Dékes

2 D.E.L.T.A.


“A culpa é minha... Eu sinto muito.” Era como um sussurro, aquela mesma voz infantil de antes. Culpa pelo quê? “Eu não vou deixar isso acontecer de novo. Eu prometo.”

Acordei logo em seguida, abrindo meus olhos para a escuridão habitual, me sentando na cama e olhando ao redor. Não estava sozinho, a única coisa que meus olhos enxergavam como sempre, não a luz, mas a vida, especificamente as almas. Havia uma pessoa comigo no quarto estranho. Uma enfermaria. Sim.

Conseguia sentir a cama de hospital, surpreendentemente confortável, o lençol e... Minhas roupas. Estava usando calça e camiseta confortáveis, além de estar completamente limpo, as feridas já haviam sumido e até meu cabelo estava limpo e penteado, longos até meus ombros.

“Parece que você finalmente acordou, em? Demorou o suficiente, esperava mais alguns dias.” Uma voz masculina comenta, a alma que havia visto, se aproximando da cama e se inclinando sobre a peseira.

A alma dele era única, estranha, parecida com a alma que havia visto entre as nuvens de tempestade, mas muito mais fraca. O Espaço. Espaço... Antes foi o Tempo, e agora o Espaço. Quem? Era um homem branco, na casa dos 20 anos, pelo menos 1,70 de altura. Os cabelos de um azul forte e chamativo, bagunçados, com uma franja na cor branca cobrindo a testa, os olhos dele estavam fechados, um sorriso nos lábios e uma expressão calma no rosto. Ele usava uma camiseta branca, junto de uma jaqueta bomber azul por cima com as mangas dobradas, calça jeans justas e botas pretas, além de um relógio em um pulso e vários braceletes no outro, combinando com os piercings em uma de suas orelhas e sobrancelha.

“E aí, seu nome é Dékes, não é?” Ele pergunta comigo apenas assentindo com a cabeça. Apesar de ter uma presença forte, também era reconfortante, calma, gentil. “Me diz aí, como se sente?”

“Vocês... Me deram banho?” Eu pergunto, sentindo um arrepio.

O homem inclinou a cabeça para o lado, um pouco confuso pela pergunta. “Sim? A gente não podia te deixar daquele jeito afinal.”

“Com água?”

Ele ficou ainda mais confuso. “Óbvio-”

“Eu odeio água, nunca mais.” Corto, sentindo outro arrepio com a ideia.

“Odeia água? Agora faz sentido o porquê daquelas correntes ficarem atacando.” Ele comenta, pensativo. “Eu tive que te dar um banho no lugar da equipe médica por causa disso e pelo fato da água ferver só de te tocar também.” O homem ri levemente, antes de continuar. “Suponho que faça sentido pelos seus poderes, mas o que você faz então? Bota fogo em si mesmo pra se limpar?”

“Sim.” Respondo, o pegando desprevenido.

“Eu não esperava essa resposta.” Ele diz, sacudindo sua cabeça e rindo. “Tudo bem, não importa, agora já foi. Não foi a minha primeira vez dando banho em uma criança bagunceira de qualquer forma.” Nostalgia e dor. Por quê?

“Eu não sou uma criança.” Digo, franzindo a testa.

“Você é um adolescente ainda, pra mim é criança.” O homem retruca, sacudindo a mão. “Bom, tecnicamente pra alguém como eu qualquer humano seria uma criança em comparação. Acontece. A maioria de vocês são assim pra mim.”

“Maioria?”

“É, tem exceções. Talvez alguém alto, moreno, com heterocromia, arrogante as vezes, mas gentil.” Ele descreve. Carinho.

“Você tá apaixonado...” Revelo, olhando pra ele. Vergonha.

“Hunter disse que você era estranho. Consegue ler minha mente por acaso?” O homem respira profundamente. “Isso não importa. Você não respondeu minha outra pergunta, como se sente?”

“Estranho, cheio de energia. Acho que tô bem.” Respondo, meu corpo doía como sempre, mas também me sentia muito mais leve do que o normal. “E você? Quem é? É um deus, não é?”

“Esperto você, não é? Sim, sou um deus, pode me chamar pelo meu codinome, Sigma.” Sigma explica. “Eu sou o deus do-”

“Espaço.”

“É, exatamente.” Sigma rodeia a cama, antes de se sentar na beira, perto de mim. “Claro que não no meu poder total, nem perto disso, mas ainda assim.” Ele encosta a mão na minha testa, como se sentisse minha temperatura. “Voltou ao normal, curioso. Será que era reação pela água? Ou só a instabilidade por causa do meu irmão?”

“Seu irmão?” Tempo e Espaço. “O deus do tempo... É aquilo que eu vi no céu ontem de noite?”

“Bom, você ficou um dia inteiro inconsciente, então mais pra noite retrasada, mas sim.” Sigma corrige. Um dia inteiro? Sim. Não é uma pergunta, idiota. “Discutindo consigo mesmo?” Eu o olhei surpreso. “Desculpa, mas fica óbvio, principalmente pra alguns de nós.”

“Eu só... Não sei explicar. É como minha consciência falando comigo, mas as vezes fica irritante.” Explico, envergonhado. “Acho que devo ter algum problema mesmo.”

“Nem tanto. Me diz, você tem certeza de que é sua consciência?” Ele pergunta, sorrindo, como se soubesse de algo. “Ou talvez seja outra coisa aí dentro.” Sigma adiciona, apontando para minha testa. “Por exemplo, meu irmãozinho mais novo.” Ele termina, sorrindo maliciosamente.

