Céu Obscuro
7 Oscilação
Notas iniciais
Não havia livros, guardas assustadores ou o tedio e o pó, mas sim o luxo e o conforto. Uma mudança de ambiente era sempre bem vinda após dias de reclusão social, tendo como amigos os livros e um rapaz que não sabia como falar em tom baixo. Pela primeira vez em tanto tempo, Claudio não sentia a pele coçar e os olhos arderem pelo pó, sua garganta estava limpando e o cheiro da sofisticada bebida recendia em suas narinas. Como ele desejava ficar na mansão Vongola ao invés da Varia.
Ele estava aproveitando-se do sofá confortável da sala do atual chefe, desfrutando de uma bela melodia e um excelente vinho. Junto a ele estava o Nono, Iemitsu e Leonardo.
–Então Leonardo você retornou ao local?-indagou Iemitsu.
–Sim, mas o ancião não estava mais lá.
–Droga! Nossa única pista.
–E o seu pai?-indagou Leonardo ao rapaz.
Claudio suspirou.- Ele não quer trocar meias palavras comigo. Minha mãe já tentou arrancar as informações dele, mas não obteve sucesso.
–Nenhuma pista nos livros?
–Citações passageiras. Os livros e aquele lugar estão me deixando louco! Sinto que não encontrarei os anciões tão cedo.
–E temos tempo?
–Depende dos garotos. E pelas noticias que o Nono me contou, o tempo para Tsuna está encurtando.
–Os dois grupos são desconhecidos. -completou Nono.
–Não descobriram o motivo de estarem atrás de Tsuna?-indagou Leonardo.
–Ainda não. Sabemos que um grupo quer elimina-lo e outro protegê-lo. –explicou Iemitsu.
–Uma luta entre eles. Mas por que Tsuna é essencial?
–Epifania pode estar querendo utilizar Tsuna para algum ritual. Giustizia talvez queira evitar tal ato.- sugeriu Iemitsu.
–Mas graças a isso, temo que ambos os grupos possam estar acelerando a corrupção da alma dele, aumentando o nível de dificuldade para realizarmos a purificação. — disse Claudio tamborilando os dedos no braço do sofá.
–Temos que trazer Tsuna para cá.
–Já tentamos Leonardo. Mas de forma alguma ele quis abandonar os amigos.- completou Nono.
Leonardo ri.- Típico dele.
–Enviamos nossos aliados para auxilio.
–Seria um prazer para a Céu selvagem ajuda-los. Enviarei meus homens hoje mesmo.
–Obrigado. Mas pensei em uma ajuda um pouco diferente. Gostaria que auxiliassem Claudio em sua busca junto a Varia. Já que é de interesse de ambos.
–Sem problemas, temos um acordo. Vamos tentar encontrar os anciões a todo custo.
A melodia clássica e suave de Vivaldi ecoava pelos corredores. Damas e cavaleiros mascarados em longos vestidos e glamorosos smokings aglomeravam-se em pequenos grupos especulando fatos que ocorriam no mundo mafioso, só interrompendo o falatório pela passagem do jovem chefe da prestigiada família, o único em trajes brancos, máscara clara e a tradicional capa preta da família que o destacava entre os convidados.
–Boa noite, Neo primo Vongola.- entoavam o casal.
–Boa noite, sejam bem vindos. –respondeu Tsuna em italiano.
–É uma honra ser convidado para o baile de máscaras da Vongola.
–E está sendo uma honra termos sua presença e a de todos.
–Décimo, o senhor precisa se dirigir ao salão.
–Ah sim, claro. Conversaremos mais tarde.
–Eu não acredito que o guardião da tempestade ainda o chama de décimo. –comentou o casal quando os jovens se afastaram.
Por onde passava, o jovem chefe era reverenciado pelas pessoas luxuosamente vestidas. Atrás dele estavam Gokudera, Yamamoto e Ryohei zelando pela sua segurança. Mais tarde, ele brindou em nome da Vongola e o baile teve seu inicio. Muito requisitado pelas jovens e homens de negócios, logo se encontrou exausto e decidiu caminhar pelos corredores para arejar a cabeça. Pessoas mascaradas o deixavam desconfortável.
Deixou seus pés o guiarem até as maiores e majestosas das portas da mansão, acorrentadas e protegidas pela chama do céu. Facilmente, o jovem Vongola retirou as proteções e adentrou em uma obscura sala.
–Veio-me ver suponho. –disse uma voz que ecoou pela sala.
–Estou apenas checando se você não possuiu alternativas para escapar.
