Cálice de Fogo
3 À bordo do Expresso de Hogwarts
Notas iniciais
1º de Setembro, Londres…
Sakura pulou do carro assim que o senhor Uzumaki parou e correu em direção ao pai que esperava no estacionamento da King’s Cross, o abraçando forte.
— Oi – ele a abraçou afetuosamente. – Que saudade toda é essa? Mal faz duas semanas que nos vimos. Como foi?
— Ah papai, foi tão divertido – Sakura contou um pouco do que vivenciou na Copa Mundial de Quadribol.
Já haviam se passado cerca de seis anos desde a descoberta de que Sakura era uma bruxa.
A jovem de cabelos rosa ainda se lembrava do medo dos pais, dos comentários dos empregados por Castle Howard, em York. Como muitos comentavam que seus pais adquiriram cabelos brancos mais rápido do que qualquer um na idade deles por conta das travessuras da filha mais nova.
Sakura às vezes queria explicar que não sabia o que exatamente fazia, mas os pais a proibiram, dizendo que era melhor que pensassem assim.
O pai dela era o filho mais novo do falecido Duque de Northumberland, o que queria dizer que seu tio Kakuzu era o herdeiro do título e das propriedades de Syon House, em Londres, e de Wrotham Park, em Hertfordshire. Tanto o pai quanto o tio haviam feito um acordo de morarem juntos em Londres, mas a mansão em York ficaria em posse de Kizashi.
Sakura só sabia o que o irmão mais velho soltava quando estava com raiva dela e queria puni-la: se não fosse pelas bizarrices dela, todos ainda estariam vivendo juntos em Londres. Mas assim que ela nasceu com os cabelos rosa e demonstrou os primeiros sinais de magia, os pais inventaram que Mebuki precisava do ar fresco do campo e foram morar em Castle Howard desde então.
Sasori nunca havia aceitado a mudança muito bem, ele era muito próximo do primo, Deidara e, nas palavras do irmão, Sakura era a culpada por todas as desgraças na vida da família.
O pai havia escutado as palavras do filho mais velho e Sakura não soube o que houve exatamente, mas sabia que Sasori havia sido severamente punido por aquilo. Ele nem olhava mais para ela se pudesse evitar desde então. Assim que atingiu a maioridade, Sasori saiu de casa sem olhar para trás. A mãe havia ficado devastada.
Sakura pediu desculpas chorando por não saber o que tinha de errado com ela, mas o pai a proibiu de se sentir culpada e contou a história da irmã que um dia teve: ela nasceu com os cabelos rosa e com a capacidade de fazer coisas diferentes como Sakura, mas o avô não era um homem gentil e maltratou muito a menina que morreu quando ainda era uma criança.
Sakura só descobriu o que exatamente aconteceu com a tia apenas em seu terceiro ano em Hogwarts…
Depois que Sasori foi embora, os pais tiveram esperanças de que as coisas iriam acalmar, mas perto de completar onze anos Sakura recebeu uma carta um tanto inusitada e uma visita de alguém do Ministério da Magia que explicava toda situação da garota de cabelos cor de rosa: ela era uma bruxa.
Sakura ainda guardava a carta em uma caixinha de música que tinha recebido da mãe em seu aniversário de 10 anos.
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS
Diretor: Hiruzen Sarutobi
(Ordem de Merlim, Primeira Classe, Grande Feiticeiro, Bruxo Chefe, Cacique Supremo, Confederação Internacional de Bruxos)
Prezada Senhorita Haruno,
Temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista dos livros e equipamentos necessários.
O ano letivo começa em 1° de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de julho, no mais tardar.
Atenciosamente,
Tsunade Senju
Diretora Substituta
— Senhor Haruno – o pai de Naruto o cumprimentou.
— Senhor Uzumaki – o pai de Sakura cumprimentou de volta. – Obrigado por convidar minha filha – ele o agradeceu.
— Ah, o prazer foi meu, acredite, tem uma filha muito especial – ele elogiou. Ainda batia palmas animado sempre que se lembrava de ter participado do jantar com os jogadores de Quadribol da Bulgária e do Brasil.
O pai de Sakura a abraçou e respondeu carinhosamente, olhando para a jovem:
— Eu sei.
— Cadê a mamãe? – Sakura perguntou ao pai.
