Custódia
1 Como uma rainha se parece
Notas iniciais
A repórter citou seu nome mais uma vez, e Izabel não pôde se livrar do sentimento de estranheza. Era desconfortável vê-lo estampado em revistas e jornais, exibido nas barras inferiores de programas de televisão, saindo da boca de gente que nunca havia visto na vida. A mãe sempre dizia que já deveria estar acostumada, que aquilo era uma coisa absurdamente normal para alguém do seu status, que o mundo sabia quem ela era antes mesmo que tivesse nascido.
No entanto, para Izabel era como ser perseguida. Do alto – ou do baixo, do meio – de seus vinte e quatro anos, ainda não entendia bem quem era ou o que era. E lhe incomodava que o resto do mundo parecesse conhecê-la melhor do que ela mesma.
“A Rainha Izabel terminou o discurso encorajando os jovens a irem às urnas amanhã”. Foi a última fala da repórter antes de o quadro mudar para uma tomada fechada em seu rosto durante o discurso.
Izabel torceu as feições num esgar. Na televisão, sua voz soava plástica, impessoal. Se não tivesse memórias claras daquela manhã, da sensação térmica das lâmpadas sobre o palanque, das manchas de suor nas folhas de seu discurso, dos olhos atentos – dezenas de olhos e lentes de câmeras – ao menor de seus movimentos, poderia jurar que alguém fizera uma montagem sua.
Instintivamente, ela lançou o olhar para o espelho. O reflexo era de uma jovem miúda, que parecia a caricatura de uma mulher adulta.
É assim que uma rainha se parece?
Na televisão, pelo menos, aparentava uma aura mais madura.
— Você quer cobrir? — Zelir, a assistente do dia, perguntou. Estava olhando para ela pelo espelho, segurando uma madeixa escovada de seus cabelos.
— A cicatriz?
— Sim... — Zelir soou nervosa.
Izabel ponderou por um momento, reparando na metade já feita do penteado. O que queria dizer era “Tudo bem, eu gosto dela, pode deixar aparecer”. Porém, o que disse foi:
— O que você achar melhor.
Zelir anuiu.
Para as pessoas que tinham contato direto com ela – como a mãe e a equipe de assessores, os funcionários dos palácios, o parlamento –, o melhor sempre era apagar, suprimir, esconder todos os sinais que sugerissem a menor lembrança do acidente.
— Hoje de manhã não esconderam ela direito — Zelir reclamou, um pouco mais à vontade, trançando mechas finas de cabelo. — Mas nem dá para ver, não é?
Ela indicou a televisão. A tela exibia cortes da equipe da rainha deixando o Palácio do Planalto. O sorriso nervoso, a procissão de assessores e seguranças, o carro comprido com as onças douradas do brasão da Coroa no capô. Izabel desviou o rosto.
“A Rainha não declarou apoio a nenhum dos candidatos à prefeitura de São Paulo nem de outros municípios”. O âncora do telejornal estava de volta, sério, porém, quase jocoso. “Mas o candidato Josias Amaral, do PDT, tem participado de eventos de campanha com a presença da Rainha nas últimas semanas.”.
— Ah, que ótimo. — Izabel suspirou quando tomadas de momentos em que ela aparecia próxima ao político foram exibidas. — Eu disse que não queria associação com ninguém, mas não, minha mãe sempre preza a política da boa-vizinhança.
— Apoio político é muito importante para alguém como você. — Hannah, a assessora principal surgiu sob o umbral da porta, munida da agenda fiel. — E você não declarou apoio explicitamente, só deixou a sugestão. Isso é bom. — Ela caminhou para dentro do quarto, os olhos na televisão. — Significa que você pode tirar o corpo fora se alguma coisa der errado com ele, ou garantir apoio se der errado com você. Além disso, abre espaço para a gente jogar em mais de um time ao mesmo tempo…
“A Cerimônia do Memorial da República acontecerá hoje à noite em razão das eleições municipais amanhã. Todos os candidatos à prefeitura de Brasília confirmaram presença na cerimônia do Teatro Nacional Cláudio Santoro, a qual a Rainha Izabel também comparecerá”.
— Ah, você precisa ver a roupa que separamos para hoje à noite! — Hannah sacudiu a mão livre, fazendo as contas de suas muitas pulseiras tilintarem. — Ela está pronta, Zelir?
