Cálice de Fogo
17 Entre Paixões, Profecias e Detenções
As tardes dos dias seguintes transcorreram bem, às vezes Sakura e Sasuke ficavam conversando embaixo de uma árvore à beira do lago, o qual mantinha os dois muito bem escondidos, outras vezes o campeão da Durmstrang acompanhava a aluna da grifinória nos estudos na biblioteca.
– Não vai achar chato? – a garota de cabelos rosa perguntou meio cética quando disse a ele na primeira vez que precisava estudar e ele, mesmo assim, quis estar ao lado dela.
– Ne – ele negou com cabeça, a língua em búlgaro. – Eu precisar estudar também.
Sakura sabia que os alunos que estavam no torneio tribruxo, e que eram do último ano, estavam livres das provas finais que seriam aplicadas a maioria dos estudantes. O torneio por si só já era uma prova. E provavelmente o torneio seria levado em questão no sétimo ano do melhor amigo, já que ele ainda estava no sexto.
Então a aluna da Grifinória escolhia uma das mesas mais afastada e longe da vista da entrada da biblioteca, pegava seus livros, pergaminhos e penas… e estudava, lia, fazia suas lições, muitas vezes até se esquecia que Sasuke estava sentado em frente a ela ou ao seu lado.
Ela não percebia, mas o garoto apoiava o rosto nos braços e ficava imóvel por horas só observando-a. Ele gostava de vê-la concentrada: às vezes a testa franzia, com alguma dúvida, em outras vezes ela mordia o lábio, pensativa, ou até mesmo levava a pena em algumas áreas do rosto ou do pescoço, seja para coçar ou só porque era um tique que ele achava charmoso. E a quanto ela se esquecer da presença dele… Na realidade, o jogador gostava e muito. Ela piscava surpresa quando se dava conta de que tinha o esquecido e ele sorria para ela, fazendo a mesma corar de vergonha de um jeito tão adorável… Sasuke a achava fascinante.
Ela era bonita, é claro, mas era mais que isso. Ela era inteligente também. Muito esperta. Agradável de conversar e de se conviver de um modo geral. Ele nunca havia sentido isso antes. Tudo nela o atraía de uma forma que ele mesmo precisava apertar as mãos uma na outra ou até mesmo morder o lábio para se impedir de cometer uma loucura antes do tempo…
Mas foi Sakura quem tomou a iniciativa. Com um pequeno incentivo das amigas.
– Garota – disse Tenten. – O jeito que ele olha pra você quando você não tá vendo – ela se abanou com uma das mãos para provocar a amiga.
– Que jeito? – Sakura perguntou sem entender.
– Fala sério, Sakura – Temari deu bronca revirando os olhos.
– Aquele garoto tá completamente apaixonado por você – disse Karui, apontando o óbvio.
– Mas ele nunca tentou nada – Sakura murmurou.
– Então talvez você é quem devesse tentar – disse Temari. – Foi o mesmo conselho que você me deu quanto ao Shikamaru, lembra?
Sakura se lembrava sim de ter dado o conselho para a amiga, mas temia o que podia acontecer…
. . .
Os encontros com Sasuke acabaram por se tornar motivos para deixar Sakura feliz e contente, um tanto leve e despreocupada. Por isso, em uma das aulas do professor Orochimaru, foi quando aconteceu o “desastre”, palavra dada por Sakura, enquanto que seus amigos e a maioria dos alunos discordam. Eles ficavam admirados toda vez que a habilidade de previsão dela se manifestava, ainda mais quando era certeiro. Muitos até apostavam para saber quando as previsões dela aconteceriam.
E, se não tivesse acontecido o “desastre”…
Bom, vamos começar pelo início.
O professor Orochimaru estava fazendo perguntas aos alunos, o intuito era dar pontos para aqueles que acertassem, mas…
– Muito bem, senhor No Sabaku, 10 pontos para a Sonserina.
Toda vez que ele fazia uma pergunta e ignorava Sakura, era motivo para os alunos da Grifinória ficarem cada vez mais furiosos com o professor.
Ele havia acabado de fazer mais uma pergunta, mas somente Sakura ergueu a mão.
– Bem, ninguém? – insistiu o professor ignorando a aluna.
– A Sakura não é ninguém! – Naruto exclamou irritado.