Normalmente a mãe sempre vinha se despedir da filha.
— Com as netas, onde mais? – seu pai sorriu feliz.
As sobrinhas de Sakura estavam para completar dois anos e a avó de primeira viagem as paparicava muito. Infelizmente Sakura não conseguia conviver com elas tanto quanto gostaria, primeiro porque passava muito tempo longe por conta dos estudos e segundo… Porque seu irmão mais velho não a queria por perto. Sakura e Sasori viviam uma espécie de guerra fria, pelo bem dos pais e da família.
— Bem, lamento interromper, mas precisam ir – avisou o senhor Uzumaki voltando para o carro e ajudando os filhos a pegarem os malões.
— Aqui filha – o pai já tinha pego um carrinho de mão e colocado as malas de Sakura em cima. – Sua mãe escolheu os vestidos e as joias, eu confio no bom gosto dela, então não se preocupe – foi empurrando o carrinho em direção ao carro do pai de Naruto para pegar a mala que Sakura havia levado para passar as duas semanas na casa do amigo.
— Vestidos e joias? – Sakura estranhou enquanto o acompanhava.
— Sim – o pai apertou as mãos na alça do carrinho, empolgado, enquanto se encaminhavam para a estação logo em seguida –, dizia na carta do material escolar: Vestes a Rigor, vão ter um baile? Sua mãe implorou para que tirasse uma foto – o pai a avisou.
— Tudo bem – Sakura concordou –, mas eu não estou sabendo de baile nenhum… – comentou confusa.
— Deve estar tão empolgada com esse quadribol que acabou se esquecendo – o pai brincou.
Sakura duvidava que fosse essa a questão, mas sempre tinha conversado com o pai sobre o mundo bruxo...
A essa altura, Sakura já estava acostumada a embarcar na plataforma nove e meia. Era apenas uma questão de rumar diretamente para a barreira, aparentemente sólida, que dividia as plataformas nove e dez. A única parte difícil era fazer isso discretamente de modo a não chamar a atenção dos não mágicos.
O senhor Uzumaki foi primeiro com Karin e Naruto ao lado.
Sakura e o pai deslizaram um pouco depois atrás deles: eles se encostaram descontraídos na barreira, conversando despreocupados… e a plataforma nove e meia se materializou diante deles.
O Expresso de Hogwarts, uma reluzente locomotiva vermelha, já estava aguardando, soltando nuvens cheias de fumaça, através das quais muitos alunos de Hogwarts e seus pais na plataforma pareciam fantasmas e vultos para lá e pra cá.
Sakura e Naruto saíram na frente em busca de lugares e logo estavam guardando a bagagem em uma cabine mais para o final do trem com a ajuda dos pais, Sakura ficou na cabine com o pai enquanto Naruto saltava para se despedir do próprio pai. A mãe dele tinha aproveitado o dia para visitar os pais, os avós de Naruto e Karin.
— Certo, me despeço aqui – o pai a abraçou forte mais uma vez e depositou um beijo na testa dela. – Não deixe de nos mandar notícias – ele pediu.
— Sim, papai – Sakura o abraçou forte uma última vez –, fala para a mamãe que eu mandei um abraço para ela e para minhas sobrinhas.
O pai deles acenou enquanto o trem dava a partida e vários vultos passavam como se fossem relâmpagos antes de fazer a familiar curva.
— O que foi? – Sakura perguntou ao notar o amigo voltar chateado para a cabine.
— Meu pai, sabe o que ele disse? Que lamenta não ser aluno de Hogwarts este ano, que vai ser muito interessante – revirou os olhos e cruzou os braços se sentando no banco de frente para ela. – Ele e um monte de adultos que trabalham no ministério ficaram soltando essas piadinhas o verão inteiro.
Sakura não havia reparado muito já que estava empolgada com a Copa Mundial de Quadribol.
— Meu pai disse que na lista de materiais deste ano estava escrito Vestes a Rigor – Sakura informou a Naruto e tentou pensar em que tipo de evento seria.
— Oi – Temari foi entrando na cabine, com uma mala na mão e o namorado atrás. – Vi vocês lá na plataforma, vamos nos juntar a vocês – informou a amiga com Shikamaru e Kankurou logo atrás dela.
— E aí? – Naruto os cumprimentou.
