Ele estava se escondendo atrás de um dos carros na garagem. Podia ouvir o cruel oficial de polícia, sargento Leland Coyle, se aproximando com seu bastão de choque. Coyle falava insultos e comentários sexuais que ele pouco prestava atenção. O que ele queria era escapar dali e terminar a missão.

Quando o policial finalmente se distanciou, ele pôde sair do seu esconderijo. Agora teria que retornar ao andar superior para mover o "Snitch". Essa era apenas a primeira missão do jogo "The Outlast Trials", e jogar sozinho estava sendo uma verdadeira aflição.

"Estamos quase lá!", tentou acalmar a si mesmo, bem como sua audiência no Twitch.

A imagem no estilo anime de um jovem de cabelos negros com chifres dourados se destacava na tela do computador. Sua expressão facial correspondia às emoções da pessoa real fora da tela, graças a um sistema de captura de movimento avançado. Uma combinação de câmeras especiais e sensores registrava os movimentos e expressões faciais do indivíduo real em tempo real. Esses dados eram então processados e aplicados ao personagem na tela, permitindo que ele se mexesse e fizesse expressões faciais de maneira sincronizada com a pessoa atrás das câmeras. O resultado era uma representação animada e cativante do vtuber, que conquistava o coração de sua audiência. O personagem na tela era CuteLoki, o avatar de Draco Malfoy.

Enquanto seu avatar fofamente demonstrava espanto diante das coisas que ocorriam no jogo, como antagonistas pelados que o perseguiam ou quando perdia a sanidade e era perseguido por uma entidade espectral, Draco estava suando e precisava se conter para controlar o volume de sua voz. Draco, ou melhor, CuteLoki, era um vtuber conhecido no meio digital como um habilidoso jogador de jogos de terror. Embora adorasse esse gênero, havia claras desvantagens em gravar ao vivo.

Draco estava próximo de terminar a missão, finalmente. Ele tinha planejado uma "live" de uma hora e meia, mas já estava se aproximando das três horas de duração. Isso era problemático, pois ser um vtuber não era o único foco na vida de Draco Malfoy.

Com esforço, mas também uma sensação de satisfação, Draco concluiu a missão. Sua pontuação foi "C", de acordo com o jogo, o que o deixou um pouco chateado. Seu espírito competitivo não se contentaria com uma pontuação tão baixa. Ele já estava planejando uma nova tentativa na mesma missão e talvez até colaborar com outros vtubers independentes, o que traria mais visualizações e engajamento em sua live, além de facilitar a resolução da missão de forma mais eficiente.

"Pessoal, hoje foi um desafio... Mas adorei jogar! Sem dúvida, é um ótimo game para manter nossa atenção! Será que estou me viciando um pouco? Talvez!", comentou para seu público.

"Infelizmente, teremos que encerrar a live agora. Vou ler todas as suas mensagens e agradecer adequadamente, mas não agora. Vocês sabem como é, tenho que estudar para a faculdade!", disse com uma risada. Seu público sabia que ele era um estudante universitário, mas essa era a informação máxima que Draco revelava sobre sua vida pessoal ou real.

A transmissão foi interrompida e Draco rapidamente se desconectou de sua conta no Twitch. O rapaz olhou ao redor e percebeu que tinha muita coisa para arrumar antes das 18 horas. Sua mesa estava repleta de objetos desorganizados, fios espalhados e papéis amontoados. Ele precisava arrumá-la de forma a dar a impressão de que estava estudando diligentemente, em vez de jogar avidamente.

Draco examinou sua mesa com um suspiro. O teclado estava cheio de marcas de dedos e migalhas de salgadinhos, enquanto os fios dos periféricos se enrolavam uns nos outros, formando uma confusão emaranhada. Papéis e anotações se espalhavam por toda a superfície, cobrindo parte do mousepad. Era evidente que sua área de trabalho precisava de uma limpeza completa.

Com determinação, Draco começou a organizar sua mesa. Primeiro, ele pegou um pano de limpeza e cuidadosamente limpou o teclado, removendo as marcas e as migalhas indesejadas. Em seguida, começou a desemaranhar os fios, enrolando-os de forma ordenada e prendendo-os com clipes. Ele empilhou os papéis em uma pilha arrumada e os colocou ao lado do monitor.