– Menos 10 pontos para a Grifinória! – disse o professor em regozijo. – Eu não tolero desrespeito em minha aula.
– É o senhor quem está sendo desrespeitoso aqui! – exclamou Sakura, sem se conter. – Tome cuidado professor ou ao cair da luz da lua, uma fuinha para o senhor se revelará! – Imediatamente Sakura arregalou os olhos e colocou as mãos na boca se dando conta do que tinha acabado de dizer: tinha jogado uma praga no diretor da Sonserina!
Todos na sala ficaram em silêncio.
– Você… a senhorita… – o professor se corrigiu, as faces vermelhas em fúria. – Acabou de me amaldiçoar?
Sakura ainda tinha as mão na boca, o olhar em pânico.
– Menos 50 pontos para a Grifinória – disse o professor perante a falta de resposta da aluna, os outros alunos da Grifinória se manifestaram indignados. – E ficará de detenção nos próximos sábados, alguém vai querer acompanhar a senhorita Haruno?
Sakura tirou uma das mãos da boca e esticou o braço para trás, impedindo que o amigo e os colegas pudessem se manifestar. Não iria dar aquele gostinho para o professor.
Somente isso fez com que todos ficassem em silêncio até o final da aula, mas, ao final do dia, todos na escola ficaram sabendo da “maldição”.
Por onde Sakura andava havia risos, buchichos, joinhas de aprovação por solidários e olhares de desprezo por outros alunos.
Sakura costumava não ligar para fofocas sobre si, mas era a primeira vez que soltava uma maldição, se aquilo de fato se realizasse, o que seria dela? Estava extremamente preocupada de como isso iria afetar seu futuro na comunidade mágica.
Por isso irrompeu pela sala da única que podia lhe ajudar no momento:
– Por favor, professora Tsunade – Sakura implorou. – Não pode deixar o professor Orochimaru interferir nas minhas aulas de aparatação.
A diretora da Grifinória pressionou entre os olhos por baixo dos óculos, respirando fundo.
– Sente-se – ela apontou a cadeira em frente a mesa e Sakura o fez, deixando os braços caírem derrotados. – Ele não vai – prometeu. – Mas quer me explicar o que foi que aconteceu?
Sakura se recostou contra a cadeira, os ombros arriados.
– Eu não sei – admitiu. – Eu só fiquei com raiva e… aquilo saiu.
– É – a bruxa mais velha revirou os olhos e cruzou os braços. – O Orochimaru tem dessas, mas nunca a ponto de alguém amaldiçoar ele.
– Não sei não – disse Sakura cética. – Eu duvido que eu seja a primeira aluna a jogar uma praga no professor.
– É, mas é a primeira que pode conseguir – apontou a bruxa mais velha. – Uma fuinha? Quer dizer que uma fuinha vai aparecer para o Orochimaru? E então? O que exatamente revelará?
– Eu não sei – a aluna respondeu em tom de derrota.
A professora suspirou.
– Eu achei que… isso – apontou para a aluna –, tinha passado.
– Nunca passa – suspirou Sakura. – Só… maldição? Isso é novo! Se isso acontecer de fato… O que vai ser de mim? Do meu futuro?
– Calma – a bruxa mais velha pediu –, primeiro vamos ver o que acontece nos próximos dias.
– Eu não posso me irritar com as pessoas e simplesmente amaldiçoar elas – Sakura explanou suas preocupações. – Ninguém vai querer trabalhar comigo.
– Entendo que pode ser difícil para você, mas eu vou te alertar: seria bom reconsiderar sua escolha de não estudar adivinhação, essa é uma área em que infelizmente eu não posso te ajudar, mas a professora Anko pode. Posso falar com ela, tenho certeza de que ela vai te encaixar na turma de agora facilmente, sabe como ela é interessada nas suas… habilidades.
Sakura olhou para as mãos em seu colo, se sentindo indefesa. Tinha desistido da adivinhação porque lhe assustava e muito. O terceiro ano não havia sido fácil de superar.
– Pense nisso –a professora disse gentilmente. – Só mais uma coisa para você saber: alguns dos professores estão apostando para ver o que vai acontecer de fato. Muitos, inclusive, querem ver a tal fuinha.