Irmãozinho é o caralho. Uma voz estranha responde na minha cabeça, me pegando de surpresa, era masculina, mas diferente da minha, isso definitivamente. Sequer reconhecia. Eu vi o começo e o fim do universo, não ouse.

“Já sei, deve tá falando como não é irmãozinho nenhum e que viu o começo e fim do universo e tudo mais.” Sigma fala, em tom de zombaria. “Clássico. Meu irmãozinho é assim mesmo. Inclusive pode chamar ele pelo codinome Delta, ele adora.” Ele adiciona, rindo levemente.

Se você me chamar assim eu vou fazer todos os raios desse mundo caírem na sua cabeça. A voz ameaça, me dando arrepios. Kronos é meu nome, apenas isso e mais nada. Eu concordo com a cabeça, enquanto Sigma ria ainda mais, claramente sabendo o que havia feito.

“Não se preocupa, ele não vai te atacar de verdade... Provavelmente.” Sigma assegura, dando um tapinha no meu ombro. “Só não irritar ele e talvez dê tudo certo.”

“Espera um pouco, o que tá acontecendo aqui, e por que eu tenho um deus do tempo bravo na minha cabeça?” Eu pergunto, confuso.

“Boa pergunta, devia fazer ela pra ele.” Sigma diz, mas apenas silêncio. “Ou talvez não? Sinceramente, é sempre assim. É difícil fazer ele falar, então eu vou explicar o básico.” Ele continua. “Basicamente, você é um Semideus. Nesse caso, você é um hospedeiro de um deus, especificamente o meu irmão. É uma situação complicada e pode acontecer por várias razões, mas o lado bom? O hospedeiro pode acessar parte dos poderes desse deus, se ele permitir.”

“Quer dizer que eu posso controlar o tempo agora?”

“Duvido muito, ele não empresta esse poder pra qualquer um.” Sigma explica. “Só teve um que conseguiu... Independente, não é como se fosse algo que um humano consegue usar tão facilmente.”

“Então pra que me contou isso?”

“Ei, não é impossível, só difícil. Bom, primeiramente, o que importa é você se acostumar com esse poder. Mesmo sem usar o poder, a energia ainda tá em você e vai estar instável nas próximas semanas, por isso é bom ir com calma.” Ele continua. “Apesar dessa energia extra ser tentadora, ela pode sair do controle ou te esgotar facilmente, então a gente vai focar em te ajudar com isso.”

“A gente? Espera...” Eu voltei a olhar ao redor, lembrando do local que eu estava. “Que lugar é esse?” Uma enfermaria. Eu já sei disso!

Sigma riu. “Sabe, talvez você devesse pensar um pouco mais sobre essa sua ‘consciência’. Porque tô achando que tem mais coisa aí dentro do que meu irmão.” Ele então se afasta um pouco, cruzando os braços. “Voltando a sua pergunta...”

“D.E.L.T.A. Uma organização fundada com o objetivo de estudar Deuses e o Poder Divino, além de proteger Semideuses.” Uma nova voz começa, a figura entrando na sala e caminhando até estar à frente da cama. “Além de enfrentar certas pessoas que tem usado esse poder para causar problemas.”

Ela é humana. Mas tem poder divino. Era uma mulher branca, no meio da casa dos 20 anos, 1,67 de altura, cabelos longos, prateados com algumas mechas em tons mais escuros, que eram presos em um rabo de cavalo, olhos azuis e uma expressão séria no rosto. Ela usava apenas um terno cinza, porém o que chamava a atenção eram dois braceletes que se encaixavam perfeitamente em seus pulsos, com uma linha no meio na qual energia parecia fluir.

“Delta?” Cada nova informação apenas me deixava mais confuso. Ela parece bem séria. E cansada. Sim, isso também.

“Exato. Você vai entender com o tempo, a questão no momento é você, especialmente a sua situação.” Ela faz um gesto com a mão, um tablet flutuando à sua frente, enquanto seus dedos deslizavam pela tela.

“Essa é a Zero, nossa líder. Não deixa a cara de poucos amigos te intimidar não, ela é legal, só trabalha muito pra manter esse lugar funcionando.” Sigma explica, sorrindo. “Você vai ver.”

“Então vocês protegem Semideuses? Tipo, eu, aparentemente.” Pergunto.

“Ah, isso. Também. Eu te falei sobre semideuses, mas não expliquei tudo sobre isso.” Sigma diz. “Na verdade, existem duas formas de você ser um semideus. Uma é sendo o Vetor de um deus, sendo hospedeiro dele e podendo acessar esses poderes conforme fortalece a sua conexão com ele. E a outra forma e mais comum, é tendo a conexão direta com um, basicamente, sendo filho ou descendente de um deus.”

“Descendente de um deus? Vocês realmente se envolveram com humanos antes?” Eu pergunto, curioso.

“Sim, vários de nós. Depois de viver entre vocês por tanto tempo, alguns de nós acabam desenvolvendo conexões com humanos. Apesar de tudo, somos seres vivos com sentimentos também.” Ele explica. “É algo curioso. O Poder Divino de um deus é algo que pode ser passado geneticamente, só que poucos realmente despertam esse poder, por isso existem poucos semideuses por aí, especialmente considerando o tamanho da população.”

