir que ele é uma miragem, uma assombração, que na verdade deveria ter vindo na forma de Liza, se o objetivo da minha mente era me consolar, e não vindo na forma dele. Eu estou pior do que imaginava. Eu teria que me conformar e procurar ajuda psiquiátrica ou...
– Espero que o Senhor não esteja pensando novamente, que eu sou um mero devaneio seu. – Ele disse isto com mais uma de suas caras de insatisfação seguida de um suspiro longo. Podia até ler meus pensamentos agora, é? Mesmo que ele realmente aparente ser de carne e osso, eu não posso acreditar.
– Como você sabe o que estou pensando? Isso significa que você só é uma invenção da minha cabeça, não exist... – Fui interrompido, assim que ele se aproximou um pouco mais de mim.
– Não seja tolo, já te disse que existo! E seus pensamentos tornam-se óbvios se o Senhor faz tais expressões patéticas e de descaso para com a minha pessoa. – Falou parecendo irritado.
– Vou ligar para o Francis. – Falei mais para mim mesmo do que para informá-lo, indo para sala á procura do telefone, provavelmente Francis saberia o telefone de um bom médico. Mas Rod me seguiu e puxou meu braço fazendo com que eu o olhasse, antes que pudesse pegar no aparelho.
– Por favor! –Sua expressão mudou para amarga misturada com choro. — Eu te suplico. Não tenho mais a quem recorrer... Agora que não tenho mais Elizaveta comigo, eu não sei para onde devo ir. E não sei encontrar sozinho as respostas do que aconteceu e nem do que devo fazer. Esta tudo diferente e ao mesmo tempo igual, eu não consigo entender. Sei que parece mentira, mas...
– E como você espera que eu te ajude? – o interrompi. — Eu também estou perdido sem ela e não tenho respostas... O que eu deveria fazer? Só aceitar o fato de que fiquei maluco e viverei o resto da minha vida me lamentando e falando com fantasmas por causa dela. Deveria...
– Deveria... Crer no impossível, só assim conseguirá preencher seu coração de coragem, e até um pouco de insanidade, para seguir em frente.
– Você leu...
– Não, Elizabeth disse isso para mim, e você de algum modo você escreveu em seu livro, então devo supor que você saiba o que deve fazer sobre essa situação, não? Já que você deve ter a conhecido. Eu seguirei o conselho dela, e não me importo mais se isso estiver sendo inconveniente ou tolo. E se eu realmente não estiver mais em meu perfeito estado mental, também não me importarei. – Estou sem saída agora.
– Ok. – respirei o mais fundo que pude para levar um pouco de ar ao cérebro e esclarecer minhas ideias. Liza sempre tinha um conselho otimista para acabar com todas as minhas lamúrias nada incríveis. Era impossível esse cara ter lido meu livro em um período tão curto de tempo, não é? Ele realmente não é um fã maluco? Não, não Gilbert, você deve acreditar nessa loucura, já que é isso que Liza parece querer.
– Então? O Senhor...
– Gilbert. Meu nome é Gilbert, você pode me chamar de Gil se quiser. – Já estava me irritando esse negocio de “senhor”, eu só o fiz dois anos, mais novo que eu.
– Não obrigado.
Quem, esse maldito, pensa que é? Não estava pedindo a minha ajudar até agora? — Enfim, eu vou acreditar em você, mas... Você vai ter que acreditar em mim também. – Tenho que tentar fazer com essa situação pareça menos ridícula.
– Tudo bem. – Ele concordou e eu me senti mais aliviado a prosseguir...
– Caro Roderich, você realmente não existe! Não nesse mundo, pelo menos. – Depois de tudo, ele ainda não podia ser totalmente real para mim.
– E o senhor presume que eu seja de que mundo? – Ele disse irônico, mas com um semblante calmo.
– Do mundo dos livros! – Essa foi minha incrível dedução. Ele fez uma expressão, um tanto quanto, vazia. Devo ter lhe mostrado a verdade de uma maneira muito dura e ele ficou chocado. Um longo silencio se fez. Para mim essa era uma conclusão bem lógica, mas não para Rod, que quebrou o silencio.
– Você está realmente louco.
– Agora você acha isso?
– E não deveria? Tente me dar uma resposta convincente, ok? Não posso aceitar tal paranoia... – Como se essa estória toda fosse normal.
– Não foi você que repetiu o lindo conselho da Liza, cheio de si dizendo que não ia se importar com nada e blá-blá-blá?
– Por isso o Senhor tentara fazer-me de idiota?
– Veja bem Rod, minha afirmação por mais estranha que pareça, não é algo que você poderá contestar.
– Explique-se, por favor. – Ele pediu.
– Pois bem, em meu livro são retratados mais a fundo apenas 10 personagens, os demais são apenas figurantes dos quais eu nem me dei ao trabalho de descrever sua aparência direito. Sendo assim, posso afirmar que você não sabe como são seus demais familiares, e nem se lembra de um dia ter os visto. Como primos? Tios? Avós? E ainda mais, você não tem nenhuma memória, além, das que eu escrevi no livro, como amigos de infância, escola... Você não tem nenhuma lembrança antes de Elizabeth.
– Isso é ridículo. É claro que eu me lembro...
– Como é o Alex? – Agora seria o xeque-mate.
– O Alex?
– Sim, o Alex.
– Ele... Ele é... Britânico.
– O quê? Só isso que se lembra? Ele é um de seus velhos amigos. Qual é a cor dos olhos dele?