– O que? – Sakura ficou incrédula.
– Pois é – Tsunade riu. – O Orochimaru nunca foi de ter muitos fãs – apontou para a porta. – Pode ir, está liberada, sua detenção vai ser tanto na sala de arquivos do Iruka quanto na sala do Orochimaru depois do almoço até às cinco da tarde, isso dá em torno de três horas aos sábados para cumprimento do castigo. Passarei lá de vez em quando para ver se está tudo bem, foi tudo o que consegui para você.
– Muito obrigada professora – agradeceu e foi em direção a porta, pensando que perderia os passeios em Hogsmeade, mas que era melhor do que quer que o professor Orochimaru poderia planejar. E, é claro, suas aulas de aparatação estavam garantidas!
Só a aula de adivinhação que lhe preocupava.
Sakura suspirou e parou na porta antes de sair.
– Pode falar com a professora Anko – decidiu. – Vou voltar para as aulas de adivinhação.
. . .
A neve em torno da escola derreteu com a chegada de fevereiro e foi substituída por uma umidade fria e monótona. Nuvens cinza arroxeadas pairavam à baixa altitude sobre o castelo, e uma chuva gelada contínua deixava os gramados escorregadios e lamacentos. O resultado disso foi que a primeira aula de Aparatação do sexto ano, programada para a manhã de sábado, para os alunos não faltarem às aulas normais, foi realizada no Salão Principal e não ao ar livre.
– Ainda não acredito que você vai cumprir detenção – disse Temari balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto desciam as escadas.
– Bem, quem nunca, não? – Naruto fez graça.
Desde que havia voltado a conversar com Hinata, ele andava mais alegrinho.
– E como anda a sua pesquisa sobre o ovo? – Sakura perguntou inocentemente.
– Tudo ótimo – o garoto desconversou.
Sakura estreitou os olhos sabendo que o amigo estava mentindo, mas resolveu não dizer nada, só o ajudaria se ele pedisse, a tarefa era dele, afinal de contas.
Quando Sakura, Naruto, Temari e mais alguns outros alunos da Grifinória chegaram ao Salão, descobriram que as mesas tinham desaparecido. A chuva chicoteava as janelas altas e o teto encantado girava sombriamente no alto, quando eles se reuniram diante dos professores Tsunade, Kaguya, Obito e Orochimaru, – os diretores das quatro Casas de Hogwarts –, e uma bruxa que Sakura acreditou ser a instrutora de Aparatação do Ministério.
– Bom dia – disse a bruxa do Ministério, quando todos os alunos haviam chegado e os diretores das Casas pediram silêncio. – Meu nome é Akita Inuzuka e serei o sua instrutora ministerial de Aparatação nas próximas doze semanas.
Os amigos se viraram surpresos para Kiba, reconhecendo o sobrenome, ao que o garoto murmurou “é minha tia”. Ele parecia nervoso.
– Espero poder prepará-los para o teste de Aparatação – a bruxa continuou falando –, neste prazo...
– No Sabaku, sossegue e preste atenção! – vociferou a professora Tsunade.
Todos se viraram. O aluno da Sonserina ficou envergonhado por ter sido chamado atenção e ficou enfurecido ao se afastar de Neji, com quem, pelo jeito, estava discutindo aos cochichos.
Naruto olhou de relance para Orochimaru, que também parecia irritado, embora tivesse fortes suspeitas de que fosse menos pela grosseria de Gaara do que pelo fato da professora Tsunade ter repreendido alguém de sua Casa.
– ... prazo em que muitos de vocês talvez estejam prontos para fazer o teste – continuou a bruxa do ministério, como se não tivesse havido interrupção. – Como vocês talvez saibam, normalmente é impossível aparatar ou desaparatar nos terrenos de Hogwarts. O diretor suspendeu este encantamento, apenas no Salão Principal, por uma hora, para que vocês possam praticar.
Alguns alunos murmuraram entre si.
– Aproveito para enfatizar que não poderão aparatar fora das paredes deste Salão e que seria imprudente tentar. Agora, gostaria que cada um se posicionasse deixando um metro e meio de espaço livre à frente.
Houve um grande empurra empurra durante o qual as pessoas se separaram, colidiram e mandaram os colegas darem distância. Os diretores das Casas andavam entre os alunos, enfileirando-os em posição e interrompendo discussões.