“Qual eu sou afinal? Eu não consigo lembrar de muita coisa antes daquela noite.”

“Eu sei que meu irmão não tem poderes de fogo, especialmente o tipo que você usou. No mínimo você nasceu como Semideus, ou talvez... Você tem um outro deus dentro de você.” Sigma sugere.

“É uma possibilidade, porém não podemos considerá-la como a verdade por enquanto.” Zero comenta, ainda focada em seu tablet. “Nós sabemos que ser o Vetor de um deus não é algo fácil de suportar. Mais de um é algo, no mínimo, extremamente raro.”

“É, o Damian foi um caso bem especial.” Sigma suspira, se levantando e esticando seus braços. “Já que você finalmente acordou, por que não vamos comer alguma coisa?”

“Primeiramente ele deve ser examinado para que tenhamos certeza de que ele pode receber alta.” Zero nega. “Especialmente considerando como não foi possível administrar qualquer tipo de soro, o real estado dele pode ser mais grave do que temos conhecimento. Além dos resultados dos exames estarem demorando após as dificuldades apresentadas.”

Eu me levantei, cambaleando levemente, Sigma me ajudando.

“Eu tô bem, só me sentindo um pouco estranho. Acho que comer alguma coisa vai me ajudar.”

Zero levanta uma sobrancelha, cética.

“Sabe, nossa equipe teve que refazer os exames mais de uma vez por aparentes problemas técnicos, além do descontrole dos seus poderes que causou alguns danos. Isso sem falar que as tentativas de extração de sangue ou injeção de soro foram falhas, com as agulhas derretendo ao entrarem em contato.” Zero explica, aparentemente lendo as informações em seu tablet. “A sua situação vai além do normal em qualquer sentido. Os riscos por si só são grandes e a única razão para termos o mantido em uma enfermaria comum é apenas porque Sigma se ofereceu para vigiá-lo.”

“Ei, Zero, olha pra ele, você realmente acha que o Dékes é uma ameaça?” Sigma pergunta, colocando um braço ao redor do meu ombro.

A mulher suspirou, sacudindo a cabeça.

“Isso não importa, nós precisamos-” Zero olhou para mim, congelando imediatamente. Meus olhos. Ela viu meus olhos? Desviei o olhar imediatamente, fazendo meu cabelo cair sobre meu rosto e escondê-los. “O que... É você?”

Sigma olhou para mim, então para ela, confuso.

“O que foi? Algum problema?” Ele pergunta, curioso.

“Não é nada... Faça o que quiser, mas não deixe ele sozinho.” Zero diz, antes de sair apressadamente.

“O que deu nela?” Sigma parecia apenas mais confuso, antes de dar de ombros e sorrir novamente. “Bom, eu falo com ela depois. Que tal eu te mostrar o lugar? É bom já ir se acostumando, porque vai ficar aqui por um tempo.”

Eu concordo com a cabeça, antes de seguir Sigma para fora da enfermaria, pelos corredores do que parecia um pequeno hospital, ao menos comparado com os hospitais públicos, provavelmente feito para um fluxo menor de pessoas. Os poucos funcionários pelo qual passamos pareciam se afastar ao me ver. Ansiedade.

“Não liga pra eles, não é a primeira vez que lidam com algo assim.” Sigma garante, caminhando ao meu lado, o mesmo sorriso nos lábios e olhos ainda fechados. “Só precaução, afinal você é novo aqui.”

“Minhas correntes atacaram eles aparentemente, acho que não posso culpar ninguém.” Dou de ombros, mantendo a cabeça baixa. “Espero que não tenha machucado ninguém.”

“Não muito. Acho que a maior dificuldade foi te dar banho, mas fiz isso sozinho, e temperatura não é algo que afete alguém como eu.” Ele explica. “Pra falar a verdade, as suas correntes se debatendo foi mais engraçado que qualquer coisa, igual uma criança não querendo tomar banho.”

Sinto meu rosto ficar um pouco vermelho. “Desculpa por isso.” Digo, me distraindo e desviando de um pilar por pouco.

“Que nada. Como eu disse, não foi a primeira vez que tive que cuidar de uma criança bagunceira.” Nostalgia e dor. De novo... “O mais curioso pra mim é como seu corpo estava em uma temperatura tão quente, mas suas correntes não. Ou como elas literalmente destruíram alguns equipamentos, mas mal causaram arranhões na equipe que cuidou de você.”

“É complicado... Eu acho.” Nós finalmente saímos do hospital, os raios de sol e a brisa leve tocando minha pele, trazendo um alívio que eu parecia não sentir em muito tempo. “Onde a gente tá?”

“É como a Zero disse antes, nós estamos da sede da DELTA. Esse lugar inteiro foi construído especificamente pro estudo de deuses e semideuses, além de proteger e treiná-los.” Sigma comenta. “É um lugar bem seguro pra gente.”

“Delta... E você disse pra eu chamar seu irmão assim, isso seria tão confuso.” Eu relembro, fazendo ele rir.

“São só codinomes dados pra alguns dos deuses, mas não é realmente usado pela maioria. Pra falar a verdade, eu sou o único que deve usar o meu, gosto dele.” Sigma dá de ombros. “É bom memorizar o lugar, porque não vou ser seu guia o tempo todo!”

