Dékes

1 A Tempestade se Inicia


Escuridão... Uma escuridão sem fim... Por que dói tanto...?

“Ei, Dékes!” Era uma vez feminina, jovem, talvez de uma criança? “Me diz, que sentimento te move?” Familiar, mas... De quem? “Como assim não sabe? Você devia saber! É a coisa mais importante, que faz você continuar não importa o que aconteça.” Continuar... Eu tenho que continuar... “O sentimento que me move é a aventura! Quê? Como assim isso não é um sentimento? E quem decidiu isso? Desde que você siga seu coração, qualquer coisa pode ser esse sentimento!” Seguir... Meu coração... “Afinal, o que importa é aquilo que faz seu coração feliz e sua alma brilhar! Então, me diz... Que sentimento te move?”

Um estrondo ecoou nos céus, trovões ribombando entre as nuvens, uma brisa leve tocando minha pele. Eu conseguia sentir a terra macia e a grama sob mim. A dor preenchendo meu corpo era familiar, porém algo a mais chamava atenção, uma dor agonizante em meu pescoço de um corte profundo. Sombras rodeavam a ferida, se espalhando lentamente pelo meu corpo.

Meus cabelos negros chegavam até meus ombros, bagunçados, sujos, cobrindo meu rosto. Minha roupa... Suja. Tênis sujos de lama, jeans, camiseta e moletom rasgados, sujos de terra e sangue. Onde eu estou? Ao pé de uma colina, caído, sem poder me mover. A cidade mais próxima estava alguns quilômetros no horizonte. Eu estou sozinho... Não. Perigo.

“Eu finalmente te encontrei, depois de tanto tempo...” Outra voz feminina, definitivamente mais velha, jovem adulta, um tom de arrogância e sadismo que me dava arrepios. “Você fugiu de mim uma vez, mas isso não vai acontecer de novo. E dessa vez, eu vou ter o prazer de tirar o que eu quero de você eu mesma.” Quem sequer era ela? Essa escuridão não tem fim? Por que eu não consigo vê-la?

Fugir. Eu tenho que fugir, mas como? Não posso desistir. Tenho que tentar, mas meu corpo não me responde e essa escuridão se mantêm. Ajuda. Eu não consigo gritar. Essa dor na minha garganta... As trevas estão se espalhando. Eu não posso morrer.

“Desde aquele dia eu esperei... Tanto tempo, e mesmo assim, você conseguiu se esconder.” Os passos dela me rodeavam, como um predador, com ela parecendo estar aproveitando cada segundo. “Aposto que ela te ajudou, não é? Não duvidaria. Ela sempre me atrapalhando, mas agora é fim! Você está nas minhas mãos, e ninguém vai vir te salvar...” Sua respiração estava próxima do meu rosto, olhando por entre as mechas de meu cabelo. Diretamente em meus olhos. E mesmo assim, apenas escuridão.

Um trovão ribombou pelos céus, a respiração parou com surpresa, seus passos pareciam se afastar alguns metros. Medo. Uma luz gigantesca preencheu minha visão, cegante, antiga, preenchida de sabedoria, dor e arrependimento. Ajuda. Era algo tão incompreensível, porém tão familiar, o que é aquilo?O céu estava coberto de nuvens de tempestade, raios iluminando a noite com uma constância incomum, porém o que chamava a maior atenção era algo entre as nuvens logo acima de mim. Uma silhueta massiva, distorcida e inumana, com o que mais chamava atenção sendo uma fenda gigantesca em seu corpo de onde uma forte luz saia. Era como um olho, com um estranho símbolo no centro, parecendo um triângulo quebrado em três partes, sendo o local de onde os raios se originavam. Tempo. Tempo? Eu preciso de tempo.

“Isso não é possível... Não, não, não, não, nãonão, nãonãonãonão, NÃO!” A mulher gritou, furiosa e incrédula, claramente perturbada com aquela presença sobrenatural que preenchia o céu nublado. “Depois de tanta espera. Depois de tudo que eu fiz... VOCÊ NÃO PODE ME IMPEDIR!” Os raios se tornavam mais frequentes, trovões ecoando de forma interminável.

