Cá entre nós
3 Desequilíbrio
Notas iniciais
II — Desequilíbrio
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Recuperado, ele abotoa as calças raivosamente e com o rosto franzido. Minhas pernas continuam afastadas e tremulam com o ardume dos menores movimentos a que me arrisco. Meus dentes ainda mastigam desesperadamente a fronha e meus dedos quase arrebentam o lençol, que agora tem cheiro de sangue e suor.
Aiolos me feriu de propósito.
Revendo a cadeia de eventos que me trouxe a esse cenário de degradação, não posso condenar que todos os erros foram só seus.
Avalio nossos dois meses de encontros furtivos com a conclusão de que eu deveria ter dado um basta na perversão dele no princípio de tudo. Ter definido melhor as margens do que era permitido ou até ensaiado o término. Só que quanto mais eu queria que parasse de me tocar, mais ele sentia ganas de fazê-lo. Quanto mais eu rezava para que voltássemos a ser os amigos de antes, mais me fartava da volúpia dele.
Eu me traí.
Não sou menos sórdido que meu amigo-amante. Estaria mentindo se dissesse que não era consensual, que eu nunca procurei sua cama. Sapatearia sobre o túmulo dos cavaleiros capitulados na última guerra se jurasse em nome deles que sentia somente repulsa pelos toques de Aiolos. Sua paixão é veneno para minha consciência, mas puro deleite para meus sentidos. Nunca venci meu dilema e nem tenho essa pretensão.
Vivo entre Cila e Caríbdis¹.
Já que eu perdi meu orgulho, me mantenho agarrado à tábua de questões mais básicas. Se me deixar levar, se descobrirem nosso envolvimento, eu e ele nos tornaremos párias. Se romper nossas correntes...bem, essa opção parou de existir quando lhe confessei que não conseguiria viver no Santuário sem sua companhia. Hoje, assumo que nela está inclusa a parte que engloba nossas questões sexuais. Aiolos é um vício, e como todos, difícil de admitir.
Eu carrego a responsabilidade do nosso segredo como um Atlas², porque Aiolos pode ser justo e corajoso, porém perde a cabeça quando o assunto envolve nós e de nada adianta chamá-lo à razão. Ele é um híbrido de contrastes, à semelhança de seu signo — metade homem, metade animal. Se eu não tomasse suas rédeas — ainda que de modo frouxo -, estaríamos em miséria há muito.
Mas nem tudo foi espinhos. Houve, no começo, entendimento e paciência entre nós. Sagitário tentou genuinamente colaborar com o trato e disfarçar — comportava-se da melhor maneira que conseguia na frente de terceiros, muito embora, às vezes, sua pulsão por me tocar escapasse do seu controle. Certa vez, Saga o flagrara ajeitando meus cabelos com um olhar que não deixava espaço para dúvidas. Por mais que Saga não tivesse esboçado reação alguma, brigamos muito naquele dia e depois em tantos outros, com frequência crescente.
Aiolos não se conformava com minha falta de reciprocidade. Ele estava disposto a doar-se por inteiro e cobrava o mesmo de mim. Contudo, eu zelava ainda por minha última coluna de sustentação: a parcimônia. O dia em que eu abrisse mão do meu propósito para com minha deusa em favor de um amor terreno, então não haveria mais motivo para o meu ser; meu coração permanecia inflexível em nome dela.
Esse princípio dos cavaleiros de Atena falhava em comover meu amigo.
Ele queria tudo de mim, não só a carne. Enciumado, exigia em suas atitudes que toda a minha atenção fosse dele. Implorava por mais intimidade — pedia eu dormisse em seu peito, que o beijasse com mais calma, que entrelaçasse minha mão na sua.
Eu nunca dei o braço a torcer, preferia pagar o preço de minha resistência.
Então, Aiolos fazia o diabo comigo: deixava-me só, até que eu viesse rastejando atrás de si com meu único recurso de conciliação. Ele conhecia bem meu calcanhar de Aquiles e o usava para virar o jogo vil que praticávamos, cheios de estratégias e regras torpes. Simplesmente me abandonava em nossa gangorra, atirando-me para baixo.
Viro-me de barriga para cima no nosso leito de fel, incapaz de conter um silvo de dor. Aiolos fita-me de esguelha, tão nauseado quanto eu. Meus olhos estão nublados quando encaro o teto e procuro a raiz de todo o mal.