Olhei para ele, então ao redor. Escuridão, nada além das almas de pessoas pelo local. “Uma coisa que vocês deviam saber... Eu meio que sou cego.” Explico. “Não consigo realmente ver muita coisa além de almas.” Mas eu consigo. Consigo? Não, eu não... Minha mente está tão confusa.

“Só almas é? Curioso...” Sigma comenta, pensativo, antes de parar à minha frente. “Pra sua informação, meus cabelos são vermelhos.”

“Não, são azuis com uma franja branca...” Corrijo, fazendo seu sorriso aumentar.

“Isso é interessante. Você diz que não vê, mas ao mesmo tempo parece saber detalhes que não deveria.” Sigma se aproxima um pouco mais, parecia me encarar nos olhos, mas como com os olhos fechados? “Não tem pupilas, então faz sentido não poder ver. Mesmo assim seus olhos ainda enxergam, porém de uma forma única. E apesar da forma única de enxergar, você ainda sabe o que tem a sua volta, como a forma que você desvia de obstáculos que não enxergaria com sua visão de almas.”

Dou um passo para trás, confuso e um pouco ansioso. “O que quer dizer com isso?” Parando para pensar, aquilo era algo tão natural que sequer passava pela minha mente. “É como um reflexo, eu só sei. Meu corpo meio que se mexe sozinho.”

Sigma dá outro passo para mais perto.

“Sabe, eu também tenho um poder de fogo, sabia? Além de que minhas chamas também não seguem as regras, igual as suas.” Sigma comenta.

“O que isso tem a ver comigo?” Pergunto, não entendendo até onde ele queria chegar.

“É só que... Suas em específico me lembram alguém.” Ele continua, se aproximando um pouco mais, encarando meus olhos aparentemente. “Alguém que também possuía chamas únicas, talvez tão únicas quanto as suas.”

“Alguém? De quem você tá falando exatamente?” Pergunto, curioso. Não. Não? Eu quero sab- Não. A dor que eu sentia aumentou.

“Você tá bem?” Sigma coloca uma mão na minha testa, preocupado. “Talvez fosse melhor você ter ficado no quarto mesmo, sua temperatura aumentou.”

“Não, eu tô... Eu tô bem. De quem...” NÃO. Cala a boca. “De quem você tava falando?”

“Sim, okay... Se você não estiver bem a gente pode voltar.” O homem garante, colocando a mão no meu ombro como suporte. “Independente, eu tava falando que você me lembra da-”

“E aí, Dékes! Fora do quarto finalmente? Jurava que você ficaria mais tempo, especialmente depois que tive que carregar seu corpo até aqui.” Hunter interrompe, andando até a gente com as mãos nos bolsos, casual como sempre.

“Angie literalmente abriu um portal pra você do parque até aqui, não é como se fosse muita coisa.” Sigma rebate, rindo. Carinho. É bem óbvio a esse ponto.

“Independente. O sangue dele literalmente quase botou fogo no parque depois que ele desmaiou, ainda bem que eu tava lá pra impedir.” Hunter ignora, sorrindo. “Eu vim aqui pra ver ele e dar um tour do lugar, mas suponho que você já tá fazendo isso?” Ele pergunta, olhando para Sigma. Mútuo, arrumem um quarto de uma vez. É... Preciso parar de falar com as vozes na minha cabeça.

“Mais ajuda não vai matar ninguém. Especialmente pra um Vetor novo, só pra garantir. Definitivamente não quero ter que lidar com problemas com a Zero se ele quebrar outra das criações dela.” Sigma brinca, dando de ombros.

“Beleza então, vamos ver... Um tour de cada edifício? Ou talvez só os mais importantes?” Hunter olha pra mim, esperando minha opinião. “Talvez só dos interessantes? A cafeteria tem comida muito boa-”

“O pudim de caramelo é o melhor, recomendo!” Sigma interrompe.

“É, ou talvez o ponto principal? Talvez você queira testar seus poderes, não? A gente tem o lugar pra isso.” Hunter continua, apontando com o polegar para atrás dele, para um domo enorme no centro da instalação.

D.E.L.T.A. era gigantesca, facilmente poderia ser o centro de uma cidade grande. A região era vasta, distribuída em formação de círculo. A parte onde eu estava era a borda desse círculo, o hospital atrás de mim, com pelo menos uma dúzia de outras áreas seguindo essa borda, com cada área claramente sendo para algo diferente. Uma área que obviamente eram as habitações dos funcionários, uma que de longe parecia ser mais uma praça de alimentação enorme do que uma simples cafeteria, além de várias outras que eu sequer poderia dizer o que eram sem chegar mais perto.

Todas essas áreas eram conectadas por um caminho único, largo e circular que rodeava todo o perímetro pelo qual algumas pessoas, definitivamente funcionários, se moviam. Caminhavam, corriam ou andavam de bicicleta, pareciam estar relaxados no momento. Atravessando o caminho, do outro lado haviam múltiplas áreas largas e verdes, basicamente parques, com múltiplas pessoas relaxando, fazendo piqueniques ou só descansando sob sombras de árvores. Esses parques sendo cortadas apenas por caminhos extras, conectados ao principal e indo diretamente para a estrutura mais imponente a qual chamava toda a atenção. Um domo enorme, do tamanho de um estádio médio pelo menos, os caminhos conectados as múltiplas entradas, uma para cada área.

Hunter riu, provavelmente notando minha surpresa com aquele lugar.

