Custódia

3 Achados e perdidos


Quando Hannah abriu a porta do quarto pela manhã, Izabel ainda estava deitada com as costas contra o chão e as pernas penduradas na cadeira suspensa. Não havia pregado os olhos, a cama continuava feita. Ela era uma boneca em uma cena abandonada.

A gravidade tinha a segurado naquela posição, pesando como blocos de concreto sobre seus braços e tronco. E ao mesmo tempo que apercebia a pressão, não se sentia lá. Sequer sentia que tinha um corpo, mesmo que fosse tão insuportável estar dentro dele – como se estivesse presa em uma sala abafada.

Ela ouviu os passos de Hannah se aproximando, atravessando o quarto para fechar as portas de vidro da sacada e depois as cortinas. O rosto dela surgiu sem alarde, bloqueando sua visão das sancas do teto. Mesmo assim, Izabel não a viu.

— Você… dormiu no chão?

Não dormi, ela quis dizer, mas não teve forças. Queria esboçar qualquer reação, mas não conseguia voltar a si.

— Izabel? — A voz de Hannah era terna, preocupada, familiar. — Está bem?

Parcialmente, a rainha tinha consciência de sua roupa íntima à mostra, do quão descabelada estava. Parcialmente, sabia que precisava levantar-se e dar um jeito em si mesma.

— Olha… — Hannah suspirou, agachando-se acima dela.

Izabel conseguiu focalizá-la. Àquela distância, podia sentir o cheiro de seus cachos volumosos.

— Você precisa falar comigo para que eu consiga te ajudar, certo?

A rainha engoliu em seco.

— Precisamos votar agora de manhã, mas prometo que te arrumo tempo para descansar depois. — Ela deslizou o dorso dos dedos por suas bochechas amarfanhadas. — O que você acha? Consegue se levantar?

As duas ficaram em silêncio por um momento. Para Izabel, era como se Hannah estivesse no fim de um corredor extremamente comprido, chamando seu nome; porém, toda vez que chegava mais perto dela, o corredor aumentava e som nenhum saía de sua garganta. “Porque você não tem voz. A sua voz é minha, tudo o que você tem é meu.

Os olhos se fecharam por reflexo, como se estivesse prestes a ser atingida.

— Izabel, eu sei que você não quer ir agora, só que mais tarde vai ter gente demais. E concordamos que é melhor que você vote presencialmente ao invés de pela Internet, lembra? As pessoas precisam ver sua Rainha votando. Guilherme falou isso também.

Izabel contou até cinco, até dez. Fez votos para que o chão se abrisse sob seu corpo, fazendo-a despencar vários andares.

Rainha Izabel é encontrada morta sob os destroços do Palácio das Onças.

— Todas as roupas no closet estão limpas, é só você escolher o que vestir. Volto daqui a dez minutos com a Zelir e o seu café da manhã, certo? — Hannah a deixou, fingindo que aquilo era um diálogo. — Se precisar de floral, tem um frasco novo no armário do banheiro.

O ar escapou dos pulmões de Izabel de um golpe só, quente, carregado, cheio de partículas laminadas que arranharam sua garganta. Nem todos os frascos de floral feitos sob encomenda a fariam se sentir bem ou entorpecida o bastante.

A Rua Fradique Coutinho, embora fosse de mão dupla, era apertada para a procissão dos largos e ostensivos carros oficiais. Os outros veículos, estacionados dos dois lados, estavam próximos demais, e as pessoas indo ou voltando do colégio eleitoral também. Pelo vidro filmado, Izabel podia ver que acenavam para os carros, que equipes de emissoras de TV tentavam acompanhar o ritmo da comitiva – e conseguiam, já que a rua estava congestionada.

— Dia de eleição me dá agonia — Hannah reclamou ao seu lado, sacudindo as pernas com nervosismo.

— Medo de quem vai ser eleito? — Zelir gracejou.

— Também… Mas esse trânsito todo é… desesperador.

No banco do motorista, a Tenente Deuner balançou a cabeça para concordar.

— Vocês acham que vai ter segundo turno? Porque eu acho que não. O número de partidos diminuiu muito com a reforma do governo e não temos tantas opções assim para escolher.