Eis que me lembro do dia em que adoeci. Jamais antes havia padecido de febre, nem na mais tenra infância, porém caí enfermo já homem feito, tremendo e suando sob as compressas que o cavaleiro de Sagitário torcia. Foi a nossa única trégua não engatilhada por sexo e foi capaz até de mover o mestre à Capricórnio. Aiolos, à beira do meu leito, fê-lo prometer que eu sobreviveria e ele riu-se, jurando que era só uma gripe forte. Delírio, talvez, mas nada me convenceu de que a causa daquilo foi outra além de nossos conflitos, que já impossibilitavam uma convivência sã.
Foi depois deste episódio que, num lampejo de lucidez, decidi retomar meus rumos.
O Patriarca recrutava preceptores para aprendizes de cavaleiro e havia programas de intercâmbio para os mais variados lugares, desde o Saara até a Sibéria. Retornar à Andaluzia pareceu-me uma solução nostálgica, como se eu pudesse fugir para um passado onde Aiolos não existia em minha vida. Rabiscar meu nome naquela lista foi muito tentador, mas algo me deteve. Então, incorri no erro de informá-lo — ou melhor, consultá-lo — sobre minha decisão. Eu já me considerava sua posse, inconscientemente.
"Que loucura!", desdenhou Aiolos, já derrubando coisas em sua casa, enquanto zanzava de um lado para outro assanhando os cabelos. Ele sempre fazia isso quando ficava encurralado. Torci para que o vaso micênico não sofresse o mesmo destino que a estatueta de Quíron³.
"Você tem Aiolia, por que eu não posso ter pupilos também?", respondi com falsa tranquilidade.
"Eu não preciso ir até o outro lado do mundo para treinar Aiolia!"
"Que exagero, a Espanha não fica tão longe assim", desviei meu olhar, tentando acreditar naquilo que dizia.
"Shura, você-" ele apontou um dedo para mim, mas recuou. Engoliu algum impropério e acabou por medir inteligentemente cada uma de suas palavras. "Shura, você não pode ir."
"Por que não?", rebati, irritado. Aiolos não tinha o direito de dizer o que eu podia ou não podia fazer.
"Como ficam as defesas do Santuário? Temos apenas cinco cavaleiros de ouro ocupando seus postos, além de Shion, que já é idoso!"
Tinha muita lógica. Eu, Aiolos, Saga, Afrodite e Máscara da Morte constituíamos a última linha de defesa da instituição*.
"Você esqueceu de Libra; ele está na China recrutando aprendizes. Também posso educar novos cavaleiros de ouro", argumentei.
"Libra é tão velho quanto Shion e já abandonou sua armadura há mais de século!", Aiolos esbarrou perigosamente num abajur já avariado em outras brigas. "Céus, Atena é uma recém-nascida! Que inimigos estarão sondando sua localização? Hades? Poseidon? Eles esperarão por anos até que você treine outros cavaleiros?"
Não havia mais nenhuma justificativa plausível para que eu me fosse. Sabíamos qual era o motivo real daquela rebeldia, todavia, jamais colocaríamos em pauta nossos sentimentos. Éramos cavaleiros de Atena da mais alta patente, afinal.
Então, decidi abandonar o plano em nome do bem da deusa, mas Aiolos não facilitou as coisas para mim. Ele intentava castigar-me por minha insolência e além das costumeiras penalidades celibatárias.
No entanto, naquela noite, ele apenas se afastou e achei que seria como em todas as nossas outras discussões.
Pois, no dia seguinte, o encontrei na arena de treinos ensinando Aiolia, como de praxe. Cumprimentamo-nos com cordialidade livre de suspeitas — nosso pequeno teatro diário — e percebi um estranho brilho em seu olhar verde-azulado.
"Shura, por que não mostramos a Aiolia como é uma batalha entre cavaleiros de ouro?", ele me propôs uma luta de mil dias como se fosse uma coisa normal.
"Você quer treinar comigo?", suavizei, entreolhando o infante Aiolia. O garoto fervia de entusiasmo com a perspectiva de aproveitar algum entretenimento em horário de trabalho, principalmente porque envolvia a participação de seu irmão mais velho. Aiolos era seu ídolo. "Está bem. Sem armas?"
