Dékes
4 Daisy
“Eu vou matar todos... Cada um. Não importa quem seja, se ficar no caminho entre mim e meu alvo...” Era uma voz masculina, jovem. “Então por que não adivinha o que eu fiz com ela?”
Pesadelos. Memórias. Sequer sabia o que eram, mas a esse ponto eu já não me importava mais. Acordei no meu quarto, o mesmo de antes, nada novo, obviamente, não é como se houvesse algo para adicionar ali.
Me levantei, troquei de roupas, coloquei fogo em mim mesmo, minha forma de tomar banho. Obviamente não era fogo normal, e sim minhas próprias chamas, que cobriram meu corpo em um instante. Rápido e surpreendentemente efetivo. Só não fazer perto de coisas inflamáveis eu suponho, mesmo que, minhas chamas não pareciam afetar as coisas ao redor da mesma forma que fogo comum. Eram mais fracas. Queimava usando meus sentimentos de combustível, queimavam matéria viva de forma bem mais efetiva do que qualquer outra.
Ao sair do meu quarto, imediatamente esbarrei com Angelyne. Ela estava com o mesmo estilo de roupas grandes de inverno que cobriam tudo do pescoço para baixo. Ela claramente pretendia bater na porta, dando um passo para trás com o susto da porta deslizando para o lado.
“Ah! Ei, Dékes! Só vi ver se você quer ir pra cafeteria comigo.” Ela diz, meia mentira. Almas não mentem afinal. Parando para pensar, ver almas era entediante de certa forma, ver o que pessoas sentem, suas intenções. A única forma de não vê-las era fechando meus olhos, mas isso definitivamente não era algo muito efetivo para me locomover.
“O Sigma te jogou a responsabilidade de me escoltar é?” Brinco, rindo de leve.
“Quê? Óbvio que não!” Angelyne responde, fazendo bico. Verdade. “Só me ofereci, nada demais.” Vergonha. Talvez mais do que só oferecer. “Vem logo, a gente tem que comer bem, pra ter bastante energia pra missão.” Ela lembra, me puxando pela mão.
Só segui ela, estar na presença dela era reconfortante, Hunter é divertido, Sigma é gentil, mas ela é, talvez, familiar? No sentido de estar ao lado de uma amiga, alguém parecido. Ela não era o homem divertido, mas carregando responsabilidades escondidas, ou o deus com um passado tão antigo quando a própria existência. Ela era só alguém como eu, perdida, tentando descobrir o que esse mundo tinha a oferecer, e o próprio lugar nele... E com um aperto forte até demais, meus ossos sofreriam se eu tivesse algum, além da pele dela ser gelada, contraste com minha própria, que obviamente era mais quente.
Parando na porta de entrada do edifício, ela abre as portas revelando seus próprios poderes... Yinmas Blue? Não eram como do Sigma, apesar de carregar o mesmo azul profundo, eram obviamente mais primitivas, de alguém aprendendo a utilizar.
“Não te falei? Eu sou o Vetor do Max! Bom, eu tenho meu próprio poder também além desse, mas tô treinando bastante pra aprender a usar o poder dele direitinho. Ele tem me treinado toda semana pra usar, mesmo que no momento só consiga fazer cortes simples... E portais! Eu consigo criar portais pra lugares usando ela, mas preciso conhecer o lugar infelizmente, e tem o limite de distância, ainda não é dos melhores. Ainda assim, é divertido!” Ela explica, animada, me puxando para a cafeteria com mais força do que o necessário.
Hunter e Sigma já estavam lá. Sigma da mesma forma de sempre, obviamente comendo pudim, ele definitivamente não enjoa daquilo. Hunter vestido com roupas casuais como se tivesse acabado de sair de uma balada, porém com um detalhe novo. Anéis novos. Hunter possuía um anel diferente em cada um dos dez dedos, diferentes, até estranhos. Eu conseguia vez uma energia estranha sobre eles, a mesma energia estranha que parecia cercar ele próprio.
