Custódia
2 A outra
No palco do Teatro Nacional Cláudio Santoro, a Rainha Izabel sentia-se uma boneca de biscuit no topo de um bolo malfeito. As palavras vazavam de sua boca automaticamente, enquanto os olhos varriam o espaço. A mente estava ocupada, distante, mas contando os parágrafos que faltavam para encerrar o discurso.
Mais um discurso, mais uma exposição. Ela fez uma pausa breve para não deixar transparecer o tormento.
— A República não foi um erro, o problema era como o sistema era conduzido. — Outra pausa, dessa vez ensaiada, teatral. O olhar dela se fixou em uma das rampas laterais do teatro, vazia e escura. — Ela fez e faz parte de nossa história, então é preciso encará-la de frente, estudá-la. Não podemos viver no passado, mas é preciso aprender com os erros, aprimorar os acertos, recordar o que nosso país viveu. — Izabel oscilou o peso de um pé para o outro. A voz acelerou involuntariamente. — Estudamos o Brasil do passado para construir um país cada vez melhor. Por isso, nesta noite vamos recordar os acontecimentos republicanos, bons e ruins, que serviram de pilares para formar o sistema de governo do qual desfrutamos hoje. Vamos recordar a história do passado hoje, para construir a história do futuro amanhã nas urnas, elegendo diretamente os primeiros prefeitos e vereadores do novo governo brasileiro.
A rainha afastou o microfone pelo púlpito para que pudesse respirar sem ruídos. Então, munida do peso invisível da coroa, ergueu o queixo para encarar os convidados da cerimônia.
As palmas inundaram o teatro em ondas dispersas até se tornarem um uníssono. Izabel contou até cinco mentalmente, sorrindo e acenando com a cabeça suavemente. Tentou não olhar na direção dos flashes da imprensa na borda do palco – quase na mesma altura que ela –, ou da luz forte do projetor principal. Tentou não olhar para dentro de si mesma, das memórias do dia corrido, de Jana Bublitz encurralando-a no quarto do hotel.
Na coxia, Hannah fez sinal para que ela descesse do púlpito.
— Tudo bem, querida? Você foi ótima! — Ela pousou uma mão em seu ombro, protetora. — Só mais uma hora, juro, e aí podemos ir.
Izabel assentiu. Estava aliviada com a perspectiva de deixar Brasília no fim da noite, porém, envergonhada por ser tratada como uma criança sensível demais, perdida demais – uma princesa de brinquedo. Ela, a Chefe do Estado Brasileiro, uma jovem adulta, constantemente amparada pelas amas, treinada para enfrentar os adultos de verdade – que às vezes tinham a sua idade, como a jornalista da BCC.
O Primeiro-Ministro, Luís Alberto, assumia o púlpito novamente para as considerações finais da cerimônia. A rainha o observou gesticular em seu elegante terno de alfaiataria, sobre o que estiveram comentando há apenas meia hora. Luís tinha acabado de completar trinta e sete anos de idade, dos quais vinte foram dedicados à carreira política, sempre pautando os direitos dos negros. Ele se portava com autonomia, era dono da própria história – uma história transparente –, não se intimidava, não precisava ser socorrido de entrevistas privadas ou coletivas.
Izabel suspirou. Não pela primeira vez, desejou o que o primeiro-ministro tinha. Quão mais leve não deveria ser o peso em seus ombros sem um sobrenome monárquico e um histórico familiar obscuro?
Quem é você?
— Alteza? — o primeiro-ministro estava inclinado para ela, sussurrando. À frente deles, a fileira de poltronas do alto-escalão do Parlamento os observava.
— Perdão, o que disse? — Izabel deu um sorriso fraco, apressando-se para ocupar sua poltrona.
— Disse que estamos esperando o seu ok para começar a projeção.
— Ok — ela acenou com a cabeça, aérea.
Luís a fitou por alguns segundos antes de finalmente sentar-se ao seu lado, passando as tranças do cabelo por cima do ombro. Lentamente, as luzes do teatro amainaram, até que restasse apenas os fachos azulados dos projetores.
— Hannah me contou que a entrevista de hoje à tarde não foi… proveitosa.
Izabel apoiou as costas na poltrona, rígida.
— Não, não foi — sussurrou de volta. Uma das mãos buscou o pingente em formato de lágrima entre as clavículas. Ela desejava ter vindo com outro, talvez o de cabeça de onça-pintada, para lhe dar coragem. — A jornalista era um tanto invasiva. Mas é uma coisa da profissão, não é?
