Cursed
2 Childhood
Notas iniciais
Vamos começar com um não tão breve relato dos meus primeiros anos de vida. Eu sou filho único de Ambrosius e Amalia Malfoy. Meus pais foram criados juntos e sempre se deram muito bem, por isso o anúncio do noivado de ambos, não foi surpresa para a família. Sim, mesmo que isso fosse fora do comum à época, o casamento dos meus pais não foi arranjado, eles realmente gostavam um do outro, o que na realidade me faz pensar ainda mais na santidade de minha mãe por ser capaz de gostar de uma criatura como meu pai. Ambrosius é irmão mais novo do popularmente conhecido, e morto por varíola de dragão, Abraxas Malfoy. Sendo meu pai irmão caçula, teve que crescer e fazer sua riqueza pelos próprios méritos, já que não podia contar com a tal herança.
Eu nasci em Oxfordshire, no dia 29 de novembro do ano que não vem ao caso. Sou mais novo que aparento e mais velho que você pensa. Conforme o desenrolar de minha história, talvez você acabe por descobrir minha idade. Meus pais nunca tiveram interesse em ter filhos, por isso eu não tenho irmãos ou irmãs, porém como era a obrigação do casal reproduzir, aqui estou. Minha mãe era bastante carinhosa e atenciosa comigo, nas duas horas diárias que passávamos juntos*. Porém ela ficava irritadiça e desequilibrada quando o horário se estendia. Já meu pai... Bem, digamos que ele preferia sair caçar com os amigos a passar mais de uma hora com uma criança. A maior parte de minha infância, passei com Mary Carson, uma bruxa irlandesa com seus quarenta anos, de cabelos e olhos cor de avelã, que foi minha tutora e babá. Meus pais, sendo membros ativos da alta sociedade bruxa inglesa da época, não tinham muito tempo para ficar lendo histórias ou brincando comigo, por isso eu tive a companhia da Sra. Carson até os onze anos, quando entrei em Hogwarts.
Durante a primeira infância, eu fui uma criança silenciosa. Eu costumava brincar com brinquedos de madeira de montar, trazidos da Irlanda pela Sra. Carson. Andei cedo, com menos de um ano de vida e falei com quase uma ano e meio. Minha babá dizia que eu demorei tanto a falar, porque preferia ouvir o que os adultos tinham a dizer. Ela costumava dizer que, depois que eu disse minha primeira palavra, “chá” diga-se de passagem, eu despontei num vocabulário estranhamente completo e complexo para alguém tão jovem. Cresci ouvindo as histórias infantis tradicionais de Beedle, o Bardo. Minha preferida era O Coração Peludo do Mago, onde um jovem bruxo tinha recorrido à magia negra para não se apaixonar.
Morávamos próximo à cidade de Thame, Inglaterra. Nossa casa sempre foi muito grande e cheia de cômodos em que meus pais passavam anos sem visitar, ou seja, um prato cheio para uma criança curiosa e uma babá que incentivava todas as explorações possíveis. Porém, aos quatro anos de idade encontrei a biblioteca da casa, onde passou a ser o meu espaço favorito do mundo inteiro. Lá descobri os livros mágicos de meu pai, com figuras que se mexiam. Eu não entendia muito bem do que eles se tratavam, mas passava horas a fio folheando um livro após o outro. Com ajuda da Sra. Carson, que percebeu meu interesse, eu comecei a aprender as letras, juntar sílabas, desenhar os fonemas e por fim, próximo aos meus cinco anos de idade, já havia aprendido a ler e escrever. Em meio aos livros bruxos tradicionais, a Sra. Carson me trouxe alguns livros de literatura trouxa e que eram o nosso segredo. Logo era eu quem lia os contos de fadas para minha babá que ouvia, orgulhosa, o resultado de meus esforços. Foi ainda por essa época que a magia despertou em mim: as prateleiras mais altas, ficavam os livros de magia avançados de meu pai. A Sra. Carson me dizia, que eu só poderia lê-los quando eu conseguisse pegá-los, portanto, eu concentrei tanto minhas forças naqueles volumes que eles vieram flutuando até mim. A partir desse episódio, minha babá passou a me ajudar a administrar minha magia, para que eu pudesse controlá-la e para que ela não corresse o risco de sair do controle.