Entretanto, o mais surpreendente era a presença da Zero, a mulher estava sentada do lado de Hunter, lendo algo em seu tablet, que flutuava à sua frente como sempre, suponho que com sua habilidade de controlar tecnologia? Apesar de não entender exatamente o quão profundamente essa habilidade realmente ia. Hunter deu uma cotovelada nela para lembrá-la de comer, o que claramente não havia feito ainda, considerando seu prato intocado.
“Bom dia! Trouxe ele sem problemas, viu?” Angelyne diz, antes de nos juntarmos com os outros.
“Era o mínimo depois de praticamente implor-” Sigma é interrompido por um pedaço de pudim sendo forçado na boca dele pela Angelyne.
“Come seu pudim velhote, antes que derreta.” Ela diz, cruzando os braços, envergonhada.
Hunter ri levemente, girando seu anel saturno inconscientemente, parecia algo normal que ele fazia. “Bom, é bom vocês comerem bem, a gente vai sair daqui a pouco.” Ele comenta, sorrindo, antes de olhar para a Zero, ainda entretida em seu tablet, comendo mais lentamente do que o necessário. Hunter suspira, antes de pegar o tablet dela. “Dá pra ser workaholic outra hora? Ou eu trancar sua oficina de novo igual eu fiz no último ano novo.”
Zero arregala os olhos de surpresa por um segundo, antes de levantar uma sobrancelha. “E eu consegui entrar novamente depois de meia hora.”
“Da próxima vai ser mais difícil. Agora come e foca no novato, cadê os discursos de motivação quando a gente precisa?” Ele retruca, o tablet orbitando Hunter lentamente, sempre parecendo acelerar se ela tentasse pegar de volta, apenas o suficiente para ficar fora do alcance dela.
“Você sabe muito bem que esse não é meu foco.” Zero suspira, olhando em minha direção, apesar de claramente estar evitando olhar nos meus olhos depois da última vez. “Certo...” Ela puxa uma espécie de cartão do bolso de seu blazer, o oferecendo para mim.
O pegando, percebi que era uma carteira de identidade. Uma foto minha, com meu nome, cargo de ‘recruta’. Um brasão extremamente parecido com o que havia visto no olho do Kronos, um triângulo quebrado em três partes, era o símbolo da D.E.L.T.A, estando no canto da identidade.
“Patético.” Ouvi a voz dele por um instante, me pegando desprevenido.
“Continua não gostando do nome e logo né?” Sigma pergunta.
“Por que ele aparece do nada só pra falar algo estúpido? Parece até um pai ausente.” Digo, incomodado, Sigma e Hunter não conseguem segurar a risada com meu comentário.
“Ele não é de falar, acontece. Digamos que humanos são algo que ele já tá cheio de lidar.” Sigma responde, oferecendo um pudim para mim.
Eu sacudo a cabeça, comendo um pedaço de pudim, realmente é muito bom, mas ainda acho que falta algo.
“Só teve um recentemente com quem ele se deu bem... Mas isso mudou.” Hunter diz, sorrindo levemente, porém sua alma não mentia o peso de culpa e tristeza por baixo.
“Que tal focar no que importa? A sua primeira missão pra Delta! A gente vai lidar com esses idiotas juntos, você vai ver.” Angelyne corta. Conflito, algo a incomodava sobre esse assunto.
“É... Só que, missão...” Foco novamente na identidade, lendo algo abaixo de D.E.L.T.A. “Divisão de Estudos de Legado e Temperança Apoteótica... Vocês definitivamente criaram a sigla primeiro.”
Hunter levanta as mãos em sinal de desistência. “Culpado. O que vou fazer? O nome e o brasão eram bons demais pra desperdiçar.”