“Bem-vindo a Delta. Sua nova casa, pelo menos no momento enquanto a gente tem certeza sobre você. Sem ofensa, a gente só não pode deixar você sair ainda antes de saber que você não é uma ameaça.” Ele diz, dando um tapinha nas minhas costas. “Não que eu ache que você seja, mas sabe como é. Proteger os outros é prioridade aqui.”

“Por isso vocês estão me escoltando, garantir que não sou um perigo.” Eu falo, nem um pouco surpreso. “O que é tudo isso?”

Hunter coloca um braço sobre meu ombro. “Beleza. Vamos começar o tour então.” Ele me guia pelo caminho, mostrando a cada edifício e explicando seus objetivos básicos. “O hospital é óbvio, sem explicações, só cuidado pra não destruir nenhum equipamento deles de novo. Aquela é a estação de bombeiros, por motivos óbvios também. Esse é onde nossas equipes de manutenção trabalham, algum equipamento quebrado, ou problemas no seu quarto? Só falar com eles. Aquela é praça de alimentação principal, refeições são grátis e tudo mais, você só paga se for coisas extras, tipo pedir todo o estoque de pudim do lugar igual um deus guloso e obcecado.” Ele explica, olhando de forma acusatória para Sigma, que estava com um prato de pudim de caramelo na mão, comendo tudo sozinho. De onde?

“O quê? Tenho meus direitos. Principalmente quando mantenho o lugar seguro!” Ele se defende, boca cheia de pudim ainda. “Um pedaço?” Sigma oferece pra mim, só nego com a cabeça. Ele dá de ombros e continua comendo enquanto segue a gente.

“É, tem isso. Todo esse lugar é protegido do mundo exterior pelo Sigma, magia espacial e tal. Não se preocupa, internet funciona ainda, só não pesquisa besteira porque segurança é grande aqui.” Hunter explica, rindo, fazendo um pedaço de pudim flutuar do prato, orbitá-lo, antes de ir direto para a boca dele. “Independente! Continuando. Aqueles são os prédios residenciais dos funcionários, onde toda essa galera vive, muita gente pra fazer tudo funcionar, e por proteção também, eles vivem aqui com as famílias deles.”

“É, mas a gente não. Nós vivemos ali.” Sigma aponta com sua colher para uma área diferente, oposta aos dos funcionários. Um único edifício tecnológico que definitivamente tinha segurança extra dentro e fora. “Deuses, semideuses, por segurança dos funcionários e nossa também, a gente vive ali, por múltiplos motivos que você deve supor quais.”

“Sim. Seu quarto já tá pronto lá também, depois te mostro.” Hunter concorda, antes de apontar para um edifício um pouco separado dos outros por um caminho, conectado a borda do perímetro. “Única entrada e saída daqui. Rigoroso. Precisa de permissões de alto nível dependendo de quem for. Não podemos arriscar demais.”

“Por quê? Eu sei que esse lugar parece importante, mas qual a razão?” Eu questiono, curioso. Abismo. Abismo?

“Filhos do Abismo.” Hunter responde, sério por um momento, antes de voltar a sorrir. “Não deixa o nome Metal deles te enganar, eles são um perigo gigantesco. Uma organização que também pesquisa deuses e semideuses, mas... Por motivos não tão bons quanto os nossos. Dominação, destruição, caos, sinceramente nem a gente sabe direito o porquê do que eles fazem, mas eles não hesitam em torturar e experimentar em semideuses ou até mesmo deuses em busca de explorar o Poder Divino para alcançar os próprios objetivos. Nosso trabalho e usar o nosso Poder Divino para impedir eles e ajudar as pessoas, é por isso que D.E.L.T.A. existe, que todos estamos aqui. Zero e eu criamos esse lugar pra isso. Graças a certas conexões que temos.”

“Filhos do Abismo...” Uma única corrente apareceu por vontade própria, rastejando pelo meu braço como uma cobra, como se reagindo ao nome.

Tanto Sigma, quanto Hunter olharam para a corrente, curiosidade, apreensão e... Esperança?

“Cuidado pra não botar fogo no lugar. A gente não quer a equipe que cuida da manutenção tenha que replantar o lugar todo. E apesar de ser animado, Oceano ia ficar furioso se você botasse fogo no lugar, sério, os bombeiros dele já sofrem o suficiente com os treinamentos dele, não precisamos de mais problemas.” Hunter comenta, eu concentro, fazendo a corrente desaparecer.

“Desculpa. Acontece as vezes.” Eu explico, envergonhado.

“Reage a emoções. Interessante.” Sigma diz, seu prato de pudim desaparecendo do nada. Magia Espacial eu suponho.

“Isso tem alguma conexão? Se eu sou um semideus, então eu tenho o mesmo poder do deus que eu tenho parentesco?” Eu pergunto, ainda em dúvida sobre toda essa situação.

“É complicado... Depois eu mostro as outras áreas, por que a gente não vai ali agora?” Hunter sugere, apontando para o domo central, me puxando pelos ombros até lá. “Aquela é a atração principal. Onde nós treinamos nossos poderes. As equipes de segurança monitoram o lugar. As pesquisas sobre Poder Divino são feitas. E onde a oficina da Zero fica e ela cria as principais invenções dela, só não entra sem permissão, ou você pode se ferrar feio.”

