Cá entre nós
11 Epílogo/ Zênite
Notas iniciais
Epílogo/ Zênite*
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No dia seguinte, encontrei sua mortalha no deserto, intacta pelo fato de estar protegida de animais selvagens no alto de uma formação rochosa. Aiolos andara ainda muitos quilômetros após meu ataque fatal e até escalara aquelas pedras, cuja falha — quase uma pequena caverna — o abrigara na morte. A criança não estava com ele, tampouco a armadura de Sagitário.
Tentei não olhar muito para seus restos. Eu era tão vazio de espírito, de sentimentos, de qualquer coisa quanto ele, mas ainda vivia. Um zumbi.
Contra os conselhos de Afrodite, voltei aqui. Não fui capaz de simplesmente deixá-lo à deriva. Tamanho absurdo — Aiolos, cavaleiro de ouro e um dos paladinos do Santuário, havia sido executado sem direito a um enterro. Todos os cavaleiros tinham um enterro, não importava se haviam sido bons ou maus. Entretanto, Aiolos fora o primeiro cavaleiro traidor a morrer no governo do Mestre Ares e este não havia demonstrado o menor interesse em saber que fim ele havia levado, quanto mais preocupação com seu sepultamento no nosso cemitério. Parecia improvável que essa tradição se concretizasse com o antigo cavaleiro de Sagitário. Também, os outros cavaleiros não soavam inclinados a aceitá-lo de novo em nossas terras, mesmo que para um enterro. A notícia de sua traição correu rápido pelas escadarias e já chegou aos mais baixos alojamentos.
Afrodite foi o primeiro a saber. Morando ao lado da décima terceira casa, apanhou-me no exato instante em que eu descia atordoado, após presenciar a comemoração do mestre e seus conselheiros. Pediu a mim que eu confirmasse a deserção de Aiolos e me assistiu contar o episódio todo de modo desconexo. Não havia mais aquela necessidade de me distanciar de Afrodite — não éramos mais como água e vinho, agora eu estava tão fundo na lama quanto ele. Ainda assim, não aceitei sua oferta de descansar um pouco em seu sofá, nem escutei suas recomendações enquanto eu disparava escadas abaixo.
Desesperado, circulei pelo deserto além de Rodório por horas e desabei ali mesmo, exausto, para dormir sobre o solo árido até que o calor do mormaço inclemente me acordasse outra vez. Segui viagem sem destino certo — uma peregrinação, um autoflagelo. Não me saía da cabeça a imagem de Aiolos carregando o bebê, mas eu não conseguia verter lágrimas. Dor e desolação cavavam uma grande cratera dentro de mim, até que só sobrasse um homem sem esperança.
Até que, ao meio-dia, finalmente o encontrei. Àquela altura, já tinha planos para seu destino final. Como se eu pudesse consertar um pouco a catástrofe que havia nos pisoteado...
Recolhi o corpo sem vida e só Atena sabe o quanto foi difícil e doloroso não olhar para ele durante todo o trajeto até a praia mais próxima, sob o risco de desabar em choro e desistir. Levei-o até uma prainha deserta, de faixa de areia curta e muitas rochas, nas cercanias do Santuário. O Egeu ali tinha a cor esmeralda do Caribe — uma espécie de tortura para mim, pois Aiolos amava o mar e me amara ainda mais à beira dele.
Entrei nas águas calmas, vencendo facilmente as marolas que vinham arrebentar sobre nós — eu e Aiolos, deitado em meus braços. Uma onda atingiu seu rosto e eu fui atraído pelo movimento dos cabelos dele, agora molhados; não era o meu amigo-amante, mas reconheci nele os cachos castanhos ondulados, os lábios fartos, as maçãs do rosto saltadas. Aiolos sempre parecia um anjo quando dormia. Agora ele era anjo de verdade.
Sim, anjo. Aiolos nos traiu porque enlouqueceu com as pressões de Ares. Quero acreditar que ele enlouqueceu, para não me enlouquecer também.
Quando a água subiu-me à cintura, o corpo de Aiolos já boiava livremente sobre minhas mãos. Era apenas uma questão de separar-me dele.
Engoli em seco...Esse tinha sido o problema durante o tempo todo: nós nunca conseguimos.