Para completar a ilusão de estar estudando, Draco pegou alguns livros de Direito e os colocou em destaque na mesa. Ele ajustou a posição da luminária para iluminar adequadamente a área de trabalho, dando um ar de seriedade ao ambiente.

Após um esforço considerável, a mesa de Draco estava organizada e transmitia a imagem de um estudante aplicado. Ele observou satisfeito o resultado do seu trabalho. Agora, ele estaria pronto para enfrentar as próximas horas de estudos, enquanto mantinha em segredo seu envolvimento como o famoso vtuber CuteLoki.

Mal começara a estudar quando alguém bateu na porta do seu escritório. Hesitante, ele se levantou e se dirigiu à fonte do som. De relance, olhou o horário em seu celular e percebeu que ainda faltavam 10 minutos para as 18 horas. Relutante, abriu a porta e logo sentiu um alívio quando viu uma mulher de meia-idade com um sorriso afetuoso parada ali.

Era sua mãe, Narcisa Malfoy, uma mulher elegante e de postura impecável. Seus longos cabelos loiros estavam perfeitamente penteados, destacando seus olhos azuis brilhantes. Ela usava um vestido floral delicado e um colar de pérolas que realçava sua sofisticação.

"Olá, querido, como está?", cumprimentou com gentileza.

"Tudo bem, você sabe... Estudando direito constitucional", respondeu Draco com um leve sorriso.

Ela piscou os olhos de forma sutil, como se duvidasse da declaração do filho. "Ah, sim", respondeu ela. "Seu pai vai demorar no escritório, então o jantar foi adiado para as 19 horas."

Draco tentou não parecer animado com a notícia, apesar de secretamente sentir certo alívio. Em sua casa, todos seguiam uma agenda bem rígida, uma agenda organizada de forma ditatorial por seu pai, Lucius Malfoy.

"Querido, seria apenas uma sugestão," falou sua mãe novamente, "acho que você deveria buscar outra roupa para ir ao jantar."

Ela apontou para Draco, que só então notou, desesperado, o que estava vestindo. Durante seus momentos de relaxamento ao jogar, ele optava por roupas igualmente confortáveis. Estava usando uma calça folgada de moletom, uma camisa também folgada com estampas de animes e até mesmo um gorro que ocultava seu cabelo loiro. Para completar, estava até mesmo usando chinelos. Draco tinha acabado de quebrar todas as normas de etiqueta dos Malfoy, e seu pai era bastante rígido em relação às vestimentas.

Isso só ocorreu porque ele tinha passado do horário planejado. Se tivesse terminado a sua live no horário, teria se lembrado de se trocar. Nervosamente, tentou pensar em uma desculpa.

"Eu estou me vestindo assim... porque... tenho refletido muito sobre nossos privilégios e as desigualdades que existem no mundo. Vestir-me de forma mais simples é uma maneira de mostrar empatia e solidariedade com aqueles que não têm os mesmos recursos que nós. Quero estar mais conectado com a realidade das pessoas comuns e entender suas lutas diárias," declarou, solene.

Para surpresa de Draco, sua mãe gargalhou, mas logo em seguida se conteve. Uma dama não poderia demonstrar tão descaradamente que estava se divertindo.

"Esse não seria um bom argumento para evitar uma briga com seu pai, Draco," ela sorriu e deu uma afetuosa tapinha no rosto corado do filho, "apenas vá se trocar quando estiver perto da hora do jantar, sim?"

Draco apenas assentiu.

~**~

As badaladas do relógio grande de madeira, posicionado no hall de entrada da mansão, indicavam que eram 19 horas, o horário do jantar. Draco tinha se trocado, vestindo roupas mais formais. A refeição, mesmo sendo feita no interior da mansão, era um ritual imerso em formalidade e etiqueta. Seu pai acreditava que a aparência de um homem era um reflexo de seu valor, e isso deveria ser uma constante em sua vida. Segundo a ideologia paterna, aquele que deseja se mostrar superior deve se portar e vestir-se como tal o tempo todo.

Draco podia não acreditar naquele tipo de cerimonial e nas rígidas regras de vestimenta, mas não queria decepcionar seu pai. Como consequência disso, lá estava ele, sentado, usando uma roupa elegante, como se estivesse na presença do próprio rei da Inglaterra. Draco podia se observar no grande espelho de moldura prateada, pendurado na parede oposta à longa mesa de jantar.