“Talvez seja onde você vai passar um bom tempo, principalmente se quiser conseguir controle absoluto sobre seus poderes.” Sigma segue, sorriso ainda presente, olhos sempre fechados. Estranho, por que a alma dele tem energia concentrada na testa? Ele inclina a cabeça, o cabelo sequer move, eu não ouço os passos dele, como eu não percebi antes? Ele sequer parece ser afetado pelo vento ao redor. “Vamos ver, por onde começo? Eu já falei sobre humanos nascidos com parentesco divino, melhor explicar melhor pra você, né?”

“Ou deixa a Zero fazer isso, mas não sei se ele aguenta horas das aulas dela sobre isso. Angie diz ter dor de cabeça sobre até hoje.” Hunter ri.

Damian, Angie, muitos nomes diferentes.

“Certo. Você perguntou sobre seu parentesco e tudo mais. Começando pelo básico. Poder Divino é o poder mágico o qual nós deuses temos, nossa essência. Entretanto, esse Poder Divino não tem relação ao poder em si, basicamente pode considerar como a Mana que vocês têm na ficção.” Sigma finalmente explica. “Comigo, meu Poder Divino é misturado com meu poder espacial, minhas chamas para ser mais específico.” Uma chama de uma azul extremamente profundo aparece em sua mão, mas não era quente, ela queimava com ausência, frio. “Yinmas Blue. Minha chama, capaz de afetar o próprio espaço ao seu redor. Meu Poder Divino é misturado com minha Yinmas Blue pra me dar meus poderes espaciais.”

“É. No meu caso, eu tenho minhas Leis Absolutas, uma forma de manipular gravidade usando meu Poder Divino. No meu caso é mais divino que um semideus, mas ainda assim.” Hunter adiciona, fazendo uma pedra orbitar a gente, antes de lançar ela contra um tronco de uma árvore, assustando um pássaro. “Inércia, Impulso, Reação. Algo divertido.”

“Sim. No caso, ser um Semideus por sangue não necessariamente te dá o mesmo poder do deus, apenas te dá o acesso ao Poder Divino. O poder que desperta em você normalmente depende de sua personalidade e experiências. Uma vez eu conheci alguém que tinha a capacidade de falar com os animais por viver na floresta e adorar eles, despertou quando ele era criança ainda.” Sigma continua. Nostalgia. “Ele literalmente era amigo de uma matilha de lobos, conseguiu fazer amizade com eles ao invés de ser devorado. Se arriscava demais, divertido, a floresta nunca foi a mesma quando ele morreu de idade.”

“Então, se meu poder for por parentesco...” Por que correntes? E fogo? E essa dor constante dentro de mim...

“Quem sabe, mas como eu disse, existe a possibilidade de você ter outra coisa em você. Se eu estiver certo... Bom, é melhor focar no seu treinamento no momento.” Sigma muda de assunto, quando a gente finalmente chega no domo.

O lugar realmente era enorme, parecendo um estádio ainda mais, mesmo que definitivamente não era feito para esportes. Branco e azul, com o teto metálico com redes de energia correndo pelos corredores e salas. Isso era muito mais tecnológico do que deveria para a época que estávamos.

“Eu sei, tecnologia avançada pra caramba. Graças a Zero, ela é um verdadeiro gênio, definitivamente algo que herdou da família dela. O Poder Divino dela mesmo, deixa ela controlar tecnologia com a mente, então é bom não usar seu celular quando ela tá falando com você. O último que fez isso teve o celular transformado numa torradeira.” Hunter avisa em um sussurro, me puxando para mais fundo dentro do domo.

O fluxo de pessoas definitivamente era maior, estranho considerando como não pareciam ter tantas lá fora.

“Sistema de transporte subterrâneo.” Sigma aponta com uma colher, escadas levando ao subsolo de onde pessoas saiam e entravam. “Rápido, fácil, tem vários, podem te levar pra qualquer lugar. Seja dentro do domo ou pra qualquer uma das áreas lá fora. A área da superfície lá fora é mais pra entretenimento, descansar e tudo mais. O real movimento tá embaixo da gente.”

“É, se precisar se locomover pelo lugar de forma rápida, só ir por lá. Não se preocupa, é rápido e sempre ativo, mal tem espera ou lotação.” Hunter adiciona.

Nós passamos por guardas até uma porta de aço. Hunter toca um leitor de digitais, a fazendo se abrir, antes de me puxar mais profundamente dentro do local. Essa área era ainda mais reforçada, paredes de metal, câmeras. Nós finalmente chegamos em uma porta larga.

“Essa é a Arena Blue, a segunda mais reforçada daqui. Feita pra aguentar até explosões enormes. A gente quer ver do que você é capaz, por isso você vai ter uma batalha de prática agora, acha que aguenta?” Hunter pergunta.

“Batalha de prática? Contra quem? Você?” Eu pergunto, nervoso. Não sei se consigo lutar contra alguém como ele, isso é loucura.

“Comigo? Não! Óbvio que não... Vai ser contra o Sigma! Boa sorte, tenta não ser transformado em Origami.” Hunter me dá um tapinha nas costas, antes de ir embora, provavelmente para a sala de observações.

“Não se preocupa, eu sei me segurar. Só dá o seu melhor e tudo vai dar certo.” Sigma sorri, me puxando para dentro da sala, as portas se fechando com um senso de finalidade. Socorro, tô morto, definitivamente.