— O que você acha? — Zelir a segurou pelos ombros para girá-la de frente para o espelho.
A rainha estudou o conjunto de blazer e saia, as joias, as sandálias – ligeiramente mais altas do que o limite de sua zona de conforto permitia –, o penteado minimalista. E moveu a cabeça para dizer que aprovava, com um pequeno sorriso.
— Ótimo! — Hannah bateu uma palma. Depressa, tomou a rainha pela mão e a levantou do puff. — Vamos indo, então. A Tenente Deuner e os outros já estão nos esperando na entrada de carros. E parece que a jornalista já chegou no saguão do hotel.
No caminho longo e silencioso através das entranhas do Palácio da Alvorada, Izabel fez um esforço para se concentrar nas respostas prontas que estudara com Guilherme na tarde anterior. Havia uma cola de palavras-chaves feita com caneta em cada uma de suas palmas. Quantos municípios brasileiros, porque ela não estava fazendo campanha para nenhum candidato, o que prefeitos que se opunham ao caráter monárquico do governo representariam. Seria fácil, simples. Bastava seguir o roteiro. E Hannah e Zelir estariam lá, não haveria com o que se preocupar.
— Vai ficar tudo bem — Hannah cantarolou, apoiando uma mão em seu ombro, como que para confirmar seus pensamentos. — É mais fácil do que um discurso televisionado na câmara.
— Acho que sim. — Izabel esboçou um sorriso.
O sol a cegou momentaneamente quando chegaram no T da entrada da mansão, refletido como estava nas piscinas gêmeas. A comitiva de carros oficiais estava enfileirada na passarela em frente, com os seguranças a postos. Izabel respirou fundo enquanto caminhava de encontro ao carro guardado pela Tenente Deuner.
Seu olhar vagou para o amplo gramado além dos carros, próximo ao ponto de pouso dos helicópteros. Aquilo a remeteu à liberdade, ao tão sonhado momento em que seria levada até o jato particular e de volta a São Paulo, à sua casa.
— Casa — sussurrou, com um sorriso amargo, enquanto passava para dentro do carro.
Casa era uma palavra de significados perdidos para Izabel. Casa não era um lugar na Europa com a família, ou o Palácio da Alvorada com suas paredes de vidro límpido, ou mesmo o Palácio das Onças e suas árvores em São Paulo. Casa às vezes era estar com sua equipe de assessores e os poucos amigos. Mas dificilmente era estar consigo mesma.
— Nós podemos conversar em francês. — Izabel sorriu, condescente.
A jornalista a observou com certa relutância por um ou dois segundos, mas foi o bastante para Izabel sentir-se insegura. Como uma personalidade pública, todos os seus mínimos gestos eram lidos e interpretados, e que leituras aquela jovem francesa não poderia fazer de sua postura?
Ela recuou na poltrona, tentando adotar uma expressão austera.
— Obrigada, é muito gentil de sua parte — Jana Bublitz agradeceu ainda em francês.
Izabel virou as palmas para cima sobre o colo, lendo as palavras-chaves disfarçadamente.
O assistente de Jana, um rapaz magro e barbudo, ajeitou os gravadores na mesinha ao lado dela. Os dois trocaram algumas poucas palavras depressa, como se para evitar que fossem entendidos. Com movimentos comedidos, Jana buscou o iPad e uma pequena caderneta na bolsa-pasta que trazia. O rapaz meneou a cabeça para ela, enfático, então pediu licença e se retirou para a sala.
— Podemos começar com um flashback? — Jana pigarreou. Com apenas as duas no quarto, aquilo parecia um interrogatório para pegar alguém em uma mentira. — Sei que deve estar cansada de repassar as mesmas informações, mas é a sua primeira entrevista para a BCC francesa, então eu gostaria de começar do zero.
A rainha aquiesceu, remexendo-se na poltrona. Discretamente, de soslaio, lançou um olhar à passagem para a saleta. Podia ver parte das costas do vestido de Hannah, o que a deixou aliviada. Se as coisas com Bublitz ficassem difíceis, bastava chamar por alguém da equipe.
— Então, como foi crescer como herdeira de um trono invisível?
A pergunta abriu um sorriso suave nos lábios de Izabel.
