Cursed
7 Capítulo VI: Conversa Interna
A semana tinha se passado rapidamente, a convivência entre o vampiro e o lobo melhorou após aquela noite na lareira. Eles não conversavam muito, mas era nítido que evoluíram, pois Bakugou parou de fazer caretas toda vez que Shinso se aproximava de si e seu lobo interno vibrava. Acostumou-se.
Aquele dia, era um dos dias que Shinso precisava ficar o dia inteiro no Conselho. Resolvendo problemas burocráticos, dentre outras coisas que ele não queria entrar em detalhes, apenas disse para Katsuki ficar à vontade.
E foi o que ele fez. Preparou seu próprio almoço, limpando toda a louça que sujou e deixando a cozinha limpa. Na sala, sentou-se no centro do tapete, em frente à lareira, e cruzou as pernas na posição de lótus, ficando ereto. Respirou fundo antes de fechar os olhos.
Diziam que para falar com o seu lobo interior precisava acessar seu subconsciente. Ter concentração. Então aquilo seria fácil, Katsuki agradecia por conseguir fazer isso facilmente. Sua mente, aos poucos, desfocava do mundo real e afundava cada vez mais num vazio; até que nenhum som externo era possível de se ouvir.
A vastidão do subconsciente era escuro, mas ainda assim você conseguia enxergar. Era estranho. Diante de si estava seu lobo. Muitos lobos diziam que seu lobo interno era diferente de si; alguns poderiam ser mais velhos do que sua própria idade ou até mesmo mais novos. A sua essência era desconhecida até que tivessem o primeiro contato.
O seu lobo, por outro lado, não parecia ser maduro, como Shinso, mas era possível notar traços de velhice, assim como a alma infantil que carregava. Katsuki não saberia dizer se aquilo era bom.
“Então finalmente resolveu aparecer”, pronunciou.
Ficou surpreso pela voz carregada de sarcasmo.
“Sim.”
Automaticamente suas mãos estavam direcionando para a sua garganta, com aquela doce esperança, mas logo as deixou cair, lembrando que ali eles falavam psiquicamente. Seu lobo ajeitou sua postura deitada, ficando ereto.
“Agora que finalmente decidiu vir até aqui, precisamos conversar seriamente.”
“Como irei recuperar minha voz falando com você?”
Bakugou conseguiu sentir a raiva emanando do outro.
“Não irá, isso dependerá de suas atitudes para com os outros sobrenaturais. O fato de você finalmente ter criado vergonha na cara e parado de me ignorar é um grande passo. Deveríamos ter conhecido Shinso há muito mais tempo, ele é uma ótima influência.”
Não evitou de rosnar.
“Por que você age como uma cadela no cio perto dele?”
A alegria do lobo era intensa.
“A sua falta de informação sobre o motivo do meu comportamento perante a ele é lindo, mas profundamente trágico. Você pode ser um dos lobos mais fortes da instituição, mesmo que não juntemos força, mas certas informações sobre os lobos são apenas transmitidas através desse tipo de comunicação. A escassez que se tornou os lobos hoje em dia é lastimosa.”
“Eu não consigo te entender”, disse Katsuki, num sufoco. Aquilo estava diferente do que tinha imaginado. Seu lobo era maduro demais e não falava diretamente.
“O que temos com o vampiro é um acontecimento extremamente raro entre os lobos. Imprinting. É isso que tivemos com ele. Você sentiria como eu sinto também se tivesse me aceitado há muito tempo.”
“E o que é isso?”
“Descubra sozinho, Katsuki. Sua vinda até aqui não é para falar sobre Shinso, e sim sobre nós. Sua mãe o forçou a me negar, por mais que isso faça o lobo evoluir rapidamente, ignorar-me é imprudente. Juntos tudo fica mais intenso. Dependerá exclusivamente de cada alma que o lobo carrega dentro de si. Uma alma jovem não carrega experiências; mas você me tem. Você faz pouco caso de suas habilidades, sua audição é melhor do que isso, seu olfato, tudo.”
“E por que ninguém mais escuta seu lobo interno?”, retrucou raivoso.
Em um breve silêncio, o lobo respondeu:
“É uma faca de dois gumes”, suspirou. “Me aceitando, tudo fica mais intenso, até suas emoções. Controlá-las é a chave. Existiu muitos momentos da história em que lobos em harmonia morreram rapidamente. Porque os sentimentos deles os consumiu até a morte. Quando nos ligamos a alguém e essa pessoa morre ou até mesmo nos trai, a dor que sentimos é intensa e, sem controle, morremos.”
“Em outras palavras: juntos somos fortes, mas fracos.”
“Apenas se não tiver controle de suas emoções. O que é o seu caso, Katsuki. Sua mãe o pressionou tanto que você carrega traumas, fechou-se demais. E me aceitando poderia levá-lo à morte rapidamente, porque tudo o que você deveria sentir desde criança, eu senti, e quando nos tornarmos um só, você sentirá tudo isso de uma única vez. Todas as emoções que você reprimiu ao longo de sua vida irão rebater em você com força.”
“Minhas escolhas são aceitá-lo, possivelmente morrendo no processo, ou ficar sem voz. Que perfeito”, zombou de si mesmo.
“Não totalmente”, respondeu o lobo, deitando-se.
“O que você quer dizer?”
“Me aceitando, existe a possibilidade de você sobreviver… Com Shinso por perto a dor será menor.”
“Como assim?”
“Ainda é cedo para isso, mas terá que confiar em mim. E isso é um passo importante.”
“Você pede confiança, mas não me conta tudo. Como posso confiar em você?”
“Ainda sou uma parte sua, mesmo me negando. E eu quero apenas o seu bem. Você está num momento da sua vida que deseja evoluir para alguém melhor. Essa informação iria encher a sua cabeça. E não é momento ideal; mas prometo que quando recuperar a sua voz, contarei.”
“Certo”, sussurrou.
Se queria mudar, precisava confiar, mesmo que a voz de sua mãe, bem no fundo de sua mente, gritando consigo sobre os erros de aceitar seu lobo. Mas admitia que ele tinha razão, ignorou tantas coisas de sua vida, tudo o que ele carregava dentro de si era raiva, ganância; mas agora, nessas circunstâncias, ele sentia medo, frustração.
“Quando sentir a nossa conexão, a conexão com o mundo, entenderá e verá as coisas de uma forma diferente. E perceberá os sentimentos daqueles que você magoou com a sua ignorância.”
Katsuki olhou profundamente para o lobo, entendendo perfeitamente a carga daquelas palavras.
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