Pressenti que havia algo de errado quando Sagitário não ofereceu ajuda para enfaixar meus punhos, como sempre fazia. Desconfiado, posicionei-me frente a ele, o que atraiu plateia para nosso pequeno show. Aiolos imitou-me após alguns aquecimentos. Ele é mais velho e seu porte é maior que o meu, mas a vantagem em força física sempre havia me pertencido. Aiolos se valia de suas flechas, que não superavam a potência da minha Excalibur. Seria uma luta corpo a corpo e eu trazia grandes chances de acertar-lhe alguns golpes até o fim da exibição.
Era o que eu imaginava, e levei a uma das maiores surras da minha vida. Não apanhava com tanta barbaridade desde meus tempos de aprendiz. Ele me espancou sem a menor piedade, não abria brecha nem para que eu me defendesse durante os longos minutos que anteciparam meu nocaute. Não foi uma luta de mil dias, mas sim um massacre.
Aiolos acertou um soco no canto da minha boca e quedei derrotado diante das vistas estupefatas do público. Meu lábio inferior verteu sangue quando ergui minha cabeça para fitar sua expressão insatisfeita.
"Por que não se defendeu?", ele me censurou, olhando-me de cima, como se a culpa de eu ter sido trucidado fosse minha.
Então, Aiolia se aproximou com cautela. Ele não exatamente gosta de mim, já que dividimos as atenções de seu irmão, porém já está conformado e acostumado com meu papel de coadjuvante na história deles. Portanto, Aiolia sabe que quando eu e Aiolos treinamos, praticamos a luta como esporte e até de modo performático — nada do que ele viu.
"Olos, vai limpar os machucados do Shura agora?", ele perguntou, incerto, referindo-se à nossa rotina de pós-treino. Desde os primeiros duelos, Aiolos conduzia-me ao vestiário ou até sua casa e curava-me os danos por ele provocados. Qual não foi meu espanto quando meu estômago revirou de nojo ao imaginar aquele homem embrutecido — um estranho para mim — aplicando antisséptico em minhas escoriações.
"Vou sim! Treine só enquanto isso", ele me olhava sombriamente.
Indignado, tentei desvencilhar-me das suas mãos enormes, que me apanharam como uma boneca de pano em seu colo. Abri a boca para protestar, mas ele foi mais rápido: "Vamos, príncipe!", troçou, e os cavaleiros que assistiram ao meu fracasso engrossam um coro de gargalhadas.
Nunca havia passado por tamanho vexame.
Encarei-o com recriminação: Aiolos estava pondo tudo a perder! Apesar das minhas reclamações e de meu pavor de ser mal julgado pelo público, ele me carregou para Sagitário. "Deixe que pensem o que quiserem", ele finalmente respondeu, impaciente.
"Aiolos, não encosta em mim!", ordenei pela milésima vez, assim que ele me atirou de qualquer jeito em sua cama. Meu corpo queixava-se à menor contração muscular, mas ele não se importava. Seu olhar era o de um predador bem sucedido na caça.
Não enxergava saída sobre como lidar com o lado sádico que nele aflorava. Aquele não era o Aiolos que eu conhecia — o valente e gentil paladino do Santuário, mais propenso a se sacrificar ao sofrimento do que decretá-lo. Talvez fosse um lado que escondesse caprichosamente de mim. Com Aiolos eu podia barganhar até dissuadi-lo, mas contra aquele novo homem me vi despojado de escudos.
"Vamos cuidar dessas feridas", ele usou o mesmo tom manso de sempre, porém cruelmente agarrou e afastou meus joelhos coberto de abrasões. Então, serviu-se de minhas chagas com ferocidade. Abafei meus gritos como pude e ensaiei tentativas débeis de fugir das suas carícias às avessas. Ele chupou meu lábio cortado com apetite e abriu caminho para novas injúrias. Foi só quando empurrei seu peito com uma mão — a outra ele espremia contra a cama, acima da minha cabeça -, que consegui alertá-lo do meu desconforto.
"Você é tão teimoso, tão ingrato!", ele desaprovou, seu cenho fechado. "Nada do que eu faça está bom o bastante para você!"