Ele riu e Tsuna ouviu barulho de correntes. Em passos largos, o garoto encapuzado e mascarado se pôs ante a claridade do luar. Havia correntes em seus pés e mãos. — Satisfeito? –indagou o jovem.- Trancou-me aqui sendo que apenas quis ajuda-lo.
–Matar pessoas não é o caminho certo a seguir.
–Se não o fizer, Giustizia fará. Liberte-me e deixe-me ajuda-lo.
–NÃO!!!-seu grito ecoou pelo cômodo.- Você machucará quem eu amo. De forma alguma permitirei. Ficará aqui o tempo que for preciso. – e Tsuna deu-lhe as costas.
–Trancar-me está custando suas energias, elas estão se esgotando e sabe o que acontecerá.
–Se for para salvar as pessoas queridas para mim, eu não me importo. –Sem deixar o jovem falar Tsuna lacra novamente às portas com a brilhante chama do céu, o cegando e fazendo despertar assustado.
–Um sonho? – indagou-se Tsuna para si em voz alta. Ele sentou-se na cama e observou ao redor, identificando o quarto. –Foi um sonho tão real.
–Acordou Tsuna? Você não parava de resmungar.
–Reborn.
–Hum...- o arcobaleno observava o jovem.
–O que houve?
–As marcas em seu pescoço ainda estão visíveis, mas nada que um cachecol não resolva.
–Pensarei nisso posteriormente, vou retornar a dormir.
–Tsuna idiota! Sequer olhou as horas?
–Meu deus!!! Vou me atrasar!!! –e ele simplesmente pegou o uniforme, a toalha de banho e se dirigiu para o banheiro.
Enquanto escovava os dentes, Tsuna blasfemava em pensamentos por não o terem despertado antes. Mas fora interrompido quando sentiu suas mãos tremerem e ficarem sem forças para segurar a escova que foi de encontro ao chão. Sua visão embaçou por alguns segundos e sentiu o cômodo girar. Tsuna respirou fundo e segurou-se a pia, quando suas forças retornaram preencheu seu rosto de água gelada na esperança que o mal estar o deixa-se. Não demorou muito para que a crise de tosse retorna-se.
Enquanto vestia-se, supôs que o mal estar estava relacionado por ainda não alimentar-se. No dia anterior teve tonturas pela manhã também, um segredo que somente ele sabia.
“Não é nada demais.” –pensou tentando acalmar-se, pois o pavor estava ganhando espaço em seus sentimentos. Havia um mau pressentimento rondando o jovem. –“É apenas um mal estar!”.- Com estes pensamentos, terminou o que tinha que fazer e desceu as escadas. Antes de adentrar na cozinha, enrolou o cachecol para que as marcas desaparecessem.
–Tsu-kun, você não para de tossir a três dias. Estou ficando preocupada. — ela coloca uma das mãos na testa dele para medir a temperatura.
–É apenas um resfriado, mãe.- ele retira a mão de Nana e senta-se diante do que seria o seu café da manhã, notou que havia muitas coisas com vitamina C, provavelmente sua mãe também achava que tratava-se de um resfriado.
–Se você não melhorar vou leva-lo ao médico.
–Não, eu não vou para o médico novamente.
–Pode ser alguma reação do veneno.
–Eu estou bem mãe. Preciso tomar meu café da manhã ou chegarei atrasado.
–Tsuna, Nana está preocupada com você. — repreendeu Bianchi.
–Estou apenas a tranquilizando, não tenho nada além de um resfriado. Foi com certeza porque voltei tarde da noite aquela vez quando me encontrei com Kyoko-chan. –E assim ele começou a comer o mais depressa possível antes que lhe fizessem mais perguntas. Ele sentia os olhares preocupados de sua mãe, Reborn e Bianchi.
–Bom dia a todos!- disse o homem sorridente.
–Pai!? Quando chegou aqui!?
–De madrugada.- ele riu.
–Bom dia querido. — cumprimentou Nana.
–Bom dia amor. Você está bem Tsuna? Ouvi suas tosses pela casa inteira. -indagou o pai do jovem.
–Por favor, não vamos começar esse assunto novamente. Estou bem e atrasado para a aula. Tchau! – e ele saiu correndo para fora.
–Não quero deixa-la mais preocupada Nana, mas ele estava pálido. — comentou Bianchi.
–E aparentemente sem fome. –comenta Iemitsu mostrando o prato de comida.
Tsuna caminhava apressadamente para o colégio, incrédulo de seu pai aparecer inesperadamente. O frio da barriga surgiu, ele sabia que a presença de Iemitsu significava problemas.
–Tsuna!
–Décimo!
–Oi...Não deviam estar no colégio?