O som de um forte bater de asas próximo chamou minha atenção. Em meio aquela luz cegante agora havia uma larga sombra que parecia diminuir, se afastando? Ela está voando até ele. Voando? Aquela mulher queria tentar atacar aquele ser, enquanto os raios pareciam se tornar mais frequentes e concentrados no centro do estranho símbolo. Ele está se preparando. Para o quê? O Tempo escolheu seu próximo hospedeiro. Hospedeiro...?

A escuridão voltava a lentamente preencher minha visão, até mesmo aquela luz desaparecendo aos poucos pelas laterais. A sombra do que seria a mulher parecia estar se aproximando do ser, pronta para lutar, porém era tarde demais. Um último trovão ecoou pela noite, quando um poderoso raio cortou o ar diretamente do centro do olho do ser, atravessando a sombra que imediatamente desapareceu. As sombras finalmente consumiram minha visão novamente quando o raio atingiu meu corpo...

HORAS DEPOIS

Acordando em um sobressalto, minha mão imediatamente foi em direção ao meu pescoço, procurando pelo ferimento, porém nada. Apenas uma cicatriz. Eu me sentei na grama, tomando um tempo para colocar meus pensamentos no lugar. O céu estava surpreendentemente limpo, apesar de tantos trovões, não parecia ter chovida. Aquilo tudo havia sido apenas um sonho? Não, foi real. O que eu faço agora? A cidade. É a melhor opção que eu tenho agora.

Cambaleando levemente, eu consigo me levantar. Apesar de tudo, meu corpo parecia ter mais energia do que o esperado, especialmente considerando as circunstâncias atuais. Rapidamente eu segui em direção a cidade ao longe, caminhando por entre árvores, antes de adentrar um vasto campo de flores de dália que cercavam os limites da cidade.

Pouco tempo depois eu finalmente havia chegado em uma rua do que parecia ser uma área mais calma, com casas e pequenos prédios apenas. Provavelmente uma área humilde da cidade, mas bela da mesma forma. Não pareciam ter muitas pessoas ao redor, provavelmente pelo horário. Parece ser madrugada.

Enquanto eu caminhava pela cidade, pude perceber como as poucas pessoas que estavam fora a noite pareciam me evitar com apreensão ou até medo. Eu estou coberto de lama e sangue. Como pude esquecer, é óbvio que eles estão com medo, quem não estaria? Mas... Esse sangue é meu? Perigo. Perigo? O som de uma sirene quebrou o silêncio noturno, com uma viatura se aproximando e parando poucos metros atrás de mim, com dois homens saindo dela.

“Polícia de Dália! Garoto, parado e mãos onde eu possa ver.” Uma voz masculina ordena, claramente o mais velho, um homem branco usando o uniforme da polícia com um símbolo de uma flor de dália no peito. Ele assumia a liderança, dando alguns passos à frente enquanto mantinha a distância. “Eu sou o Oficial Markus, nós recebemos múltiplas denúncias de um jovem suspeito nas redondezas e você bate com as descrições. Por favor, se identifique.”

Era óbvio, o que eu esperava? Mas eles devem poder me ajudar, certo? O mais velho é sério, o mais novo parece ansioso. Como eu vou explicar meu estado? Eles sequer vão acreditar em mim?

“Eu...” Minha voz estava rouca, cansada, provavelmente consequência do ferimento anterior. “Não tenho certeza, eu...” A lembrança daquela voz de criança voltou a minha mente, parecia tão familiar. “Dékes... Meu nome é Dékes...”

“Igual a flor?” O policial mais jovem pergunta, um homem negro no início dos vinte e claramente um novato, utilizando o mesmo uniforme.

“É um nome raro, mas nada de estranho. Se concentra, recruta.” O oficial lembra, sério. “Se vire lentamente. Eu preciso saber o que aconteceu para você estar nesse estado e se precisa de assistência médica.” Markus adiciona, mantendo a distância comigo.

“Eu não sei como explicar, é complicado...” Eu digo, me virando lentamente em direção a eles, meu cabelo escondendo parte do meu rosto e meus olhos. “Mal lembro do que aconteceu... Só que eu acho que fui atacado por alguém.” Perigo.

Os dois policiais se entreolham, céticos, mas preocupados com meu estado.

