Décimo Quinto
1 One Shot
#15
Helena olhou-se no espelho. As olheiras profundas contrastavam com sua pele pálida. Seu cabelo escuro e bagunçado estava molhado de suor. Na mão direita, uma garrafa. Na mão esquerda, um cigarro. Olhou para o relógio. Fazia cinco minutos que sua irmã saíra do apartamento. Tomou outro gole da bebida. Assim, comemorou seu décimo quinto ano de vida, o tão esperado fim.
Impaciente, apagou o cigarro e colocou a garrafa de lado. Olhou para seus braços. Hematomas marcavam cada centímetro de sua pele. Com as mãos trêmulas, abriu a gaveta em busca de sua seringa. Não a encontrou. Procurou no armário. Novamente nada. Fechou os olhos tentando lembrar onde a guardara. Saiu do banheiro em direção ao quarto de visitas em que estava hospedada. Abriu sua mochila. Revirou cada canto, cada bolso. Canivete. Papeis amaçados e rasgados. Restos de comida. Roupa suja. Utensílios de primeiros-socorros. Nada da seringa. Olhou para o relógio. Fechou os olhos novamente. Um. Inspira. Dois. Expira. Três. Inspira. Quatro. Expira. Fazia quase uma hora que sua irmã estava fora. Tinha pouco tempo até Alice estar de volta. Respirou fundo mais uma vez, desistindo da overdose. Guardou o canivete no bolso e abriu a janela. A noite estava escura e chuvosa. Os carros pareciam pequenas formigas do andar em que estava.
Abriu o vidro, sentindo o ar frio em seu rosto. Pisando na mesa, sentou-se no parapeito, com os pés para fora. Apoiou-se em seus braços, lançando-se para a frente, de olhos fechados. Sentiu algo agarrá-la e puxá-la para dentro. Confusa, percebeu que sua irmã a segurava pela cintura. Tentou desvencilhar-se, mas o esforço foi em vão. Sentindo a irmã apertá-la cada vez mais forte, Helena tirou o canivete do bolso e ameaçou matar-se caso não fosse solta. Alice não se moveu. Sem importar-se com as lágrimas da irmã, Helena apertou o canivete na lateral direita de seu pescoço, mais precisamente ao lado da carótida. Alice nada fez. A jovem adolescente puxou a lâmina em direção à traqueia, fazendo o sangue escorrer. Sono profundo tomou conta de seu corpo imediatamente.
O silêncio tomou conta do escuro quarto. Em estado de choque, Alice deitou o corpo imóvel da irmã caçula no chão gélido, tentando, em vão, compreender o que se passara.
Notas finais
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