— Normal, eu acho. Quando você está crescendo, no processo de entender quem se é e o que as pessoas ao seu redor são, no processo de entender o mundo, leva um tempo até cair a ficha de “sou uma princesa”. Nada como um filme de fantasia, mas foi divertido — ela gracejou. — Eu passei a maior parte da minha vida me sentindo uma princesa de mentirinha, detentora de um título de brincadeira, como um cupom que você ganha em alguma promoção e espera tanto tempo para usar que, quando finalmente resolve por qual prêmio vai trocar, ele já perdeu a validade. Herdeira de um trono invisível, como você disse.
Bublitz fez anotações na caderneta. A luz da luminária na mesinha acentuava ainda mais seu ar de elegância, tipicamente francês. Izabel perguntou-se se também pareceria elegante e adulta aos olhos dela, mas temeu que não. Sua última fala soara como uma adolescente imberbe, sonhadora. E mentirosa.
Embora sua perda de memória em decorrência do acidente não fosse segredo, o grau do estrago era. Suas impressões do passado frequentemente não eram mais do reconstruções com abuso de licença poética.
— E isso não te incomodava? Quero dizer, você nunca teve vontade de fazer esse trono ser visível?
Aí está. Diante da primeira bomba no campo minado, Izabel pousou a mão cautelosamente sobre o braço da poltrona, ajustando a postura. Começara oferecendo muita abertura, mas a jornalista não estava ali para trivialidades. Aquela era uma pergunta traiçoeira, uma das muitas que Guilherme havia predito em sua cartilha de instruções para entrevistas. “Você e sua família estavam planejando um golpe?”, era o que a jornalista queria dizer.
— Quando eu era criança, acho que sim. Mas depois, eu agradecia por ser uma princesa invisível, porque isso me permitia uma liberdade maior. E nunca passou pela minha cabeça que os cupons de realeza do Brasil pudessem voltar a ter valor.
— Bem, mas um ano antes do seu acidente… — Jana leu notas no iPad. — Perdão, dois anos antes, o movimento político para uma possível transição do sistema de governo começou a ganhar forma aqui no Brasil e, publicamente falando, você e a maior parte da sua família não estavam engajadas nas manobras no Congresso ou em outras frentes, mas alguns Orleans e Bragança estavam, por conta própria. A questão da monarquia ganhou força nas discussões oficiais justamente através deles.
Ela ergueu os olhos escuros, endurecida. Os pequenos gracejos e gentilezas tinham acabado. O que Jana desejava agora eram escorregões, falas comprometedoras.
— Pela ordem direta, se a monarquia integrasse o sistema de governo, você seria a primeira na fila do trono. Isso não acendeu a vontade de fazer valer seu título? Não te levou a participar de jogadas estratégicas nos bastidores para fazer vingar a iniciativa monárquica?
Izabel sentiu a garganta coçar e tentou engolir o desconforto que despontava.
— Não.
— Não mesmo? — Jana arqueou as sobrancelhas. A ponta de sua caneta elegante tocou a caderneta presunçosamente. — Nem mesmo quando a sua mãe começou a se envolver com esse tipo de esquema?
Quase sem querer, Izabel se transportou para suas lembranças nubladas no norte da França. Naquela época, reuniões a portas fechadas até tarde da noite e às vezes de madrugada, gente estranha andando pela casa, os parentes tomando muito cuidado com as palavras perto dela começaram a virar rotina – como Julian lhe contara. Já pensou? “Rainha do Brasil”, seu avô ficaria orgulhoso. O olhar da mãe, sempre muito distante, afiado, empreendedor. Você é o maior investimento da nossa família.
Ela meneou a cabeça para desanuviar os pensamentos.
— Minha mãe não moveu peças de maneiras obscuras, se é isso que você está sugerindo. — Mas não tinha certeza.
Jana voltou às notas por um instante.
— Bem, nada ficou completamente comprovado, mas algumas informações foram vazadas na época. Claramente os Orleans e Bragança na Europa se reuniram várias vezes, estruturando documentos para levar um membro da família ao comando do Brasil. Uma das sedes dessas reuniões foi o palacete dos seus pais, na Normandia. — Jana girou a caneta de corpo fino entre os dedos. Soava tão segura, como se a estivesse prendendo em uma armadilha, sem chance de erro. — Sua tia Heloisa Dyke chegou a participar dessas reuniões durante alguns meses, mas abandonou o grupo quando a pretensão dos príncipes Antônio e Francisco ao trono foi recusada em favor da sua. Pouco depois, ela foi a público acusar sua mãe de atos corruptos e inclusive de assassinato.