“Certo. Recruta, chame uma ambulância e avise a central, eu ainda preciso fazer algumas perguntas.” Markus ordena, antes de focar novamente em mim. “Eu preciso que você me dê mais informações sobre esse possível atacante e o que aconteceu antes de você vir até aqui.”

“É difícil lembrar, eu lembro de...” Perigo. Um frio percorre a minha espinha, uma sensação de medo puro e um instinto de sobrevivência forte, porém era tarde demais. “SE AB-”

Um estalido alto ecoou pela rua, então uma dor forte preenche minha cabeça, e em instantes, eu pude ver Markus caindo no chão, com uma espécie de espinho fino e longo em forma de losango cravado em sua cabeça, tendo o matado instantaneamente.

Eu cambaleei para a frente, me mantendo em pé com dificuldade, antes de olhar por cima de meu ombro para uma figura em pé uma dezena de metros atrás de mim. Meu cabelo caiu para o lado, revelando mais do lado esquerdo do meu rosto. O mesmo espinho que havia matado Markus atravessou minha própria cabeça, abrindo um buraco nela. Metade do lado esquerdo do meu rosto havia desaparecido, ao invés disso, chamas escapavam do buraco, o preenchendo por completo. Minha forma verdadeira. Chamas escarlates se mostravam pelo buraco no meu rosto, como se fosse uma segunda pele abaixo da anterior, onde os músculos deviam estar. Chamas mais claras formam três tipos de linhas iguais a olhos, que encaravam a figura estranha.

“Ora, ora... A rainha tinha dito que você era resistente, mas isso é um pouco ridículo, não acha?” Era uma figura masculina e nem um pouco humana. Demônio.

Sua pele era de um roxo claro, o olhar astuto com escleras negras, além dos dentes afiados. Seus cabelos eram negros, curtos e bagunçados, com dois chifres largos que saiam de trás de sua cabeça, a rodeando até a frente. O principal de tudo isso provavelmente era sua cauda, fina e com pelo menos um metro de comprimento, com vários daqueles mesmos espinhos de antes crescendo ao longo da cauda. Ele não vestia nada, mas não parecia precisar, por não possuir genitais, a única coisa sobre seu corpo eram escamas escuras e grossas, que cobriam múltiplas partes importantes, como uma espécie de armadura leve. Forma de Combate.

“Porém, todos tem um limite. Qual será o seu?” Aquele homem puxou dois espinhos de sua cauda, os girando entre seus dedos que possuíam garras afiadas, um sorriso sádico no rosto.

“O que... Isso é...” O policial jovem olhava chocado para o demônio, então para o homem morto no chão. “Ajuda... Eu preciso...” Ele dizia para si mesmo, se virando para a viatura, apenas para dar de cara com outra figura estranha, com as mesmas peculiaridades do outro.

“Ajuda? Não acho que você vai conseguir nenhuma agora.” Era uma voz feminina e animada, de uma mulher que estava sentada no teto da viatura, de pernas cruzadas e o mesmo sorriso sádico no rosto.

Igual o homem, ela não vestia roupas, porém também não possuía genitais, com o mesmo tipo de escama cobrindo múltiplas partes vitais de seu corpo. Sua pele era vermelha, os olhos alaranjados com escleras negras, dentes afiados. Os cabelos eram longos, brancos, bagunçados e arrepiados, com dois chifres largos crescendo do topo de sua cabeça apontando para trás. Sua cauda negra era fina e lisa até a ponta, onde acabava em uma espécie de flor, de onde um estranho fruto vermelho e pulsante crescia. Por fim, em suas costas, havia duas largas asas revestidas com escamas parecidas com as de um dragão.

A mulher encarava o jovem policial, sua mão segurando o estranho fruto antes de arrancá-lo, o item pulsando mais rapidamente. “Você é novo nisso, não é? Primeira vez vendo alguém morrendo brutalmente?” Ela zomba, inclinando a cabeça e rindo. “Você não vai precisar se preocupar muito com isso, afinal... Nós não somos o tipo que deixa testemunhas.” A mulher adiciona, com o sorriso sádico em seus lábios.

