Cygnus - Fallen
1 Considerações Iniciais
Notas iniciais
“Eu sempre falei que você ia se meter em confusão, não disse? Você dizia que queria mudar o mundo! Como vai mudar o mundo preso? Ou pior, morto?”
As palavras de Lily ecoavam pela minha mente, como se as paredes da prisão não permitissem que elas deixassem a cela. Minha família tinha saído para bolar um plano. Para me tirar daquele lugar imundo onde eu estava encolhido.
Sempre fui o garoto de ouro. Sempre fui quem tinha a maior expectativa nos ombros. Eu sempre fui o mais inteligente, o mais brilhante. O mais Malfoy.
Sim eu era um Malfoy. Um perfeito Malfoy. E um Black. Um Black a moda antiga, como meu avô Sirius costumava dizer. Sempre impecavelmente arrumado, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua. Sempre elegante e apaixonado pelas artes das trevas – algo que sempre tive um peculiar cuidado para manter em segredo da minha mãe e padrinho.
Não era fácil ser eu.
Tinha o Scorpius. O filho primogênito. Aquele completo idiota. Às vezes olhava para ele e tinha certeza de que algo errado deveria ter acontecido. Ele simplesmente não podia ser meu irmão. Meu irmão gêmeo ainda por cima. Eu podia sentir a frustração do meu pai sempre que ele olhava para Scorpius – com exceção de quando ele ia assistir às partidas de quadribol da Sonserina. Scorpius nasceu para viver em uma vassoura e não no chão e não segurando uma varinha. Não que ele fosse um bruxo ruim, mas eu sou o gêmeo dele. As comparações eram automáticas.
E eu sou brilhante.
Sempre fui. Brilhante como nem meu pai e nem minha mãe foram. A magia parecia transbordar em mim. Ainda parece, na verdade. E muito mais do que antes.
Mas chega de falar de mim. Terei muito tempo pra falar de mim. Eu quero falar da minha família.
Como eu disse, tinha o Scorpius. A cara do meu pai. Quando ele ficava quieto e calado, todos viam um Malfoy. Loiro, com os olhos claros, o rosto fino. Os cabelos tão finos que pareciam fios de seda. E ele sabia dar o olhar frio e o sorriso desdenhoso e debochado. A marca registrada de todo Malfoy que se preze.
Mas por dentro ele é muito mais um Black.
Eu tive um colega da Sonserina que dizia que havia três coisas sobre os Black que todo bruxo sabia. A primeira é que um Black nunca erra um feitiço. A segunda é que todos são loucos. A terceira é o nosso lema: TOUJOURS POUR.
Por mais que ele não fosse tão bom quanto eu, Scorpius não era um garoto bobo. Ele tinha uma mira excelente. Ele sempre acertava o alvo. Sempre duelou com maestria e seus reflexos de jogador faziam com que se movimentasse muito bem. Quanto à loucura... Scorpius não era exatamente muito são. Ele falava alto demais. Ele gargalhava alto demais. Tudo na maneira dele de agir era exagerada. Quando ele era bom, ele era muito bom. Mas quando ele era mau, ele era melhor ainda. Scorpius sempre gostou do calor das batalhas. Sempre foi um encrenqueiro. Sempre se metia em confusão com os alunos das outras casas. Sim. Eu acho que ele era doido. Ele se casou com Rose Weasley, não foi? Não que eu tenha algum preconceito quanto ao sangue dela – a mãe dela era nascida trouxa... Mas aquilo era um lembrete constante pra mim.
E isso leva ao nosso terceiro tópico. Ele estava, perdoem-me a expressão, se lixando para a pureza de sangue. Ele não se importava. Algo que aprendeu com nossa mãe, imagino. Ou com o nosso avô Sirius.
Além de Scorpius, eu tinha uma irmã. Virgo.
Oh, minha doce irmãzinha... A serpente mais venenosa que eu conheci em vida. Sou um cara observador. Sei ler as pessoas. Sou um excelente legilimens... Mas Virgo era assustadoramente... Malfoy. Em tudo. Ela parecia ter nascido em outro século. Odiava os nascido trouxas. Os chamava de sangue ruim mesmo. Apenas evitava falar isso na frente de nossa mãe. Meu pai não ligava. Ele nunca ligava pra nada de errado que ela fizesse.
Não me lembro de ver meu pai brigando com ela alguma vez. Ele é completamente apaixonado por ela.
Virgo era uma excelente bruxa e uma boa jogadora de quadribol. Scorpius dizia que ela era uma mistura de nós dois. Eu devo concordar com ele. Ela é astuta como eu, mas carismática como Scorpius. Era a líder das colegas. Comandava o bullying contra os outros alunos. E nunca se dava mal em nada. Era invejável como ela sempre conseguia sair por cima em tudo. E a aparência dela... Ela era uma Malfoy de corpo e alma. Ela vai se tornar Ministra da Magia. Juro por tudo o que eu acredito.
Loira, bela, manipuladora, sangue puro, rica, excelente bruxa, uma boa jogadora de quadribol... Ela chegaria onde quisesse. Foi assim a vida inteira. Mas sejamos honestos. Meu pai cresceu em meio pensamentos medievais. O que mais se esperava de Virgo era que ela casasse com um puro sangue. E só.
E ela o fez.
Não. Pascal não era um sangue puro de pedigree. Mas era sangue puro, com um bom sobrenome. Ela se deu bem no fim das contas e fez a família Greengrass voltar para uma glória que não se via há gerações.
E então, eu.