– Obrigado – disse Akita. – Agora então...
Ela acenou a varinha. Instantaneamente apareceram aros antiquados de madeira no chão em frente a cada estudante.
– É importante lembrar dos três Ds quando aparatamos: Destinação, Determinação e Deliberação! Primeiro: concentrem a mente na destinação desejada – informou a bruxa do ministério. – No caso, o interior do seu aro. Agora, façam o favor de se concentrar nesta destinação.
Os alunos olharam para os lados furtivamente, para verificar se todos estavam olhando para o próprio aro, então obedeceram depressa. Naruto fixou o espaço circular no chão empoeirado circunscrito pelo aro e fez força para não pensar em mais nada.
– Segundo – disse a bruxa andando entre eles –, focalizem a sua determinação de ocupar o espaço visualizado! Deixe este desejo fluir da mente para todas as partículas do seu corpo!
Naruto olhou rapidamente ao redor. Um pouco à esquerda, Kiba contemplava o aro com tanto empenho que seu rosto estava cor de rosa; parecia que estava tentando botar um ovo do tamanho de uma goles. Naruto sufocou uma risada e voltou depressa o olhar para o próprio arco.
– Três – continuou a bruxa –, e somente quando eu der a ordem... girem o corpo, sentindo-o penetrar o vácuo, mexendo-se com deliberação! Quando eu mandar… um...
Naruto tornou a olhar para os lados; muita gente estava decididamente assustada com a ordem de aparatar tão depressa.
– ... dois...
O garoto tentou fixar seu pensamento novamente no aro; já esquecera o que significavam os três Ds.
– ... TRÊS!
Naruto girou o corpo, desequilibrou-se e quase caiu. Não foi o único. O salão inteiro de repente se encheu de pessoas que cambaleavam; Chouji estatelou-se de costas; Kiba, por outro lado, atravessou o aro com uma espécie de pirueta e pareceu momentaneamente impressionado até ver Kankuro rindo dele às gargalhadas.
– Não faz mal, não faz mal – amenizou Akita, que não parecia ter esperado nada melhor. – Acertem os seus aros, por favor, e voltem à posição inicial...
A segunda tentativa não foi melhor do que a primeira. A terceira foi igualmente ruim. Somente na quarta aconteceu algo excitante. Ouviu-se um terrível guincho de dor e todos se viraram, aterrorizados; viram Shion, da Sonserina, bamboleando no arco com a perna esquerda ainda parada, a um metro e meio de distância, onde começara.
Os diretores das Casas correram para a garota; houve um forte estampido e uma baforada de fumaça púrpura que, ao se dissolver, revelou Shion soluçante, reintegrada à sua perna, mas horrorizada.
– Estrunchamento ou separação casual de partes do corpo – explicou Akita, sem demonstrar emoção –, ocorre quando a mente não tem determinação suficiente. É preciso concentrar continuamente em sua destinação e se mexer sem pressa, mas com deliberação... assim.
Akita deu um passo à frente, girou o corpo com elegância mantendo os braços estendidos e sumiu em um rodopio de vestes, reaparecendo no fundo do Salão.
– Lembrem-se dos três Ds – disse a instrutora – e tentem outra vez... um… dois... três...
Mas uma hora depois, o Estrunchamento de Shion ainda era a coisa mais interessante que tinha acontecido. Na última tentativa do dia, Sakura ter sido a única aluna a conseguir aparatar da maneira esperada não era exatamente novidade. Ela sempre se sobressaía
– Muito bem senhorita – Akita a elogiou e não pareceu desanimar quanto aos outros alunos. Abotoando a capa ao pescoço, disse com simplicidade: – Até o próximo sábado, e não se esqueçam: destinação, determinação e deliberação.
E, dizendo isso, acenou a varinha fazendo os aros desaparecerem e saiu do Salão acompanhado pela professora Tsunade. Imediatamente as pessoas começaram a conversar e a se deslocar em direção ao Saguão de Entrada.
– Você está bem? – Naruto perguntou a amiga, notando que ela parecia enjoada.
– Não sei – ela respirava com dificuldade. – Acho que não fiz da maneira correta, meu estômago está esquisito.
– É melhor chamar a professora Tsunade – disse Tenten.