Suas asas bateram com força, a lançando alguns metros acima do ar, antes de pousar no topo do prédio acima de nós, que não devia ter mais do que três andares. Fuja. A mulher olhou para nós, sorrindo, antes de soltar o fruto que pulsava e brilhava ainda mais rapidamente.

FUJA. Porém, eu vi o policial mais jovem ainda em choque com tudo que estava acontecendo, a primeira que consegui foi correr em sua direção e pular sobre ele. Assim que o fruto tocou o chão, uma enorme explosão aconteceu, a própria viatura sendo lançada metros para longe. A força da explosão nos lançou diretamente em um beco, comigo felizmente absorvendo boa parte do impacto, porém o policial havia ficado inconsciente, claramente ferido e com múltiplas queimaduras.

Eu o sentei encostado em uma parede, escondido atrás de uma lixeira. Preciso chamar ajuda. Eles ainda estão aqui. Não posso deixar que eles continuem. É perigoso. Mas eu não posso deixar que machuquem mais ninguém. Fugir. E atraí-los para longe.

“Olha a bagunça que você fez, Seraphina!” A voz daquele demônio pode ser ouvida da rua. “Eu já estava cuidando de tudo, por que você interferiu? Aprende a se controlar, assim a gente vai chamar atenção desnecessária!” Ele reclama, bufando de frustração.

“Para de ser estraga prazer, Geralt, sinceramente.” A mulher, Seraphina, apenas revira os olhos, alongando seus braços acima da cabeça. “Você só tá com inveja porque eu peguei ele e você não. A rainha vai ficar satisfeita e é o que importa, só pegar o corpo dele e levar assim que a fumaça abaixar.”

Aproveitando a discussão de ambos e a fumaça na rua, eu parti em disparada, descendo a rua para o lado oposto deles, tentando conseguir o máximo de distância entre nós o possível. Não pare. Eu preciso tirar eles daqui e torcer para que alguma ajuda encontre o policial.

“Huh? Parece que ele realmente é resistente pra caramba.” Seraphina comenta, sendo a primeira a perceber minha fuga de sua posição privilegiada do topo do telhado. “Ele tá fugindo.”

“Sinceramente, se você não fosse tão caótica assim, ele não teria a chance de escapar!” Geralt grunhe, as garras de seus pés quebrando o asfalto, assim que ele começa a me perseguir. Seraphina apenas dá de ombros, se levantando e me perseguindo de sua própria forma, pulando de prédio em prédio, usando suas asas como impulso.

“Quantos ataques ele sequer consegue aguentar? Ele não devia estar vivo mais.” Seraphina reclama. Ela tinha razão, minhas roupas estavam chamuscadas, principalmente minhas costas, com mais daquelas chamas escarlates vazando de ferimentos causados pela explosão.

“Ele não é qualquer um e você sabe. Só ataca ele até que não consiga mais lutar!” Geralt responde, puxando mais daqueles espinhos de sua cauda, os lançando com uma força e velocidade sobrenatural, os estalidos cortando o ar em minha direção.

Consegui desviar por pouco ao virar uma esquina, minhas pernas lutando para manter a distância enquanto os demônios continuavam a me caçar. Mais daqueles estalidos eram ouvidos, os espinhos passando de raspão, se cravando no asfalto e em paredes enquanto eu me esforçava para desviar de cada. Os olhos na parte em chamas do meu rosto continuavam procurando um local seguro enquanto eu continuava a correr pelas ruas e virar esquinas.

“Você pode ser rápido, mas ainda é humano, não vai conseguir fugir para sempre, especialmente contra um demônio.” Geralt rosna, parando de lançar os espinhos e focando em me alcançar.

“Eu vou te pegar~! Quero ver se você vai conseguir sobreviver a minha bomba mais forte.” Seraphina cantarola, pulando pelos prédios logo acima de mim.

Direita. Eu mudei de direção imediatamente, encontrando um parque público e correndo até ele, o caminho sendo coberto por árvores, que dificultava a visão de Seraphina e sua perseguição. Geralt entretanto, conseguiu manter a perseguição, me seguindo mais profundamente até o centro do parque. Finalmente, eu achei uma larga clareira, provavelmente onde eram feitos piqueniques e outras atividades. Ao chegar no centro do local, eu me virei para Geralt, assumindo uma posição de combate, pronto para lutar.