Hesitante, beijei uma de suas mãos frias e salgadas e tomei coragem. Então, a maré puxou Aiolos para o alto mar e eu acabei segurando seu punho num impulso irracional. Vi no cotovelo daquele braço um curativo que eu mesmo fizera na véspera da tragédia que me obrigara a tirar sua vida. Enfim, cheio de dor, permiti que sua mão deslizasse pela minha. Ele partiu como um barquinho ao sabor das ondas, e o mar tentou me arrastar para junto dele, mas ainda não era minha hora. Não ainda. Deixei o Egeu responsável por seu funeral e voltei às areias sem olhar para trás.
Estava terminado.
Cheguei na orla trêmulo e ofegando, e caí próximo à rebentação, como se tivesse sobrevivido a um afogamento. Não estava satisfeito. Precisava de lápide, como no cemitério do Santuário.
Então, com gravetos, fabriquei uma cruz modesta e finquei-a na areia firme. Finalizando, tirei do bolso a faixa carmim que Aiolos usava na testa e amarrei-a na junção dos dois pedaços de madeira. Algo dentro de mim estava impaciente — a pequena cruz parecia simples demais para o homem extraordinário que ele fora.
Faltava um epitáfio.
Aqui jaz Aiolos, o grande traidor. É o que ele merecia, mas toda a sua história não se resumiu a isso.
Aqui jaz Aiolos, o grande guerreiro. Não.
Aqui jaz Aiolos, o grande amigo. Não.
Aqui jaz Aiolos...
Apagava as palavras uma a uma e reescrevia outras na areia, misturando pedaços do homem que tinha dado mais sentido à minha vida, e que eu assassinara. Tantos Aiolos, e o que o mundo reconheceria era sua faceta delirante.
Aqui jaz Aiolos, um idiota...
A essa altura, as lágrimas corriam quentes até meu pescoço e pontilhavam a areia onde eu trabalhava. Enfim, gravei sob sua cruz as três palavras proscritas e fiquei a olhá-las, impotente diante da nossa desgraça. Parecia errado aquilo, justo agora. Não fazia mais sentido e não tinha mais importância. Ele estava morto, não podia lê-las.
A noite despontava sobre a maré alta e uma hora o mar acabou apagando minha confissão. A cruz resistiria algum tempo ainda, mas eventualmente seria levada também. Era melhor que fosse assim.
Retornei ao Santuário tarde. Ninguém questionou minhas roupas molhadas e sujas de areia enquanto eu subia as doze casas. Aliás, ninguém tinha vontade sequer de falar — estávamos todos enlutados e chocados demais para interagir uns com os outros espontaneamente. Em Áries, somente a ausência do jovem Mu. Em Touro, Aldebaran fitava o céu, pensativo. Em Gêmeos, nenhuma pista de Saga. Já em Câncer, o cheiro de morte me enfraqueceu, mas nem sinal de Máscara da Morte — este deveria estar na última casa, celebrando a vida com Afrodite. Logo acima, Leão transmitia o cosmo melancólico de Aiolia, recluso. Em Virgem, escutei as rezas de Shaka. Em Libra, a solidão parecia ainda maior. Eis que em Escorpião, me deparei com Milo chorando desnorteado.
Sagitário. Eu cheguei à nona casa com a triste certeza de que jamais reencontraria seu guardião. Uma nostalgia abateu-me e me vi tentado a entrar, mas minha razão e um certo medo me impediram de fazê-lo. Os aposentos já não eram mais como eu conhecia, pois Ares mandara esvaziá-los tão logo foi anunciada a execução de Aiolos. Nunca mais haveria a sala das nossas discussões, o doce banco do jardim, as fotografias no criado-mudo, o banheiro enluarado. Apenas espaços vazios, impessoais.
Nunca mais haveria a cama que era mais nossa do que sua.
Encostei-me a uma pilastra e fechei os olhos, inspirando fundo o cheiro das lembranças que só existem na minha cabeça. Há algo de melancólico em saber que sou o único portador delas. Assumo que sou abençoado por ter conhecido tão intimamente Aiolos e experimentado a grandeza do seu amor, mesmo que acabasse em tragédia entre nós. Enfim, aceito amargamente meu destino, porque ainda sou cavaleiro de Atena e tenho nossa deusa para proteger.
Que outra opção me resta?
De repente, sinto como se você pudesse me ouvir e olho para cima, para o céu que me responde com uma chuva de estrelas.
Aiolos, que você possa seguir seu caminho, minha estrela torta. Meu anjo.
Enquanto não nos reencontrarmos, me encarregarei de suas pendências e cumprirei seu dever por nós dois. Somente assim poderei me manter são. Então, sigo para minha casa e meu leito — hoje tão amplo, tão vazio -, onde minhas orações serão por Atena e por você.
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