Naruto tentou levar a amiga até um dos bancos, mas Sakura saiu correndo salão afora. Precisava de ar. Parou do lado de fora do saguão e fechou os olhos, se concentrando em respirar. Um, dois…
– Sakurra? – a voz de Sasuke surgiu preocupada.
Sakura abriu os olhos surpresa.
– Ela não está… – Naruto começou a responder por ela, mas não deu tempo, Sakura se curvou e colocou tudo o que estava no estômago para fora. – Muito bem – terminou de dizer, a voz pálida, igualmente como Sakura se sentia.
Ela tinha acabado de vomitar na frente de Sasuke Uchiha.
. . .
– Ah, senhorita Haruno – disse o professor Orochimaru, quando Sakura bateu à porta mais tarde e entrou no escritório desagradavelmente bagunçado que o professor mantinha; estava mal iluminado como sempre, e os mesmos objetos viscosos e mortos flutuavam em poções coloridas nas paredes. Iruka estava lá, e, mau sinal, havia muitas caixas cobertas de teias de aranha empilhadas sobre a mesa à que Sakura deveria sentar; emanavam uma aura de trabalho monótono, árduo e inútil.
– O sr. Iruka estava procurando alguém para limpar esses arquivos antigos – disse o diretor da Sonserina brandamente. – São os registros de outros transgressores de Hogwarts e os castigos que receberam. Onde a tinta desbotou ou os cartões foram danificados por ratos, gostaríamos que você copiasse os crimes e castigos de novo e, depois de verificar se estão em ordem alfabética, tornasse a guardá-los nas caixas. Ah, é claro, não deverá usar magia.
Iruka olhou para ela como quem pede desculpas. Só aquilo bastou para a aluna da Grifinória saber que a punição tinha vindo inteiramente do diretor da Sonserina.
Sakura quase resmungou, era óbvio que aquele trabalho todo precisaria de sábados e mais sábados para ser realizado, ainda mais sem magia.
– Certo, professor – respondeu a aluna da Grifinória, segurando seu desgosto.
– Achei que podia começar – disse Orochimaru, com um sorriso malicioso nos lábios – com as caixas que vão de mil e doze a mil e cinquenta e seis. Encontrará aí alguns nomes conhecidos, o que deve emprestar interesse à sua tarefa.
O professor retirou um cartão de uma das caixas no alto da pilha com um gesto teatral e leu:
– “Minato Namizake e Kakashi Hatake. Detidos pelo transporte ilegal de maquinário não mágico dentro dos limites da escola. A senhorita Karura acusa que o maquinário em questão lhe machucou a cabeça e, apesar de passar bem, exige retratação. Detenção dupla.” – Orochimaru deu um sorriso desdenhoso.
Sakura arqueou a sobrancelha sem entender onde o professor queria chegar, mas mordeu a língua para não dar a satisfação de retornar a palavra ao professor, sentou-se à frente das caixas e puxou uma para perto.
– E devo alertá-la para tomar o cuidado de não vomitar ou terá que refazer o trabalho do começo – disse venenosamente.
Sakura não estava acreditando que aquele senhor, que deveria ensinar e ter muito boa educação para isso, estava lhe provocando. Então não conseguiu controlar sua língua:
– O senhor já viu a tal fuinha, professor? Meu dom é instável, como bem deve saber. Eu voltei a fazer as aulas de Adivinhação com a professora Anko e ela me pediu para ficar de olho no senhor, sabe? É importante para meus estudos. Me deixe saber, ira me ajudar muito.
O professor fechou a cara e apenas disse:
– Comece!
Era, como Naruto havia previsto, um trabalho monótono e inútil, o que fora visivelmente planejado por Orochimaru. Sakura detestava a sensação de perda de tempo, os caminhos da magia poderiam lhe ser gentis e mostrar alguma utilidade naquilo tudo, mas não contava muito com isso…
A garota de cabelos rosa olhou várias vezes para o grande relógio que tiquetaqueava na parede. Parecia trabalhar com a metade da velocidade de um relógio normal; será que o professor o teria enfeitiçado para andar bem devagar? Não podia estar ali apenas há meia hora... uma hora... uma hora e meia...