Zero suspira profundamente, apertando a ponte do nariz. “Obviamente. Não foi você que precisou criar algo com o mínimo de sentido para se encaixar nesse nome.” Ela se foca novamente em mim. “Independentemente. A Delta não é uma simples organização, nós estamos diretamente conectados ao governo de New Kingdom. Apesar de termos certa liberdade, nós ainda trabalhamos especificamente em casos especiais, neste caso, os conectados ao Poder Divino, ou em casos raros... Outros tipos.”
“É, história longa e chata, mas digamos que a Zero e eu temos ótimos contatos, fundamos esse lugar com uma ajudinha, e agora nós trabalhamos pra manter as pessoas seguras de uma galera abusando de poder... As vezes até fora do país, mas isso é bem mais complicado por vários motivos.” Hunter continua, cruzando os dedos. “Normalmente o processo pra fazer parte como um agente é mais demorado, mas caso especial com você, então mexi uns pauzinhos aqui e ali. Você é só um recruta, basicamente um estagiário, e é nossa responsabilidade ter certeza de que você não vai fazer nenhuma besteira. Então não faz nada arriscado ainda, a gente tem que garantir que você é não só alguém valioso, mas de confiança, pra poder te fazer parte daqui completamente. E vê se não perde sua identidade, isso definitivamente não vai ajudar.”
Concordo com a cabeça, a colocando no meu bolso.
“Hunter, Angelyne e Dékes. Vocês três irão para a cidade de Daisy. Sua missão é descobrir o que realmente aconteceu na cidade, salvar quaisquer possíveis sobreviventes e lidar com qualquer ameaça que ainda estiver presente na localização.” Zero explica, séria. “Hunter será seu líder, sigam sua liderança sem hesitação. As nossas informações sobre a situação são extremamente limitadas, então precaução é prioridade.”
Pouco tempo depois nós estávamos indo em direção a área de entrada da D.E.L.T.A., um prédio largo, seguro, guardas no local. Nós caminhamos até um estacionamento, múltiplos tipos de carro no local, de veículos de segurança, para carros comuns, e dois carros que pareciam bem caros.
“Infelizmente a gente não vai poder usar meu carro, mas quem sabe outro dia.” Hunter comenta, apontando para um dos carros, alguma marca cara que não conheço, não que importasse para mim por motivos óbvios. Ele nos leva até um carro simples preto. “Entra aí, a gente vai até Daisy, espero que esteja pronto, porque as coisas podem ficar perigosas.”
Angelyne e eu nos sentamos no banco de trás, com Hunter assumindo o volante, colocando óculos escuros, sorrindo. Passamos pela segurança, um largo portão metálico se abrindo após Hunter mostrar sua identidade para o guarda no comando. Após passarmos pelo portão, olhando para trás no caminho de que viemos... Nada. Vazio, um campo de flores variadas e mais nada.
“Como...?”
“O Max! O lugar inteiro é cercado pela magia dele, pra esconder e proteger de qualquer possível invasor.” Angelyne explica, animada. “Infelizmente é a razão pela qual ele não pode sair muito também, manter o lugar seguro e tudo mais.”
“Mas ele é um deus, isso sequer é difícil pra ele?”
“Mais ou menos... O problema é que estar conectado a um Vetor limita o poder que ele pode usar. Deuses tem realmente poderes massivos, mas essa conexão causa a limitação deles. Só manter uma forma física e a proteção da Delta por si só exige bastante.” Hunter explica, dirigindo por uma estrada de terra. “Claro, isso pode mudar com o tempo. Com o Vetor ficando mais forte e tendo mais controle sobre o Poder Divino recebido do deus, também dá mais liberdade ao deus. Por isso Sigma consegue manter a própria forma, porque a Angie já tem um controle bem decente do Yinmas Blue.”
“Não me chama assim!” Angelyne diz, irritada.
“Então pro Kronos assumir uma forma, eu precisaria ter controle do poder temporal dele?” Pergunto, curioso.