Quando a Sra. Carson contou aos meus pais sobre o meu interesse por livros e de minha magia despontada, meus pais ficaram incrédulos com meus feitos e decidiram que em breve seria a hora de eu ter minha primeira varinha. Houve discussão por parte dos meus pais, já que minha mãe dizia que eu só poderia ter minha varinha quando a carta de Hogwarts viesse; já meu pai, queria que eu ganhasse minha varinha já no dia seguinte. Enquanto isso, a Sra. Carson e eu ficávamos olhando de um lado a outro, envergonhados pelas exaltações de ambos. Por fim, fora decidido que “a Babá”, como meus pais a chamavam, continuaria a me ensinar e que eu ganharia minha primeira varinha quando completasse sete anos.
Quando fomos dispensados por meus pais e já estávamos a uma distância segura, protestei:
— Não quero esperar mais dois anos para ganhar minha varinha! É muito tempo!
— Não posso questionar as decisões dos senhores seus pais, Mestre Marcus. Mas como já dito, posso te ensinar.
— Você estudou em Hogwats? – Perguntei sem rodeios.
— Mas claro, garoto. – Ela disparou, sem formalidades.
— Em que Casa? – Eu estava interessadíssimo no assunto.
— O jovem Mestre se tornou um jovem curioso? – Ela questionou, enquanto abria a porta da biblioteca e me deixava entrar.
Eu corri e me sentei na mesma poltrona grande e confortável de sempre, fazendo sinal para que ela se sentasse à minha frente:
— Em que Casa? – Eu insisti, impertinente.
— Certo. Vou te responder, Mestre Marcus. – Ela disse em tom sério. – Mas seja educado, está bem?
— Sim, Senhora Carson... – Eu percebi os maus modos e corei de vergonha. – Me desculpe...
— Tudo bem, garoto. – Ela sorriu, indicando que tudo realmente estava bem – Sim, eu frequentei Hogwarts, na Casa Corvinal.
Eu processei a informação por alguns momentos e disse:
— Não é a Casa dos mais espertos?
— É sim. – Ela me respondeu enquanto agitou sua própria varinha.
— O que você fez? – A curiosidade era maior que os bons modos.
— Um feitiço convocatório. Trouxe um presente para você.
Meus olhos brilharam. Até os dias de hoje, ainda gosto de ganhar presentes.
— Se você fez parte da Casa dos mais espertos, por que você é minha Babá ao invés de ter um cargo respeitado dentro do Ministério da Magia, ou ser famosa por criar ou descobrir alguma coisa?
— Pelo simples fato de seus pais pagarem melhor do que o Ministério, Mestre Marcus.
Ela sorriu um sorriso travesso, quando um pacote simples e bonito entrou pela porta e pousou graciosamente em seu colo:
— Aqui está, querido. – Ela me entregou o embrulho – Espero que goste.
Eu rasguei o papel de forma voraz, e encontrei um livro intitulado "Hogwarts, uma História". Abracei o livro que cheirava a novo e agradeci à Senhora Carson, enquanto ouvia o que ela tinha para falar:
— Esse livro conta a história de Hogwarts, como diz o título. É bom você conhecer um pouco das origens. É claro que a escola tem muitos segredos, sabe. E eles estão lá para serem desvendados, basta você querer! – Ela se levantou e pousou a mão sobre minha cabeça – Vou até a cozinha verificar em quanto tempo o jantar será servido.
O livro continha uma pequena dedicatória na contracapa que dizia:
Mestre Marcus,
Essa é uma pequena fração do que realmente há na escola. Hogwarts está lá para ser descoberta. Dê o seu melhor e nunca deixe sua curiosidade morrer.
Com carinho
Mary Elizabeth Carson
PS: O espírito sem limites é o maior tesouro do homem.
Posso dizer com segurança, que desse dia em diante, esse passou a ser meu livro de cabeceira. Perdi a conta de quantas vezes o li e reli, procurando detalhes e coisas que mais ninguém jamais tivesse percebido.
Nos dois anos que me separaram de minha varinha, eu aproveitei cada segundo das lições que a Sra. Carson me dava sobre magia.