Quando faltava meia hora para terminar, o professor pediu licença e Iruka veio tomar o lugar dele, Sakura finalmente encontrou algo útil e interessante.
– “Os alunos Tsunade e Jiraya da Casa da Grifinória – Sakura murmurou – e os alunos Daniel e Orochimaru da Casa da Sonserina estão detidos e suspensos das atividades de quadribol devidos a conflitos no campo até segunda ordem. Detenção dupla, até que se reconcilie.”
Havia uma foto dos quatro, eles usavam seus uniformes de quadribol, de suas respectivas casas e pareciam… amigos?
Sakura sabia que a professora Tsunade e o professor Jiraya eram amigos, também não duvidava da amizade entre o professor Orochimaru e o diretor da Durmstrang, mas os quatro juntos? Eles eram bem jovens na foto, obviamente de antes de Daniel ter se mudado.
– O que será que aconteceu? – murmurou. Ela olhou bem para a foto, reparando nos detalhes… A data da foto e data da detenção eram diferentes… Seus instintos diziam: drama adolescente. Sakura começou a sorrir sutilmente. – Será…?
– Sinto muito Sakura – disse o zelador, a interrompendo –, se soubesse que a detenção era para você, teria trazido menos caixas.
– Tudo bem – ela respondeu, colocando a foto onde havia encontrado. Não era culpa do zelador, afinal de contas. – Mas se souber de alguma fuinha, eu ficarei feliz se me informar.
– Pode deixar – ele sorriu cúmplice.
O professor retornou e Sakura terminou sua detenção.
– Até sábado que vem, senhorita Haruno – disse o diretor com desgosto.
A aluna da Grifinória somente acenou com a cabeça. Queria evitar o professor até onde fosse possível. Mas tinha outra pessoa que ela também queria evitar, mas este seria impossível.
Sasuke a esperava no final do corredor.
Apostava que Naruto é quem tinha aberto o bico e contado de seu desastre na aula de história com o professor Orochimaru. Suspirou resignada, sabendo que estava sendo injusta. Qualquer um poderia ter contado, a escola toda sabia. Inclusive sobre ter vomitado mais cedo, as versões da história até variavam, a pior era a de que tinha vomitado na cara do jogador.
Sakura estava morrendo de vergonha.
Depois de vomitar na frente dele, saiu correndo em direção a enfermaria e só saiu de lá para cumprir a detenção. Naruto tinha ficado do lado dela e até o almoço tinha levado.
– Tudo bem? – Sasuke perguntou.
Sakura acenou, colocando os braços em volta de si como forma de proteção sem conseguir olhar nos olhos dele.
– Não olharr parra mim ou falarr comigo? – estremeceu, aquele sotaque era difícil de ignorar.
– Tô com vergonha – ela soltou um muxoxo.
Sasuke segurou a mão dela.
– Não precisa sentir vergonha comigo – a voz estava límpida, o feitiço de línguas em ação. – Vamos para um lugar mais tranquilo?
Sakura acenou com a cabeça e o seguiu, ambos de mãos dadas.
Mas ela percebia o riso no olhar dos alunos quando passavam por eles.
– Ignora – Sasuke pediu vendo como ela parecia incomodada.
Era impossível.
Sakura sempre foi a aluna perfeita e agora… Tinha falhado. Sua cabeça estava uma confusão. Ainda não tinha conversado com a professora Tsunade, mas sabia com toda a certeza de que ela iria colocar a culpa em seu relacionamento com Sasuke.
– Me fala o que está pensando – ele pediu quando se refugiaram sob uma árvore diante do lago. Sasuke sentado de um lado e ela do outro, ombro a ombro.
Sakura negou com a cabeça.
Sasuke passou um dos braços sobre os ombros dela, a abraçando, e ela deixou.
– Ouvi dizer que você amaldiçoou seu professor, é um dom? – ele perguntou leve.
– Não! – Sakura negou veemente. – Não é um dom.
– Mas você pressente coisas que ninguém mais consegue.
Sakura anuiu a contragosto.
– Acha isso uma coisa ruim?
– Sim.
– Por que? – ele perguntou suavemente.
– Porque isso me faz diferente – ela respondeu. – E… eu tô tão cansada de ser diferente. Primeiro com a minha família e depois aqui, eu achei que quando viesse para Hogwarts eu finalmente fosse me encaixar e aí tem… isso – olhou para as mãos sem saber o que fazer e acabou deixando uma lágrima cair, depois outra e mais outra.