–Ahh, nós se atrasamos. — explicou Gokudera.
Yamamoto riu.- Acabei dormindo demais.
–Não precisam se atrasar de propósito por minha causa.
–Décimo, sabe que precisamos protegê-lo.
–Giustizia não atacou ontem. –afirmou Tsuna.
–Nada os impede de fazer algo hoje. Podem estar planejando algo.
–Tsuna, você está bem? Parece pálido.
–Estou bem e o assunto se encerra por aqui.
–O que o Nono decidiu? –indagou Reborn sentado na poltrona na casa de Tsuna.
–Vamos leva-lo para a Itália novamente.
–Tsuna não vai retornar de boa vontade.
–Foi por isso que trouxe Claudio. Ele vai analisa-lo e tentar convencê-lo. Caso seja ineficaz, eu o levarei contra vontade. De qualquer forma ele irá retornar para a Itália.
–Quando derrotarmos Giustizia, ele retornará?
–As intenções de Nono são opostas. Ele quer que Tsuna fique na Itália. Ele terá professores particulares e quando chegar o tempo do acordo, ele vai assumir a Vongola.
–Vai contar isso a ele? Nunca aceitaria. Eu não sou a favor também.
–Também não sou a favor Reborn!- Iemitsu eleva a voz. – Mas eu me importo com a vida do meu filho e não quero um grupinho de quinta categoria acabando com os nossos planos. Você viu o estado dele hoje? Não há possibilidade de deixa-lo por aqui.
–Seu relacionamento com ele já não é estável...
–Não me importo. Eu sei o que ele vai achar de mim, mas é o melhor.
–Tsuna possuiu uma vida aqui.
–Daqui um ano terá que fazer outra vida na Itália, por que não começar mais cedo?
Reborn apenas o encara insatisfeito. -Bem, você não possuiu minha aprovação.
–Imaginei que não.
Ao final das aulas, os jovens estavam se dirigindo para a casa ou para outros afazeres.
–Fazem dias que Giustizia não age. -comentou Gokudera.
–Isso é uma maravilha! Quero dias de paz.
–Bem a Epifania conseguiu assusta-los. –afirmou Kenjiro.
–Como assim?
–Não posso dar detalhes, Tsuna-kun. Mas de qualquer forma a Epifania está zelando pela sua segurança.
–Então hoje eu posso sair à vontade com vocês!
–Creio que não. – Uma voz estranhamente familiar ressoou pelo vento. Quando o garoto virou, seu pai estava o fitando seriamente.
–Pai!?-disse Tsuna surpreso. Mas.. Mas...O que faz aqui?
–A um taxi nos esperando, se despeça e vamos. Meninos podem relaxar hoje eu cuido dele.
–Tem certeza que não é melhor eu ir junto ao décimo?
–Não se preocupe Gokudera, pode ir se divertir. Tchau para todos vocês.
–Eii!! Me deixe despedir da Kyoko.
–Não temos tempo. –disse ele empurrando o filho.
–Kyoko depois eu te ligo. –gritou Tsuna.
–Tudo bem. –respondeu ela preocupada.
–Onde estamos indo?
–Ao médico. Sua mãe está esperando no carro.
–Eu já falei que não quero.
–Uma pessoa doente não se manda. Entre. –falou ele empurrando gentilmente Tsuna para o carro que deu partida logo em seguida.
–Então... O que iremos fazer hoje? –indagou Yamamoto.
–Eu irei para casa com a Hana.- disse Kyoko.
–Tenho algumas coisas para fazer. Vou indo nessa. Ate mais. – disse Kenjiro.
–Bem, vou buscar a Haru para sair.
–Será que a Akemi-chan não quer vir junto? –indagou Yamamoto.
–Vou ligar para a Haru e já vemos. Tenho que buscar algo em casa.
–Marquem no restaurante do meu pai, se encontramos todos lá.
–Ok.
Gokudera correu até o colégio da namorada. O vento do outono raspava sua pele sem dó, as nuvens escuras estavam dominando o céu e a umidade se fez presente. Ambas estavam o aguardando no portão do colégio e obviamente as outras que estavam ali presentes, traçavam comentários maldosos.
–Preciso passar em casa, querem vir junto?
–Claro Gokudera-kun. -afirmou Haru.
–Bem, eu encontro vocês no restaurante. “Não estou afim de ficar de vela.”. -pensou Akemi.
–Tem certeza? Lembra-se como chega lá? -falou Haru em meio ao nervosismo.
–Hã...Tenho. –respondeu Akemi estranhando o tom suplicante de Haru em sua frase. Não entendia porque raios ela não ia querer ficar a sós com o próprio namorado. — Guardei o caminho desde o primeiro dia que me levaram. Até depois. – e ela saiu.