Finalmente o dia chegou. Era meu sétimo aniversário e eu estava tão ansioso que mal dormi a noite. Quando desci para tomar café da manhã, para minha decepção, não encontrei minha tutora. Apenas meus pais. Quando questionei cuidadosamente sobre a Sra. Carson, minha mãe respondeu:
— Ora, querido hoje é uma data importante, vai ganhar sua primeira varinha e...
— Sua mãe tem razão – Meu pai interveio, revirando os olhos – Esse momento é da família e não será necessária a presença de uma Babá qualquer.
— Mas ela é minha amiga! – Protestei, de cara emburrada.
— Ela é sua babá e tutora. – Meu pai retrucou com firmeza – E é o máximo que sempre será.
Ele visivelmente estava perdendo a paciência.
— Marcus, querido – Minha mãe disse com uma meiguice forçada na voz – A Sra. Carson também precisa de uma folga. Deixe que ela descanse por hoje. Vai ser divertido! E depois de comprarmos sua varinha, vamos almoçar na casa de seu Tio Abraxas, onde poderá mostrar seu presente à Lucius.
— Eu não quero ir na casa do Tio Abraxas. O Lucius é chato. – Eu disse, entre um bocado de pão e um gole de chá. – Além do mais, desde que minha tia caiu doente, o lugar cheira a morte.
O tapa veio antes do aviso. Naquela época, a mão de meu pai era quase do tamanho do meu rosto todo. Minha cabeça fez um movimento de estilingue e senti o chá que eu bebia subir e escorrer pelo nariz:
— Já chega, Marcus! – Meu pai disse, mantendo o tom de voz impassível – Ou você vai conosco, ou vai ganhar a maldita varinha quando chegar sua carta de Hogwarts. Entendeu?
Quando olhei para minha mãe em busca de apoio, ela olhava fixamente a própria xícara vazia. Eu claramente havia perdido aquela batalha:
— Sim senhor, papai. – E terminei meu café da manhã em silêncio e sentindo internamente o cheiro forte do chá Earl Grey das narinas até a garganta.
Fomos até a lareira e usamos a rede de Flu para chegar ao Caldeirão Furado. Minha mãe nunca gostou de aparatar. Anos mais tarde descobri, que raras as vezes de ela ter feito uma aparatação de sucesso, sem deixar uma parte do corpo para trás.
Quando saímos da lareira do estabelecimento, mamãe fez careta, pois ela dizia que O Caldeirão Furado era frequentado por ralé e fedia a sangue-ruim. Na época, eu não era familiarizado com esse termo e me questionei, seriamente, como minha mãe sabia só pelo cheiro quem tinha "sangue-bom" e quem tinha "sangue-ruim". Também me perguntei se o meu próprio sangue era bom ou ruim. Como naquela época, eu ainda tinha um pingo de bom-senso (que se esvaiu com os anos), eu decidi que guardaria esse questionamento para a Sra. Carson.
Atravessamos o pub e a barreira que o separa do Beco Diagonal.
— Sempre movimentado... – Reclamou meu pai.
— Vamos lá, Ambrosius. Isso não é nada perto da época de comprar material para Hogwarts! – Minha mãe ria nervosamente.
— E é por isso que eu nunca fazia as minhas compras. Sempre mandava um criado. – Meu pai declarou, encerrando o assunto.
Era a primeira vez que eu visitava o Beco Diagonal e estava encantado. Passamos direto pela construção de mármore branco, o Gringotes, e ouvi meu pai resmungando para a minha mãe que ir ao banco não era necessário. A rua toda era incrível: aquelas lojas e vitrines coloridas, com produtos exóticos em anúncio, a sorveteria, os restaurantes, a sede d'O Profeta Diário e tudo mais que o centro britânico de comércio mágico tinha a oferecer. Eu queria ver tudo, entrar em todas as lojas, mas era arrastado rua adentro pela minha mãe, que segurava firme em minha mão.