A sala de jantar era imponente, com um lustre de cristal que brilhava intensamente sobre a mesa de mogno polido. As paredes estavam adornadas com quadros de família, retratando ancestrais Malfoy com expressões sérias e olhares altivos. O ambiente exalava uma atmosfera de opulência e tradição.

A roupa que ele usava consistia em um terno sob medida, de cor escura e corte impecável, realçando sua figura esguia. A camisa branca era impecavelmente engomada, com uma gravata borboleta combinando. Seus cabelos loiros estavam cuidadosamente penteados para trás, revelando uma aparência sofisticada e refinada.

Enquanto observava seu reflexo, Draco suspirou, sentindo-se um tanto desconfortável em meio à pompa e circunstância. Ele sabia que a fachada da nobreza era importante para seu pai e o status social da família, mas seu verdadeiro eu ansiava por liberdade e autenticidade.

Os criados retiraram a entrada, um delicioso antepasto de berinjela, para dar lugar ao prato principal: o renomado Parmentier de canard. Draco reconheceu imediatamente o prato clássico da culinária francesa, uma verdadeira obra-prima gastronômica. O Parmentier de canard é uma combinação sublime de sabores, destacando-se o pato cozido lentamente e desfiado, harmonizado com ervas aromáticas e especiarias meticulosamente selecionadas. Sobre essa irresistível base de pato, uma generosa camada de purê de batatas cremoso é delicadamente disposta, culminando em uma crosta dourada e crocante ao ser gratinado no forno.

Lucius Malfoy, sempre apreciador do requinte, aproveitou o momento para fazer um comentário com sua conhecida sutileza sarcástica. Enquanto um criado servia o refinado vinho branco Gewürztraminer, ele começou: "Hoje foi um dia verdadeiramente fascinante no escritório. Um de nossos estimados clientes, um jovem de linhagem nobre, infelizmente se viu envolvido em uma acusação infundada de lavagem de dinheiro. É nosso dever, é claro, proteger sua reputação diante dessa injustiça flagrante."

Draco, por sua vez, precisava controlar suas emoções e permanecer vigilante, mesmo em meio ao prazer culinário que se desenrolava à sua frente.

"Sabe como resolvemos essa situação, Draco?" perguntou Lucius, desviando o olhar de seu primogênito, transmitindo a sua autoridade sem precisar encará-lo diretamente.

"Eu acredito que vocês conseguiram provar a falsidade das acusações", respondeu Draco hesitante, buscando apoio no olhar de sua mãe, que sorria afetuosamente, mas cuja tensão era perceptível.

"De fato, conseguimos fazer isso, mas a questão é como..." disse Lucius com evidente impaciência. "Se você tem a pretensão de me suceder na empresa, Draco, precisa estar ciente desses tipos de situações".

"O que você fez, pai?", indagou Draco, interrompendo seu progenitor antes que ele continuasse a avaliá-lo.

"O que eu fiz? Ah, apenas direcionei as acusações para a pessoa adequada. Um antigo funcionário da empresa de nosso cliente, cujas assinaturas misteriosamente aparecem vinculadas a vários contratos, provando seu envolvimento na lavagem de dinheiro. A audácia desse plebeu em se passar pelo nosso cliente!" explicou Malfoy com um sorriso no rosto. Draco sabia que a versão dos eventos apresentada por seu pai não correspondia necessariamente à verdade dos fatos. Ele tinha consciência de que Lucius Malfoy, um advogado famoso por representar clientes poderosos e corruptos no Reino Unido, havia fabricado provas contra o antigo funcionário. Esse indivíduo seria acusado, preso e difamado, enquanto o verdadeiro culpado escaparia ileso.

Draco tentou se concentrar em seu prato, mas o sabor daquela conversa não podia ser dissipado com a carne suculenta de pato. Ele não concordava com o seu pai, mas ao mesmo tempo não tinha forças para contradizê-lo, tampouco denunciá-lo. Sentia-se culpado, o que só aumentava seu desejo de se afundar no mundo virtual. Ser CuteLoki era melhor do que ser Draco Malfoy.

"Ouvi dizer que você vai começar a matéria de direito constitucional com o professor Dumbledore. Isso é verdade?", continuou a indagar Lucius, ainda sem olhar diretamente para seu primogênito.