“Hahi! Haru e Gokudera sozinhos no apartamento?”
–Haru! Haru está tudo bem?
–Hahi!!! Claro!
–Prefere esperar no restaurante?
–Não, não! Haru vai junto com Gokudera-kun.
Tarcísio encarava-se frente ao espelho, o tempo não lhe estava sendo gentil, apesar de ainda ser considerado jovem, as rugas estavam presentes na testa e ao redor da boca, cicatrizes em suas bochechas e no queixo, as olheiras deixavam ainda mais significativo o seu olhar cansado e vingativo. Dias atrás, havia encontrado alguns fios de cabelos brancos. E agora ele havia adquirido mais uma marca através da queimadura do gelo.
Enquanto observava os rapazes da sua idade com corpos exuberantes, jovens e robustos, o seu era infestado por cicatrizes de cada luta e treino que tivera. A vida mafiosa não era nada fácil e ao fazer parte da Giustizia, seus desafios haviam aumentado, mas possuía a esperança que tudo valesse a pena. Era para um bem maior, um bem que os membros da Epifania, cegos pelo discurso do seu reverenciado líder, não enxergavam.
Saiu do banheiro e entrou na cozinha-sala. A porta do pequeno quarto estava aberta e dela possuía a visão de Robert cuidando de Paolo deitado a cama, com várias queimaduras feitas pelo frio, escondidas com panos embebidos com água. Ele sentou em uma velha cadeira empoeirada e observava os dois. Estava incrédulo de conseguirem salvar o velho amigo e escapar de Epifania. As lembranças eram apenas pequenos fragmentos confusos em sua mente, seu estado físico naquele momento não lhe permitiu guardar detalhes.
Lembra-se de Robert livrar-lhe das algemas e partirem em passos curtos pela escuridão, com o perigo perseguindo. Havia membros da Epifania em vários cantos. Vasculharam aquele local como ratos atrás da dispensa, desejando comidas suculentas, de saciar a fome e sair sem ser pego. Mas não eram as comidas que os atraiam, eram o frigorifico e dentro dele estava um grande amigo. Robert blasfemava pelo lugar ser enorme e mal iluminado. O homem pulou nos ombros de Tarcísio e o balançava com um sorriso frenético ao encontrar uma enorme porta de metal. Robert parecia um náufrago quando via um barco passando pela baía da ilha.
Sem conseguir explicar, Tarcísio pareceu acordar de um breve cochilo quando o frio invadiu o seu corpo, sentia a pele arder e o branco estava-lhe cegando, teve que quase fechar os olhos para ver Paolo desacordado e pendurado como carne de açougue. Quando se deu conta, estavam correndo pelos corredores escuros, um dos braços de Paolo estavam em seu ombro, gritos e barulho de tiros vinham junto a eles, tudo pareceu sumir com o clarão que invadiu seus olhos. Acordou junto ao chão, a grama verde alta e insetos caminhando pela pele queimada, Robert o balançava como se o quisesse acorda-lo de um pesadelo.
–Essa casa está caindo aos pedaços, mas está servindo. -comentou Robert, fazendo Tarcísio retornar dos pensamentos.
–Foi nossa sorte você ter encontrado essa casa. Como está Paolo?
–Com queimaduras feias! Teria que ir para um hospital.
–Não podemos!
–É o Japão, ninguém nos conhece por aqui.
–Não podemos causar interferências.
–Tarcísio, estamos tentando causar uma interferência significativa.
–Sabe Robert, às vezes eu penso se realmente é o certo a fazer. Podemos deixar tudo pior.
–É um risco.
–Não acha estranho ninguém “deles” terem se pronunciado? Por favor, o Sawada-san é importante para eles.
–É claro que estão por aqui!
–Não a sinais.
–E as flechas desviadas? Isso é um sinal! Eles estão aqui.
–Mas o professor...- Tarcísio socou a mesa. -Aquele idiota atacou o Professor. Ele...Ele conseguiu vencê-lo. Quem mais poderia vir para cá?
–Eles possuem muitos aliados! Não seria um problema.
–Talvez. Eu não acredito com o que ele fez ao Professor.
–O chefe da Epifania e todos os seus membros não passam de traidores arrogantes!
–Traíamos a família também Robert.
–Não a traímos! Apenas estamos fazendo o que eles não conseguem. Queremos nos vingar daquele traidor! Recorde-se de quantos amigos e parentes perdemos!
–Mas se eles estão seguindo com o plano de purificar a alma de Sawada-san e tiverem êxito...
