Cursed
4 A Prodigy in Hogwarts - Part I
Notas iniciais
Muitas pessoas que buscam histórias sobre bruxos esperam ansiosos para saber como foi sua vida escolar, seja em Hogwarts ou em qualquer outra escola de magia pelo mundo. Dessa vez eu farei uma síntese de como foram os meus sete anos como aprendiz, para que você entenda da maneira mais dinâmica possível os acontecimentos mais marcantes da minha época de estudante.
No dia seguinte à partida da Sra. Carson, levantei cedo e me arrumei tranquilamente. Eu estava seguro que todas as minhas coisas estavam devidamente alocadas no malão, pois fizemos isso juntos em seu último dia de trabalho. Separei meu uniforme, ainda neutro, de gravata de seda preta e com o brasão de Hogwarts perfeitamente bordado do lado esquerdo do peito. Sorri satisfeito, vesti o que seriam as minhas roupas habituais por anos e fui até o canto do meu quarto e puxei o extenso tecido de linho que cobria um grande espelho adornado, me olhei e me senti importante, elegante e pronto. Eu sorria feliz para o meu reflexo, afinal, ele e eu sabíamos que esse uniforme era o nosso passaporte para fora de casa. Por fim, travei meu malão e fui encontrar meus pais na mesa do café da manhã.
Quando desci para quebrar o jejum, meus pais já estavam à mesa e me receberam com uma animação anormal. Ambos elogiaram meu novo uniforme e disseram que só ficaria ainda melhor com o verde e prata da Sonserina. Minha mãe estava toda sorrisos e meu pai disparou um "bom dia meu filho" que eu não me atrevi a responder nada além de um aceno de cabeça. Durante todo o café, as frases feitas comumente destinadas às visitas, foram gastas a nossa própria mesa com apontamentos do clima agradável e o quanto eles estavam orgulhosos de mim por estar indo para Hogwarts pela primeira vez. "Orgulhosos"... Um termo nunca antes utilizado por nenhum dos dois para se dirigirem a mim… Eu deveria estar feliz. Procurei com afinco dentro do meu coração por esse sentimento enquanto tomava chá e comia uma fatia de pão com geleia de framboesa. Porém sem sucesso, ao invés disso, encontrei tanto ressentimento que senti meu rosto queimar e as lágrimas se formarem nos meus olhos, mas eu engoli o choro e finalizei minha refeição absorto em meus próprios pensamentos. Meus pais atribuíram meu silêncio ao nervosismo, então não me importunaram.
Finalmente chegou a hora de irmos e, como de costume, usamos a lareira. Quando bruxos e bruxas optam por ir até a King's Cross através da Rede de Flu, a saída fica em uma das salas de espera da estação destinada para esse fim e toda encantada com feitiços antitrouxas para a segurança dos adultos e, principalmente, dos jovens que embarcarão no próximo Expresso de Hogwarts.
Antes mesmo de sairmos da sala, minha mãe me entregou um envelope, onde havia a minha passagem para o Expresso de Hogwarts enquanto meu pai usou a própria varinha para organizar minhas coisas em cima de um carrinho de bagagem. Feito isso, ele ordenou que eu o segurasse firmemente e assim eu o fiz. Logo o pequeno veículo de carga começou a andar sozinho, sem que eu precisasse desprender uma gota da minha força ao empurrá-lo.
O pequeno trajeto foi pontuado por reclamações dos meus pais sobre a quantidade de trouxas que havia ali, da sujeira, da fumaça, do barulho dos trens que iam e vinham sem parar. Enfim, o carrinho me guiou até próximo das plataformas 9 e 10, onde parou suavemente.
— Sabe o que fazer? – Perguntou meu pai com um sorriso maldoso no rosto, enquanto minha mãe revirava os olhos.
Fiz que não com a cabeça, olhando genuinamente confuso para ambos.
— E aquela mulher se dizia sua tutora… – Ralhou minha mãe, desdenhosa.