"S-sim..."

"Você precisa se esforçar muito nessa disciplina, Draco. Dumbledore é um renomado jurista no direito britânico. Se ele te notar, será extremamente benéfico para o seu futuro na advocacia", instruiu, fazendo Draco ficar ainda mais nervoso com sua aula do dia seguinte. Isso significava que seu pai iria prestar mais atenção em suas notas e rotina de estudos, o que o obrigaria a ser ainda mais cauteloso com suas transmissões ao vivo no Twitch.

"Você precisa se destacar mais! Quero ver seu rosto nos jornais e não aquele Potter..."

Draco quase se engasgou ao ouvir o nome de Harry Potter.

"Você soube? Ele teve a coragem de aparecer no Palácio de Westminster, fazendo campanha pela manutenção de fundos para ONGs e departamentos voltados para a proteção da fauna silvestre da Inglaterra. Acredita? Gastar o dinheiro dos contribuintes ingleses com animais selvagens que já deveriam estar extintos? Enfim, ele foi todo glorificado no The Guardian. Dizem até que ele será o representante dos advogados da nova geração", disse Lucius, enquanto massacrava seu prato, cortando a carne de pato e desfazendo o purê com fúria. Toda sua etiqueta sendo esquecida.

Maldito Potter, pensava Draco, em uma estranha sintonia com seu pai. Por causa das ações de Harry Potter, seu pai imporia mais uma meta impossível para que ele, Draco, alcançasse. Harry, mesmo não estando presente fisicamente, transformava sua vida em um verdadeiro inferno.

~**~

Era o início do ano acadêmico, o termo de outono. Era início de outubro e as folhas das árvores começavam a mudar de cor, adquirindo tons dourados, alaranjados e avermelhados, criando um cenário deslumbrante em toda Londres. Parques e jardins, como Hyde Park, Regent's Park e Hampstead Heath, estavam envoltos em um tapete de folhas caídas, proporcionando um ambiente pitoresco para caminhadas e passeios tranquilos.

Entretanto, Draco não tinha tempo para passeios. Vestindo um casaco verde e um cachecol preto, ele se apressou em sair do carro, dando um aceno ao motorista. Não queria se atrasar logo no primeiro dia na Universidade Hogwarts.

Apesar de parecer um castelo medieval, a Universidade Hogwarts é uma das faculdades mais renomadas do Reino Unido, reconhecida por sua excelência na área de Direito.

Situada em um cenário majestoso, com torres imponentes e uma arquitetura deslumbrante, a universidade cativa os estudantes desde o momento em que põem os pés em seu campus. As paredes de pedra cinza-claro exibem séculos de história, enquanto as janelas altas e góticas permitem a entrada de uma luz suave e misteriosa.

Ao adentrar os portões, os alunos são recebidos por um pátio espaçoso, cercado por edifícios acadêmicos grandiosos. Os corredores internos são revestidos por tapeçarias antigas e retratos que parecem ganhar vida quando observados com atenção.

Os espaços de estudo são igualmente impressionantes. A biblioteca, com suas estantes altas repletas de livros empoeirados e mesas de carvalho polidas, é um refúgio acolhedor para pesquisas e estudos intensivos. As salas de aula são equipadas com tecnologia moderna, combinando o tradicional com o contemporâneo.

Além disso, a Universidade Hogwarts oferece uma ampla gama de atividades extracurriculares para enriquecer a experiência dos estudantes. Os clubes e sociedades abrangem desde debates jurídicos até grupos de teatro, proporcionando um ambiente vibrante para o crescimento pessoal e acadêmico.

Draco, no entanto, estava pouco inclinado a apreciar a beleza dos arredores. Já no seu segundo ano do curso de direito, a sua fascinação pela arquitetura de Hogwarts havia diminuído, substituída por uma rotina acadêmica agitada. O jovem Malfoy parecia exausto, o que se refletia nas olheiras sob seus olhos, razão pela qual ele usava óculos escuros para disfarçá-las. Ele havia passado a noite estudando, tentando adquirir conhecimentos suficientes para impressionar o renomado professor Dumbledore.