“É, por aí. Boa sorte pra ele deixar, entretanto. Manipulação Temporal é muito poderoso, e o Kronos não deixa humanos brincarem com isso. Se ele controlar seu corpo talvez, mas é o máximo que ele provavelmente deixaria. O único que ele deixou usar os poderes dele foi o Damian... Mas isso já tá no passado.” Hunter continua.
“Damian?”
“Isso não importa agora.” Angelyne corta, claramente incomodada com o assunto. Conflito, carinho, raiva, tristeza, saudade.
Decido aceitar, não tocar no assunto era melhor, por enquanto pelo menos.
“Então... Por que os deuses usam nossos corpos como Vetores?” Questiono, tentando saciar minha curiosidade e mudar de assunto.
“Não é escolha deles, foi algo forçado...” Hunter diz, sério. “Uma forma de controlá-los, acessar seus poderes e estudá-los... Nós ainda estamos tentando descobrir como, mas os Filhos do Abismo conseguiram fazer isso, mais de uma vez. Capturar deuses e tentar usar seus poderes. A razão pela qual Sigma por exemplo precisa de um Vetor, é por ter sido capturado a certo ponto, o mesmo com Oceano, ou Kronos. Eles podem até ter se libertado deles, mas ainda estão se recuperando do que foi feito.” Ele continua. “Por isso a surpresa de você ser Vetor do Kronos, afinal, ele não escolheria qualquer um, muito menos nessa situação.”
Capturar deuses? Como eles conseguiram poder nesse nível...
Algum tempo depois Hunter dirigia por uma cidade, demorou pouco tempo para perceber que era Dahlia, o mesmo local que eu havia sido atacado por aqueles demônios. E... Não consegui evitar de lembrar dos dois policiais.
“Alan. É o nome do policial que você salvou. Novato, tá no hospital ainda, mas vai ficar bem. A mãe dele ficou tão aliviada. Ele me pediu pra te agradecer.” Hunter diz, até parecia que conseguia ler minha mente... Ou talvez ele só entenda esse sentimento. “Markus teve um funeral ontem. Não é sua culpa, não esqueça. Não deixa as ações daqueles monstros pesarem em você.” Os óculos escuros escondiam seus olhos, mas era possível ver seu olho roxo brilhando mais forte por um instante. A aura escura estranha que parecia cobri-lo se agitando levemente antes de voltar ao normal.
Saindo de Dahlia, ele dirigiu por mais alguns quilômetros até finalmente estacionar na beira da estrada. Saindo do carro, consegui ver como a estrada era cercada por campos de margaridas. A frente havia não só carros policiais, como também das forças especiais de New Kingdom, SINK. Formando uma barricada na estrada, uma grande tenda próxima onde provavelmente era a base de operações no momento.
“Special Intervention National Knights. Cavaleiros Nacionais de Intervenção Especial. Grupo antigo pra caramba, agora são as forças especiais de New Kingdom.” Hunter explica, nos guiando até a tenda.
“Sinceramente, esse riquinho do caralho, é sério?” Ouvi um dos policiais próximos discutir com outro, irritado sobre a presença de Hunter. “E aquele moleque? Não é o motivo daquele policial ter morrido?” Falando de mim.
“Um deles sobreviveu, acho que foi por causa dele.” O outro responde. “Ouvi que a mãe do novato não parava de chorar quando descobriu que ele tinha sobrevivido.”
“Fala isso pra mulher do outro. O marido dela morreu por causa desse moleque estranho.” O primeiro policial diz.
Cerro meu punho, uma corrente se formando por baixo da minha manga longa, antes que pensasse em falar algo, Angelyne segurou minha mão, sorrindo pra mim. Olhei para ela, surpreso, mas me acalmei, respirando profundamente, a corrente desaparecendo.
Hunter, entretanto, parou, olhando para os policiais. Óculos escuros ainda no rosto, sorriso calmo. Ele inclinou a cabeça, mãos nos bolsos.
