Céu Azul
5 Capítulo 5
Notas iniciais
August e eu nos conhecemos de um jeito totalmente aleatório.
Estava em uma cafeteria um dia com notebook na minha frente estudando para uma das milhares de provas que a faculdade de Letras estava me presenteando quando de repente ouço o som da cadeira sendo arrastada e olho para cima quando noto um rapaz falando comigo.
— ... eu pedi um café com leite por ser o coringa dos cafés, mas aquela gentil senhora me falou que você gostava do seu preto, e estava em uma semana que eles estão sendo pedidos todos os dias. Você deveria diminuir o consumo de cafeína sabia? – Olho para o rapaz na minha frente sem entender o que estava acontecendo e o vejo colocar a xicara perto de mim.
—Me desculpe, acredito que esteja me confundindo com alguém. – Digo o olhando e percebo que ele nota que estou assustada.
—Ah me desculpe, August. Esse é meu nome, eu estenderia minha mão em sua direção, mas, se você olhar atrás de mim tem duas meninas sentadas, uma loira e uma morena, a umas três mesas de distancia. Pois é , elas são conhecidas da minha mãe e uma delas meio que acha que tem a benção da minha mãe então somos obrigados a casar, então disse que estava aqui com a mulher que eu gosto e aquela senhora gentil ali. – Ele olhou para o balcão e acenou para Clara, a dona do café. – Viu o que eu estava passando durante essa semana toda sendo perseguido e me ajudou. Ela falou que você é uma menina de nobre coração que me ajudaria.
Eu solto uma risada meio desacreditando de tudo isso.
— Bom, duvido que Clara tenha dito isso. — Desde que eu comecei a faculdade sempre vinha tomar café aqui quando estava muito atarefada ou queria dar um tempo de tudo, e meio que virei a cliente da casa. Clara tinha 58 anos de idade e administrava a cafeteria com seu marido, Senhor Geraldo. Eles eram um casal lindo e sempre que vinha aqui era tratada como da família, mas eu tinha certeza que ela nunca diria a um completo estranho que eu o salvaria de um pré casamento arranjado.
—Ok, ela não disse, talvez ela tenha percebido que estava sem saída e apontei na sua direção, ai na hora que eu pedi o café ela me falou “ o café da Cris já deve estar frio, faça ela descansar um pouco” e aqui estou eu. – Ele diz me dando um sorriso como se fosse apenas um assunto sobre o tempo.
Mas então eu encosto na cadeira e arqueio uma sobrancelha enquanto reparo melhor no cenário a minha frente.
August era um rapaz simpático, tenho que admitir, seu tom de pele era bem mais escuro que o meu, mas dava pra ver que o Sol tinha colaborado com a sua cor, seu cabelo era escuro e caia dando formato ao seu rosto com alguns cachos, seus olhos eram um castanho claro, bem claro, seu nariz e boca eram proporcionais a sua fisionomia, mas vejo um curativo em sua sobrancelha, então estreito meus olhos em sua direção.
Quando me inclino um pouco para o lado e vejo as meninas olhando em nossa direção com a fisionomia de ódio, respiro fundo e volto a minha posição encostada no encosto da cadeira e cruzo meus braços.
—Então, terei que ser a garota problema com curativo na testa? – Digo arqueando minhas sobrancelhas.
Ele faz uma cara de confuso e então parece que entende que estou me referindo a seu curativo e a cara das meninas que queriam me matar.
—Oh não, juro que não sou encrenqueiro, na verdade eu ganhei isso ontem quando fui brincar de andar e acabei rolando a escada. – Ele da um risinho mas vejo que fica constrangido.
Dou risada imaginando que pelo jeito de ficar corado devo entender que ele é um desastre ambulante.
—Eu acho que Clara tem razão, eu preciso mesmo descansar um pouco. Eles servem um bolo de cenoura feito aqui mesmo, muito bom. Que tal? – Digo fechando o notebook e quando olho para cima vejo seu sorriso.
— É o meu favorito. – Retribuo o seu sorriso e sinto a sensação de tranquilidade enquanto ele me pede um momento e vai buscar os pedidos.
E naquele dia passamos a tarde conversando, logo nossos encontros na cafeteria ficaram cada vez mais frequentes, e quando fomos ver estamos saindo por ai e apresentando nossos mundos um para o outro.
Isso tínhamos 18 anos.
Desde então, aos meus 27 anos de idade eu posso dizer.
August se tornou meu melhor amigo, e então tomou para si parte do meu coração que foi para sempre dele.
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Entramos na sala onde seria lido o testamento e vejo que Amara está em sua postura de Advogada, enquanto eu me sufoco dentro da mascará de mulher inflexível, assim como eu já sabia que teria de ser, porém, agora sem poder segurar na mão de ninguém, eu me sentia desfalecendo, como se algo ruísse dentro de mim e eu aguentava firme para não despencar junto.
—Peço por gentileza que todos se sentem –Amara disse em um tom formal e todos tomamos um lugar na sala para ouvir, estávamos em uma formação de cadeiras como uma meia lua, então tomei uma cadeira no canto me sentando reta e olhando diretamente para Amara, mas sentia todos os olhos em mim.
— Peço para que seja breve, tenho uma viagem ainda hoje e quero terminar de arrumar tudo. – Ouço a senhora Carmeron dizer e tento segurar a vontade de revirar os olhos.
—Tomarei o tempo necessário, mas acredito que será breve. – Amara diz sem se abalar e então toma a cadeira em nossa frente para começar a leitura.
— Aqui está descrito as últimas vontades de August Clairon Carmeron...
E por um momento tudo pareceu sair de foco, e é como se eu soubesse que era a hora.
Depois de tanto tempo sendo fortes juntos, agora tudo mudou, e era a minha vez de ser mais que o pingente. Era a vez de ser aquela que cuidaria de toda a jóia. A mesma que daria por si só o propósito...
Cuidar da nossa pequena Pérola.
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