Optei por não responder o disparate sobre a Sra. Carson, ao invés disso, observei uma família cujo pai dava a mão para uma menina que vestia uma salopete azul com uma camiseta florida por baixo, enquanto a mãe tinha um par de garotos idênticos um de cada lado, levando carrinhos e usando o mesmo uniforme que eu. Enquanto o pai guiava a filha até a frente da coluna que separava as duas plataformas:
— Pronta, querida? – A garota sorriu para ele e ambos fora até a coluna entre as plataformas 9 e 10 e desapareceram. Os gêmeos, com seus carrinhos, correram em direção a coluna e também sumiram ali mesmo. Embora impactante, o fato de o portal estar escondido ali, na vista dos trouxas distraídos, não me impressionou tanto assim. Meus pais pareceram satisfeitos pelo fato de eu não ter perguntado o que deveria fazer, então, eu tomei uma pequena distância deles e segui em direção da coluna enquanto empurrava minha bagagem tranquilamente. Assim que a ponta do carrinho tocou o que deveria ser tijolos e alvenaria, eu senti meu corpo todo ser trazido para a frente. Imediatamente do outro lado, a cena era caótica: Tantas crianças e adolescentes saudando os amigos, famílias ajudando seus jovens a embarcar, a locomotiva preta e vermelha e a placa no alto denominando "Plataforma 9¾".
Mal pude conter a euforia. Enquanto meu pai usava magia para me ajudar a embarcar com minhas coisas, eu esticava o pescoço e ficava na ponta dos pés para olhar o máximo de pessoas que eu conseguia e absorver o máximo de informações que podia.
— Aí está – Disse meu pai depois de posicionar meu malão no bagageiro.
— Obrigado, meu pai – Eu respondi olhando por cima de seu ombro enquanto um dos alunos mais velhos exibia para os colegas um Frisbee Dentado novinho em folha.
— Mostre em Hogwarts que você foi bem educado e fique longe de confusão ou terá que se ver comigo nas férias, entendeu?
— Sim senhor. – Eu respondi mecanicamente. – Até mais, minha mãe.
— Até filho querido! – Minha mãe fazia cena com lágrimas falsas e um lencinho de seda para que todos ali pudessem ver o quanto eles dois eram pais prestativos e atenciosos, mas aos meus olhos era apenas uma situação ridícula.
O apito soou, meu pai fechou a porta por fora e o trem começou a se mover. Subi no banco para olhar para fora e vi muitos outros alunos na mesma posição que eu, ainda se despedindo das pessoas que ficavam, porém meus pais já não estavam ali. Eu não me importei, afinal, eu estava indo para Hogwarts e tinha uma cabine só para mim. Antes que você aí possa se perguntar: Não, eu não conheci na viagem do primeiro ano a pessoa que se tornaria minha amiga especial e que ficou ao meu lado até meus últimos dias em Hogwarts, fiz a viagem toda sozinho.
Já em Hogwarts, o Sr. Ogg, Guarda-caça da época, chamou a atenção dos novatos com uma lanterna e explicou rapidamente o que faríamos; aliás o que não faríamos, já que ele listou uma dezena de coisas que não poderíamos fazer a bordo dos botes e apenas uma possível: ficar imóvel e esperar o veículo aquático fazer seu trajeto. No caminho, a agitação no fundo do nosso bote e o bambolear da embarcação nos fizeram agarrar as laterais até que os nós dos nossos dedos ficassem pálidos, mas de nada adiantou, o bote virou e todos nós nos vimos atirados naquelas águas gélidas e escuras. Não obstante, eu fui o aluno escolhido pela Lula Gigante para ver o Lago Negro mais de perto. O animal gigantesco que virou o bote em que eu me encontrava com mais três desconhecidos me pegou pelo pé, mergulhou e me arrastou sob as águas escuras e geladas. Não era mesmo à toa que o Lago Negro tinha esse nome, a única coisa que diferenciava o céu das águas, eram as estrelas e por vezes, eu pensava estar sendo arrastado pelo firmamento por causa do reflexo das mesmas. Minha aventura terminou quando o gigantesco animal me deixou no píer, onde o barco deveria aportar. Como eu não sabia se poderia ou não seguir sozinho, decidi esperar os meus companheiros. Quando os outros alunos chegaram, eu estava em pé ali, tremendo e encharcado, mas logo percebi que eles estavam na mesma condição. Seguimos tremeleando a ponto de bater os dentes e pingando o resquício do Lago Negro que ficou nas nossas vestes até o castelo, onde toalhas dobradas esperavam por nós. Além de quentes e aconchegantes, ajudaram a secar nossas roupas e cabelos. Meu visual estava uma bagunça, possivelmente vergonhoso aos olhos dos meus pais, mas eu me sentia tão bem, tão feliz, tão livre...