–A Giustizia não o eliminará se isso acontecer, pois teremos certeza de que o resultado será bom. Com Sawada-san purificado ou morto, a Epifania não poderá avançar com seus planos. Enfim, vá descansar, vou tentar fazer contato com os outros.
Haru estava sentada no sofá do apartamento de Hayato e não sentia-se a vontade naquele espaço. Seu corpo queria sair o quanto antes pela porta, mas teria que disfarçar suas verdadeiras intenções para não magoar o rapaz. Lembrava-se dos dias que ficava sozinha com ele, não lhe importava e não lhe deixava aos nervos. Aquele apartamento guardava muitas memórias boas e ruins do casal. Ela nunca se esqueceria daquele dia hilário que arrombou a porta e o encontrou apenas de toalha e obviamente o mais marcante de todos, quando o beijou pela primeira vez. Ela riu baixinho e corou, seu entusiasmo foi interrompido quando ouviu a chuva chegar com grandes e barulhentos pingos.
–Pronto! Já peguei! Vamos! –Haru pulou do sofá quando Gokudera voltou do quarto.
–Gokudera-kun e Haru estão presos. Está chovendo forte.
–Vamos nos encharcar.
–Logo deve passar.
–Não tenho pressa, faz tempo que você não vinha aqui. Esperaremos passar e partimos. Vou avisar o Yamamoto.
Restaurante...
–Hahaha! Ok.-Yamamoto falava ao celular. -Não queremos mais vocês dois resfriados. Sim, a Akemi-chan está aqui. Tudo bem. Tchau.
–O que houve?
–Estão presos no apartamento do Gokudera. Eles vão vir quando passar.
“Humm, um casal preso em um apartamento, sozinhos na chuva... Acho que à tarde da Haru vai ser muito agradável.” –Akemi ria sozinha com seus pensamentos maliciosos.
“Estamos sozinhos! Estamos sozinhos! Meu deus! Por que a chuva não passa logo!?” –pensava Haru.
Gokudera havia colocado um filme para ambos assistirem, mas Haru mal sabia sobre o que se tratava. Seus pensamentos lhe deixaram longe ignorando comentários do rapaz acerca do conteúdo, ele apenas não se irritou por perceber que algo estava a incomodando.
–Haru? Terra chamando boba, acorde!-ele cutucou a cabeça dela e apertou uma das bochechas.
–Hahi!
–O que aconteceu com você hoje?
–Ha-Haru está bem. A Ha-Haru tem prova amanhã e está preocupada. –a mentira dele não passou despercebida e Gokudera a encara. Sem desviar os olhos dela, desliga a televisão pelo controle e coloca uma das suas mãos no rosto da jovem.
–Eu te conheço.
–Haru já falou que está bem.
–Está com medo de ficar sozinha comigo?
–Não! Bobagem! Haru sempre estava aqui antes.
–É Haru. Você sempre estava, mas desde que estamos juntos você evita de vir a minha casa.
–Haru não evita. Haru apenas quer fazer outras coisas com o Gokudera-kun.
–Antes você vinha aqui me esperar para sairmos, nem isso você faz mais.
–Está insatisfeito comigo? É isso?
–Claro que não.- Gokudera percebeu que ela havia ficado irritada quando deixou de usar a primeira pessoa.- Mas estou cansando de você agir como se tivesse medo de mim.
–Não tenho medo!
–Não!? Já percebeu a distância que está sentada de mim? Tem medo que eu lhe force a fazer alguma coisa?
Ela fica quieta.
–Por que nunca me falou nada?
–Haru não sabia. Haru queria tentar se livrar disso sozinha. Ela sabe que pode confiar em Gokudera-kun.
–Acho que não estaria errado em supor que ficou com medo por causa daquela tarde, o nosso primeiro beijo.
–Haru e Gokudera-kun quase fizeram...”aquilo”...
Ele ri.- Eu só avancei porque você me deu sinal verde.
–O que!? Como assim?
–Você tirou a minha camisa lembra? Depois de uns beijos, me empurrou para a cama, tirou a sua camisa e sentou no meu colo...
–Pare! Pare!-Ela vermelhou. Ele riu, a abraçou e beijou seus cabelos.
–Boba!
–Haru fica com muita vergonha de lembrar. Haru não age como uma atrevida.
–Eu não. Foi um dos melhores dias da minha vida.
–Para a Haru também...
–Então por que o medo?
–Por que Gokudera-kun talvez queira chegar ao final e Haru não se sente preparada.
–Eu nunca te forçaria a nada.
–Mas quando a Haru estiver é bom Gokudera-kun estar preparado.