Súbito, meu rosto foi parar contra o travesseiro e minha mão foi tracionada em ângulo anormal, aos limites da anatomia, em direção à minha escápula. Ainda mais indefeso de barriga para baixo, mordi a fronha para impedir-me de berrar como eu sabia que ele queria. Minha outra mão continuava esmagada sob seu punho.
"Pare!", eu arfei, enfim cedendo à humilhação. "Pare, você vai...!"
Então, em vez do clique da articulação deslocada, senti uma mordida potente em minha nuca. A partir daí, fui atacado das formas mais baixas possíveis, esmorecendo sob cada tortura que me era infligida. Em certo momento, me desconectei da realidade — meu mundo era a roupa de cama a que eu sofregamente me amparava.
"É isso que você queria? É assim que você gosta?", ele me instigava, em meio às suas investidas encolerizadas. O restante foi muito pior do que apanhar, muito pior do que qualquer outra coisa.
Quando pensei que desfaleceria, algo o fez parar, talvez sua razão. Ele separou-se de mim, impotente, e arrastou-se para fora da cama.
Agora, cá estou, pulsando de puro ódio — dele e de mim. Seu troféu e a prova de minha infâmia estão evidentes no vigor entre minhas pernas, mas nem isso o estimula a retomar minha punição.
Fui rebaixado ao pior estágio da dignidade humana. Eu, profano Cavaleiro de Capricórnio, não preciso de mais nada para ser considerado um pária. Com Aiolos, anjo negro, fui do céu ao inferno, e neste fui trancafiado com todos os meus suplícios.
Meu último pilar esfarela-se com seu ato derradeiro:
"Não me sinto bem...eu vou tomar um pouco de ar, mas deixarei a tranca aberta", ele diz ao escapulir covardemente porta afora, sem prestar nenhum socorro.
E sou tomado pelas sombras do quarto. Tudo dói — tudo, tudo, tudo.
Você foi longe demais, Aiolos. Eu permiti que fizesse o que bem entendesse comigo, com a condição de não me deixar, nem se envolver demais. Veja bem, você me envolveu até o pescoço em sua escuridão! Você tentou arrancar tudo de mim até que não sobrasse nada além de espaço para o seu egoísmo, sua doença.
Não foi este o contrato que assinamos. Temos mais que cláusulas quebradas e você vai pagar tanto as multas quanto os prejuízos.
Já é hora de ser mais responsável, Aiolos. Ninguém escapa da colheita e nós só temos semeado ventos.
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São suas lágrimas que me impedem de continuar. Elas me mostram o quão medíocre eu sou — um homem capaz de arruinar seu bem amado às custas de um prazer narcisista.
Como sentimentos ora tão ternos haviam se convertido em abuso?
Se antes eu o enchia de mimos, agora me comporto como um carrasco. Se aceitei esperar por você, então por que o atropelei com minhas necessidades, meus ciúmes? O que há comigo, que não consigo aceitar que o pouco que me dá é muito para você?
A vida inteira relacionei sua figura ao divino e à nobreza, sempre tão intocável. Hoje, mais do que nunca, percebo o abismo entre nós dois — sou um cretino, sou escória, tentando manchar-lhe com a sujeira das minhas mãos indignas.
Sou um vampiro.
Shura, eu não tenho mão hábil para lapidar seus sentimentos. Tampouco sei como me comunicar sem franqueza, decifrar suas meias palavras. De que jeito posso fazer com que me ame de todo o coração? De que jeito você ama alguém de todo o coração?
A um passo do limite da sanidade, pondero sobre como posso reparar meus crimes, mas me parece impossível que eu consiga tirar todo o trauma de seu espírito orgulhoso. Sofro com a possibilidade palpável de perdê-lo para sempre — não somente ficar sem sua companhia, mas também provocar distorções incorrigíveis no seu caráter.
A que ponto cheguei: presentear-lhe com um amor cheio de ódio. Amor louco, doentio, sem virtudes. Um amor frustrado por não ser pleno.
Eu vou me esforçar para apagar suas lágrimas e reconquistá-lo, sem cobranças e sem pressa. Se não quiser mais minha paixão, lhe dou minha amizade. Se não quiser minha amizade, lhe dou meu respeito.
E se não quiser nada disso, lhe dou nossas boas memórias e a promessa de que jamais me verá outra vez.
...Talvez Shion se interesse por meus serviços de mestre de aprendizes no estrangeiro.
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