Cursed
1 Cursed | day 25 childhood friends
Notas iniciais
Shouto estava sentado perto dos trilhos metroviários, o olho cinza fixo no voo irregular da cigarra que migrava de folha em folha, e o outro escondido por ataduras e gazes. De todos os lugares, a antiga estação era o favorito do bicolor, pois ficava longe da movimentação da cidade. Porém, de vez em quando, algumas crianças o seguiam apenas para maltratá-lo, julgado pela aparência distinta e sobre a falta de emoções.
Desde que as memórias tornaram-se significativas, não lembrava de possuir qualquer sentimento, estava adaptado ao vazio. Ele não se comovia com machucados, com perdas ou qualquer emoção que lhe fosse dirigida ou interpretada, Shouto apenas não sentia e compartilhava afeto.
— Ali está, o garoto de gelo!
A criança não fez questão de identificar quem eram seus agressores, preocupado em proteger o rosto com os braços magrelos.
— Ele tem a marca do demônio no rosto! — Pedras e galhos açoitaram as costas, enquanto as vozes tornavam-se mais altas e raivosas atrás de si. — Você vai apanhar até chorar, aberração!
Shouto não sentiu dor ou raiva das outras crianças, apenas permaneceu com a proteção sobre a cabeça.
Demônio.
Touya, o irmão mais velho, sempre chamou Enji de demônio, até que morreu sobre o aperto furioso das mãos do ruivo. Shouto pensou que também poderia matar aquele garoto, exatamente como o pai fez, já que também era uma criatura amaldiçoada.
— Vamos!
O mundo quase parou de girar, quando a mão quente o segurou em torno do braço, puxando-o pelo caminho de trilhos.
A criança surgiu tão rápido, quanto o movimento da cigarra.
— O que você está fazendo? — questionou, arrastado pelo caminho de trilhos.
— Salvando sua vida, idiota!
Salvar?
O olhar fixou-se na cabeleira loira, que mesmo na tarde de nuvens acinzentadas, brilhou na intensidade do sol.
Shouto lembrou-se do hospital e dos médicos em torno da cama hospitalar. Eles disseram que não poderiam salvá-lo da cicatriz, que não havia como recuperar a pele derretida pela água quente. Sua mãe também disse que era culpada, que não o salvaria, e desapareceu nos corredores do hospital.
— Você não pode me salvar. — disse o mesclado, com voz atordoada. Ele forçou o corpo para trás e afastou o braço para longe do toque desconhecido. — Me solte!
O garoto girou o corpo, e Shouto foi pego de surpresa por olhos grandes e vermelhos.
— Eu fui seu herói! — Katsuki coçou o nariz com o indicador e ergueu o queixo, mostrando-se insatisfeito com a reação do outro. — Você tem que me agradecer, meio a meio!
— Herói? Agradecer?
— É! Tipo Batman, sabe? — O loiro deu um passo para frente e apontou o indicador para o curativo. Shouto recuou, concentrado para não cair nas britas e tábuas do trilho, incomodado com a aproximação. — Você não viu que te salvei? Esse olho não funciona direito?
Quando ele se acercou, Todoroki inclinou a cabeça e fitou o chão. O coração disparou ao sentir os dedos sobre a bandagem, e a cicatriz queimou pela segunda vez sobre a face.
— Meu olho funciona, só que… — suspirou, confuso com a trepidação dos batimentos. — Ele é feio.
Katsuki deu mais um passo, e com as duas mãos, começou a retirar a proteção do olho. Shouto ficou desconcertado, fez mensura com os braços para afastá-lo, mas o movimento morreu ao lado do corpo.
A atadura caiu, e depois de longos segundos, o loiro disse:
— Nossa, você é mais incrível do que os heróis!
Os olhos heterocromáticos foram recebidos com genuína admiração. E, pela primeira vez, o bicolor sentiu alguma coisa esquentar dentro de si, a ponto de deixá-lo febril.
— Você não está com medo? Nojo da minha cicatriz?
— É claro que não. — Katsuki ficou mais perto e Shouto sentiu o calor da respiração sobre a franja, que misturou os fios de duas cores. — Depois de uma grande vitória, os heróis sempre aparecem com cicatrizes! — Com as mãos, sustentou o rosto do mesclado pelas bochechas e parou milímetros para observá-lo, boquiaberto com o par de olhos ímpares. — Seus olhos são super-poderosos!
Naquele instante, Todoroki descobriu que não estava quebrado ou doente, pois sentiu-se vivo dentro das palmas de Bakugou. E desde aquele momento, os dois tornaram-se amigos inseparáveis.
[...]
— Estamos fodidos! — Katsuki sentou-se no banco e apertou o volante com força, que rangeu no silêncio da noite. — Estamos com o cadáver do seu pai na caçamba, Shouto.
— Estou livre. — O bicolor ajeitou o cinto sobre o peito e inclinou-se até o namorado, puxando-o com as mãos, para que olhasse em seus olhos. — Obrigado por nunca me abandonar, Katsuki.
Ele beijou os lábios de Bakugou e sorriu sereno, como se os dois estivessem indo para a lua de mel. O loiro sabia o quanto aquilo era errado, desconexo, mas nada era mais gratificante do que observar Todoroki sorrir.
Desde criança, ele prometeu que nunca o abandonaria, mesmo que isso significasse assassinar Enji com um tiro de pistola no meio das costas. Não era honroso, mas entregou o presente mais almejado para o bicolor, sua liberdade.
Agora os dois estavam dentro da picape, prontos para enviar o diabo para o inferno.
Fale com o autor