Ele riu.-Vou estar sim. –ele relaxa no sofá e coloca um dos braços pelo ombro dela. -Acho que vai ser em um dia chuvoso.
–Por quê?
–O Décimo beijou a Kyoko em um dia chuvoso, nós se beijamos em um dia chuvoso. E esta conversa, estamos tendo porque a chuva nos deixou presos.
–Então a Haru quer que seja em uma tarde ensolarada ou uma noite de luar...
–Ou quando estiver nevando...
–Não. É muito perto. Logo será inverno.
–Não precisa ser nesse inverno.
–Talvez na primavera.
Ele ri.-Não importa a estação. Agora voltará a vir aqui em casa?
–Acho que sim.
–Acha?-ele a encara.
–Haru com certeza vai vir.
Ele a beija, sorri e a abraça a obrigando sentar colado a ele.- Então vamos voltar ao filme.
Havia já passado algumas horas, Akemi deu um pequeno suspiro enquanto via algumas fotos no celular de Takeshi. -Toscana realmente parece ser linda!!!
Yamamoto riu. –Eu adorei lá. Mas não vi lugares para jogar beisebol.
–Humm...Italianos jogam beisebol?
–Nunca pesquisei sobre. Vou perguntar para Patrícia mais tarde.
–Essas flores, uau! Esse campo com o por do sol...-Akemi interrompeu seus elogios de forma brusca. A foto que veio a seguir era de uma moça loira sorridente de olhos azuis, sua pele recendia com o agradável tom do sol a tarde.- Essa é a Patricia-chan?
–Sim. Linda não? Eu levei sorte.- Yamamoto ria enquanto passava a mão no cabelo.
–Sim. “Não chego aos pés dela.”- pensou. –Então... Como é namorar a distância.
–Meio complicado, mas converso com ela quase todos os dias.
–Mas ficar sem o carinho, o toque, aquele abraço quente... Sentiria muita falta disso.
–Hahaha, eu tiro o atraso quando for visita-la. E você, já namorou?
–Tive um namorado, terminamos dois meses antes de eu mudar para a cidade. Achávamos que o namoro à distância não teria futuro.
Yamamoto ri.- Eu namoro uma garota de outro país e está dando certo. Por que o seu não daria?
–Acho... Acho que não faríamos esforço para continuar aquela relação. Mas acabou. Somos apenas amigos. Por falar neste assunto, essa chuva não vai passar tão cedo, acho que eles não virão.
–Eu mandei mensagens para Gokudera, mas ele parou de me responder.
–Então eles devem estar ocupados. — comentou Akemi sem pensar.
–Como assim?
A jovem cora ao se dar conta da malicia por trás de suas palavras. –Ah, bem...eles são namorados afinal.
–Talvez estejam jogando vídeo game.
Ela ri. -Você só pode estar brincando.
–Estou falando a sério.
–Ok. Conhece-os melhor do que eu. Olha, está ficando tarde, tenho que ir embora.
–Fique para o jantar.
–Agradeço, mas não vou me aproveitar da sua família.
–Mas eu insisto jovem. Amigos do meu filho são bem vindos aqui. –comentou o pai de Yamamoto entrando repentinamente.
–Então você fica.
–Mas-mas...- Akemi não conseguiu dizer não aos olhares de cachorrinho de ambos os homens. -Ok, apenas vou avisar minha mãe.
Na casa do jovem Vongola, ele estava na cozinha com sua mãe recebendo instruções de como tomar as vitaminas. O mau humor e o medo aumentaram a visita ao médico não lhe trouxe noticias agradáveis.
–Não se esqueça de tomar essas vitaminas todos os dias. Estou ansiosa e preocupada em saber o que você tem.
–O que o médico disse?-perguntou Bianchi entrando na cozinha.
–Pode ser várias coisas, menos um resfriado. Vamos esperar o resultado dos exames.
Os nervos de Tsuna estavam em frangalhos. As palavras do médico não foram nada inspiradoras e ele realmente torcia para que o resultado não fosse nada demais. A conversa foi interrompida quando o seu pai lhe chamou no quarto, ele subiu as escadas com cuidado para não ter outra tontura e viu tamanha dificuldade alcançar cada degrau. Seu corpo estava cansado e pesado, parecia que carregava toneladas presas nos braços e pernas. Quando abriu a porta lá estava Claudio, Leo, Reborn e o Iemitsu. Tsuna percebeu seu quarto ficar minúsculo com três homens adultos.
–Chegou a hora, Tsuna. –disse Claudio.