E tudo isso graças a Harry Potter, pensou enfurecido enquanto seguia pelos corredores de mármore em direção à aula de direito constitucional. Harry Potter, uma celebridade em seu curso de direito. O jovem que sobreviveu ao atentado perpetrado pelo famoso mafioso Tom Servolo Riddle, um ataque que ceifou a vida de seus pais, renomados advogados investigativos da justiça britânica. Sua sobrevivência foi ressaltada pelos jornais como um milagre, e um certo misticismo envolvia Potter. Quando Harry conseguiu uma bolsa de estudos integral na Universidade Hogwarts, a mídia simplesmente adorou. "O menino prodígio seguirá os passos de seus pais e se tornará um defensor da justiça!" destacavam as manchetes.

Draco podia ignorar Harry, mas seu pai sempre buscava uma oportunidade para criticar seu filho, comparando-o ao "menino que sobreviveu". Assim, toda vez que Harry recebia atenção da mídia, Lucius Malfoy começava a exigir mais de Draco, cobrando-lhe resultados semelhantes. O pior de tudo era que Lucius odiava Harry, mas mesmo assim desejava ardentemente que Draco se tornasse um advogado brilhante, assim como Potter.

E ele nem sequer é um advogado! Ele é apenas um estudante de direito como eu! continuou a pensar, finalmente chegando à sala de aula. Estava prestes a entrar quando colidiu com algo rígido e firme. Para sua desgraça, tinha batido de frente com Harry Potter.

"Olhe por onde anda, Potter! Esses óculos que você usa são só para enfeite, não é?", falou Draco de forma mordaz.

"Eu presto bastante atenção por onde ando, Malfoy. Talvez o problema seja você usando esses óculos escuros no meio do seu rosto. Já passou pela sua cabeça que usá-los dentro de recintos já escuros pode prejudicar a sua visão?", respondeu Potter com um leve sorriso no rosto.

Harry Potter era um jovem alto e esguio, com cabelos negros e rebeldes que caíam desalinhados sobre sua testa. Seus olhos verdes brilhavam com uma mistura de curiosidade e astúcia, transmitindo uma intensidade cativante. Seus óculos redondos, com aro preto, destacavam-se em seu rosto, ressaltando sua aparência distintiva.

"Nisso eu concordo com você, Potter. Mas eu preciso usar esses óculos. Afinal, prefiro prejudicar minha visão a ter que ver a sua cara de deboche logo pela manhã. Devem usar muito photoshop nos jornais para consertar essa coisa que você chama de rosto."

"Você está apenas com ciúmes do meu charme natural. Nem todo mundo tem um pai para pagar cirurgias plásticas e fazer uma harmonização facial para ficar atraente."

"Para sua informação, Potter, eu nasci assim... Não precisei passar por nenhum procedimento estético para ser bonito. Mas agradeço o elogio."

Os dois se encararam por alguns segundos, enquanto um pequeno público os observava com interesse e ansiedade. Os embates entre Potter e Malfoy estavam se tornando famosos na universidade.

"Então, vai sair da minha frente ou vou ter que quebrar alguma lei relacionada a agressão para entrar na sala de aula."

"Habeas corpus, Malfoy. Você tem o direito de ir e vir", declarou Harry com outro meio sorriso. Ele se afastou, permitindo que o apressado Draco Malfoy entrasse.

O dia já começou muito bem, pensou Draco de forma irônica, enquanto se sentava em uma das cadeiras da sala de aula. A sala apresentava um formato semelhante ao de um anfiteatro grego, com as cadeiras dispostas em semicírculos ao redor de um palco central, onde o professor ministraria a aula. No centro, destacava-se uma estante com um moderno computador conectado a um projetor.

As paredes da sala eram revestidas por painéis de madeira escura, conferindo um ar de sobriedade ao ambiente. Janelas altas permitiam a entrada de luz natural. O teto, com sua arquitetura abobadada, acrescentava uma sensação de grandiosidade ao espaço.

Não demorou muito para o professor Dumbledore adentrar a sala, vindo por uma porta lateral no lado oposto. Ele já causou um impacto nos estudantes, não apenas por sua fama, mas também por sua aparência. Era um homem de aproximadamente 60 anos, com uma longa barba branca que combinava com seus cabelos igualmente longos. Vestia uma camisa de lã com estampas outonais de mangas longas, além de uma calça cáqui bege. Para completar seu guarda-roupa nada convencional para um jurista (já que a maioria dos professores da universidade usava ternos ou roupas formais para dar aulas), ele calçava chinelos crocs.