– Eu... – Silêncio — Eu não... Sei. – Vitória.
– Você não se lembra da aparência física de algum familiar seu, tirando seus pais, não é?
Ele permaneceu quieto, com a cabeça baixa.
– Foi o que eu pensei. Você não sabe de coisas que não estão escritas no livro, suas memórias são cópias das minhas ou parte da minha imaginação, não são nada, além disso...
Calei-me, quando percebi que ele começou a chorar, não sabia o que fazer. Senti pena e ao mesmo tempo raiva, por ele estar chorando de novo. Não consegui evitar pensar o quanto isto era triste e idiota. Será que meus amigos e as pessoas que me viam também pensavam isso de mim? Será que eles também já estavam cansados de me ver lamentando? Liza, você me deixou tão patético assim?
Resolvi permanecer calado, senti remorso de mim mesmo agora, pois a imagem de Rod era como um espelho. Ele só tinha lembranças da Liza e eu também parecia ter apagado tudo que não fosse sobre ela. Eu queria abraçá-lo e dizer que era mentira o que eu tinha dito, assim como eu desejei que tivesse acontecido comigo quando me falaram o que havia acontecido com Liza. Mas eu não posso.
Depois que conseguiu parar de chorar. Olhou para mim e me entregou o livro que ainda estava em sua mão. E finalmente conseguiu falar:
– Como eu lhe falei, vou acreditarei nessa loucura, visto que, não encontro no momento argumentos para contra atacar. Porém, se eu sou mesmo, apenas o personagem de um livro de romance que você escreveu, eu quero voltar para ele... Quero voltar para a estória onde eu vivia com Elizabeth!
– Voltar? – Agora ele me pegou. — Como assim?
– Sim, e o senhor é quem irá me ajudar. Afinal, você é o autor.
Não é por acaso que inventaram aquele ditado: “Se não pode vencê-lo junte-se a ele”. Aposto que a pessoa que o inventou só queria encobrir alguma insanidade. E já que eu não conseguiria espantar o Rod da minha mente e também não queria ir para um sanatório, a única solução que me restou seria ajudá-lo a voltar para o livro.
– Por hora, eu irei aceitar te ajudar. – Agora, como? Já era algo que eu não estava a fim de forçar meu incrível cérebro a pensar no momento. Meu estomago já estava doendo de fome. Irei ignora-lo por enquanto, depois penso em algo.
Deixando ele para trás, fui em direção à cozinha tentar me alimentar, mas eu sinceramente duvido que haja algo bom para comer. E realmente não tinha! Só macarrão instantâneo, alguns enlatados e legumes murchos. Lizaaaaa, queria comer sua comida, mesmo que você deixasse a carne salgada demais e deixasse o arroz queimar um pouco, ou simplesmente desistisse e pedisse pizza, era tão bom e divertido cozinhar com você, brincar de jogar farinha um no outro, fazer experiências gastronômicas. Estar sozinho na cozinha fazendo miojo não era nada incrível. Suspirei. Você também é o motivo da minha falta de apetite, peguei uma panela pequena no armário branco, colocando água e já a colocando-a no fogão para esquentar um pouco. Fui pegar o miojo e vi Rod parado perto da porta observando-me curioso... Como é desconfortável ter ele me encarando. Peguei o miojo, pondo na panela, mas fui interrompido por ele, que me olhou com uma cara desconte.
– Achei que fosse me ajudar? – Falou, ajeitando os óculos.
–Agora não, tá. Estou cansado e com fome. – E mal-humorado. Como eu iria explicar isso para os meus amigos? Eles vão me internar com certeza.
– E o senhor vai comer isso? – Ele parecia indignado pela minha escolha.
– Sim. – Respondi seco, voltando para o que estava fazendo.
– O Senhor não aparenta estar em condições de manter este tipo de alimentação tão ruim, deveria comer algo mais saudável, que o sustente. Isso não tem nenhum nutriente. – Ele caminhou para perto de mim.
– Eu não me importo. Eu que vou comer isso, não você. – Afinal ele era um personagem de um livro, não precisava comer, precisava?
– Sei que estou sendo inconveniente, porém o Senhor não precisa ser tão descortês, eu estaria disposto a ajudar-lhe, ao menos nesta simples tarefa em troca de sua ajuda. – Ah droga! Maldito aristocrata e seus mimimis.
– Ok, fique a vontade para fazer o que quiser, vou pensar em como te mandar embora. — Desisti do que estava fazendo e voltei para sala.
Eu realmente não faço ideia de como eu vou mandá-lo de volta? Eu nem sei primeiramente como é que ele saiu do livro! Seria algum sinal? Será que é algum incentivo para eu voltar a viver? Os livros não contam o que acontece depois que a pessoa fica sozinha, não contam como é passar o resto da sua vida na solidão. O que farei sem ela agora, Rod? Eu não consigo pensar em nada, ainda mais com meu estômago roncando. Realmente estava vindo um cheiro muito bom da cozinha. Será? Será que ele conseguiria fazer uma refeição digna com os restos de ingredientes que eu tinha na geladeira?
Liza, eu também gostaria de poder reviver tudo o que passamos juntos de novo...
É isso! Sabe aquele momento “clock”, que você é abençoado de repente, e um milhão de ideias começam a brotar na sua cabeça. Foi esse momento que tive, quando Rod entrou pela porta com um prato de alguma coisa que eu não sei o que era, mas me parecia estar muito bom. Acho que sei como Rod vai voltar.
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