Temari e Sakura dividiam o quarto na torre da Grifinória com mais duas garotas, Tenten e Karui; Naruto dividia o quarto com Kankurou, Kiba e Rock Lee; Shikamaru era da Corvinal, junto de Chouji, Shino e Sai, com quem eles tinham uma boa amizade.
Muitos amigos apareceram durante a viagem e os nem tão amigos assim também…
Konohamaru – agora do segundo ano – escutava, um pouco com inveja, a conversa dos colegas mais velhos que reviviam a partida.
— Vovô não quis ir – disse ele, infeliz. – Mas parece ter sido fantástico.
Era de conhecimento geral que o garoto era neto do diretor de Hogwarts, o professor Sarutobi.
— E foi – disse Naruto, se compadecendo do mais novo. – Olha só para isso, Konohamaru…
Ele meteu a mão no malão guardado no bagageiro e puxou a miniatura de Sasuke Uchiha.
— Uau! – exclamou o garoto, maravilhado, quando Naruto equilibrou a miniatura do Uchiha na mão.
— E vimos ele de perto, também – continuou o loiro. – Ficamos no camarote de honra…
A cabine estava abarrotada para escutar a conversa.
— Isso não é nada – Temari bradou. – A gente dançou com o Sasuke Uchiha – apontou para si mesma e para o namorado –, a Sakura foi a parceira de dança dele, pegou na mão dele e tudo.
— Uou – todos soltaram animados.
— O que? – Sakura e Naruto soltaram ao mesmo tempo.
Naruto ficou indignado por não ter ouvido isso antes.
— Diz que eu peguei na sua mão assim que você voltou – ele implorou para ela.
— A gente não dançou aquela quadrilha com os bruxos brasileiros? – ela lançou para ele.
— Isso! – Naruto pulou do banco, empolgado. – Eu toquei na mão que dançou com Sasuke Uchiha! – exclamou emocionado.
Sakura se virou discretamente para a amiga, pois não se lembrava muito bem do fato.
— A última quadrilha antes de você ir embora com o senhor Uzumaki, não se lembra? – a amiga arregalou os olhos para ela ao responder baixinho.
— Eu estava mais concentrada em não errar os passos e acabar pisando no pé de alguém – Sakura sussurrou de volta.
— Vocês se acham muito, hein? – disse um garoto ruivo que passava pela porta da cabine, era Gaara.
Sakura e Naruto trocaram um olhar, enojados. Não suportavam ele. E olha que ele era trigêmeo de Temari e Kankuro.
O garoto era da Sonserina, enquanto que os irmãos eram da Grifinória.
— Só está com inveja – Temari rebateu o irmão.
— Não lembro de convidar o Gaara para a nossa cabine – Sakura alfinetou –, alguém aqui convidou?
Muitos “Não” altamente sonoros foram ouvidos como resposta, mas Gaara só sorriu daquele jeito irritante dele e saiu.
— Argh – Sakura soltou sem querer. – Foi mal amiga, mas seu irmão…
— É, eu sei, eu convivo com ele – a loira deu de ombros.
Karin passou pela cabine não muito tempo depois, sinalizando para Sakura e Kiba, era a vez deles de patrulhar os corredores como monitores da Grifinória.
Tinha sido uma surpresa no ano anterior os dois terem sido nomeados como monitores da casa, Sakura já era esperado por ser uma das melhores alunas de Hogwarts; já Kiba… Muitos esperavam que Naruto ganhasse a nomeação, mas tudo foi explicado quando Nagato, capitão do time de Quadribol da Grifinória, os avisou que Naruto seria o próximo capitão depois que se formasse e cumprir duas funções era pedir para ficar maluco…
Vendo os bruxos mais novos, que iniciaram aquele ano, Sakura se lembrou de quando foi pela primeira vez ao Beco Diagonal…
A primeira parada tinha sido no Caldeirão Furado, por fora parecia mais um simples bar em Londres, mas por dentro… Havia um caminho até uma parede que necessitava de um bruxo para abrí-la, levando ao Beco Diagonal, os pais não haviam soltado as mãos da filha em nenhum momento, ainda temerosos de que tudo não passasse de uma pegadinha.