A Arena Blue era igual uma arena circular de gladiador, sinceramente, realmente era só prática? A diferença era o chão de grama macia, e ao invés de ter arquibancadas para uma audiência, tinha em sua maioria paredes de um metal escuro, a exceção sendo uma das paredes tendo vidro definitivamente reforçado, onde múltiplos cientistas, e alguns que claramente eram só funcionários curiosos, observavam tudo. Provavelmente pra ver do que eu era capaz? Ou só pra ver o novato levar uma surra. Talvez os dois. Hunter estava lá, acenando. Zero do lado dele, séria, mas a alma dela mostrava que ela ainda estava nervosa por mais cedo.

Eu me voltei para Sigma, que estava extremamente calmo, mãos nos bolsos e sorriso gentil. A alma dele era gentil, mas assustadora. Um deus, enfrentar um deus. Eu enfrentei um demônio dois dias atrás, e agora vou enfrentar UM DEUS. Divertido. CALA A BOCA. Okay, ignora as vozes na cabeça, só se concentra.

Respirando profundamente – o que literalmente não serve pra nada no meu caso – eu assumo uma posição defensiva, um braço pra frente, outro pra trás. Quatro correntes se formaram, duas ao redor de cada braço, as duas da frente rastejando pelo ar para formar uma defesa que provavelmente seria inútil, as duas de trás preparadas para um possível contra-ataque.

Sigma inclina a cabeça para o lado, seu sorriso aumentando. “Esperto. Divertido.” Ele simplesmente começa a andar até mim, casual demais. Confiante. Ele sabe que eu não sou páreo pra ele.

Se é assim... Eu mudo de ideia, movendo os dois braços pra frente, minhas correntes avançando contra Sigma. Duas diretamente como lanças, as outras duas dos lados como chicote para tentar tirar qualquer saída. O sorriso de Sigma não muda, as correntes chegando perto rápido, quando ele dá um mortal para trás, aterrissando sobre as correntes que o atacaram diretamente e andando sobre elas em minha direção com uma facilidade extrema. As duas em chicote pareciam que iriam acertar, mas ele literalmente desviou uma com um tapa, e deu outro mortal – exibido – para desviar da segunda, aterrissando nas correntes de novo e continuando seu caminho.

“Tá de brincadeira... Você só tá querendo aparecer a esse ponto.” Minhas correntes dissiparam completamente, antes de criar outras três, uma diretamente, outra em chicote pelo lado e a última em chicote por cima.

“Bom, é divertido. O que posso fazer?” Sigma dá de ombros, dando um passo para o lado para desviar da primeira corrente, e se abaixando para desviar da segunda. Eu imediatamente puxo elas, fazendo as correntes mudarem em direção contra ele.

Sigma defende com o braço, mas minhas correntes se movem, se enrolando para impedir que ele fuja. Eu crio uma quarta corrente para atacar, mas antes de ser atingido, Yinmas Blue envolve sua mão livre, que ele usa para cortar as minhas correntes e desviar.

“Essa foi boa. Não são objetos, suas correntes conseguem realmente se mover livremente. Pelo jeito não sou o único que ignora a física aqui.” Sigma elogia, mais distante do que estava antes ao menos. “Você é bom em combate a distância... Vamos ver se você consegue fazer o mesmo de perto.”

Ele levantou seu braço, antes de cortar o ar. Se defenda. O espaço literalmente se dobrou como papel, com Sigma imediatamente aparecendo na minha frente e dando um soco. Mal tive tempo para reagir, mas o aviso ajudou o suficiente, correntes se enrolando e formando um escudo, segurando o ataque, mas a força dele me fez ser arrastado para trás alguns metros. Imediatamente parto para um contra-ataque, as correntes se quebrando e atacando logo a frente, mas Sigma havia desaparecido.

Ele é rápido. Cima. Olhando para cima, vi ele. Sigma estava no teto, de cabeça para baixo, sorrindo, claramente se divertindo. Como? Ele estava de pé no teto, não se segurando, literalmente parado ali como se fosse a coisa mais normal do mundo, completamente não afetado, o cabelo caindo perfeitamente sobre o rosto, franja no lugar. Gravidade era uma piada para ele?

“Você tá de sacanagem...”

“O quê? Só porque eu criei as leis da física, não quer dizer que eu preciso seguir elas. Isso seria entediante.” Sigma ri, antes de pular do teto de volta para o chão, mãos de volta nos bolsos. “Reage rápido. Me pergunto, será que é a voz na sua cabeça? Ou sua Visão de Alma é efetiva até nisso? Talvez ambos...”

Não consigo acertar um ataque se não conseguir parar ele, mas ele não para quieto, além de conseguir se mover para qualquer lugar. Eu preciso segurar ele de alguma forma. Uma impossível de fugir... Arriscado. Eu sei, mas tenho que tentar.

Dessa vez, eu que avanço primeiro, correndo em direção a ele, minhas correntes se formando e atacando sem parar, quando uma é desviada ou parada, ela dissipa, reforma e ataca de outra forma.

“Ataque direto? Arriscado, mas você tem que conseguir resistir meus ataques primeiro pra fazer algo assim.” Sigma desvia, corta e para ataques sem parar, até que eu cheguei perto o suficiente. Desviando outra corrente com um braço, ele dá um soco contra minha barriga com o outro. Seu punho e braço não só acertou, mas atravessou completamente através das minhas costas. “O quê...?”