O Salão Principal estava magnífico com suas velas flutuantes, os estandartes de cada Casa sobre suas mesas, a grande lareira, que fez secar minhas vestes úmidas ainda mais rápido, a grande mesa dos professores e o teto como o céu refletindo o tempo lá fora. Em minha seleção, sentei no banquinho tripé e o Chapéu Seletor, que cobriu os meus olhos, não demorou muito para me designar para a Sonserina, mesma Casa que meus pais. Fui recebido com alegria pelos meus colegas mais velhos e, antes do banquete começar, o diretor se levantou para dizer algumas palavras:
— Sejam bem-vindos novos estudantes de Hogwarts – Armando Dippet começou – e bom retorno aos mais velhos. Que esse ano seja de muito aprendizado e produtividade para todos nós. – Os alunos e professores da mesa aplaudiram educadamente – Levantem-se para o hino de Hogwarts.
No ritmo de uma marcha justa, alunos mais velhos e professores puxaram a cantiga, enquanto a letra aparecia no alto, para que todos cantassem juntos. Finalizado o hino, mais uma enxurrada de aplausos. O Professor Dippet tomou a fala só para concluir:
— E agora, vamos comer! – E fazendo um gesto amplo onde parecia ter invocado a comida do além. O diretor, Armando Dippet, era um homem de estatura mediana, barba triangular, que fazia uma harmonia estranha com seu chapéu também triangular, nariz proeminente, mãos nervosas e de pouca gentileza; falava apenas o necessário e sem rodeios, o que acabava por intimidar os alunos dos primeiros anos, que sempre esperavam uma recepção calorosa. Seus discursos eram rápidos e apressados como ele próprio. Meus pais o admiravam, principalmente porque o homem era a favor de castigos físicos e tendencioso a apoiar famílias de sangue puro, enquanto tratava injustamente os mestiços e nascidos trouxas. Graças a esse comportamento, a aprovação e reprovação de Armando Dippet era bastante dividida e discutida entre os pais dos alunos do meu tempo.
O banquete de boas-vindas, à primeira vista, é sempre impressionante: comidas de todos os tipos em quantidades inacreditáveis, doce e salgado servidos juntos, muito suco de abóbora e diversas outras bebidas. Antes mesmo de começarmos a comer, centenas de fantasmas apareceram do chão e das paredes para nos desejar boas-vindas, todos eles com seus corpos translúcidos e perolados, que se passassem por você, proporcionava a horrível sensação de mergulhar no Lago Negro a noite, como acabara de acontecer comigo. Assim que provei da comida, percebi que tudo ali fora preparado por elfos domésticos, afinal, não era diferente do que eu comia em casa. Ainda assim, eu não queria perder a oportunidade de experimentar pelo menos os pratos que eu não conhecia. Comi coisas muito boas, outras nem tanto, mas não venci o banquete: mesmo escolhendo porções pequenas, na terceira vez que eu completei meu prato com as tais comidas desconhecidas, eu não aguentei chegar à metade e senti que as costuras das minhas vestes iam ceder.