A bruxa que se chamava Kurenai e que se dizia do Ministério da Magia, sorriu calorosamente, tentando apaziguar o temor dos pais dela, e bateu três vezes com a ponta da varinha na parede cheia de tijolos. O tijolo que tocou estremeceu, então torceu-se. No meio apareceu um buraquinho, que foi se alargando cada vez mais e um segundo depois se viram diante de um arco bastante grande que abria para uma rua de pedras irregulares.
— Bem-vindos ao Beco Diagonal – disse a bruxa. – É aqui onde encontrará tudo de que precisa para sua vida escolar – olhou nos olhos de Sakura.
A jovem de cabelos rosa deu uma rápida espiada por cima dos ombros e viu o arco encolher instantaneamente e voltar a ser uma parede sólida. Sakura virava a cabeça para todo o lado enquanto caminhavam pela rua tentando ver tudo ao mesmo tempo: as lojas, as vitrines, as pessoas.
“Caldeirões – Todos os Tamanhos – Cobre, Latão, Estanho, Prata – Automexediço – Dobrável” dizia um letreiro acima de uma loja. Um pio baixo e suave veio de uma loja escura com um letreiro onde se lia “Empório de Corujas – Dourada, Das-Torres, do Campo, Marrons e Brancas”. Várias crianças da idade de Sakura espremiam os narizes contra uma vitrine que tinha vassouras. Havia lojas que vendiam roupas, lojas que vendiam telescópios e estranhos objetos que Sakura nunca vira antes, janelas com pilhas de barris contendo baços de morcegos e olhos de enguias, pilhas mal equilibradas de livros de feitiços, penas de aves para escrever e rolos de pergaminhos, vidros de poções, globos e muito mais…
A segunda parada havia sido Gringotes, um edifício muito branco que se erguia acima das lojas, para abrir sua conta como bruxa, o dinheiro que usavam era diferente do dinheiro de não mágicos e seus pais não pouparam gastos com ela, foi uma surpresa para os três aos descobrirem que o banco era administrado por duendes.
Um estava parado diante das portas de bronze polido, usando um uniforme vermelho e dourado. Ele era uma cabeça mais baixo que Sakura. Tinha uma cara cheia de reentrâncias e inteligente, uma barba em ponta, mãos e pés muito compridos. O duende tinha os cumprimentado com uma reverência quando entraram. Em seguida havia um segundo par de portas, desta vez de prata, onde havia gravado as seguintes palavras:
Entrem, estranhos, mas prestem atenção
Ao que espera o pecado da ambição,
Porque os que tiram o que não ganharam
Terão é que pagar muito caro,
Assim, se procuram sob o nosso chão
Um tesouro que nunca enterraram,
Ladrão, você foi avisado, cuidado,
Pois vai encontrar mais do que procurou.
— Só um louco tentaria roubar o banco – lembrou Kurenai.
Gringotes era como o metrô, só que maior e mais fundo, cheio de caminhos e buracos que Sakura teve a certeza que ninguém havia conseguido roubar daquele lugar. Seus pais também.
Eles haviam aprendido todos juntos: as moedas de ouro eram galeões, dezessete sicles de prata faziam um galeão e nove nuques faziam um sicle.
A terceira parada haviam sido as compras: “Roupas para Todas as Ocasiões”, para comprar o uniforme, “Floreios e Borrões”, para comprar os livros escolares (e alguns outros que Sakura se interessou), uma loja onde as prateleiras estavam abarrotadas até o teto com livros do tamanho de paralelepípedos encadernados em couro, livros do tamanho de selos postais com capas de seda, livros cobertos de símbolos curiosos e alguns livros sem nada.
Kurenai a recomendou esperar para quando entrasse em Hogwarts, a biblioteca era coisa de outro mundo, a bruxa prometera.
Eles pararam para comprar pergaminhos, penas e vidros de tinta entre uma loja e outra.
Sakura comprou um caldeirão, uma balança bonita para pesar os ingredientes das poções e um telescópio desmontável. Visitaram a farmácia para comprar um conjunto básico de ingredientes para preparar poções…
A bruxa havia deixado a loja de varinhas por último, segundo palavras dela “a escolha da varinha pode demorar mais do que se imagina”,
A loja era estreita e bem velha, com uma aparência de que estava perdida no tempo, destoando bastante das outras lojas ao redor. Letras de ouro descascadas sobre a porta diziam “Akasuna: Artesãos de Varinhas de Qualidade desde 382 a. C.”. Havia uma única varinha sobre uma almofada púrpura desbotada na vitrine.