Houve um momento de silêncio, completo silêncio. As vozes na sala adjacente tinham se calado, a rua depois das janelas às costas de Jana pareceu ficar deserta. Izabel não se moveu um milímetro sequer. Tinha uma ideia pouco consciente de que estava com a respiração suspensa, mas era incapaz de encher os pulmões como desejava.
— Então, dois meses depois, a senhora Heloisa foi acusada por apoiadores da monarquia brasileira de conjecturar com forças estadunienses para a promoção de uma política entregacionista. Segundo as provas divulgadas, os Estados Unidos apoiariam a ascensão de Antônio ou Francisco ao trono e facilitariam acordos em troca de privilégios econômicos. Uma traição à família.
— O sangue geralmente fala mais alto. — Izabel assentiu, fingindo indiferença.
Parte da família de tia Heloisa era dos Estados Unidos, o que era visto com maus olhos pelos Orleans e Bragança. De modo que, quando Antônio e Francisco ficaram órfãos como Izabel, os primos foram educados segundo o que os mais velhos da família paterna achavam melhor.
— Foi o que seu tio-avô, Dom Luís, disse quando revogaram os direitos da senhora Heloisa adquiridos por casamento. — Jana esboçou um sorriso seco. — Sua mãe se referiu à situação como “tirar as ervas-daninhas do jardim”.
Izabel remexeu-se com o arrepio que percorreu seus nervos. Antes de entrevistas ou declarações, Hannah sempre lhe dizia para se manter ciente de quem era, do que representava. Os outros é que devem ficar nervosos na sua presença, meu bem. No entanto, ela raramente conseguia levar aquilo a cabo.
— Até esses acontecimentos, você era muito próxima à sua tia. Como foi ter de cortar relações com ela? — Jana gesticulou como se oferecesse algo. — Acha que escolher um de seus primos em vez de você para o trono era o mais justo a se fazer? Vocês continuam se comunicando mesmo com essa tensão que foi imposta?
Pelo canto do olho, Izabel entreviu Hannah aproximando-se da passagem que dava no quarto.Talvez o cheiro de problema estivesse começando a aguçar seus sentidos.
— Bem, acho que é difícil formular respostas certeiras que envolvem o passado depois do acidente, não é? Pelo seu problema de memória… — Jana recuou um pouco na poltrona, relaxando a mão que segurava a caneta sobre o braço retorcido do móvel. — Você precisa de um tempo?
Izabel começava a se irritar com seu trejeito de dizer “bem”, com sua atitude inquisidora, com o rumo que a conversa tomava. Suas unhas afundaram no revestimento de camurça da poltrona.
— Pensei que a nossa entrevista fosse para falar sobre as primeiras eleições após a mudança do sistema de governo. — A própria voz soou ácida aos seus ouvidos. Um corte de faca limpo. — Não vou responder perguntas sobre relacionamentos familiares.
Jana arregalou os olhos para ela levemente. Porém, o efeito daquele contra-ataque durou pouco.
— Perdão, vamos chegar lá — ela assegurou, um tanto atordoada. — Estou fazendo o possível para aproveitar o nosso encontro, então montar o pano de fundo é essencial.
O joelho de Izabel teve um espasmo. Involuntariamente, ela buscou Hannah com o olhar, sem discrição. Temia que o nariz começasse a formigar com o prenúncio de um choro de nervosismo.
Já tinha um histórico de ataques de ansiedade em situações como aquela. O último acontecera há dois meses, com um diplomata suíço numa sala do Palácio do Planalto. O homem suscitara o assunto do assassinato de seu pai e isso fora o bastante para que Izabel ficasse com a sensação de que os órgãos implodiam. Hannah teve de socorrê-la, inventando uma desculpa para encerrar o encontro.
Ela ajeitou a franja distraidamente, com a ponta dos dedos resvalando a cicatriz.
