Cursed
4 Capítulo III: Pequenas Complicações
Bakugou olhava para o papel à sua frente, crispando os lábios; estava visivelmente frustrado, Shinso notou isso e estranhou. Cruzou os braços, escorando-se sobre a mesa.
— O que houve? — indagou, olhando-o seriamente.
Suspirando, o lobo olhou do papel para o vampiro; os olhos arroxeados que pareciam ser magnéticos, seu lobo interno vibrava com esse olhar intenso. Mordendo o lábio voltou a olhar para baixo, sabia exatamente que se escrevesse realmente o que está ocorrendo iria complicar as coisas. Pegou a caneta e escreveu rapidamente, mostrando em seguida para o mais velho, que, antes de ler, permaneceu olhando para o lobo, como se quisesse ler a alma dele. Desviando o olhar para o bloco, entendeu perfeitamente o olhar do lobo.
“Era em uma língua que eu não conheço”
— Não se preocupe — disse, levantando a cabeça e sorrindo de canto; querendo tranquilizar o loiro. De fato, Bakugou não precisava se preocupar, já que Shinso é o mais antigo membro do Conselho, com todos os seus anos de experiências, ele certamente iria saber sobre a língua proferida pela fada e, mesmo que não soubesse, seria fácil saber devido a sua biblioteca particular que mantinha escondida até mesmo do Conselho — não confiava nos outros membros, assim como jamais saberia quando um corrupto entraria lá, prova disso foi a própria Fada Negra banida.
“Como assim?”, perguntou Bakugou, no papel. Quando leu, Shinso sorriu ainda mais, atiçando o lobo interno do loiro que queria mais daqueles sorrisos.
— Eu possuo conhecimento em várias línguas antigas, não teremos problema em descobrir exatamente o que ela proferiu contra si — explicou calmamente. Bakugou piscou algumas vezes antes de acenar, desviando o olhar em seguida. Diferente de seu lobo não gostava daquele olhar. — Então — chamou a atenção do outro —, eu preciso que você escreva mais ou menos o que ela disse, tente descrever os sons, mesmo que erre teremos uma base para saber exatamente que língua é.
Mordendo o lábio, Katsuki apertou a caneta em suas mãos. Sua mente deu várias voltas; o que exatamente ela disse? Quais eram os sons? Não conseguia se lembrar, seu corpo estava cheio de adrenalina naquele momento, estava fervendo de ódio, mesmo que tivesse ficado hipnotizado com a fala dela, era como se não tivesse absorvido nada.
Hitoshi permanecia encarando o lobo, um pouco mais afastado para que não acabasse pressionando-o demais; no entanto, ele notava a frustração dele. E aquilo não parecia ser algo bom, principalmente quando sentiu cheiro e notou o sangue escorrendo pelo lábio inferior do loiro, que nem sequer reparou de tão alheio que se encontrava. Suspirou, aproximando-se dele. Depositou sua mão sobre a do loiro, conseguindo tirar Bakugou de seu mundo e tendo assim a total atenção de Shinso.
— Você está tenso demais — disse o arroxeado. — Fique calmo, não fique se pressionando, isso acaba prejudicando suas condições. — Bakugou engoliu seco, estava a mercê. — Eu compreendo que talvez se lembrar da fonética seja complicado devido ao momento que ocorreu, mas, acredite, nossa memória é incrível. Feche os olhos — pediu. Bakugou franziu o cenho. Suspirando, Hitoshi pediu novamente: — Feche os olhos, confie em mim. — Sentiu um arrepio subir, mas mesmo assim Bakugou fechou os olhos, não podendo ver o sorriso casto que o vampiro deu. — Isso! Agora, tente se lembrar exatamente dos acontecimentos daquele dia; seus passos, os sons que o ambiente reproduzia, os batimentos cardíacos, as respirações… visualize tudo isso em sua mente calmamente, não force, deixe-a fluir livremente — sussurrava, deixando-o calmo o suficiente para inspirar profundamente antes de soltar a respiração e passar a lembrar dos acontecimentos daquele dia.
Mesmo que a voz do vampiro ainda invadisse a sua mente deixando-o tanto ele quanto o seu lobo inebriado, conseguiu se concentrar. Mesmo odiando aquele tipo de poder sobre si, tinha que concordar com o seu lobo interno que o vampiro era… nem possuía palavras para descrever; era diferente. Mesmo quando saia com outros sobrenaturais seu lobo não ficava agitado daquela maneira, tudo envolvia, apenas, sexualmente, mas com o membro do conselho era diferente; seu lobo insistia em estar por perto, não havia instintos sexuais, era algo a mais que não sabia o que era e nem queria tentar entender.