A chuva agora era uma um leve rabisco no céu noturno. O crepúsculo formou um clima agradável o suficiente para o casal afundar-se em sono profundo que lhes arrastou por horas. Gokudera estava deitado no sofá e Haru encostou-se a seu peito, na qual era quente e confortável, a respiração dele embalou ela até pegar no sono. Foram despertados com o celular do jovem tocando.
Gokudera sem abrir os olhos, apenas alcançou o bolso onde estava o telefone e atendeu de forma preguiçosa, sem sequer olhar no visor. Não precisou de nenhum esforço para reconhecer a voz.
–Sim Yamamoto?
–Queria avisar que já levei Akemi-chan em casa. Você estava dormindo?
–Acabamos pegando no sono.
–Ei, espere aí, você ainda não levou a Haru para casa!? Já viu as horas?
Gokudera afastou o celular do ouvido e obrigou-se a abrir os olhos, no visor faltavam quinze para as oito horas. Ele teria dado um pulo se a moça não estivesse encostada em seu peito.
–Tenho que ir, até mais. – ele desliga. -Haru! Ei Haru! Acorde!
–Humm... O que houve?-disse ela esfregando os olhos.
–Adormecemos e já anoiteceu. Vamos! Eu tenho que te levar para casa antes que teus pais me matem. Olhe a hora. –ele mostra o visor do celular para a jovem.
Ela pula. –Meus deus!!!
–Pronto Tsuna? Deite-se em sua cama, por favor. – pediu Claudio e o jovem o atendeu.
Quando deitou, sentiu seu corpo finalmente relaxar. O rapaz repetiu o mesmo procedimento que foi realizado na mansão Vongola e algo estranho ocorrera desta vez. Claudio conseguiu ver perfeitamente o sonho do jovem Vongola daquela manhã, sendo invadido por sentimentos de medo e coragem, que relutavam entre si. Aquilo fora o suficiente para ele ver o estado da alma. Quando terminou o procedimento e Tsuna abriu os olhos, a expressão de Claudio não lhe agradou.
–O-o que vo-você viu?-indagou Tsuna com a voz trêmula e sua palidez se aprofundara pelo medo.
–Você sabe o que eu vi.
–O meu sonho.
–Não é um sonho, é a parte do seu subconsciente. Tsuna, o que eu lhe disse sobre impedir a corrupção em sua alma?
Ele sentou na cama. -Eu-eu não podia eliminar aquelas pessoas!
–São seus inimigos que estão tentando elimina-lo.
–Eu não sou assim e não consigo mudar!!!- o tom de voz trêmulo passou para uma voz imponente, marcando a brusca mudança de atitude.
–Do que adiantou!? Você está doente!
–Se minha alma se corromper eu posso machucar quem eu amo.
–Nunca chegaria a está situação, pois até lá eu encontraria o meio de purifica-lo.
–Claudio, qual o estado dele?-indagou Reborn.
–Se ele sofrer um ou duas abordagens perigosas dos inimigos, que tais situações o motive a lutar contra o seu lado negro.... Ele vai correr perigo.
–Tsuna, você precisa se afastar da Giustizia. –afirma Iemitsu.
–Não posso! Meus amigos! Minha família!
–A Vongola estará aqui lutando contra eles! Vamos para a Itália Tsuna. Eu já conversei com sua mãe e ela irá junto.
–NÃO!!!
–Não adianta negar, eu te levarei a força.
–Como me forçou a tornar-me chefe da Vongola!
–Eu não acredito que ainda está nessa Tsuna! Você aceitou por conta própria.
–Você simplesmente sumiu, enviou Reborn e desde que ele chegou sou pressionado a aceitar tal cargo. E por mais que dissesse não, sempre me ignoraram e continuaram a me colocar em situações perigosas.
–Eu estou pensando em você!
–Nada disso estaria acontecendo se não me coloca-se no mundo mafioso. Eu seria um garoto normal.
–Você tem algo precioso em sua linhagem. É melhor que qualquer garoto da sua idade.
–Você também possuiu a linhagem do primeiro Vongola, por que não assumiu ao invés de mim? Ah, é mesmo! Você não possuiu a chama do céu. –Iemitsu surpreendia-se com as expressões sarcásticas de Tsuna, a última vez que o vira assim foi na mansão da Familia Céu Selvagem. Normalmente ele apenas falava algumas ironias.
–Garoto, nós e seus pais pensamos no melhor para você. – se pronunciou Leonardo pela primeira vez.
–O melhor para mim não está na Itália.
–Você é quase um homem. Já enfrentou muitas coisas em sua jovem jornada e sim, você teve um ano traumático, mas não pode deixa-lo de impedir de avançar. Está levando em consideração o tamanho sofrimento das suas pessoas queridas se caso perdê-lo, mesmo tendo a chance de salvar sua vida em mãos?