Sasuke a puxou para o colo e Sakura chorou em seus braços, aninhada em seu peito enquanto ele acariciava suas costas, se era tudo o que ele podia fazer por ela, era o que ele faria.
– Todo mundo é diferente – ele começou a dizer, o feitiço de línguas ainda ativado, pois não queria deixar dúvidas quanto ao que sentia –, mas saiba que, para mim, você é única, é linda por fora, mas é ainda mais preciosa por dentro.
Sakura se derreteu e não resistiu, o puxou para um beijo.
Mas…
Sasuke desviou no último segundo.
A garota de cabelos rosa ficou paralisada e depois tentou se afastar.
– Não – Sasuke murmurou contra o ouvido dela, a acalmando. – Eu não quero que o nosso primeiro beijo seja porque você está fragilizada.
– Mas…
– Eu esperrar – o sotaque dele estava de volta.
Sakura relaxou, se aninhando de volta nos braços dele, ouvindo as batidas do coração.
Sasuke apoiou o rosto no cabelo dela, aspirando o cheiro.
– Então você quer me beijar? – ela perguntou fazendo graça.
– Não serr óbvio?
– E beijo na bochecha? – ela perguntou apenas para provocar.
Mas sentiu as mãos dele erguer seu rosto e então inclinar sua cabeça, Sakura sentiu o rosto corar quando ele beijou sua bochecha, se sentiu como uma representação física do quadro “O Beijo” de Gustavo Klimt, o que a lembrou de…
– Eu ainda tenho que estudar hoje – murmurou.
– Eu te acompanharr – ele murmurou de volta, a bochecha contra a dela.
– Tá bom – ela sussurrou.
Enquanto voltavam para a escola, os alunos olhavam sussurravam e riam, mas com Sasuke ao seu lado, Sakura não se importou. Não precisava ser perfeita, sabia disso, só precisava ser ela mesma como sempre e dar o seu melhor.
. . .
– Então você precisou do jogador bonitão pra entender o que a gente vem te falando há seis anos? – Temari tinha uma careta no rosto. – Fala sério!
Alguns dias haviam se passado desde então… E Sakura já tinha começado a se arrepender ao falar o que estava sentindo para os amigos.
– Deixa ela – disse Naruto, Sakura quase agradeceu, mas ele acrescentou: – Ela está amando – fez graça. Sakura retirou o agradecimento mental que havia feito estreitando os olhos.
Ela havia explicado o que tinha conversado com a professora Tsunade, sobre voltar as aulas de adivinhação, sobre como Sasuke havia tirado um peso dela ao ser tão compreensivo e deixado ela chorar em seus braços, não tinha dado todos os detalhes, é claro – muito menos a parte sobre chorar –, mas era o suficiente para os amigos caçoarem dela.
– Não conto mais nada pra vocês – a garota de cabelos rosa resmungou se afastando.
Os amigos a puxaram de volta.
– Tudo bem, paramos – disse Temari.
– Vai mesmo voltar as aulas de adivinhação? – Naruto perguntou ainda em dúvida. – Você mesma é quem diz que o terceiro ano foi uma loucura.
– Sim, mas – ela deu de ombros. – Essa coisa de pressentir, tá ficando pior e… eu preciso aprender a lidar, olha o caso com o professor Orochimaru, já é ruim o bastante.
– Nem aconteceu nada – apontou Temari.
– Ainda – acrescentou Naruto.
– Pois é! Eu tenho certeza de que ainda vou encontrar muita gente detestável nessa vida e eu não posso amaldiçoar todo mundo que eu não gostar.
– Mas seria legal – disse Temari.
– Muito legal – concordou Naruto.
– Não dá pra você amaldiçoar meu irmão? – Temari pediu.
– Seria engraçado ver a cara do Gaara quando você amaldiçoasse ele – Naruto se animou.
– Vocês não prestam! – reclamou Sakura.
Aquele sábado seria sua terceira aula de aparatação e sua terceira detenção, de mais tarefa inútil e infrutífera quando de fato aconteceu o resultado do “desastre”.