Luís manteve-se em silêncio, embora ela pudesse sentir seu olhar perscrutando. Depois da França, dos dez meses em coma com direito a uma cerimônia de coroação, da mudança para o Brasil, a Rainha Izabel tinha poucos amigos na vida, e menos ainda eram aqueles que faziam parte da história de antes da coroa. No entanto, o primeiro-ministro, um de seus novos amigos, valia por pelo menos três, apesar dos laços burocráticos que permeavam a relação. Ela sentia-se à vontade com ele, e Luís a tratava como uma adulta, como sua semelhante – o que era muito, quando a maioria dos parlamentares a via como uma criança inconveniente.
— Nós podemos dar um jeito, se você quiser.
— Não. — Izabel suspirou. Os dedos enroscaram-se na trama de paetês no bordado do vestido. — Não quero censurar a imprensa.
— Mas nós podemos fazer algo se ela distorcer o que você disse — Luís insistiu, calmo.
Ele pôs a mão ornada de anéis sobre o braço da poltrona. Izabel observou a cicatriz rosada no dorso negro, momentaneamente satisfeita consigo mesma por se lembrar da história que Luís contara sobre ela. Lembrar-se de qualquer coisa com clareza era uma dádiva.
— Agradeço, amigo. — Ela ofereceu um sorriso fraco, apertando a mão dele. — Mas acho que essa bomba já está pronta em algum lugar. E se Bublitz for do tipo que não leva desaforos, pode querer se vingar.
— É uma possibilidade — Luís concordou, comprimindo os lábios. — Mas a BBC não tem um viés sensacionalista.
Izabel esperava que sim.
A projeção da Cerimônia do Memorial da República começou junto com o burburinho da orquestra no primeiro plano do palco. A rainha fechou os olhos devagar, respirando fundo.
De súbito, Izabel acordou com uma mão gelada no ombro desnudo. A primeira coisa que seus olhos distinguiram na penumbra do quarto foi o rosto cheio de cortes e hematomas, tão próximo do seu que os narizes estavam a um dedo de se tocar. Ela fez menção de gritar, mas a mão em seu ombro moveu-se depressa para cobrir-lhe a boca e a sua voz desapareceu.
— Não vai conseguir pedir socorro, porque você não tem voz. A sua voz é minha, tudo o que você tem é meu. — Izabel olhou para si mesma, perplexa. — Ladra.
O colchão afundou quando a outra Izabel subiu na cama, fazendo sua respiração falhar.
— Eu sei que não foi sua culpa de verdade, mas você não se incomoda de viver a vida de outra pessoa, não é? Você foi uma cúmplice!— A cicatriz na lateral da cabeça dela ainda era uma ferida aberta, feia, latejante; os fios de cabelo se grudavam ao sangue. — Eu quero a minha coroa, impostora. Quero o que é meu por direito de nascença, porque eu não morri. Estou bem aqui, ainda que minha mãe tenha tentado me matar e te colocar no meu lugar.
Izabel agarrou os pulsos dela, escondidos sob os punhos de um casaco de esquiar coberto de neve. Pela gola aberta do casaco, um pingente dourado balançava violentamente, enquanto a outra esforçava-se para mantê-la com as costas no colchão. Ela reconheceu o pingente: era a cabeça de onça com olhos de rubi, a sua joia favorita.
— É a minha joia favorita, ladra — rosnou a Izabel ferida. Ela estava dentro de sua cabeça, de seus nervos. — Minha joia, minha coroa, minha vida! E você vai me devolver tudo na mesma moeda em que roubou: com morte.
A garganta e os pulmões de Izabel arderam com o esforço de seu grito silencioso. Nenhum som saiu mesmo quando a outra livrou sua boca. Ela pôs uma perna de cada lado de seu tronco e, com os olhos tinindo de ódio, agarrou seu pescoço com as mãos, até as unhas fisgarem a pele. Izabel debateu-se violentamente, mas a força parecia deixar seus músculos e esvair para o corpo gelado daquela cópia vingativa.
— Você tem que me devolver o que é meu!
Izabel sentou-se de um pulo, provocando um baque abafado.
Um zunido incômodo instalou-se prontamente em seus ouvidos, acompanhado pela iluminação âmbar que dominava o ambiente.
— Alteza? — Uma mão enluvada alcançou seu braço, da qual ela se esquivou. A Tenente Deuner, sem o quepe, a encarava com o cenho franzido. — Precisa de alguma coisa? Está se sentindo bem?