Finalmente cheguemos à uma loja de médio porte com os dizeres "Olivaras Artesão de Varinhas de Qualidade desde 382 a.C." Meus olhos brilhavam de felicidade e eu estava tão eufórico que esqueci da desavença com meu pai há poucos minutos atrás. Quando entramos, fomos recebidos por um senhor de cabelos brancos e olhos azuis perturbadores. Ele recebeu meus pais, como se fossem velhos amigos:
— Ambrosius! Amalia! Sejam bem-vindos! Como estão essas varinhas? Salgueiro, 27 centímetros, quebradiça, pena de fênix — ele disse para minha mãe e logo virou-se para meu pai – Bordo, 25 centímetros, rígida, varinha experimental feita com fibra cardíaca de grifo. Pelo visto funcionou bem. — E sorriu do próprio sucesso.
Eu me admirei da memória do velho e de sua audácia, por falar com meus pais daquela forma. Quando dei por mim, aqueles olhos me encaravam, como se pudessem ver todos os meus segredos de criança. O velho não esperou resposta ou reação de meus pais e logo se dirigiu a mim:
— E você deve ser o jovem Senhor Malfoy... — Ele deu a volta no balcão e se aproximou tanto de mim que seu nariz ficou a centímetros do meu rosto. — Muito prazer, eu sou o Senhor Olivaras e você é?
Instintivamente dei um passo para trás e estendi a mão antes de responder:
— Marcus... Marcus Malfoy.
O Sr. Olivaras aceitou meu cumprimento e sorriu. Quando olhei para trás, buscando aprovação dos meus pais, percebi que eles já haviam se acomodado nas cadeiras próximas à porta e sequer prestavam atenção no que estava acontecendo. Olhando para o fabricante de varinhas de novo, percebi que ele se afastou de mim na distância de um passo e, com a mão no queixo e expressão de pensador, me analisava como se eu fosse uma coisa curiosa que ele nunca tivesse visto. Depois de alguns longos segundos se análise, falou:
— Muito bem, Senhor Malfoy. Fique parado.
Olivaras agitou a própria varinha e eu fui medido o quanto é possível por uma fita métrica: braços, pernas, cabeça, cintura, quadril. Por um momento esqueci o real intuito daquela loja e me senti visitando um alfaiate extremamente exigente. Depois de terminar com as medidas, apoiou no balcão e, com olhos curiosos, disse:
— Então, jovem senhor Malfoy... Conte-me mais sobre você.
Prontamente, com o me foi ensinado, respondi:
— Meu nome é Marcus Malfoy e completo sete anos hoje. Gosto de ler livros bruxos e alguns autores trouxas. – Revelei a última parte da informação quase em sigilo – Tenho uma Babá, que é minha melhor amiga, e não vejo a hora de ir para Hogwarts e conhecer mais pessoas da minha idade, que não seja o chato do meu primo.
— Entendo. Já é o suficiente. Aguarde um momento...
Ele entrou loja adentro e foi logo trazendo várias caixinhas compridas. Cada uma trazendo uma preciosa varinha mágica. Me entregou uma deles é disse, sem rodeios:
— Sabugueiro, 30 centímetros, cerne de pêlo de unicórnio, macia. Experimente!
Mas antes que eu pudesse sequer sentir a varinha, vi minha mãe caminhando exasperada para a nossa direção:
— Sabugueiro? Nem pensar! Essas varinhas dão azar a seus donos.
— Amália – O Senhor Olivaras disse, como se estivesse falando com uma criança mais nova que eu — Isso é um mito. Uma superstição boba. Deixe o garoto tentar.
Eu nunca cheguei a entender como o velho Olivaras nunca foi mutilado por falar daquela forma aos meus pais. Quando peguei o pequeno instrumento nas mãos e o agitei, tudo pareceu errado, já que nada aconteceu. O Senhor Olivaras tirou a varinha da minha mão e prontamente trouxe outra caixa:
— Tente essa, meu rapaz — Ele tirou uma bela varinha de corpo marrom escuro e à luz, exibia um belíssimo tom avermelhado. “Cor de beterraba”, pensei com toda a sabedoria que um garoto de sete anos poderia ter – Mogno, 32 centímetros, cerne de fibra cardíaca de dragão, maleável.
Quando toquei naquela varinha, sabia que seria a ideal. Um calor agradável percorreu meu braço e envolveu meu coração. Agitei-a e o resultado foram estrelas saindo de sua ponta.
— Bravo! – Exclamou o artesão – Que rápido, jovem Malfoy. É uma excelente varinha essa que te escolheu.