Ao abrir os olhos, deu de cara com a cor roxa de Shinso. Engoliu seco, afastando-se e passando a escrever mais ou menos como ele tinha entendido a língua. Hitoshi também se afastou, mas estava curioso; fazia tempo que não ficava daquele jeito. O lobo interno e o próprio loiro despertaram o seu interesse, jamais tinha visto aquele tipo de situação: Conflito interno.
Ao entregar o bloco de notas, Hitoshi leu, franzindo o cenho logo em seguida. Bakugou mordeu o lábio não sabendo se aquilo era um bom sinal ou não, assim como talvez ele tivesse entendido tudo errado do que a fada proferiu.
Suspirando, o vampiro murmurou:
— Talvez tenhamos um problema. — Bakugou arregalou os olhos, escutou o suspiro que o outro deu antes de encará-lo. — Eu não tinha ouvido essa língua antes, teremos que fazer algumas pesquisas. — Notando em como o lobo queria dizer algo, entregou o bloco.
“E onde pesquisaremos? Se é uma língua que você não sabe, certamente os outros membros do Conselho nem sonharam com ela”
Sorriu de canto.
— Isso é óbvio, eles são uns bando de inúteis. — Foi a vez de Bakugou sorrir, prendendo a atenção de Shinso, pois era a primeira vez que vislumbrou aquele sorriso alegre nos lábios do lobo. Mesmo sendo um momento rápido, seria algo que Hitoshi guardaria em sua memória.
“O que faremos agora?”
— Hummm — murmurou, passando a mão no queixo. Hitoshi sabia exatamente onde procurar, mas a questão era se conseguia confiar o suficiente em Bakugou para levá-lo a sua biblioteca particular.
Shinso não confiava facilmente, aprendeu isso da pior maneira possível. Ainda se lembrava da antiga era, antes da construção do Conselho, quando os sobrenaturais viviam em guerras pela busca de terras e poder; Hitoshi foi o único sobrevivente da família Shinso daquele fatídico dia, o dia em que confiou em alguém. Era por isso que ele compreendia Bakugou em se manter solitário, mas ele fazia de forma errada, só porque não confia não signifique que precise ser superior aos outros.
Ainda se lembrava dos acontecimentos daquela época; quando, no fim de tudo, após tantas mortes, as famílias principais de cada espécime resolveu criar o Conselho, terminando assim a Era de Conquistas. Um curto suspiro escapou pelos seus lábios quando sentiu seu peito apertar com as lembranças.
Meio submerso em suas memórias, não notou a careta de raiva do lobo em sua frente, tentando chamar a sua atenção. Até que a curta paciência do loiro foi pelo ares e ele socou rosto do vampiro, que mal movimentou, mas foi o suficiente para fazê-lo acordar e massagear sutilmente seu rosto.
Reparou bem na expressão estressada do lobo e soube que deixou sua mente ir longe, suspirou outra vez.
— Desculpe — murmurou.
Bakugou gesticulou, querendo saber o que fariam a seguir.
Shinso ainda não sabia o que fazer; bom, ele sabia, mas estava num impasse.
— É um pouco complicado — resmungou, fazendo uma careta pelo olhar do outro; sempre tão irritado. Mordeu o interior de sua bochecha, ponderando. Seguiu o loiro pelo olhar, vendo-o escrever furiosamente no bloco de notas e mostrar para si.
“O que é complicado, vampiro? Diga logo!” Além da expressão era possível ver a raiva no pedaço de papel, já que o lobo fez questão de traçar riscos embaixo do diga logo, Bakugou tinha riscado com tanta raiva que chegou de rasgar um pedaço do papel.
O que iria fazer? Não poderia deixar Bakugou sozinho enquanto pesquisava, mas também não poderia levá-lo até lá… ou poderia?
Mordeu o lábio, ponderando mais uma vez. Estalou a língua, com raiva.
— Foda-se — balbuciou para si mesmo, olhando para o teto. Suspirando outra vez, passando a mão pelo seu rosto antes de encarar Bakugou. — Tem um lugar que iremos conseguir a resposta que queremos. — Isso alegrou o loiro. A única coisa que passou na mente do arroxeado foi que não tivesse feito a escolha errada.
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