— Acho que vai ter segundo turno, sim. As pesquisas de intenção de voto estavam oscilando quase todo dia. Não ter muitas opções não quer dizer que as pessoas vão se decidir mais facilmente — Hannah pontuou. Distraidamente, seus dedos folheavam a agenda, enquanto ela se debruçava para a janela do carro. — Ah, até que enfim conseguimos andar um pouco!

— Já entramos em Pinheiros. — A tenente fez o carro descrever uma pequena curva, e logo a traseira do primeiro veículo da comitiva surgiu de novo.

Izabel deixou-se afundar contra o banco de couro, sentindo que a pouca energia do café da manhã já estava se esgotando. Enfrentar a fila da urna, as fotos com os apoiadores e os cliques da imprensa fora simples, porém, cansativo. Havia expectativas sobre ela, ainda que as eleições fossem municipais e não necessitassem de nenhuma intervenção de sua parte. Esperavam que ela fizesse alguma declaração a favor deste candidato, ou contra aquele candidato, que comentasse sobre resultados, que estivesse presente nas comemorações dos eleitos à noite.

— Caramba, tem muito meme das eleições. — A risada de Zelir encheu o carro. — Vocês já viram? Vou mandar o link da hashtag no Twitter.

Sem emoção, Izabel apanhou o celular para checar. Havia imagens e mais imagens que ela já havia visto outras vezes – sempre graças a Zelir ou Julian –, acompanhadas por legendas com referências aos candidatos à prefeitura de São Paulo. Nada chamou sua atenção até uma postagem que envolvia seu nome.

Ela apressou-se para digitar digitá-lo na barra de buscas do site. Fizera aquilo apenas uma vez, há muito tempo, quando Julian compartilhou com ela postagens a seu favor após um discurso na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo no ano anterior.

— Socorro, olha esse! — Zelir gargalhou, virando-se para elas do banco da frente.

Izabel fez a tela rolar para cima, correndo os olhos pelas postagens dos usuários. A rolagem parou em uma particularmente extensa, com a marca de que continuava em outras partes. "Sinais de que a Rainha Izabel não é a mesma pessoa que a Princesa Izabel — A THREAD”. Ela torceu os lábios. Logo abaixo do título, havia duas fotos dela: a primeira, de uma viagem em família pouco antes do acidente; a segunda, de sua chegada ao Brasil depois do coma.

Izabel de Orleans e Bragança nasceu herdeira do trono imperial brasileiro por parte de pai e condessa austríaca por parte de mãe. Dom Cristóvão, o pai, foi assassinado quando a princesa tinha apenas 3 anos”. Um nó se formou na garganta de Izabel quando surgiu a foto de seu pai a segurando no colo, a foto derradeira.

A princesa foi enviada para o Internato Santa Cecília de Assis aos seis anos, sob a custódia da família do pai. Sua tia Heloisa era muito próxima a ela, bem como os primos, também órfãos. Ela teve uma infância e uma adolescência normais, mas com pouca interação com a mãe”.

A rainha correu pelas partes seguintes, os olhos em movimentos concisos. Deteve-se apenas quando passou por uma com mais imagens anexadas.

Duas fotos dela com garotas que reconheceu com Natália e Fatima, do porta-retrato da mesa de cabeceira. Na primeira imagem, as três estavam uniformizadas em um grande saguão de paredes rosadas. Na segunda, estavam sentadas em fardos de feno com roupas de montaria. “Natália Kalmar chegou a fazer uma postagem lamentando o acidente e dizendo que a família Orleans e Bragança impedira visitas de amigos no hospital. Depois que Izabel acordou do coma, nem ela ou Fatima tiveram contato com a princesa. Nessa época, respondendo a um comentário, Fatima deu a entender que a Condessa Mariana estava podando os contatos da filha”.

— Podando os contatos? — Izabel murmurou, franzindo o cenho.

As garotas nas fotos eram radiantes, felizes. Ela fez um esforço para recuperar aqueles momentos na memória, ansiosa por senti-los novamente, por saber como era ser amiga de alguém. Porém, aquilo tudo ficou perdido nas decorrências do acidente. Como um pequeno lembrete posto entre as páginas de um livro que se perdia em um instante de desatenção.

As memórias estavam diluídas em algum lugar inalcançável.