— Me escolheu? – Eu disse, sem entender – Mas é o meu pai que vai pagar por ela.
— Ora, nunca te disseram que é a Varinha que escolhe o bruxo? – Fiz que não com a cabeça – Entendo. Bem, o senhor poderia ter ficado horas, até dias aqui procurando uma varinha que se adequasse ao senhor. Mas não poderia jamais, levar qualquer uma. Entendeu?
— Acho que sim. – Respondi, ainda matutando sobre a informação, enquanto meu pai pagava ao fazedor de varinhas. — Muito obrigado, Senhor Olivaras.
— Eu é que agradeço. – Ele sorriu, bondoso — Cuide bem dela.
Antes que eu pudesse responder, me senti arrastado para fora da loja e para fora do Beco Diagonal. Mas eu estava tão feliz por ter minha varinha que não me importei com a pressa dos meus pais.
Apenas quando entramos na lareira d’O Caldeirão Furado e saímos na Mansão Malfoy é que meu sorriso se desfez: eu me esqueci completamente de que íamos almoçar com meus tios e lá estavam os três nos esperando: Tio Abraxas, como bom anfitrião estava parado em pé, de costas retas, com Lucius ao seu lado, tentando imitar a pose do pai. Minha tia, de saúde frágil, sentava elegantemente na ponta de uma poltrona feminina.
Todos os Malfoy são iguais: loiros platinados, pálidos, olhos azuis que variam entre o cinza e o azul claro. Nós éramos iguais. Tudo isso graças àquele costume de não misturar genes. Uma família tediosa compartilhando um estilo de vida e experiências tediosas.
Apesar dessas semelhanças, Lucius e eu éramos bem diferentes: Meus olhos são azuis claros e os dele, cinzentos. Ele era comportado o suficiente para não precisar de uma babá e sabia o que e quando falar e, principalmente, quando se calar. Eu não: eu era curioso, perspicaz e nunca sabia quando calar a maldita boca, o que me rendia encontros frequentes das mãos de meu pai com o meu rosto. Também tínhamos uma pequena diferença de idade e, caso esteja pensando, sim eu sou mais velho. Mas para pessoas de fora que nos viam juntos, poderíamos passar por gêmeos.
Meus pais fizeram maneios e reverências aos meus tios e encheram a boca com elogios para meu primo. O mesmo veio do outro lado, sem nenhuma surpresa. Logo Lucius e eu havíamos sido despachados para a sala de recreação pa que pudéssemos brincar, enquanto nossos pais permaneceram na sala de estar para colocar o assunto em dia e falavam mal de quantas pessoas fossem possíveis.
Sem rodeios, meu primo veio em minha direção:
— Papai me disse que você ganhou uma varinha.
— Ganhei sim. – Tirei a caixa do bolso e da caixa, a varinha avermelhada.
Meu primo arregalou os olhos cinzas transbordando de inveja e estendeu as mãos, fazendo menção de tocar naquele meu tesouro. Imediatamente a tirei do seu alcance.
— O que pensa que está fazendo? – Eu disse e Lucius recuou rapidamente as mãos.
— Eu quero ver! Me de aqui! – Ele deu um passo a frente, tentando parecer autoritário.
— Não! – Senti meu rosto esquentando – É minha!
Lucius avançou, eu conhecia aquele olhar, ele pretendia me atacar. Não podia deixar, então segurei firme minha varinha e deixei que ele viesse. Meu primo se jogou contra mim com toda a força que conseguia; com golpes infantis e desajeitados, ele visava agarrar minha varinha. Meu desejo era lançar sobre ele um feitiço como via meus pais fazendo, mas eu não conhecia nenhum e sabia que se algo desse errado, corria o risco de matar meu primo. Assim, com a mão livre, agarrei seu rabo de cavalo aristocrático e puxei para trás até onde o comprimento do meu braço permitia e logo a fúria em seus olhos se transformou em choro, e lágrimas vertiam dele, enquanto balbuciava que ia contar tudo ao pai. Ainda segurando firme seus cabelos agora desalinhados, eu disse bem baixo, próximo ao seu ouvido:
— Vai... Conta aos seus pais na frente dos meus pais que você tentou tirar minha varinha à força. – E só então eu o soltei.