“Finalmente decidiu para de fugir e se entregar, garoto? Já era hora. Eu vou acabar com você bem rápido antes que tente fugir de novo.” Geralt diz, puxando mais dois espinhos de sua cauda e os girando entre seus dedos.

Apenas sorri, rindo levemente. “Fugindo? Não... Eu só tava procurando um lugar melhor pra te enfrentar sem arriscar a vida de mais ninguém.” Os olhos espectrais do lado em chamas do meu rosto focavam em Geralt, esperando seu próximo ataque. “Se você acha que eu vou morrer facilmente, tá bem enganado. Eu vou lutar até o fim.” Eu cerro meu punho esquerdo, chamas envolvendo meu braço, e dessas chamas, duas longas correntes começaram a se formar, feitas de fogo puro, serpenteando pelo ar e me rodeando, ignorando a gravidade completamente.

“Você tem mais surpresas do que eu esperava, mas isso não vai ser o suficiente.” Geralt avança, lançando mais dois espinhos, um sendo desviado por uma das correntes, enquanto eu mal desviei de outro. Imediatamente eu chicoteio o ar com a outra corrente, com o demônio desviando por pouco e se afastando. “Você é rápido, não é? Mais do que um humano deveria ser, mesmo que seja um semideus.”

O demônio começou a me rodear lentamente, mantendo distância das correntes, enquanto buscava possíveis pontos cegos. Minhas correntes serpenteavam ao meu redor, atentas, se movendo rapidamente para defender qualquer possível ataque, enquanto eu me mantinha concentrado em mantê-las. Se acalme. Por fim, Geralt havia dado uma volta completa, inclinando a cabeça e me encarando de forma séria, antes de sorrir.

“Isso faz sentido... É por isso, não é? A forma estranha que você move e como você parece ser tão atento a tudo apesar de mal me encarar.” O homem me encarava, especificamente o lado ainda intacto do meu rosto. Por entre meus cabelos, ele pode olhar diretamente para o meu olho direito. “Você é cego.” Minha íris era apenas um abismo escarlate, brilhando como minhas chamas, porém sem pupila. Ele tinha razão, eu não conseguia enxergar, pelo menos não como os outros, sendo fisicamente cego. “Mesmo assim, você esconde isso até que bem. Como? Seus sentidos são aprimorados a esse ponto? Ou talvez...” O demônio encarou o trio de olhos na parte em chamas do meu rosto. “Tem algo que enxerga por você?”

Minhas chamas se agitaram, se movendo mais rápido pelo ar, fazendo o homem sorrir ainda mais. Algo... Tem algo a mais? Focado. Sim, eu tenho que me focar, não posso me distrair agora. Eu vou te proteger. Me proteger? Não, só foca em lutar, você tem que lutar.

“Você devia se preocupar consigo mesmo.” Eu aviso, fazendo um gesto com a mão, uma das correntes se alongando e chicoteando o ar, para a surpresa do demônio. Geralt mal teve tempo de desviar, pulando para trás, com um de seus braços agora possuindo um corte profundo e cauterizado. “Distância é um problema menor do que você pensa pra mim.” Zombei, rindo levemente.

“Moleque maldito.” Geralt puxa três espinhos com uma mão, assumindo uma posição que compensasse o braço ferido. “Eu vou te encher de buracos antes de te levar até a rainha!” Ele exclama, furioso, começando a correr ao meu redor, puxando e lançando mais e mais de seus espinhos contra cada ponto cego que encontrasse, enquanto sua cauda criava mais com urgência.

As correntes se moviam rapidamente, se contorcendo e rastejando pelo ar, defendendo o máximo possível de ataques, porém eram muitos. Eu podia sentir alguns espinhos atravessando meu corpo, facilmente cortando minha pele, ao invés de sangue, mais chamas vazavam do meu corpo, tentando desesperadamente curar meus ferimentos. Aquela dor não era nada, mas cada segundo que passava me cansava cada vez mais, meu corpo tremendo e a cura mais lenta. Mesmo assim, as correntes se moviam com uma fúria incansável, focando principalmente em proteger meu torso.