— Podemos falar sobre o acidente, então? — Jana inclinou-se para ela.
De repente, a rainha se deu conta de que estivera encarando o tapete felpudo entre as poltronas. E também notou que a jornalista olhava abertamente para a sua cabeça, para a cicatriz.
— Como?
— Você nunca comentou sobre. Durante o período em que você ficou em coma, a senhora Heloisa chegou a acusar sua mãe de te usar como cobaia em testes do laboratório suíço Zarina e te substituir por uma espécie de sósia. Isso fomentou outra teoria: de que a verdadeira Princesa Izabel teria morrido em decorrência do acidente e sido substituída para que sua mãe não perdesse o lugar privilegiado.
Izabel pestanejou, estupefata. Seu corpo pesou como se uma grande onda tivesse acabado de atingi-la e ela estivesse tentando sair do mar.
Aquele era um assunto proibido, ignorado. A Coroa, a mando da Rainha-Mãe, fazia o possível para manter distância entre Izabel e ele. E ela mesma estava pouco inclinada a acompanhá-lo.
— E-eu… — tentou balbuciar, inclinando-se ligeiramente para frente.
A boca encheu-se com o gosto da bile, subindo incomodamente pela garganta. Um vulto surgiu ao seu lado, bem quando ela grunhiu para digerir o ataque.
— Senhorita Bublitz, essa entrevista está caminhando para um viés muito perigoso, não acha? — A voz de Hannah era cordial, mas dura. — A impressão é que as perguntas têm o objetivo de manchar a imagem da família real, e até agora não ouvimos uma palavra sequer do assunto que concordamos em tratar.
— Queira me desculpar, mas a rainha tem idade e maturidade o suficientes para responder a uma entrevista — Jana rebateu, irredutível.
O assiste barbudo surgiu também, aproximando-se delas. Izabel achou o quarto excessivamente pequeno e terrivelmente claro com aquela aglomeração. Era agoniante.
— Ou será que o acidente a afetou tanto assim? É difícil saber com certeza, já que suas aparições e declarações públicas parecem tão bem ensaiadas.
— Pare a gravação, por gentileza — Hannah dirigiu-se diretamente ao assistente.
— Rainha Izabel, gostaria de dizer algo a respeito dessas teorias?
Izabel sentiu-se quente, sufocada sob o blazer de lã. Pensou na tia que se recusara a recebê-la – “Você não é a minha sobrinha.”—, nas coisas terríveis que diziam sobre sua mãe na Internet, em como raramente se sentia confortável sob a própria pele, nas memórias embaralhadas depois do coma. Estar ali, sendo alvejada pelas perguntas da jornalista, era como uma sessão de terapia ao reverso.
— Quero encerrar nossa entrevista — disse, com a voz levemente embargada. Uma criança que declarava não querer mais brincar, manhosa. — Sinto muito, mas o que a BCC combinou com minha equipe não foi isso. — Ela se levantou, as mãos seguras uma na outra, muito coladas à barriga. — Espero que tenhamos oportunidades mais agradáveis para conversar. Até mais ver.
O som dos seus saltos voltando para a sala do quarto pareciam pertencer aos passos de outra pessoa. Izabel tentou ater-se ao ritmo dele, caminhando tão tranquilamente quanto pôde até a porta. Hannah estava logo atrás, cochichando algo no rádio-comunicador.
A rainha deixou-se conduzir para fora do hotel e manteve-se em silêncio durante todo o trajeto de volta ao Palácio da Alvorada, a residência do primeiro-ministro. Ninguém a questionou, pequenas irreverências eram aceitáveis para o seu cargo.
As palavras da jornalista se embrenhavam em sua mente como serpentes num ninho, suscitando lembranças diversas sobre os mesmos assuntos. Em particular, Izabel recordou-se com clareza de uma matéria que repassava o densenrolar do assassinato de seu pai, estampada em páginas privilegiadas do Estado de S. Paulo numa edição lançada na semana de seu acidente. “Cogita-se que a coroa seja passada a um dos primos da Princesa Izabel caso ela não se recupere em um prazo a ser determinado pelo Parlamento”.
O carro parou na segunda guarita de segurança da propriedade com um solavanco. Izabel observou sem emoção seu reflexo no vidro filmado da janela.
É assim que uma rainha se parece?
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