Mas ele não foi. Sabia que tenta e tirar a varinha da mão de um bruxo era considerada uma falta gravíssima:
— Pois quando eu tiver a minha varinha, ela será muito melhor e mais bonita que a sua. – Meu primo disse enquanto arrumava o penteado e me olha com raiva. – E então vamos duelar e eu vou arrancar sua varinha de suas mãos derrotadas e quebrá-la na sua frente. – Mesmo criança, eu sabia que aquelas palavras eram do meu tio Abraxas e não do próprio Lucius.
Naquele dia, almoçamos tranquilos e meus pais me fizeram contar tudo sobre minha nova varinha aos meus tios. Lucius me lançava olhares furtivos claramente ressentido, mas se manteve silencioso. Quando finalmente pudemos ir para casa, a Sra. Carson estava me esperando logo em frente a lareira. Ela fez uma reverência aos meus pais e me acompanhou até a porta de meu quarto:
— Depois que se banhar e vestir, venha me ver na biblioteca, Mestre Marcus. – Ela disse, já fechando a porta – Quero saber de tudo.
Tomei banho e me vesti o mais rápido que pude e fui encontrar minha babá me esperando no nosso refúgio. Lá ela me abraçou e me deu um beijo na testa, como era de seu costume, quando meus pais não estavam por perto:
— Comece a falar. – Ela disse, enquanto nos servia chá.
Contei tudo a ela, omitindo o pequeno escândalo de minha mãe n’O Caldeirão Furado. Quando falava sobre a minha desavença com Lucius, a Sra. Carson me disse:
— Espero que o tenha deixado ao menos dolorido. – Ela estava aborrecida – Falta atenção e modos àquele garoto, mas isso foi longe demais.
Mary Carson era uma irlandesa de sangue quente que pendia à violência, uma mulher admirável. Depois de rirmos juntos, eu tomei coragem para falar sobre a atitude de minha mãe no Pub:
— Senhora Carson, posso fazer uma pergunta?
— Claro que sim, Jovem Mestre.
— O que é sangue-ruim?
Minha Babá me estudou atentamente antes de responder:
— É uma ofensa gravíssima. – Ela disse, tomando um gole de chá – Ouviu isso de seus pais ou dos seus tios?
— Dos meus pais – Eu respondi – Na verdade, da minha mãe.
E contei a ela todo o desdém que minha mãe vomitara dentro d’O Caldeirão Furado. Ela ouviu todo o meu relato sem me interromper. Quando finalmente eu terminei de falar, la me olhou nos olhos e disse:
— Quando se chama alguém de sangue-ruim, você quer dizer que essa pessoa tem sangue sujo, impuro. Que toda a existência daquela pessoa é manchada, imunda. É um insulto que bruxos de sangue puro direcionam para bruxos que são mestiços ou nascidos trouxas.
— Mas como minha mãe pode saber quem tem o sangue puro ou não para dizer que o lugar cheirava a isso? – Não ousei repetir o termo depois que entendi o que quer dizer.
— Essa é uma pergunta para a qual eu não tenho resposta, Mestre Marcus. – Ela ponderou por um momento – Seus pais que não me ouçam, mas eu sou contra esse tipo de comportamento de quem se acha melhor por não ter o sangue misturado.
Ficamos em silêncio por um longo momento, até que a Senhora Carson falou:
— Me promete uma coisa, Mestre Marcus. – Eu olhava atentamente para ela – Mesmo que esteja com muita raiva de alguém, não use essa expressão. Seja uma pessoa melhor que esses velhos de mente pequena, sim?
— Eu prometo, Senhora Carson. – Eu disse, da forma mais solene que consegui. – Não quero ser como eles. – Finalizei pensando especificamente em meus pais.
Depois de ganhar minha varinha, a Senhora Carson passou a me ensinar feitiços simples e básicos. Conforme os anos passavam, ela avançava um pouco nos desafios, com um pouco de transfiguração básica e feitiços defensivos simples e úteis. Eu era uma criança feliz e satisfeita com a vida; apesar de meus pais não me darem a devida atenção, eu tinha Mary Carson ao meu lado, livros e uma bela varinha. Nada mais importava.
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