A rainha tentou se localizar. Um metro à sua frente, Hannah ressonava em um assento de dois lugares, com a agenda ainda aberta no colo. Ao lado dela, Zelir permanecia acordada, encarando Izabel com preocupação. O zunido vinha do motor do jato, e o baque fora o celular escorregando para o piso acarpetado.
Voo direto para São Paulo, jato particular. O reflexo na janela logo ao lado mostrava apenas uma Izabel, a única.
— Alteza? — a tenente insistiu, devolvendo-lhe o celular.
— Pesadelo? — Zelir fez menção de levantar-se.
Seus olhos vagaram de Hannah de volta para Izabel, de Izabel para a tenente. A mão ergueu-se perigosamente na direção do braço de Hannah.
— Não precisa, Zelir. — Izabel ergueu a mão, enfática.
— Você quer alguma coisa? — Zelir apressou-se para o bagageiro aberto acima do assento delas. — Seu floral? Comprimido para dor de cabeça?
— Nós vamos pousar em São Paulo daqui a vinte minutos, alteza — a tenente assegurou. — Devo solicitar algo para a base?
Devagar, muito devagar, Izabel baixou a mão sobre a mesinha em que estava cochilando. O olhar travou em lugar nenhum. Se recomponha, ela gritou internamente. Se recomponha, sua idiota!
— Estou bem. — Ela escorregou para mais perto do encosto da poltrona, ainda sem focar o olhar. — Só… um pouco cansada.
O zunido do motor preencheu a lacuna do silêncio. De alguma forma, Izabel sabia que as outras mulheres estavam se comunicando, tentando decidir o que fazer com ela.
— Você quer… ligar para a sua mãe? — Zelir sugeriu, de volta ao seu ar de nervosismo.
A rainha deixou escapar um riso seco, que a tirou do transe. Seus dedos tocaram no celular sobre a mesa sem querer. Ligar para a mãe era o que as inspetoras do internato ofereciam para as crianças antes do fundamental quando o choro infundado saía do controle.
— Não, Zelir — soou ríspido, definitivo. Mas ela deu uma última olhada para o celular.
A mãe estava na Normandia, presa em outro fuso-horário, com questões terminantemente mais importantes. Estou cuidando das nossas providências, garantindo válvulas de escape para quando precisarmos. Para a Rainha-Mãe, o papel materno e sua posição política, que pouco valia de maneira efetiva, eram uma coisa só, um negócio.
— A senhora Mariana deve estar ocupada, não vamos incomodar. — Izabel afastou o celular de si, sarcástica.
Não pela primeira vez, Izabel incomodou-se com a configuração de sua família. Os Orleans e Bragança estavam mais para uma empresa do que uma família, mas ainda eram sangue do seu sangue, e isso tinha de significar alguma coisa. Tinha de significar alguma coisa quando ela precisava de colo, de laços íntimos o suficiente para poder desfazer-se das armaduras por completo. Nesses momentos, desejava lembrar-se melhor de como a dinâmica familiar funcionava antes do acidente, como era ser a sobrinha querida de tia Heloisa e ter primos.
“Vocês continuam se comunicando mesmo com essa tensão que foi imposta?”
A última vez que a Rainha Izabel havia estado com um dos parentes fora no feriado da independência. Parentes de segundo grau sorrindo para garantir seus segundos de relevância. Os de primeiro estavam na Europa, e pouco se preocupavam em manter algum contato, o que a fazia se sentir como a portadora de uma doença contagiosa, como se a cicatriz do acidente tivesse cortado metade de seu rosto.
De que adiantava ser tão conhecida, ter tantos funcionários à disposição, se não podia conversar verdadeiramente com ninguém?
— Zelir, pode me servir um pouco de chá, por favor?
— Já estamos quase chegando, e aí você vai poder descansar — Zelir garantiu, prontamente deslizando uma xícara de porcelana para ela.
Izabel concordou em silêncio. Concordaria com qualquer coisa apenas para encerrar o assunto.
Entretanto, o descanso não veio. Mesmo depois de três horas da chegada ao Palácio das Onças, mesmo depois de a rainha ter perdido tempo demais na banheira de sua suíte. Izabel simplesmente não conseguia desligar.
Estava encolhida num canto da sacada do quarto, com o queixo apoiado nos joelhos, desde o banho. O sereno da madrugada já havia molhado o extenso jardim duas vezes, mas ela não se movera. Em algum lugar em seu interior, tinha ganas de descer à cozinha com os pés descalços e servir-se um pouco de chá com um gole de uísque, como aprendera com o tio-avô nos primeiros meses depois do coma. “Para acalmaros demônios”, ele dizia. Porém, atravessar a mansão soava como muita energia a se despender.