“Sinceramente, se a única coisa que você tem pra fazer é falar merda de quem tá tentando ajudar, é melhor calar a boca e sumir daqui. Culpar a vítima de um crime é patético, e eu sei muito bem que não é o que foi ensinado nos anos que vocês tiveram de treinamento.” Hunter comenta, estalando os dedos. “Duvido que seu superior vai gostar de ouvir sobre isso.”
O primeiro policial não falou mais nada, se afastando da tenda, o outro seguindo logo atrás. Hunter simplesmente acenou para que continuássemos entrando na tenda.
Ela era larga, múltiplos equipamentos pelo local, com dados que eu não conseguia entender. Apenas duas pessoas chamavam a maior atenção. Um homem corpulento, intimidador, usando um uniforme preto completo da SINK, óbvio pelas letras nas costas. O outro era um homem mais jovem, mas não menos sério, entretanto, diferente do outro, usava um uniforme cinza escuro, com o símbolo da DELTA nas costas. Ambos pareciam discutir, claramente irritados, com o primeiro parecendo furioso.
“Eu já mandei duas equipes naquela porra de lugar, e perdemos todo o contato faz horas! Quando que essa suposta ajuda vai chegar? Por que eu não vou aceitar ficar esperando ainda mais enquanto eles morrem naquele inferno!” O primeiro homem diz, mãos na mesa.
“Sinto muito por isso, mas já recebi o comunicado que eles estariam aqui em breve. Nossa equipe de pesquisa conseguiu assumir o perímetro e mantê-lo estável, nós conseguiremos mantê-lo até lá, posso garantir.” O segundo homem diz, sério, mas calmo, provavelmente um pouco mais acostumado com esse tipo de situação.
“Pelo jeito a gente chegou bem a tempo, não é?” Hunter diz, sorrindo, levantando seus óculos escuros para seu cabelo. “E aí, Nataniel, certo? Equipe Tática de Pesquisa e Contenção, nossa ajuda pra lidar com casos desse tipo.” Ele explica para mim. Sei que tecnicamente era meu primeiro dia de trabalho, mas definitivamente não a melhor situação.
“Essa é a ajuda? O riquinho Whirl e dois pirralhos?” O primeiro homem diz, claramente era o líder da equipe da SINK presente. Ainda bem que não sabe que sou novo aqui.
“Senhor!” O segundo bate continência para Hunter, que acena a mão imediatamente para que ele parasse.
“Já falei pra pararem com isso.” Hunter para em frente à mesa, mãos nos bolsos, relaxado demais com tudo, sinceramente, o nível de confiança — e ligeira arrogância — que via na alma dele era surpreendente. Ele olha para o primeiro homem, ainda sorrindo. “Hunter Whirl, Segundo em Comando da Delta, suponho que tenha ouvido falar de mim, apesar de tudo. Sei muito bem que a situação não está das melhores, mas acredite em mim, nós não viemos para brincar, e sim exterminar qualquer perigo e salvar possíveis sobreviventes o mais rápido e efetivamente possível.”
O homem faz um estalo com a boca, cruzando os braços, irritado, mas também preocupado, possivelmente com a situação e os próprios soldados em campo no momento.
“Gavin Finch. O comandante dessa operação, responsável em manter essa bagunça contida até vocês finalmente mandarem alguém pra lidar com isso.” Ele finalmente se introduz.
“Nataniel Williams. Líder de Esquadrão, responsável pela contenção do perímetro e da investigação sobre a ameaça atual.” O segundo se apresenta, ainda em continência, antes de finalmente relaxar. “Nossas análises demonstraram alto nível de magia demoníaca ao redor de toda a cidade, contendo absolutamente, está estável no momento, porém nós não temos como ter certeza de por quanto tempo isso irá se manter. Equipes de Investigação foram enviadas para determinarem a situação no interior, porém nenhuma resposta nas últimas 24 horas!” Ele relata com seriedade, e apesar de estar relaxado, Hunter prestava completa atenção.