Era final de tarde, tanto o zelador Iruka quanto o professor Orochimaru se ausentaram, Sakura estava terminando sua tarefa chata quando ouviu um barulho que a sobressaltou. Parecia guinchos de alguém que se engasgava, então a garota correu porta afora, indo parar no espaço pessoal da escola onde guardavam os ingredientes para as poções quando Sakura viu uma forma esquisita se contorcendo.
– Professor Orochimaru? – a aluna da Grifinória perguntou incerta, reconhecendo as roupas que o bruxo usava mais cedo.
A forma se virou para ela, como se reconhecesse o nome. Havia pânico no olhar dele e Sakura viu o formato da Lua Cheia as costas dele enquanto o professor se transformava… em uma fuinha.
Sakura levou as mãos à boca aberta, os olhos arregalados.
Um barulho às suas costas a despertou. Era o zelador. Ela viu a bolsa do professor ao lado das roupas e esvaziou o conteúdo.
– Entra aqui – pediu, torcendo para que ele a entendesse.
A fuinha olhou ultrajado para ela. Ótimo, então ele a entendia.
– Quer que alguém te veja assim? – se exasperou. – Vou te levar para o diretor Hiruzen!
O diretor saberia o que fazer. O professor fuinha obedeceu.
– Senhorita Haruno? – a voz de Iruka chamou. Ela se levantou, se virando em direção a ele, segurando a bolsa atrás dela
– Oi, senhor Iruka, o professor Orochimaru já me liberou, então vou indo, até mais – ela se despediu rapidamente.
Esperava que não tivesse dado muito na cara.
– Terminarr? – Sasuke a esperava no final do corredor, como nos últimos dois sábados.
– Ainda não – ela disse. – Te vejo depois? – e andou apressada, deixando o garoto para trás.
O professor fuinha parecia se revirar na bolsa.
– Quer se acalmar? – ela pediu. – Vai chamar atenção assim.
– Sakura? – a voz da professora Tsunade a chamou.
– Sim? – a garota se virou para a bruxa mais velha, o olhar dela estava na bolsa do professor.
– O que você está fazendo com a bolsa do professor Orochimaru?
– Eu preciso ver o diretor Hiruzen – Sakura respondeu, sabendo que não escaparia do escrutínio da bruxa mais velha. – É urgente – acrescentou.
– Eu te levo até ele.
Não demorou para que chegassem até a sala do diretor e Sakura ser posta lá dentro com muitos dos professores presentes. Parecia que todos aguardavam ansiosamente por aquele momento.
– Quer explicar por que está com a bolsa de Orochimaru, querida? – o diretor indagou gentilmente.
O professor fuinha saltou com habilidade da bolsa. Mesmo na forma do bicho, tinha a careta familiar no rosto e o nariz em pé.
– Vejo que finalmente conseguiu completar a transformação, Orochimaru – disse o diretor. Ele jogava xadrez bruxo com Jiraya. Kakashi e Guy riam em um canto, não tão discretos quanto alguns dos outros professores.
– Dá para desfazer? – Sakura perguntou, engolindo a seco. Tinha transformado o professor? Era para sempre?
– Logo ele volta ao normal, querida, não se preocupe – disse o diretor, dando xeque em seu oponente. – O professor Orochimaru está em processo de se tornar um animago, sabe, se bem que uma fuinha não era bem o que ele pretendia – pôs uma das mãos no queixo, pensativo.
– Combina com ele – disse Tsunade, sorrindo satisfeita enquanto cruzava os braços.
– Mas devo dizer que estou impressionado com suas habilidades, senhorita Haruno, conseguiu prever exatamente no que ele iria se transformar e isso, é claro, o chateou – disse o diretor, um sorriso divertido. – A propósito: está liberada de seu castigo.
O professor Orochimaru em seu formato de fuinha guinchou como se protestasse, mas o diretor Hiruzen só acrescentou:
– Pode ir ficar com seus amigos, o jantar logo mais será servido.
– Muito obrigada, diretor – ela agradeceu e se retirou.
Sakura saiu da sala dele se sentindo muito mais leve. Então não tinha amaldiçoado o professor, só havia previsto que ele conseguiria atingir sua forma de animago!
Respirou aliviada tomando seu caminho em direção a sala comunal da Grifinória.
Continua…
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