Um espinho atingiu meu joelho, me fazendo cair de joelhos, apenas chamas mantendo minha perna inteira. Geralt estava alguns metros a minha frente, diminuindo a velocidade de ataques, claramente sua cauda estava sangrando, provavelmente estava em seu limite também com os espinhos demorando cada vez mais para crescer. Eu estava distraído, quando ouvi um forte bater de asas. ATRÁS. Mal tive tempo de olhar para trás, quando vi que Seraphina havia pousado alguns metros atrás de mim, um de seus frutos explosivos em sua mão. Esse era maior, roxo e pulsando muito mais, quando ela assumiu uma posição de lançamento e o arremessou com uma força inumana em minha direção.

Antes que eu sequer pudesse reagir, entretanto, o fruto mudou de direção para a surpresa de todos, voando até uma nova figura que se aproximava. Era um homem branco que parecia estar perto dos trinta anos, 1,90 de altura, cabelos negros e bem penteados, seus olhos com heterocromia, sendo um preto e o outro violeta. Ele se vestia com roupas noturnas, como se tivesse saído de uma festa, usando uma camiseta preta com uma jaqueta branca com detalhes roxos por cima, calças jeans e botas pretas, em todos seus dedos tirando os polegares, ele possuía diferentes anéis com metais e cores diferentes. O fruto explosivo foi em sua direção, antes de começar a rodeá-lo, como se em orbita.

“Como ele tá fazendo isso?” Seraphina questiona, incrédula, olhando para o homem. “Como você tá controlando meu fruto desse jeito?” Ela adiciona, irritada.

“Foi mal, ele é seu é?” O homem pergunta, um sorriso no rosto enquanto ele se aproxima dela. “Você não devia sair brincando com esse tipo de coisa, sabia? É perigoso.” Ele briga de forma sarcástica, rindo levemente.

“Quem você acha que é? Me devolve!” A mulher exclama, pronta para avançar contra o homem.

“Devolver? Foi você que pediu.” Ele diz, girando o indicador, o fruto imediatamente recuperando sua velocidade, saindo da órbita ao redor do homem e avançando em direção a mulher que sequer teve tempo de reagir, sendo atingida por uma explosão enorme, ainda maior que a anterior.

Seraphina saiu voando por vários metros, rolando na grama antes de finalmente parar. Ela tossia, coberta de fuligem e queimaduras, uma de suas asas claramente quebrada, provavelmente junto de alguns ossos. Apesar da dor, a demônio não parecia ter desistido, se levantando com dificuldade, claramente furiosa.

“Desgraçado... Quem você acha que é pra jogar minhas próprias bombas contra mim?” Ela rosna, tentando manter o equilíbrio e puxar outro de seus frutos, porém não havia nenhum, provavelmente criar aquele especial havia usado muito poder.

“Como assim? Foi você que pediu pra eu te devolver ele.” O homem relembra, fingindo inocência, andando até ela com uma calma surpreendente. “Tá tudo bem, não é nada demais para um demônio, certo? Principalmente porque... Eu vou fazer ainda pior que isso.” Ele adiciona, uma expressão mais séria em seu rosto, antes dele avançar com uma velocidade surpreendente, chegando em Seraphina e dando um tapa em seu rosto.

A mulher voou poucos metros para trás, mas ao invés de cair, ela começou a flutuar no ar, sem controle do próprio corpo. “Que... Merda... É você...” Ela tosse sangue, a marca dos anéis em seu rosto.

“Foi você que causou aquela explosão, não é?” O homem pergunta, a encarando com frieza. “Sem falar de alguns casos similares que não tínhamos pistas do culpado.” Ele inclina sua cabeça, a olhando nos olhos. “Você quer saber quem eu sou? Hunter... Hunter Whirl.”

Seraphina arregalou os olhos, medo real a consumindo ao ouvir aquele nome, porém antes que pudesse tentar implorar por sua vida, Hunter fez um gesto rápido com a mão. O corpo flutuante de Seraphina começou a ganhar velocidade, voando em horizontalmente como se estivesse caindo. Seu corpo batia no chão, em árvores e pedras, ossos quebrando e carne rasgando, apesar de tentar, a dor e desorientação eram demais, sua mente em turbilhão, suas asas e membros não respondiam. Finalmente, o corpo da demônio atingiu um memorial de pedra solida em uma velocidade extrema, antes de cair imóvel no chão.