Scorpius era o mais velho. Virgo era a caçula. Scorpius seria o cara das responsabilidades. Ele herdaria o legado da família Malfoy, que meu pai tanto se esforçara para elevar – eu sempre jurei que ele quem iria estragar tudo, mas isso não vem ao caso agora. Afinal quem sou eu pra julgar. Estou preso...
Virgo era a caçulinha, a defendida e mimada.
E eu. Eu notei muito cedo que ficaria com a raspa do tacho. Eu não era nada. Era o reles filho do meio.
Se eu dissesse que fui esforçado a minha vida inteira por conta disso, seria uma mentira. Todos sempre me viram como um garoto certinho, dedicado e estudioso. Sim, eu era estudioso, mas meus estudos nada tinham a ver com a matéria da escola. Eu sempre estava estudando os extras.
Talvez por ser o filho do meio eu acabei me tornando cobiçoso. Essa era a verdade. Esse é o meu pecado. Eu sempre quero mais.
Todos dizem que eu parecia um Black, mas pensava como um Malfoy. Eu não sei dizer, na verdade. Soube que tive uma tia muito pirada... a tia Bella. Acho que ela teria gostado de mim. Eu nunca fui exatamente bonzinho. Eu sempre fui diferente. Talvez para compensar meu brilhantismo. Por favor, não me ache metido. Eu normalmente sou muito humilde e não gosto de me gabar, mas se você vai saber da minha história, você precisa entender isso. Eu sou um prodígio. Eu nunca precisei me esforçar para aprender o que quer que fosse. Eu não sei o porque, mas o conhecimento vinha fácil pra mim. Eu aprendia qualquer feitiço ou azararão sem o menor esforço.
Para se ter ideia, meu padrinho – alguém bem básico... Apenas Harry Potter... – quis ensinar a mim e ao meu irmão como fazer um patrono. Ele é bem famoso por seu patrono, entre outras muitas coisas... Ele disse que iria fazer uma demonstração. Apenas tenha um pensamento feliz e se concentre nele e depois diga as palavras mágicas. Nós tínhamos apenas doze anos. Scorpius conseguiu fazer o seu – um leão, que irônico – apenas aos dezessete anos.
Eu consegui uma semana depois. Mas meu patrono não interessa agora e muito menos meu pensamento feliz. Isso poderei dizer mais para frente, no momento apropriado.
Bem, como eu exemplifiquei e como já disse e repeti, sim, eu sou um bruxo prodígio, brilhante. Mas isso não veio de graça. Eu tinha que vir com algum defeito grave, certo?
Eu sei bem qual é ele. O meu ponto fraco. Meus dois irmãos tem de sobra, mas em mim... Parece que nasci sem isso. Eu não sou nada empático.
Você pode achar isso bobeira, mas se eu estou aqui, atrás das grades, desgraçando o nome da minha família... É por conta disso. Eu fui tolo. Eu reconheço isso agora.
Eu não conseguia me relacionar com alguém. E eu não achava isso ruim. Pelo contrário. Me sentia superior por não ter ‘sentimentos’. Eu não amava ninguém.
Eu não amava meus pais ou meu padrinho. Eu os respeitava.
Eu não amava meus irmão. Eu os suportava.
Eu não amava meus amigos. Apenas os manipulava, cultivava... Como uma horta. Algumas pessoas plantam por amar as plantas. Outras plantam para utilizá-las depois. Era o meu caso.
O estranho era que, por mais que eu não conseguisse sentir amor por outras pessoas, elas o sentiam por mim. Minha mãe me amava. Meu pai me amava. Meus irmãos – inclusive Scorpius – me amavam. Meus amigos também. Alguns me idolatravam de maneira extremamente hilária, devo acrescentar. Se me aproveitei disso. É óbvio.
Ninguém viu o monstro que eu tinha potencial para ser... Talvez o senhor Weasley, mas eu acredito que era mais um reflexo pela inimizade que ele tinha com meu pai. Não acho que ele olhava para mim, quando eu era criança e brincava com o filho dele, e imaginava: esse menino vai ser mau. Ele vai matar, vai torturar, e vai gostar disso. Eu realmente duvido.
Meu padrinho me achava apenas tímido, minha mãe me achava sério. Meu pai achava que eu tinha um problema. Algum déficit social, mas nunca encrencou com isso. Meu avô dizia que eu parecia o irmão dele – Régulus, de quem herdei o segundo nome. Ninguém imaginou que eu era um monstro. Não no início. Não quando eu era um menino.
E se você quer entender tudo o que aconteceu. A minha versão dos fatos... Sinta-se a vontade. Serei um livro aberto. Chega de mistérios. Chega de segredos. Mas se você realmente deseja saber, como eu quase me tornei o próximo Lorde das Trevas, como eu quase trouxe Salazar Slytherin de volta, você vai precisa me ouvir desde o início.
Desde antes de eu entrar em Hogwarts. Desde antes de tudo. Não preciso voltar tanto aponto de explicar quem são meus pais. Todos conhecem a história deles. Talvez eu fale um pouco dos meus irmãos e do meu tio. Crescemos juntos, afinal.
Eu precisarei falar de alguns amigos também, é claro.
Mas principalmente, eu vou precisar falar de Lily. Lily Potter. A caçula do meu padrinho. Ela é o motivo por eu estar encolhido e envergonhado aqui nessa cela. Sinceramente, antes dela vir aqui e falar comigo todas aquelas coisas, eu nem estava ligando para o que aconteceria comigo. Mas ela mudou tudo. Sempre ela...
Mas chegaremos ai. Porque no início, ela não foi nada importante.
No início era apenas eu e Scorpius.
Então sente-se ai e escute com atenção. Porque eu provavelmente nunca mais falarei tanto sobre mim novamente...
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