Círculos
1 A Deusa vive
Notas iniciais
As cobras se entrelaçavam agitadas ao redor do corpo morto, o cobrindo e descobrindo como raízes duma árvore. As baratas caminhavam sobre o rosto; revolviam a terra nova ao seu redor. Corujas e corvos tinham se amontoado nos galhos das árvores e gritavam. Morcegos sobrevoavam alvoroçados. Todos unidos naquela cantoria macabra e sensual.
Era a única presente naquela noite fria de Halloween. As outras doze, em diferentes partes do globo, com diferentes raças e estilos de vida. Há semanas se preparando, mente consentânea a ocasião, assim como tudo o mais; vestes, velas, banhos, sangue, terra… Em alinhamento. A loira cantava, andando nua, languidamente dentro do círculo cheio de símbolos. Ela ia e vinha de cada uma das cinco pontas onde estavam os archotes e colunas com bacias de greda, com as quais ela desenhava sobre o próprio corpo em movimentos circulares sobre as curvas femininas.
Como todas as outras, hipnotizada na música e nos movimentos que seu corpo a compelia. Circulando os quadris e ombros, animalizando-se, pondo-se sobre as mãos e joelhos naquele momento de entrega e paixão. O círculo se fechava, a serpente devorando a própria cauda, e as bruxas sentindo o êxtase próximo sufocando suas gargantas, enrouquecendo suas vozes. Dispersas, mas unidas como numa constelação.
A morta se ergueu em transe. A bruxa, já em catáfora, mal registrava o sangue descendo de seu nariz e ouvidos ou a deliciosa pele negra caminhando nua até ela. Sentia-se fraca, mas seu corpo e voz não paravam. A mulher pisando a grama morta, vestindo as cobras nos ombros, entrou no círculo e tudo parou. Os pássaros, as bruxas, os insetos. Eram silêncio e espera.
Olhos rubros lhe olhavam com amor enquanto lhe dispunha um selar de lábios. E devorava seu pescoço em busca de seu sangue e sua carne.
Calisto vivia.
Fale com o autor