Depois do jantar nosso monitor nos guiou pela passagem que levava às masmorras e por uma série de túneis escavados em pedra bruta. Parou em frente a parede lisa e apontou:
— Aqui fica a entrada do nosso Salão Comunal. Não é permitido que alunos de outras Casas venham aqui, bem como vocês são proibidos de visitarem os demais. A passagem se abrirá com uma senha, então por favor, não a divulguem e nem esqueçam, ou isso causará um problema absurdo. Se estiverem perdidos, basta olharem para o chão e seguirem a serpente no chão e ela guiará vocês até aqui – Concluiu o rapaz de aparência cansada nos mostrando que o piso onde estávamos ostentava um grande entalhe em forma de víboras entrelaçadas. – Agora prestem bem atenção – Ele se virou para a pedra lisa e disse em alto e bom tom – Chuva de Esmeraldas.
A parede lisa fez um movimento brusco e começou a se deslocar para cima, revelando o interior do Salão Comunal da Sonserina. Aquilo sim é que era uma visão impressionante: o cômodo era bem grande e espaçoso, ricamente mobiliado com poltronas, sofás e cadeiras de espaldar alto em tecido macio e brilhante, de madeira escura e estofados sempre no mesmo tom de verde esmeralda. Os candeeiros mágicos projetavam luzes também esverdeadas, que traziam um ar de conforto para o lugar. As luzes para leitura, ficavam em lugares específicos da Sala Comunal, onde as velas mágicas eram sustentadas por ricos castiçais de prata com formato de diversas espécies do animal da Casa. A lareira, que continha um fogo comedido e de crepitar baixo, era trabalhada em entalhes de víboras de diversas espécies e tamanhos, era encimada pela tradicional serpente de Salazar Slytherin entalhada num escudo de pedra negra e fria e de aparência tão escorregadia quanto o animal que a sustentava. E por fim as janelas: estas eram muito altas com o peitoril largo o suficiente para se sentar confortavelmente, disposto com almofadas macias e quadradas para apoio. Mas o que mais me intrigou e me fez dali em diante tomar uma das janelas como meu lugar, foi o que ela mostrava: não era chão, nem céu, nem floresta, era uma paisagem distorcida de bolhas, algas, e cardumes de peixes apressados. O monitor cansado, vendo nossa fixação pela janela, foi dizendo sem rodeios:
— Nossa Sala Comunal fica no subterrâneo do Castelo, nas Masmorras. Logo nossa janela dá diretamente para o fundo do Lago Negro. Nossas janelas não abrem, mas temos vislumbres únicos aqui em baixo, como Grindylows, Cavalos do Lago, Sereianos e até a Lula Gigante, que costuma nos observar com seu olhão.
Enquanto alguns de meus companheiros recuaram instintivamente, eu e mais duas crianças, avançamos. Mas logo o monitor nos interrompeu:
— É hora de dormir. Vocês terão sete anos para olhar milimetricamente cada uma dessas janelas, mas não hoje. Vamos, meninas sobem, meninos descem. – Ele disse nos arrebanhando como ovelhas até dois lances de escada.
Desci, conforme as ordens e identifiquei a porta uma placa prateada que dizia "Primeiro Ano", a empurrei para encontrar cinco belíssimas camas de dossel de madeira escura e cortinado verde. Ali também as janelas eram enormes e refletiam as profundezas do lago. Encontrei meu malão aos pés da cama mais próxima das janelas e me dei por satisfeito. Com pressa, troquei as vestes, agora com as cores de minha Casa, pelos pijamas antes que os meus companheiros pudessem entrar. Eu era um garoto bastante recatado e, custou muito para que eu me sentisse à vontade para me trocar na frente dos outros meninos. Meus colegas entraram quando eu já estava na cama com ambos os lados dos cortinados fechados. Eles estavam aos risos, falavam alto e tropeçaram nos malões aos pés das camas. Fiquei imóvel e o mais silencioso que pude para ouvir atentamente e descobri que um dos garotos, de nome Byron, comeu demais e foi ajudado pelos outros a parar no banheiro para devolver, meio digerido, o belo banquete com que se estufara. Depois de sorrir sozinho, virei de lado e dormi. Não queria parecer ingrato a meus pais naquela época, mas hoje em dia, não tenho problema nenhum em dizer que, essa foi a melhor noite de sono que tive até aquele momento, em todos os meus onze anos de vida.