“Hunter... Whirl...” Murmurei. Hunter se virou em minha direção, caminhando com a mesma expressão de calma de antes. Aliado. Sim, ele parecer ser. New. New? “A alma dele é diferente das outras...”

Hunter parecia despreocupado, se aproximando de mim sem medo, mesmo minhas correntes se acalmaram e abriram caminho. Ele simplesmente deu um tapa leve nas minhas costas, antes de passar por mim e caminhar em direção a Geralt.

“A Seraphina... O que você fez? Você... Você é...” Até mesmo Geralt parecia assustado, dando alguns passos para trás, antes de tropeçar e cair no chão. “Você é...”

“Seraphina? Esse é o nome dela?” Hunter pergunta, enquanto se aproximava. “Talvez eu tenha exagerado um pouco, não é? Só que... É difícil depois de ver o estado das vítimas dela tantas vezes.” Ele se ajoelha próximo de Geralt, sorrindo calmamente. “E você? O que pretende fazer agora?”

“Eu? Olha, eu só tava fazendo o meu trabalho, eu juro.” O demônio diz, desesperado. “Você sabe que eu não tinha opção, mas eu não vou mais caçar ninguém, eu juro.” Ele continua. Medo. “Faço o que quiser, é sério!”

“Mentiras... Ele só tá com medo...” Eu falo, ofegante, minhas correntes desaparecendo, as chamas nos meus ferimentos se focando completamente em curar. “É um mentiroso.”

“É, eu sei.” Hunter concorda, rindo levemente. “Mas a gente pode fazer um pequeno trato aqui, não acha?” Ele adiciona, encarando Geralt, antes de tirar um dos anéis de seu dedo. “Nós não queremos que mais nenhum inocente se fira, certo?” O anel começa a flutuar, orbitando Hunter com cada vez mais velocidade. “Então, se você não machucar mais ninguém, eu não te mato.”

“Certo, eu não vou, eu prometo!” Geralt concorda, aliviado. “Eu nunca mais vou caçar ninguém.”

“Mas-” Eu tento dizer, quando Hunter levanta um dedo, sinalizando para que eu não fale nada.

“Ei, qual seu nome, garoto?” Hunter pergunta, curioso, dando as costas para Geralt e me olhando, o anel ainda orbitando ao redor dele.

“Dékes... Eu acho.” Digo, confuso. Ele é estranho. Sim.

“Igual a flor? Nome interessante.” Hunter girava seu dedo indicador em círculos, parecendo controlar a orbita do anel. “Quer saber duas curiosidades?”

“Curiosidades? Mas-” Tento dizer, olhando para Geralt que parecia tentar se afastar cautelosamente de Hunter.

“Primeiro, é que esses anéis nos meus dedos são especiais.” Ele explica, sacudindo os dedos. “Cada um tem um peso único, mas não pesam nada pra mim porque eu uso meu poder neles.”

“Peso? Eles... São pesados?” Eu inclino minha cabeça, confuso. “Onde é pra isso chegar?” Meu corpo doía, o cansaço me consumindo.

“E segundo, os Anjos de Lúcifer...” Hunter diz, apontando com o polegar em direção a Geralt, que congelou ao ouvir esse nome. “São um bando de covardes. A maioria deles sequer usa os próprios corpos pra fazer seu trabalho sujo.” O homem sorri para mim. “Eu disse que não ia matar ele, só que não é como se ele fosse morrer de qualquer forma. Porém...” Hunter olhou por cima do ombro para Geralt. “Você não vai ter tanta sorte da próxima vez.” Com um gesto de Hunter, o anel voou em alta velocidade contra Geralt, atravessando sua cabeça, o matando instantaneamente.

O corpo do demônio então se desfez em sombras, não deixando nenhum vestígio de sua existência para trás. O corpo de Seraphina provavelmente passando pelo mesmo processo.

“Não era... O verdadeiro?” Poder de Lúcifer. Lúcifer? “Quem é Lúcifer?’

“Huh? Você é meio estranho sabia?” Hunter se aproxima, se agachando a minha frente. “Esses demônios são Anjos de Lúcifer, demônios de elite que servem a deusa da morte, que se já não é óbvio, se chama Lúcifer. A rainha do Submundo.”