Aqui: duas fotos de rosto com detalhes diferentes”. O movimento brusco do carro fez Izabel escorregar os dedos pela tela e abrir um comentário: “Ela parece tão espontânea antes do acidente... Nas fotos do pós-coma, ela tá tipo catatônica, sei lá”. “A Fatima chegou a ir até a casa dos OB na França, não? E uma outra menina que estudou com elas disse que a Mariana barrou até membros da família de verem a Izabel”. “A Mariana é louca! Certeza que foi ela que planejou o assassinato do marido!”, dizia outro.

— Alteza? Algum problema?

Meneou a cabeça, evasiva.

A teoria é de que a Condessa Mariana tenha arquitetado a produção de uma sósia da própria filha para não perder o cargo de Rainha Regente (durante o coma)/Rainha-Mãe. Como seus laços com os Orleans e Bragança são apenas por matrimônio, caso a princesa falecesse, o trono seria passado para um dos príncipes gêmeos, seus sobrinhos Antônio e Francisco, e ela ficaria sem nada. Seu cargo seria passado para a cunhada Heloisa, também viúva.

Os príncipes eram muito próximos da princesa, mas também foram afastados depois do coma como medida de proteção (algumas pessoas até pensam que foram eles que provocaram o acidente). Francisco declarou que a tia é uma mulher sem escrúpulos, que destruiu os laços afetivos e políticos da família. No ano passado, Antônio veio para Brasil para o aniversário de Izabel, mas fontes próximas relataram que os dois nunca podiam ficar a sós”.

Quatro fotos de Izabel com os primos. Fotos de jovens, de pessoas que iam a festas, a pequenas aventuras, que se divertiam com poses engraçadas. Nada como as fotos de família engessadas e apáticas penduradas nas paredes do Palácio das Onças. Em seu âmago, cresceu um bolo espinhoso.

Ela abriu outros comentários, nervosa. “Sabe o que é mais estranho? A Mariana deu um tchum pra filha, nem quando ela sofreu o acidente. Os parentes mais próximos ligaram para ela várias vezes, mas a bonita só resolveu ir pro hospital duas semanas depois de a Izabel ter entrado em coma”. “Parece que a Mariana não liga pra ela até hoje”. Izabel fez a tela rolar com avidez, a despeito dos dedos trêmulos. “Certeza que a Izabel de verdade morreu e se livraram do corpo. Tipo a Avril Lavigne, morreu e foi substituída!!!”.

Uma quentura desconfortável galgou pelo interior de Izabel, fazendo-a se contorcer. A mão buscou o controle da janela, mas com o ar-condicionado ligado, os vidros estavam travados. Então, com a outra, ela liberou o cinto de segurança.

— O que foi? — Hannah desencostou-se do banco para fitá-la.

O celular desapareceu no vão entre a porta e o banco. E bem quando Izabel se esticava para procurá-lo, o carro freou de supetão.

O corpo chocou-se contra o banco da frente com violência, a cabeça ricocheteando. Em dois segundos, estava no chão do carro, espremida entre os bancos.

— Izabel!

Substituída. Órfã. Uma sósia.

Quem é você?

A rainha abriu a boca, buscando mais ar. O ar-condicionado do carro se transformara em um aquecedor ligado no máximo.

— Para o carro!

As mãos de Izabel escorregaram pelo carpete, com os dedos se esfolando nas ferragens do banco da frente.

— Tenente!

O mundo escureceu como uma aquarela arruinada por tinta demais. Izabel deixou os músculos arrefecerem, mergulhando para o escuro.

Quem é você?

No visor de notificações do celular, ligações perdidas se acumulavam. Seis ou mais de Guilherme, três de um candidato – cujo partido ela não lembrava –, duas de números desconhecidos. Nenhuma era da mãe ou de outro familiar.

Izabel resolveu que era melhor virar o visor para o chão.

— Encontrei a rainha fujona.

Ela deixou a cabeça tombar sobre o ombro para encontrar Julian. O rapaz empurrava um carrinho de serviço com uma bandeja de jogo de chá equilibrada no topo.

— Por favor, me diz que você misturou uísque no chá — Izabel choramingou, esticando as pernas sobre o sofá.