Minhas aulas no primeiro ano eram absolutamente novidades, então tudo que era dito, eu absorvia imediatamente. É claro que eu tive sorte de ter a Sra. Carson como tutora, pois tudo que eu vi na escola no meu primeiro ano, eu já sabia de cor a ponto de recitar, mas ainda assim eu aprendi como estudar em cada uma dessas disciplinas, método esse, que fui aprimorando ao longo dos meus anos como estudante. Vou apresentar brevemente os docentes e os principais funcionários de Hogwarts da minha época para que não precise de pausas para dar explicações cada vez que um deles for citado.
Nas aulas de Herbologia tivemos aula com Jenna Spore, bruxa de uma família tradicional de Herbologistas. Suas aulas eram ministradas muita paciência e sorrisos; ela nos ensinava como cuidar de cada planta como se fosse o único exemplar da Terra, mas também nos encorajava a seguir nossos instintos durante as aulas práticas: sentir os aromas, observar formatos, perceber as texturas, experimentar novas ferramentas e conhecer, de fato, cada planta e fungo que nos era apresentado nas aulas. A Professora Spore foi a responsável pelo meu estudo avançado em Poções ser possível, pois ela trabalhava junto com o Professor Slughorn e sempre que um aluno pedia mais referências a ela, mais ela ficava empolgada e dava as referências pedidas de bom grado.
Já falando dele, meu professor de Poções e Diretor da Sonserina era Horace Slughorn. Mais jovem do que hoje em dia, mas igualmente bondoso e com ares de leão marinho, o Professor Slughorn era muito dedicado em ensinar as artes sutis do preparo das Poções a todos, sempre trazendo exemplos e desafiando nós alunos, a sermos melhores. O ponto fraco do Professor de Poções eram celebridades e conseguir vantagens que seus alunos ou os pais dos alunos podiam trazer a ele, seja preferência no atendimento no St. Mungos, entradas para jogos importantes de Quadribol ou uma caixa do abacaxi cristalizado que tanto gostava.
Meu professor de Feitiços foi o ilustríssimo Calum Barr, que apesar de muito velho, frágil e vagaroso, tinha muito a ensinar. A impressão que tínhamos é que sua pele descolorada estava tão esticada sobre seus ossos, que já não restavam músculos que os separassem. Sua voz era baixa e rouca, mas carregada de sabedoria para aqueles que estavam dispostos a aprender. Ele tinha uma varinha curta de madeira esbranquiçada que lembrava muito a nós como osso, o que nos dava a agourenta impressão de que ela fazia parte de seu corpo pálido, como um sexto dedo que saia da palma de sua mão. Embora fosse difícil ouvi-lo, o que mais era interessante em sua aula é que ele não usava o livro didático, ele recitava tudo de cabeça, inclusive as fórmulas de movimento. Quando precisava que anotássemos alguma coisa, tocava tão levemente no quadro que mal fazia barulho. Mesmo que eu tenha estudado o Livro Padrão de Feitiços – Primeira Série à exaustão com a Sra. Carson, ele sempre trazia uma coisa ou outra diferente para os mais atentos e eu absorvia cada palavra que ele dizia, tamanha era minha vontade de aprender.
Tive o privilégio de ser aluno do Professor Dumbledore, enquanto ele ainda lecionava e antes do mesmo tornar-se Diretor. Ele era brilhante na sala de aula: tinha energia, suas aulas eram divertidas e sempre trazia métodos didáticos diferentes para nos ajudar a decorar fórmulas e leis da dificílima matéria de Transfiguração.