“Últimos registros antes do contato ser cortado?” Hunter questiona.
“Poucos, a barreira é poderosa e o sinal distorcido mesmo com nossos equipamentos. As poucas informações recebidas foram gravadas aqui e podem ser ouvidas se assim desejar.” Nataniel responde, apontando para um laptop sobre a mesa.
Hunter concorda com a cabeça, o outro prosseguindo, iniciando as gravações.
Eram gravações de Bodycam e de áudio separadas, as da câmera eram as piores, difíceis de ver muita coisa, sendo cortadas, travando e cheias de glitches, em sua maioria difícil de ver, especialmente para mim, que preciso me concentrar e muito para isso.
“Mesmo os equipamentos criados pela Zero não conseguem funcionar direito lá? Quão forte é a pessoa que criou essa barreira?” Angelyne pergunta, preocupada.
As gravações de áudio por outra vez eram um pouco melhor, apesar de cortar constantemente, algumas informações podiam ser ouvidas.
“Perímetro exterior da cidade em sua maioria intacto. --- parte --- resid- maioria – intacta, porém rua --- está em caos, possível — do ataque. Sem sobrev-” Era a voz de uma mulher, alguns passos e outras vozes de fundo, mas nada muito mais descritível. “Esp- Sobre- Não!” Sons do que pareciam tiros e gritos. “Mortos- Vivos- Magia Demoníaca c- confirmada! Reforços imediatos neces-” A gravação corta logo em seguida.
Meus punhos se cerram. Angelyne ao meu lado parecia preocupada, mas irritada, uma mão segurando o próprio braço forte. Hunter estava sério, pensativo, quando uma das poucas gravações de Bodycam relativamente funcionais começou.
A equipe deveria ser diferente, passando por uma área larga comercial, provavelmente perto do centro da cidade. A mesma sensação vaga de reconhecimento no fundo da minha mente. Aquela era a cidade em que nasci... Eu deveria ter passado por ali a certo ponto, certo?
“A Praça New Dawn está próxima, apenas alguns quarteirões.” Era uma voz masculina dessa vez, o líder daquele esquadrão da SINK, pelo nome em suas costas, a pessoa gravando passos atrás. Eles claramente carregavam armas pesadas, corpos completamente cobertos por seus uniformes táticos, eles estavam preparados para combate.
“Muitos civis fugiram até aqui, provavelmente procurando por abrigo na prefeitura...” O que gravava diz, e era claro. As ruas congestionadas com carros, fachadas destruídas, restos de incêndios que foram apagados de alguma forma, mesmo assim, aquele lugar estava muito quieto. “Mesmo assim, ninguém visto até agora? Tem algo errado.”
“Eu sei, e é por isso que ninguém deve baixar a guarda. Mantenham formação e prossigam comigo.” O líder lembra, os guiando pela calçada, tentando se manter mais escondidos possíveis enquanto caminhavam.
“Se perderam um pouco, não acham?” Era uma voz de homem, mas jovem, e... Ele. O pesadelo da última noite. Um jovem estranho, em pé acima de um carro, coberto de sangue e sorrindo de forma maníaca. “Bom, esperar é entediante, é uma forma de me divertir até o evento principal.”
Entretanto, o líder não hesitou. “FOGO! ATIREM PARA MATAR!” E assim eles fizeram, toda a equipe lançou uma rajada de tiros contra ele sem pensar duas vezes, provavelmente dezenas deles. O jovem caindo do carro, desaparecendo atrás dele. “Reyes, com cuidado, tenha certeza de que ele foi abatido.” Um deles se aproxima lentamente do carro, arma levantada e preparada, porém antes que chegasse, uma risada foi ouvida.
“Pelo jeito já sabem quem eu sou, né? Isso deixa tudo mais divertido...” Uma mão se apoia no capô do carro, o jovem se levantando, sorrindo da mesma forma insana, coberto do próprio sangue agora, e mesmo assim não parecia se importar.