“Era ela...?” Sim, a mesma. “A que me atacou antes e não calava a boca.”

“Provavelmente uma projeção dela, ela não costuma sair do Submundo até onde eu sei. Independente, ela te atacar é estranho e curioso.” Hunter me olhou de cima a baixo, como se me analisasse. “Você definitivamente é um caso único, nunca vi alguém tão acabado desde aquele cara que encheu o saco do Blake naquela festa de ano novo anos atrás.”

“Você é estranho também.” Falei, fazendo Hunter rir levemente. Muito.

“Talvez. Sabe, eu vim até a cidade procurando por uma pessoa em específico, e acho que encontrei.” Hunter põe uma mão no meu ombro. “Eu vou te levar pra um lugar seguro, confia em mim.”

Eu assenti com a cabeça. “Espera, tem-”

“Ele já foi levado pro hospital, não se preocupa.” Hunter corta. “Foi ele que me falou sobre você, por isso vim te procurar. Ele disse que você salvou a vida dele, sabia? Não é algo que muita gente faria, principalmente ao lidar com demônios.”

Apenas sorri, sentindo meu corpo cada vez mais fraco, antes de desmaiar.

???

O local parecia com uma ampla sala do trono, as paredes de uma pedra branca acinzentada com janelas largas e amplas, candelabros prateados flutuavam pela sala, suas velas com chamas azuis iluminando o local surpreendentemente bem. Um largo tapete vermelho com acabamento dourado percorria desde a entrada – que dava em um largo jardim — até o largo trono onde uma figura jazia. Na mesma parede onde estava o trono, pelas paredes, havia múltiplos quadros, pinturas de diferentes demônios, incluindo Geralt e Seraphina.

Então, em um instante, quebrando o silêncio da sala, Geralt sai de dentro de seu quadro, antes de cair de joelhos no chão, tossindo, sua cabeça doendo fortemente.

“Que merda, aquele desgraçado. Se acha especial, mas não vai ficar assim, na próxima eu vou estar preparado.” Ele grunhe, irritado, tentando se recompor ao ser mandado de volta pro corpo real de uma forma tão dolorosa. “A gente vai conseguir na próxima.”

“A gente? Que a gente? Eu não vou enfrentar aquele cara de novo!” Seraphina afirma, saindo de seu quadro também, seu corpo inteiro dolorido. "Você viu como eu morri? Aquilo doeu demais! Pra mim já chega, não vale a pena arriscar morrer de verdade na próxima vez.” A demônio diz, frustrada, andando em direção a saída.

“Então vocês falharam. Eu não podia esperar muito de vocês no fim das contas.” A figura no trono disse friamente, fazendo os dois demônios sentirem um frio na espinha.

“Não foi nossa culpa...” Seraphina murmura, envergonhada. “A gente ia conseguir, mas aquele cara apareceu!” Ela se explica, frustrada.

“Sim, Hunter Whirl. Ele apareceu e matou nós dois!” Geralt continua. “Nós não estávamos preparados, mas na próxima vez vai ser diferente. Eu prometo, minha rainha!”

“Não faça promessas tolas que você não pode cumprir.” Lúcifer diz, respirando profundamente, se inclinando sobre seu trono. “Kronos e agora Hunter... Não importa, eu vou conseguir o que eu quero de uma forma ou de outra.”

“O que você quer que nós façamos, minha rainha?” Geralt pergunta.

“Desapareçam.” Ela diz, indiferente. “Eu não preciso de vocês.”

“Mas- “

“Para de ser patético, você ouviu ela.” Seraphina diz, aceitando a situação. “Se quiser se humilhar desse jeito o problema é seu, eu vou embora daqui.” Ela termina, saindo para o jardim do palácio, antes de alçar voo para longe do local.

“Não me faça perder meu tempo te matando eu mesma, suma.” Lúcifer comanda firmemente. Geralt apenas assente com a cabeça, frustrado, antes de sair do local.

A deusa respira profundamente, cerrando seus punhos em fúria. Ela já havia esperado muito tempo, e não iria desistir tão facilmente. Lúcifer iria conseguir o que ela tanto desejava custe o que custar.