— Eu recomendo que Sakura entre sozinha, a escolha da varinha pode ser… – disse Kurenai que ficou alguns segundos em silêncio, procurando a melhor palavra para descrever sem assustar os pais da jovem – curiosa – completou por fim.
Sakura acenou para eles demonstrando mais coragem do que sentia e um sininho tocou em algum lugar no fundo da loja quando ela entrou. A jovem de cabelos rosa teve uma sensação esquisita como se tivesse entrado em uma biblioteca muito exclusiva, espiou as milhares de caixas arrumadas com cuidado até o teto e, por alguma razão, sentiu um arrepio na nuca. Parecia que a própria poeira e o silêncio no local retiniam com uma magia secreta.
— Boa tarde – disse uma voz suave.
Sakura se assustou.
Havia uma senhora parada diante dela, os olhos grandes e muito claros, brilhando como duas luas na penumbra da loja.
— Olá – Sakura respondeu um pouco sem jeito. Era a primeira vez que falava com alguém sem os pais por perto.
— Ah, sim – disse a senhora. – Achei que ia vê-la em breve, senhorita Haruno – ela não falava como se fosse uma pergunta. – Você tem os cabelos de uma cor há muito perdida no mundo bruxo…
A senhora chegou mais perto de Sakura, a jovem desejou que ela piscasse, aqueles olhos que pareciam a lua lhe davam um pouco de medo. Sakura se via refletida neles.
— E-eu – Sakura fez um pigarro para aliviar a garganta do nervosismo – eu vim para escolher minha varinha – ficou feliz por ter dito a frase sem gaguejar.
— Ah menina, é a varinha quem escolhe o bruxo – a senhora a informou como se a corrigisse, com um sorriso gentil nos lábios. – Bem, vejamos, qual é o braço da varinha? – tirou uma longa fita métrica com números prateados do bolso.
— Eu sou destra – respondeu Sakura.
— Estique o braço. Isso – ela mediu a jovem do ombro ao dedo, depois do pulso ao cotovelo, do ombro ao chão, do joelho à axila e ao redor da cabeça. Enquanto media, informou: – Toda Varinha Akasuna tem o miolo feito de uma poderosa substância mágica, senhorita Haruno. Usamos pêlos de unicórnio, penas de cauda de fênix e cordas de coração de dragão. Não há duas varinhas iguais, assim como não há unicórnios, dragões nem fênix iguais, mesmo sendo gêmeos. E, é claro, a senhorita jamais conseguirá resultados tão bons com a varinha de outro bruxo.
Sakura percebeu que a fita métrica, que media entre as orelhas, estava medindo sozinha enquanto a senhora Akasuna andava rapidamente em volta das prateleiras, descendo caixas.
— Já chega – falou e a fita métrica paralisou no ar e caiu, formando um montinho no chão. – Certo, senhorita Haruno. Experimente esta: Faia e Pena de Fênix. Vinte e três centímetros. Boa e Flexível. Apanhe e experimente.
Sakura pegou a varinha e, insegura, fez alguns movimentos com ela, mas a senhora Akasuna a tirou rapidamente de sua mão.
— Bordo e Corda de Coração de Dragão. Dezoito centímetros. Bem elástica. Experimente.
Sakura experimentou, mas mal ergueu a varinha e a senhora Akasuna a tirou de sua mão mais uma vez.
— Não, tente esta: Freixo e Pelo de Unicórnio, vinte e dois centímetros, flexível.
Sakura experimentou e experimentou. Não fazia ideia do que é que a senhora Akasuna estava esperando. Mas quando algumas tentativas acabam com chuvas dentro da loja, ou raios incandescentes, tinha a certeza de que não era aquilo.
A pilha de varinhas experimentada estava cada vez maior em cima de uma cadeira alta de ferro e couro marrom, também em cima de uma espécie de bancada de um material que parecia vidro, mas brilhava como se fosse uma pedra.
Quanto mais varinhas a senhora Akasuna tirava das prateleiras, mais feliz ela parecia ficar.
— Cliente difícil, hein? – disse a senhora, animada. – Não se preocupe, vamos encontrar a varinha perfeita para a senhorita. Que tal essa: Vinte e seis centímetros de comprimento, Farfalhante, feita de Freixo e Pena de Cauda de Fênix. Uma boa varinha para encantamentos.