Eles atiraram novamente, mas dessa vez ele não ficou parado, avançando como se as balas não fossem nada. Primeiro foi o agente próximo do carro, o jovem pulou sobre ele, levantando o capacete e enfiando uma faca direto na garganta dele. Depois ele foi diretamente no líder, que rapidamente foi abatido de forma parecida. A pessoa fazendo a gravação se foi não muito tempo depois, com a gravação cortando na hora que aquele psicopata estava sobre ele. Os cabelos negros cobrindo os olhos amarelo alaranjados, o sorriso maníaco e a expressão de insanidade... Ele era familiar demais.
“Sebastian Walgof.” Gavin diz após a gravação cortar. “Escapou faz alguns meses de um hospício para criminosos insanos na Alemanha, e agora veio parar aqui de alguma forma. Dizem que esse desgraçado sobreviveu a literalmente todas as formas de pena de morte tentadas e ainda matou várias equipes que tentaram neutralizá-lo. Esse moleque tem o quê? Dezenove anos? E faz algo assim? Eu espero que vocês estejam realmente preparados pra isso, porque nem a gente tá. Se nem vocês conseguirem, nós teremos que chamar o exército de uma vez.”
“Não só isso, de acordo com as informações recuperadas, existe energia de pelo menos um demônio presente na cidade.” Nataniel adiciona.
“Só um? Então são só esses dois lá dentro?” Pergunto, esperançoso, mesmo que eu soubesse que não seria tão fácil.
“Aqueles dois Anjos de Lúcifer que te perseguiram provavelmente tavam nessa também, mas felizmente já lidamos com eles. E mesmo que sejam só esses dois... Definitivamente são bem piores que eles.” Hunter comenta, acenando com a cabeça em direção a cidade. “E aquilo é prova.”
Ele tinha razão, por fora, a cidade parecia estar presa em estase, as nuvens acima fechadas como se uma tempestade fosse acontecer a qualquer segundo – o que estava torcendo para que não acontecesse – e a própria cidade estava coberta em escuridão, como se fosse noite ainda, apesar de mal ser meio-dia aqui fora. Porém, o mais assustador era o que via com minha Visão de Alma, a energia cobrindo a cidade era poderosa, como um véu de energia estranha, parecida com a aura que vi em Geralt e Seraphina, porém muito além.
“Magia Demoníaca, exclusiva de demônios, algo nascido do Submundo. Perigoso.” Hunter explica, parando ao meu lado. Ele conseguia ver também? Ou talvez só sentisse, a própria experiência dele talvez.
“Talvez, mas a gente não vai desistir tão fácil! A gente vai acabar com aqueles desgraçados e salvar a cidade!” Angelyne diz, animada, apesar de esconder o medo e nervosismo por baixo. “Aliás, e as pessoas?”
“Ah, sim! Esse é na verdade um dos maiores mistérios sobre toda a situação atualmente. Pelo menos 95% da população de Daisy apareceu pouco tempo depois da perda de comunicação com a cidade dias atrás. Todos espalhados pelas cidades próximas. Todos confusos e desorientados, mas a maioria sem danos muito graves, infelizmente também não pareciam estar em seu melhor estado mental. Os poucos que conseguiram mencionar algo...” Nataniel relata, lendo informações em um tablet. “Comentavam algo sobre coelhos e cartolas mágicas. Porém é considerado como delírio devido ao trauma da situação.”
“Ué? Isso é bom, eu acho, mas... Quem fez isso? Magia de teleporte? Nem eu consigo fazer isso nesse nível, e mesmo se pudesse, definitivamente não fui eu.” Angelyne parecia aliviada e confusa ao mesmo tempo.
“Suponho que nós vamos descobrir lá dentro... Acho que é hora da gente entrar e finalmente lidar com a situação de frente. Espero que vocês dois estejam preparados.” Hunter fala, sorrindo. “Segura isso pra mim, só cuidado que são caros.” Ele diz, entregando seus óculos escuros para Nataniel, que os segura como se fossem granadas prestes a explodir. “Agora sim. Vamo nessa.”
