A rua, tipicamente ao estilo norte americano, possuía casas de madeira praticamente idênticas que se seguiam até perder de vista. O perfeccionismo do bairro só era destoado pela décima terceira casa da esquerda que estava, na melhor das intenções, decrépita. As madeiras do telhado estavam apodrecendo e as paredes precisavam de uma nova mão de tinta, várias janelas estavam quebradas e diversas frases ilegíveis estavam pixadas na cerca do jardim.

A porta entreaberta balançava ao vento, castigando as velhas dobradiças e fazendo-as protestar veementemente contra falta de óleo. Do lado de fora, se alguém se aventurasse a chegar mais perto, podia-se ouvir um som melodioso vindo da velha casa.

Ao contrário do que se poderia esperar pela fachada da casa, seu interior era bem mais conservado. O chão de taco caramelo estava apenas um pouco empoeirado e as paredes cor de creme um tanto desbotadas, mas no geral a casa só precisava de uma bela faxina.

A melodia agora podia ser ouvida mais alto, e os vagos murmúrios de uma voz podiam ser detectados em meio aos compassos da música. Indo mais para o interior da casa podia-se ver que ela pequena, mas confortável. Cozinha, sala um quarto e o jardim dos fundos compunham a velha residência.

As notas soaram mais firmes e mais altas enquanto a música chegava ao seu apogeu.O único quarto, banhado pela luz do sol poente, foi invadido pela força do som..triste? Não, ele não poderia ser considerado triste, talvez, fosse uma fraca chama de uma esperança que insistia em arder no peito do músico.

No centro do quarto, sentada em uma velha cadeira de balançoestava uma mulher, dedilhando um velho violão surrado, o cabelo negro encobrindo-lhe o rosto.Mas esse não era o som que podia ser ouvido do lado de fora.... de onde teria vindo então?

Reparou numa escada no canto da parede e subiu rapidamente, ignorando a pessoa que dedilhava a guitarra, tão grande era sua vontade de saber de quem vinha o som.

Chegou finalmente em um sótão empoeirado, com um piano antigo em frente a uma pequena janela, a sala estava vazia. Aproximou-se do piano confuso e olhou ao redor. Sentou-se e começou a dedilhar as teclas inconscientemente, ainda tentando descobrir de onde vinha a melodia. Então simplesmente abriu a boca....

“Let’s rocket to the Sky

Chasing emotions we cannot find

Earth can’t bring us what we want

Let’s play astronauts and just be errands

Let’s just get out

Out of this tiny little planet

Where happy we’ll never be

I’m so sick of being destiny’s puppet

I just want to own me

I was never made for oxygen

Niether were you

Let’s rocketeer ourselves to space

Run from this world of foolish men

Cuz earth can’t give us what we want”

Quando terminei de cantar percebi que acabara de cantar a melodia que eu tanto procurava.Nem tudo estava perdido, a esperança ainda queimava forte.

Fechei o tampo do piano, deixando o mundo que eu até então vivia para trás e entrando no meu próprio, aonde o inverso era o correto e aonde eu poderia ter o que nós queríamos.

Levantei-me da cadeira de balanço e recostei o antigo violão gentilmente contra a parede. Dei adeus à minha casa levando comigo apenas uma pequena lembrança do antigo mundo, uma velha tecla de piano.Um piano que no outro mundo não mais tocava, um piano que iria reencontrar seu dono fora da antiga prisão.

No quarto vazio, a luz da lua banhava uma cadeira de balanço e um velho violão.

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