— Melhor não — murmurou, encostando a cabeça no guarda-corpo da sacada.
Lá embaixo, a quase duzentos metros de onde estava, um segurança fazia a ronda de costas para a construção principal. Izabel não lhe deu importância, mas dois minutos depois havia outro deles surgindo pela lateral da estufa, ainda muito longe para enxergá-la com o breu da madrugada. Ela arrastou-se de volta para o quarto.
A súbita mudança de temperatura provocou um arrepio por sua espinha, e a rainha tremeu na camisola de poá. Involuntariamente, sua mão escorregou pelo colo enquanto abraçava a si mesma. Izabel caminhou hesitante até o espelho inclinado do outro lado do quarto. A luz do abajur na cômoda logo em frente desenhou sombras em seu rosto, mas as marcas estavam visíveis: riscas vermelhas na pele de seu pescoço, de ambos os lados.
Izabel arregalou os olhos para si mesma.
Quase por reflexo, ela virou-se depressa. Porém, tudo o que havia para ver eram os nuances do dossel da cama ao fundo e das cortinas rendadas da sacada balançando suavemente.
— Você está ficando louca de verdade. — Izabel suspirou, girando devagar para o espelho outra vez. — Muito louca…
As mãos espalmaram o tampo de mármore da cômoda, erguendo-se e voltando à superfície para confirmar a sensação dura e gélida. Eu sou de verdade. Um grunhido ansioso subiu pela garganta de Izabel. Os olhos arderam momentaneamente, sem que ela soubesse distinguir se era do esforço de enxergar na iluminação parca ou de um choro que estava engasgado. E lentamente, a ansiedade deslizou no fundo de seu estômago, ameaçadora, traiçoeira.
— De verdade…
A rainha curvou-se sobre si mesma até que a fronte estivesse colada ao móvel. Contou até cinco, fechou os olhos. Contou de novo, em francês. De novo, em inglês. Desejou poder se lembrar melhor da pronúncia em alemão. “Você falava seis idiomas”, Hannah lhe contara em meio a uma risada, meses atrás.
Izabel escorregou vagarosamente até estar sentada de cócoras. Os olhos ainda fechados, as mãos e a testa pressionadas contra as portas marchetadas da cômoda.
— Izabel Maria Guillermina de Alcântara Rosário de Orleans e Bragança — recitou pausadamente —, vinte e quatro anos. Filha de Dom Cristóvão Pio de Alcântara José de Orleans e Bragança e da Condessa Mariana Josefine Sopieha Comnena de Orleans e Bragança.
Ela suspirou, abrindo os olhos por um instante. Sentia-se como se estivesse estudando para um teste oral no colégio interno e precisasse dos nomes importantes bem decorados. No ensino médio, eram Natália e Fatima quem ficavam até tarde da noite com ela, cada uma em sua cama de colcha xadrez, recitando nomes, funções de células, fórmulas de Física. Havia uma foto das três na mesa de cabeceira do quarto na Normandia, uma cópia naquele quarto também. Mas Izabel sequer sabia onde as amigas – Hannah havia dito que elas eram suas melhores amigas – estavam, como estavam.
— Não.
Ela balançou a cabeça, voltando o foco para o exercício secreto de memória. Era o ritual diário, tinha de terminar.
— No Natal de dois anos atrás, na Áustria, eu sofri um acidente enquanto esquiava com os meus primos. — Os punhos se cerraram contra a cômoda. — Traumatismo craniano, dez meses em coma. Me coroaram Rainha Imperial do Brasil cerca de seis semanas antes de eu acordar. Não consigo me lembrar bem da vida de antes do acidente e as pessoas que fizeram parte dela, inclusive minha família, desapareceram, ou me evitam.
Subitamente, Izabel percebeu que estava sussurrando e sentiu-se um tanto patética. Tinha a impressão de que, à noite, qualquer som tornava-se dez vezes mais alto e de que pessoas invisíveis estavam sempre por perto.
— As pessoas dizem que eu morri e fui substituída. — Um riso enrolou-se em suas cordas vocais. Era um misto de nervosismo e desprezo pelo absurdo.
Contou até cinco, cada número em um idioma, enquanto se levantava. Sob a luz do abajur, a cicatriz amarronzada no canto de sua testa era monstruosa.
— Mas eu me sinto mesmo uma substituta.
Os dedos tocaram a moldura de gesso patinado do espelho. Izabel quase desejou que a outra aparecesse como uma assombração e a puxasse para dentro, trocasse de lugar com ela. E esperou por isso.
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