Sakura apanhou a varinha e sentiu um calor repentino nos dedos. Ergueu a varinha acima da cabeça, depois a baixou cortando o ar empoeirado com um zunido, uma torrente de faíscas douradas e vermelhas saíram da ponta como se fosse fogo de artifício, atirando algumas fagulhas luminosas que dançavam nas paredes.
A senhora Akasuna exclamou:
— Bravo, muito bom. Sua varinha a encontrou. Ora, ora, ora… São sete galeões – a senhora a informou.
Sakura pagou, os pais haviam lhe dado galeões antes de entrar na loja, e se despediu da senhora que se curvou à saída dela. Sakura sentiu que não era para ela e sim para a varinha que partia…
O sol estava encoberto de tons laranjas, enquanto Sakura e os pais refizeram o caminho para sair do Beco Diagonal.
Sakura passou o resto do verão antes das aulas começarem em meio aos livros, nada diferente do que fazia, mas daquelas vez não lia livros de histórias, literatura ou ciências, dos não mágicos e sim livros do mundo bruxo, como “História da Magia Moderna”, "Ascensão e queda das artes das trevas” e “Grandes acontecimentos mágicos do século XX”.
Vendo algumas crianças cumprimentando umas as outras também se lembrou de quando conheceu Naruto, seu primeiro amigo no mundo bruxo…
Sakura acordou às cinco da manhã, tamanha a excitação. O grande dia havia finalmente chegado. Se levantou e vestiu roupas quentes e confortáveis, não poderia entrar na estação de trem com o uniforme de bruxo da escola já que chamaria atenção, então mudaria no trem.
Verificou, pela milionésima vez, a lista de Hogwarts para se certificar de que não havia esquecido de nada. E, com tudo verificado, continuou lendo um dos livros que havia comprado esperando os pais acordarem. Duas horas mais tarde, as malas foram colocadas no carro e Sakura se despediu educadamente dos empregados.
A história, para todos, é de que iria para um colégio interno. O pai não gostou muito, colégio interno fazia parecer que a estavam castigando, mas que escolha tinham? Dizer que a filha ia para uma escola de bruxos?
Chegaram à estação de King’s Cross às 10:30. A mãe pegou um carrinho enquanto o pai tirava as malas do carro e, juntos, o empurraram até a estação. Sakura olhou o bilhete novamente onde dizia “Plataforma nove e meia”. Os pais tinham razão, não havia uma plataforma como aquela. Havia um grande número nove no alto de uma plataforma e um grande número dez no alto da plataforma seguinte, mas no meio, não havia nada.
— E agora? – a mãe perguntou tentando segurar o temor.
O pai até havia tentado perguntar a um guarda, mas Sakura o puxou e apontou para um casal: a mulher era ruiva e o homem loiro, duas crianças mais ou menos na idade de Sakura iam atrás deles, pareciam mini versões do casal.
Mas o que havia chamado a atenção dela para eles não tinha sido a aparência, mas sim uma fala da menina ruiva com o menino loiro:
— … A Sonserina…
— … A Grifinória… – o menino retorquiu.
Sakura os observou com cuidado e, vendo por onde sumiram, pegou as mãos dos pais, um de cada lado e, calmamente, se dirigiu ao mesmo local. Eles empurravam o carrinho cada um com a mão que não segurava a da filha e a menina sentiu eles tencionarem ao perceberem a direção em que iam.
— Querida? Vamos bater – a mãe avisou.
— Não vão não – Sakura respondeu com segurança e apertou as mãos deles, tentando acalmá-los.
Sentiu os pais prenderem a respiração com medo da colisão, mas ela não aconteceu. Uma locomotiva vermelha a vapor estava parada na plataforma apinhada de gente. Um letreiro no alto informava “Expresso de Hogwarts, 11 horas”.
Sakura sorriu para os pais quando se virou para trás e viu um arco de ferro forjado com uma placa escrita “Plataforma nove e meia”.
A fumaça da locomotiva se dispersava sobre as cabeças das pessoas que conversavam, enquanto gatos de todas as cores andavam por entre as pernas delas, corujas piavam umas com as outras e barulhos de malas pesadas sendo arrastadas eram ouvidas.