Julian segurou o próximo passo. Furtivo, olhou de um lado para o outro duas vezes antes de finalmente entrar na estufa. Os dois compartilharam um sorriso cúmplice quando as portas foram fechadas à chave.

— Chá de alecrim com uísque e mel, majestade. — Ele agitou a mão em um floreio exagerado enquanto apoiava a bandeja na mesa em frente a ela. — Mas, por favor, nada de contar para a Hannah, certo?

— Acho que temos um acordo. — Izabel ergueu o queixo, dramática.

— Então… Ouvi dizer que você desmaiou.

Ela o observou dispôr as xícaras sobre o tampo de madeira, uma após a outra, com o mínimo de barulho possível. Julian era sempre silencioso, tranquilo, um sopro de ar fresco. Se os membros da equipe da rainha fossem cômodos do Palácio das Onças, ele seria a estufa em que estavam, com suas enormes folhas de pata-de-vaca e paredes de vidro.

— Não foi um desmaio, só uma tontura. — Izabel contou os anéis nos dedos dele. A prata das joias não ornava com os veios coloridos das louças. — Eu levantei cinco segundos depois, é sério. Foi só… estresse.

— Como sempre.

— Como sempre — concordou, afundando-se no sofá de vime. — A Hannah te pediu para vir aqui?

— Na verdade, não. — Julian contornou a mesa para sentar-se ao seu lado. — Cheguei do Rio faz uma hora e a Zelir me contou. Se você quiser me contar a sua versão, estou aqui.

Lá fora, o sereno da tarde começava a engrossar. O céu havia escurecido, deixando as folhas na estufa com um realce prateado. Izabel pensou nas previsões de chuva para a semana que se iniciava. Gostava das nuvens carregadas e das fortes tempestades, porque, então, o mundo parecia enfrentar o mesmo que ela.

— E aí? — Julian lhe oferecia uma das xícaras, sorrindo.

O filete de fumaça que subia do chá enrolou-se nas narinas de Izabel de forma agradável. Ela saboreou o toque do uísque e do mel e acolheu o gosto morno com deleite. O chá sempre despertava algo familiar em suas entranhas.

— Você sabia que tem gente, um monte de gente, que acha que eu sou uma substituta da verdadeira Izabel de Orleans e Bragança? — Um riso anasalado lhe escapou. A colher que usava para agitar o chá atingiu a parede da xícara com um som irritante.

— A gente já não tinha rido disso? Acho que no ano passado…

— Pois é! — ela o interrompeu, exasperada. — Mas ano passado isso era uma brincadeira sem importância. Agora têm teorias inteiras no Twitter, fotos minhas com jogo de sete erros… A jornalista de ontem me perguntou sobre isso!

— O quê?! — Julian arqueou as sobrancelhas com um espasmo.

— É! — A voz ressoou pelos labirintos de vasos e bancadas da estufa.

Izabel ajeitou-se no sofá com um pulo, fazendo o chá balançar perigosamente para as bordas da xícara. Os dedos apertavam a haste da colher com força. Estava enraivecida, indignada com a lembrança da entrevista.

— O que ela disse?

— Disse que tem uma teoria de que eu morri no coma e que minha mãe colocou uma sósia no meu lugar, para não perder os privilégios. É a mesma coisa que falam no Twitter.

— Então uma jornalista da BBC usa o Twitter como fonte de pesquisa? — Julian riu em tom de deboche, sorvendo o chá.

— Acho que não… Se ela trouxe à tona, essa besteira deve estar sendo levada a sério em algum lugar.

A rainha encarou seu reflexo difuso no resto do chá. O brilho do pingente de cabeça de onça em seu colar cintilava suavemente.

— Quem levaria uma coisa dessas a sério? As pessoas adoram brincar de investigação criminal na Internet. É tudo meme.

Julian levantou-se para buscar taças e uma lata esverdeada no carrinho de serviço. Pela visão periférica, Izabel acompanhou cada um de seus movimentos, tentando ater-se a algo do momento presente. Porém, quando ele retornou para o sofá, seus olhos ainda estavam vidrados na imagem da superfície do chá, que esfriava.

— Quer um pouco de pêssego em calda? — Julian forçou a tampa da lata para aumentar a abertura. Seu sorriso era solícito, empolgado. — Trouxe do Rio. São os seus favoritos!