“Isso dói...” Eu sorri. Órgãos? Ossos? Não. Nada. A dor contínua dentro de mim, por causa das minhas chamas. Elas não são simplesmente chamas que simplesmente aparecem, elas estão dentro de mim, consumindo. A maior parte do interior do meu corpo é puro fogo agora, correntes substituindo ossos, chamas funcionando como órgãos de uma forma que sequer sei como. Elas se movem, rodeando o braço de Sigma, o prendendo a mim. “Mas não dói mais que as minhas chamas.”

“Isso é... Usando o próprio corpo pra me segurar. Suicida normalmente, mas não pra você, não é?” Sigma ri, incrédulo. “Você realmente é divertido.”

NA SALA DE OBSERVAÇÃO

Por um momento, os olhos de Zero se arregalaram, antes de voltarem a seriedade. Vendo as análises em seu tablet, os múltiplos exames feitos enquanto Dékes estava inconsciente.

“Nós acreditávamos que eram erros das máquinas, ou falhas pelos poderes dele...” Ela diz, dedos passando de resultado para resultado. “Nenhuma atividade cerebral, respiração inexistente, Raio-X recebia resultados incompreensíveis. Uma das poucas coisas que foram encontradas era um batimento cardíaco.”

“A gente sabia que ele era estranho, o estado dele não é algo normal. Ter sobrevivido aqueles ataques dos demônios, principalmente se curado deles tão rapidamente. Duvido que ele seja um Semideus normal, acho que nós realmente achamos o que a gente buscava.” Hunter responde, sorrindo, um de seus anéis o orbitando lentamente.

“Existem poucas espécies feitas puramente ou majoritariamente de algum elemento. Djinn são uma delas, mas sua estrutura geral é humana demais para isso. Outra é Divina, porém ele apresenta características humanas, com nossas informações adicionais afirmando isso.” Zero suspira, um sorriso pequeno se formando. “Uma chance alta, mas não garantida. Nós temos que ter certeza antes de colocarmos qualquer expectativa sobre ele.”

“Talvez, mas isso poderia explicar o motivo do Kronos ter escolhido ele também. Ele sentiu ela.” Hunter adiciona.

“Sim, é uma teoria... Nós temos que garantir a recuperação dele, e de suas memórias. A situação em Daisy está perigosa entretanto.” Zero o lembra.

“Eu sei, mas é a melhor chance que a gente tem. Não se preocupa, eu vou cuidar dele.” Ele garante.

“Certo... Leve Angelyne com vocês. Acredito que a proximidade de idade pode ajudá-lo a se adaptar, além de ser uma opção caso exista necessidade de fuga.” Zero sugere, colocando seu tablet de lado.

“Beleza. A licença temporária deve chegar em breve, pedido de emergência. Vai ser complicado, mas vale a pena.” Hunter sorri, seu anel voltando ao seu dedo. “Talvez até divertido.”

NA ARENA

As correntes se enrolaram completamente envolta do braço de Sigma, correntes adicionais segurando seu outro braço. Eu mesmo usando uma mão para manter seu braço no lugar, mas era difícil.

“Você pode até ser resistente, mas duvido que isso consiga se manter sem você se esgotar rápido.” Sigma diz, resistindo mais e mais.

“Eu só preciso... De um pouco de tempo...” Eu levanto meu outro braço. Se concentre. Correntes se formando e enrolando ao redor do meu braço, criando uma forma simples de manopla, uma energia forte, concentrando minhas forças, algo familiar, mas estranho da mesma forma. “Toma... ESSA!”

Finalmente, eu dou um soco em Sigma. Minhas correntes se dissipando logo após, o soltando. Ele saiu voando com a força, atingindo a parede e distorcendo o metal ligeiramente.

Sigma ri, um pouco de algo dourado, sangue? Escorrendo do canto de sua boca.

“Você realmente conseguiu, né?” Ele se desvencilha da parede, cambaleando ligeiramente, mas se mantendo de pé. “Absorver o impacto, e devolver contra mim. Tô acostumado com o Hunter fazer isso, mas você me surpreendeu.” Sigma limpa o sangue com as costas da mão. “Não o suficiente pra me vencer, mas definitivamente foi bem divertido. Só espero que a recuperação depois não seja demais, ou a Zero vai me encher o saco.”

Eu tossi sangue, uma das poucas coisas que tenho ainda, a parte exterior do meu corpo, o sangue queimava, pegando fogo pouco tempo após sair das minhas veias. Pele, roupas e a grama, marcado enquanto meu sangue queimava e desaparecia. O buraco no meu estômago se fechando lentamente, chamas cobrindo o ferimento para parar o sangramento. Nem sei se sou imortal ou não, só sei que funciona, e dói. Estar vivo queimando por dentro.

“Por que eu sou assim? Um pecado? Eu mereço isso? Eu nem sei mais.” Sussurro para mim mesmo. Não. Jamais. Voz gentil. Obrigado...

Escuridão já era o normal para mim, mas quando minha Visão de Almas começou a dissipar ficou mais óbvio. Vou desmaiar de novo, em dois dias. Ótima primeira impressão, Dékes... Ha... Saco... Deveria ter aceitado o pudim.

Sigma segurou o corpo de Dékes antes que ele caísse, desmaiado de novo.

“Idiota. Arriscando assim pra isso... Não consegue se segurar, né? Tem que dar seu melhor não importa o quê.” O sorriso de Sigma era mais gentil dessa vez. “Igual ele...” Nostalgia e dor. Algo que até um deus consegue entender. “Definitivamente vamos dividir um pudim depois disso, sem recusa dessa vez.”