Os primeiros vagões já estavam bem cheios de estudantes, uns debruçados às janelas conversando com as famílias, outros brigando por causa dos lugares. Sakura empurrou o carrinho pela plataforma com os pais ao encalço procurando um lugar vago, até achar uma cabine no final do trem. O pai é quem carregou as malas para dentro.
Só quando ouviu o apito é que a ficha caiu: Sakura nunca havia ficado longe dos pais, nunca tivera amigos para fazer festas do pijama ou coisas do gênero e agora… ia para um escola pela primeira vez na vida. Estava animada, é claro, mas também estava com tanto medo. Mas prometeu a si mesma que não ia ter medo de nada.
Se despediu dos pais meio risonha e meio chorosa, com uma abraço e um beijo em cada um.
— Ah, minha menina – a mãe também chorou.
— Vai dar tudo certo – o pai se manteve forte pelas duas mulheres de sua vida. – Mande notícias – ele pediu, abraçando as duas –, aquela bruxa do ministério me ensinou como mandar cartas pelas corujas.
— Sim – Sakura acenou.
Sakura acenou uma última vez pela janela e sorriu para os pais antes do trem tomar partida. As casas e os prédios passaram como um relâmpago pela janela. A menina de cabelos rosa sentiu uma grande excitação. Iria para uma escola de bruxos! Ainda custava a acreditar mesmo lendo todos os livros que comprara nas últimas duas semanas.
A porta da cabine se abriu e um menino loiro na idade dela, talvez um pouco menor em altura, entrou. Era o mesmo da plataforma com a menina ruiva e o casal.
— Tem alguém sentado aqui? – ele perguntou, apontando para o assento de frente para ela. – O resto do trem está cheio e minha irmã me proibiu de ficar atrás dela, como se eu precisasse dela, ela se acha – ele revirou os olhos e olhou de volta para Sakura.
Ela respondeu que não com um aceno de cabeça e o menino pegou as malas no corredor, arrastando para dentro da cabine e se sentou.
— Eu sou o Naruto – ele se apresentou.
— Sou Sakura – ela sorriu para ele e estendeu a mão em cumprimento. – Todos na sua família são bruxos? – perguntou curiosa se lembrando do casal. – Eu vi você na Estação antes de entrar pelo muro.
— Ah sim, minha mãe e o meu pai são grandes bruxos da Grifinória – ele disse orgulhoso –, mas minha irmã – fez cara de nojo – é da Sonserina, dá pra acreditar?
— Acho que eu vou para a Corvinal – Sakura respondeu contente por ter lido sobre as casas de Hogwarts em um dos livros –, mas acho que a Grifinória pode ser um bom lugar para estar também.
— Eu quero ir para a Grifinória, como os meus pais – ele estufou o peito. – E seus pais, de que casa eles são?
— Meus pais não são bruxos – Sakura respondeu.
— Oh – o menino soltou surpreso. – Não tem ninguém na sua família que é bruxo?
— Bem, não – se lembrou da tia que o pai comentava às vezes. – Mas sou a primeira a ir para Hogwarts, foi uma surpresa enorme receber a carta.
E contou para ele sobre tudo o que havia acontecido para levar ela até ali...
Sakura teve muita sorte por Naruto ter sido o primeiro bruxo a conhecer e por terem se tornado amigos tão rapidamente, se fosse outra pessoa a situação podia ter sido bem diferente e talvez até desastrosa.
Quando Sakura e Kiba voltaram para a cabine continuaram conversando com os amigos o resto da viagem, sobre o quadribol, sobre as férias, sobre o que seria o tal evento que exigia Vestes a Rigor na lista de materiais daquele ano…
Sempre ficava nostálgica no primeiro dia de volta a Hogwarts…
Eles começaram a se preparar, as meninas ficaram na cabine enquanto que os meninos foram para a outra ao lado para vestirem os uniformes da escola, como Sakura já tinha se trocado por conta da monitoria, ficou olhando pela janela do corredor. Estava escurecendo e viu as familiares montanhas e matas sob o céu arroxeado enquanto o Expresso de Hogwarts começou a reduzir a velocidade.
Uma voz ecoou pelo trem:
— Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por favor, deixem a bagagem no trem, ela será levada para a escola.
O trem foi diminuindo mais e mais a velocidade até finalmente parar na escuridão da estação de Hogsmeade.
Continua…
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