Izabel inclinou-se para olhar dentro da lata. Os pêssegos eram conchas douradas nadando na calda grossa e brilhante. Pareciam suculentos, mas ela franziu o cenho e apertou as costas contra o encosto do sofá.

— Meus favoritos? — indagou a si mesma.

O sorriso de Julian murchou, dando lugar a uma expressão confusa.

— Sim..? — soou como uma pergunta, como se ele estivesse testando o peso sobre uma fina placa de gelo em um lago. — Bem, eram os seus favoritos, até onde eu me lembro.

Julian a encarou como se procurasse algo em seu rosto ou debaixo dele. Pelo o que confirmavam fotos e papéis de contrato, ele a conhecera cerca de dois anos antes do acidente, contratado por Hannah para integrar sua equipe de assessores. No entanto, apenas depois da mudança para o Brasil é que tinham se aproximado ao ponto de conversas mais sinceras como aquela. Ainda assim, de quando em quando, Izabel tinha a sensação de que havia expectativas a serem cumpridas naquela relação também.

Os dois continuaram se encarando, tentando entender o que acontecia. A rainha torceu os lábios, constrangida. Pela enésima vez desde que despertara do coma, sentiu-se mal, enjoada por não se lembrar da Izabel de antes. Era como trair a si mesma e aos outros, que estavam sempre esperando que ela fosse corresponder a memórias e costumes.

Era realmente como roubar o lugar de alguém.

— Ahn… Tudo bem se eles não forem mais os seus favoritos e você não quiser comer.

Julian fez menção de pôr a lata de lado, mas a rainha o deteve.

— Bem, confio em você. — Ela se esforçou para abrir um sorriso.

Depressa, como se para não se dar a chance de ponderar, buscou um garfo no carrinho de serviço e espetou uma concha de pêssego na lata. Um fio grosso de calda dourada escorreu dela.

— Parecem muito gostosos.

Izabel deitou o pêssego na boca e o mastigou com cautela. De certa forma, esperava que o sabor a transportasse para memórias, para a mente de versões antigas de si mesma que tinham pêssego em calda como uma sobremesa favorita. Semanas atrás, havia assistido a um filme de desenho animado que mostrava a mágica da nostalgia na culinária.

Entretanto, aquilo era a vida real, não um desenho. Não havia garantia de que tudo terminaria bem.

Tudo o quê?

— Perdão. — Julian puxou a lata para si. — Não queria ser grosseiro. Sei que referências do passado te deixam desconfortável.

— Você não foi! — Izabel engoliu o restante da fruta, ávida para reassegurar o amigo. — Não foi, juro! É só que…

Julian pestanejou, atento. A lata foi acomodada sobre a mesa devagar.

— É só que eu não lembro mesmo de detalhes assim. — Izabel levou uma mão à têmpora, massageando a pele. — E aí não posso deixar de achar que os malucos do Twitter têm razão, de que eu sou mesmo uma substituta.

As folhagens mais próximas a eles estavam balançando, e um som de sinos vinha do outro lado da estufa, como um sussurrar. Em algum lugar, uma ou mais das janelas superiores deveria estar aberta. O sereno já havia convergido para chuva, e as gotas gordas fustigavam as paredes de vidro.

— Minhas memórias já deveriam ter se ordenado a essa altura — ela bufou, abraçando as pernas desnudas pela saia. — Mas continuo confusa, lembrando de pouca coisa do antes, precisando que você fiquem me guiando como se isso tudo fosse um grande labirinto e eu estivesse perdendo a visão aos poucos. Não consigo me lembrar de momentos em família, das minhas melhores amigas, do que eu gosto ou deixo de gostar…

“Eu sinto como se estivesse garimpando pertences doados pela Izabel de antes do acidente, pelas Izabel das memórias alheias. Apanhando meias desemparelhadas, experimentando casacos pesados, vestidos transparentes, calças largas demais, calças apertadas demais. Pouca coisa me serve, e o que serve pinica, está manchado, furado, precisando de remendos. E todo mundo acha e aponta esses defeitos antes que eu consiga fazer algo a respeito.