–Estou pensando no melhor para elas.
–Não é o que você quer fazer e muito menos o que nós queremos. Na vida devemos fazer muitos sacríficos e já teve que fazer vários por conta da máfia. Este é apenas mais um. E olhe pelo lado positivo, estará perto do seu pai e de sua mãe. Não estará sozinho. O que você sente neste exato momento?
–Eu-eu não sei dizer. Ao mesmo tempo que possuo medo, ele parece que também não existe. Na verdade, não quero deixar ninguém! Mas eu quero! É o melhor. Eu não sei, me sinto confuso.
–Seus sentimentos estão oscilando. Você travou uma guerra interna consigo mesmo. –disse Claudio.
–Se Giustizia quer me eliminar, significa que sou perigoso.
–Tsuna idiota! Sequer sabemos as verdadeiras intenções deles. -se pronunciou Reborn.
–O meu conselho é que se afaste desta confusão. Vá para Itália, quando derrotarmos Giustizia poderá ver novamente seus amigos. Com esperança, Claudio logo trará bons resultados e sua alma será purificada. E muitas coisas boas virão em seguida. Não acredite no que estes desconhecidos dizem.
–Eu pensarei no assunto.
–Já é um progresso.
Iemitsu apertou suas mãos com fúria de si mesmo. Desde que fora corrompido, Tsuna não perdia oportunidades de lançar seu veneno nele. Apesar da situação, o homem conseguia agora enxergar os sentimentos obscuros de seu pacifico filho e como ele o havia magoado. Iemitsu sentia-se culpado por tê-lo abandonado por tanto tempo, deixando Nana cria-lo praticamente sozinha. Apesar de enviar dinheiro, não era suficiente para cumprir o vazio de sua presença. Em seu interior, sempre pegava-se ciumento em relação a Reborn e Leonardo, por ambos conseguirem constituir laços fortes ao invés dele, mesmo sendo o pai do jovem Vongola. Mas assim como Tsuna possuía suas obrigações da sua linhagem, Iemitsu sofria com o mesmo peso de ser descente de Giotto.
E agora estava ele ali, ouvindo outro homem convencendo o seu filho ao invés dele, assumindo o papel paternal. Doía no fundo do seu coração não saber como abordar o próprio filho, o pequeno garoto que ele deixou e quando retornou estava-se tornando um homem.
–Conseguimos. –ele olhava no celular. –Cinco para as oito horas.
–Papai e mamãe não vão matar Gokudera-kun. –Haru ri.
–Eu espero! Não podemos quebrar nosso acordo com eles.
–Hum... Gokudera-kun, afinal o que foi buscar em casa.
–Ah sim, estava me esquecendo. –ele remexe os bolsos e dele tira um pequeno pacote, entregando para ela.
–O que é?
–Veja por si mesma.
Ela abre o pacote e dele estava o medalhão que Gokudera havia comprado no aeroporto. Agora eles possuíam um detalhe a mais, o nome deles estava gravado atrás da peça.
–Não acredito! Ficaram prontos!!!
–Eu havia te prometido a meses de fazer isso. -ele pegou a metade que pertencia à garota e colocou em volta do pescoço dela.
–Se abaixe! Eu quero colocar o seu!
Ele riu, se ajoelhou e ela colocou a metade do medalhão. Quando ele subiu, a pegou desprevenida pela cintura, deixando ela com os pés no ar e roubando-lhe um beijo.
–Não vale. -ela cruzou os braços no pescoço dele e o beijou.
O casal apaixonado, não se deu conta que estavam sendo seguidos e observados por uma pequena garotinha escondida atrás de uma árvore. Ela possuía um largo sorriso no rosto.
–É feio espionar as pessoas Lavina.
–Fabricio-kun! –ela olha assustada para trás e bufou em protesto. -Fabricio-kun espiona as pessoas o tempo todo.
–É o meu trabalho. E é feio fugir dos outros adultos. Masao está preocupado com você.
–Lavina sabe se cuidar. Papai ensinou.
Fabricio apenas ria e observa os dois jovens apaixonados. –Sempre achei que eles formam um belo casal.
–Mas é claro que sim! São o melhor e mais bonito casal do mundo.
O rapaz ria.-E sabe o que o melhor e mais bonito casal do mundo quer agora?
–Não. O que?
–Privacidade! Vamos! – ele pega a garotinha no colo e a leva para longe dali. Lavina pelos ombros do primo observava o casal se distanciando deles a cada passo de Fabricio.
“Que vocês sempre sejam felizes.” –pensou a garotinha.
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