“É sério? Nossa ajuda vai simplesmente se jogar na zona de guerra sem preparação? Que porra de ajuda é essa?” Gavin questiona, irritado.
Hunter suspira, se virando para ele. “E o que você esperava? Um exército? Infelizmente a situação não tá das melhores atualmente pra isso. Independente, eu já lido com coisas assim desde criança, e não vai ser agora que vou falhar. A gente vai entrar lá, lidar com o problema e fazer o que pudermos para salvar qualquer um que precise de ajuda ainda. Você pode mandar outra equipe lá dentro pra morrer, ou preparar a evacuação dos sobreviventes restantes quando a gente destruir essa barreira. O que for, nossas ordens não vêm de você. Nós temos um trabalho, e esse trabalho é salvar quem pudermos, e é o que vamos fazer.”
Antes que o homem pudesse dizer algo mais, Hunter nos guia pela estrada para mais próximo da cidade, passando pelas múltiplas barreiras feitas pelas equipes, parando poucos metros daquela barreira de magia demoníaca. Só então ele se vira para nós, sério novamente, olhando para Angelyne e eu.
“Certo, antes de entrarmos, preciso deixar algumas coisas bem claras... Primeiramente, essa barreira não foi feita por qualquer um, se já não é óbvio o bastante. Grigori, uma das diferentes raças de demônios. Grigori são demônios que costumam ter habilidades mágicas excepcionais, com controle de magia demoníaca sem igual. Uma coisa dessas? Definitivamente foi feita por um, e se eu estiver certo, o que eu estou, ele vai ser uma ameaça muito maior, provavelmente ainda maior que aquele moleque.” Hunter explica. Se já sofri com aqueles dois... “Segundamente, o moleque lá... Sebastian Walgof, seu codinome é Septem. A gente não sabe muita coisa dele, mas algo que sabemos é que ele tem conexões com os Filhos do Abismo, inclusive possivelmente sendo a razão pela qual ele se mostra tão resistente. Não importa o que seja, vocês têm que lidar com ele com cuidado e ter absoluta certeza que acabaram com ele. NUNCA abaixem a guarda perto dele.”
“Espera, o que quer dizer com isso? Você quer que a gente vá lidar com esse Septem, não é? Enquanto você se arrisca sozinho com um demônio forte desses?” Angelyne acusa, usando a irritação para esconder o medo por ele.
“É, me pegou!” Hunter dá de ombros, sorrindo. “Não se preocupa não, Angie, eu vou acabar com a raça daquele demônio. Você não vai se livrar do seu primo favorito tão fácil.” Ele brinca, bagunçando o cabelo dela.
“NÃO... Me chama assim. Que droga, para de ser um idiota...” Ela diz, incomodada e preocupada.
“Eu sei, eu sei... Okay, o negócio é o seguinte. Vocês dois vão nesse endereço primeiro, é sua prioridade.” Ele diz, dando um papel para Angelyne. “Leva o Dékes até lá, com sorte vai dar tudo certo, mas se qualquer coisa acontecer e vocês estiverem em risco, só foge com ele pra longe daqui e vão direto até a Zero depois, tá bom?” Hunter segura os ombros dela, a olhando nos olhos. “É sério, Angelyne. Vocês dois não devem se separar. Fiquem juntos, e se for absolutamente necessário, fujam sem olhar pra trás. É uma ordem.” Ele respira profundamente, antes de sorrir novamente. “Vambora de uma vez, enrolamos demais.”
E assim, nós três passamos pela barreira. Hunter na liderança, Angelyne ao meu lado, segurando minha mão. Segui sem hesitação. Daisy, minha cidade natal, e com sorte, o local onde eu finalmente começaria a ter respostas sobre o eu que parecia se recusar a retornar...
Fale com o autor