Julian pestanejou, absorto. Ele era como um processador lento, que pesava cada palavra para redesenhar o panorama do problema e compreendê-lo.

Izabel concedeu-lhe tempo para pensar no que dizer. Ocupou-se com outra banda de pêssego e mais chá para controlar a ansiedade. Dentro dela, palavras prontas para serem disparadas como flechas de zarabatana se acumulavam. Pilhas e pilhas delas, como livros em uma biblioteca abarrotada. Pensou no sonho da noite anterior, em que a Izabel acidentada tentava matá-la, inconscientemente levando a mão livre ao pescoço para sentir a correntinha de ouro.

Quem é você?

Não havia sido o primeiro sonho daquele tipo. No entanto, nos últimos meses, aquilo vinha se tornando mais frequente. A psicóloga dizia que era fruto do estresse, uma consequência por Izabel ter começado a utilizar as redes sociais com maior frequência – em vez de deixar isso a cargo da equipe.

Sua mão se ergueu até a cicatriz, completamente à mostra com a franja posta para o lado. A Izabel dos sonhos tinha a ferida. Se ela fosse mesmo uma sósia, teriam os cientistas do Zarina reproduzido as marcas do acidente com tamanha perfeição?

— Se você não lembra das Izabel antigas, por que não cria uma nova?

Izabel assustou-se. A voz de Julian saiu rouca e estranha, como se estivesse surgindo do além. No ar frio da estufa, toda a cena de repente se transformou em algo etéreo.

— Sabe… — O rapaz se ajeitou no sofá. Os olhos verdes estavam voltados para o chão, como se ela estivesse deitada nas lajotas avermelhadas e não sentada bem ao seu lado. — A gente muda o tempo todo, querendo ou não. Mas a nossa essência fica. É como cozinhar arroz, entende. Você pode fazer de diversas formas, mingau, arroz à grega, arroz carreteiro, onigiri, mas ainda vai ser arroz. Não importa como você está vestida, que língua está falando, se antes de você entrar em uma sala todo mundo já sabe seu nome, ou se ninguém liga para quem você é. Não importa se você esqueceu pormenores sobre a vida antes do acidente, Izabel.

Ele se deteve. As mãos ficaram suspensas no ar, como bailarinos congelados no meio de uma coreografia. A respiração estava afoita, entrecortada.

— Você ainda é você no seu cerne. — Julian tomou suas mãos gentilmente. As palavras eram como a chuva contra as paredes da estufa: água cristalina, pesada e fresca caindo a doses largas. — Izabel, você é você, de todo e qualquer jeito. Não precisa se esforçar para caber em roupas que não te servem mais, que não combinam com quem você é ou quer ser… Entende?!

— Sim…

Aquilo era ainda melhor do que o chá batizado ou as bandas de pêssego. As palavras dele eram mesmo água e ela estava sedenta. Estava sedenta há meses sem saber que era aquele tipo de aprovação que desejava.

Eu sou de verdade.

Julian inspirou fundo. Ela o acompanhou. As mãos se apertavam desajeitadamente.

— Você sofreu uma coisa terrível, ninguém pode esperar que continue como era antes. — Ele estava mais calmo, como um rio que voltava ao curso normal. — E por Deus, Izabel! Você é uma rainha, pode ser quem quiser, falar com quem quiser. Sabe onde quero chegar, não?

— A Rainha-Mãe. — Ela sorriu como quem provava algo ruim e precisava fingir que era palatável.

— A própria.

Nenhuma ligação. “(...), mas a bonita só resolveu ir pro hospital duas semanas depois de a Izabel ter entrado em coma”.

— Consegui entrar em contato com o Antônio — Julian sussurrou, como se as plantas pudessem ouvi-los. — E talvez eu esteja muito perto de conseguir falar com a Fatima.

A rainha abriu e fechou a boca um par de vezes e acabou por desistir de dizer qualquer coisa. Em um impulso, atirou-se para tomar Julian em um abraço.

Aquela era mais uma prova de que sua equipe era a luz no fim do túnel. A mãe podia não lhe dar atenção alguma, mas ao menos a deixara em boas mãos. E se Julian não conseguisse encontrar seus afetos do passado, não seria o fim do mundo. A Rainha Izabel já sabia como era ser amiga de alguém.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.