"Bom dia, meus pupilos. Animados para o início do ano letivo? Espero que sim... Caso contrário, aqui vai uma pergunta: Por que os advogados britânicos nunca levam guarda-chuvas para o tribunal?"

Os alunos se entreolharam, confusos. A sala estava praticamente lotada, afinal, devido à fama de Dumbledore, muitos estudantes haviam se matriculado naquela turma. Draco estava igualmente confuso, mas levantou a mão, hesitante.

"Sim. Sabe a resposta para essa pergunta, meu rapaz? Por que os advogados britânicos nunca levam guarda-chuvas para o tribunal?"

"Porque eles sempre confiam nas cláusulas pétreas do direito para evitar chuvas indesejadas", respondeu meio embaraçado. Era uma piada sem graça, mas ele já a tinha ouvido antes.

Para surpresa de todos, Dumbledore gargalhou como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo. Sua risada foi contagiante, fazendo com que outros estudantes começassem a rir. Como se fosse magia, até Draco soltou algumas risadas. Por fim, Dumbledore enxugou as lágrimas que escorriam de seus olhos azuis.

"Espero que agora todos se sintam melhor. Uma boa risada é um ótimo remédio para aliviar as tensões do dia a dia, não é mesmo?"

Draco teve que concordar. Por alguns segundos, ele chegou até a esquecer do seu cansaço e das cobranças do pai.

Acho que gostei desse professor, pensou ele, um pouco mais animado. No entanto, sua animação diminuiu ao ver Harry Potter sair pela mesma porta lateral que Dumbledore havia usado anteriormente, carregando várias folhas.

"Oh, Harry! Você perdeu a minha piada! Que pena!", falou Dumbledore de forma cordial para o estudante. "Que bom que trouxe as folhas! Meus queridos alunos, Harry aqui é o monitor desta disciplina e ele irá entregar a vocês o cronograma do nosso curso..."

Harry era o monitor de Dumbledore? Como vou competir contra o Potter se ele já tem essa vantagem! Draco ficou furioso.

"Bem, enquanto Harry distribui as folhas, vou dar uma breve introdução sobre o nosso conteúdo. Estamos falando de direito constitucional, mas diferente de muitos países que possuem uma constituição escrita e codificada em um único documento, o Reino Unido não possui uma constituição escrita formal. Em vez disso, a constituição britânica é baseada em uma combinação de leis estatutárias, decisões judiciais, convenções constitucionais e documentos históricos, como a Magna Carta. Isso significa que nossa matéria será, digamos, muito interessante de ser estudada!" explicou Dumbledore.

"Para tornar o processo de ensino e aprendizagem mais divertidos, decidi que toda a disciplina ocorrerá por meio de um projeto! O nome do projeto será: Construindo uma Constituição para o Reino Unido: Desenvolvendo uma Carta Magna Moderna", anunciou Dumbledore, fazendo uma pausa dramática antes de continuar. "Vocês serão divididos em duplas e desafiados a trabalhar em conjunto para desenvolver uma Carta Magna moderna que reflita os valores, princípios e desafios atuais enfrentados pelo país. E para tornar todo o processo ainda mais interessante, suas duplas serão escolhidas de forma aleatória... Agora, vocês devem estar se perguntando como será essa escolha. E eu irei responder: Já olharam com atenção para as folhas do cronograma que Harry acabou de entregar? Elas possuem símbolos que têm seus pares em outras folhas, entregues a outros alunos."

Draco examinou sua folha atentamente e logo encontrou no canto o símbolo que se assemelhava a uma cobra. Ele entendeu o que o professor estava falando: seu parceiro de projeto teria uma folha com o mesmo símbolo.

"Quem de vocês tem a cobra?", questionou alguém, fazendo Draco se virar para encontrar seu parceiro. Seu sangue gelou ao notar Harry levantando seu cronograma com o símbolo do réptil rastejante.

Harry o notou imediatamente e, como se tivesse lido a expressão de Draco ou até mesmo seus pensamentos, franziu o cenho. Sem dúvida, Harry Potter concluiu rapidamente que Draco era seu parceiro no projeto.

Notas finais
Atualização ocorrerá próxima semana.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.