Provavelmente não será uma surpresa para você aí que na disciplina de História da Magia, o Professor Binns foi meu professor: Já morto nessa época. Eu era muito bom em História da Magia, porém ouvir o Professor recitar o livro texto era bastante enfadonho até para mim. De fato, a única coisa interessante sobre o Professor Binns é que ele entrava na sala atravessando a parede do quadro negro todas as aulas. O impacto da primeira vez foi memorável, porém a partir daí, esse movimento passou a ser tão tedioso quanto todo o resto. Nós primeiranistas, logo percebemos que ele ficava bastante incomodado quando era questionado a respeito de atravessar a parede, o que nos deu a funesta impressão de que talvez ele nem soubesse que estava morto. Mas no fim das contas, foi graças a essa aula que descobri uma habilidade intelectual interessantíssima que nasceu comigo e que explicarei no início do segundo ano.
Liderando o departamento de Astronomia, eu tive a Professora Abby Godwin, uma jovem e promissora estudiosa das estrelas que transmitia sua paixão pelos astros em cada palavra que dizia. Ela não era tão distante assim da nossa idade, por isso ela entendia os alunos melhor que a maioria dos professores. A Professora Godwin fazia mais que apenas nos ensinar: ela se importava de verdade com as nossas alegrias e tristezas e nos incentivava a sonhar. Ela lecionou em Hogwarts até alguns anos após minha formatura e depois foi estudar em campo, o que sempre foi sua grande meta e seu próprio sonho.
Não vou perder meu tempo falando sobre os professores de Defesa Contra as Artes das Trevas que vieram e foram. Tive apenas dois que valeram a pena, no quinto e no sétimo, por isso falarei deles em seus respectivos anos de trabalho.
Para completar a grade, Gruffudd Llewellyn era nosso instrutor de Voo e também fazia as vezes de juiz de Quadribol nas partidas. Apesar de galês, no auge de sua glória nos campos, o Sr. Llewellyn jogou como artilheiro pelos Pegas de Montrose na Escócia, por negociações que eu não me interessei em buscar saber. Depois de uma carreira longa e bem-sucedida, estava finalizando seu tempo de trabalho ensinando bruxos e bruxas das novas gerações a voar. Apesar de mais velho, era de constituição forte, ligeiro como um pássaro, e tão hábil em voo quanto.
À frente da Biblioteca de Hogwarts e liderando os grupos de estudos Madame Pince nos olhava com seus olhos aguçados. Elegante e exigente na mesma proporção, desde aquela época ela mantinha a biblioteca impecável e não tinha tempo ou disposição para conversas paralelas, mas sempre estava disposta a recomendar um livro a quem pedisse ou ajudar qualquer aluno que não estivesse encontrando o volume desejado. Aquele era seu império e a Sessão Restrita era o seu orgulho. Desde que respeitássemos seu espaço, não correríamos o risco de ser expulsos, como acontecia frequentemente, em especial com aqueles que decidissem comer junto aos seus preciosos livros.
Nos meus tempos de aluno, a Curandeira da escola era Madame Pomfrey. Mais jovem naquela época, porém igualmente rígida e sempre expulsando pessoas que não precisam de tratamento das dependências médicas do castelo.
O Sr. Ogg, que já citei durante a minha chegada a Hogwarts, era o Guarda-Caça e Guardião das Terras e das Chaves de Hogwarts. Era um homem firme e que não gostava de nada fora do lugar. Ele tinha um aprendiz, um ex-aluno de Hogwarts, de estatura incomumente alta e que ouvia tudo que o velho Ogg tinha para ensinar.
O Zelador do meu tempo na escola era o implacável Apollyon Pringle, um senhor de meia idade com olhos lacrimosos e cheiro azedo que colocava ordem no castelo. Naquele tempo, castigos físicos eram permitidos, até encorajadas e o Sr. Pringle era impiedoso ao aplicar suas punições. Ele me aterrorizava, mais que qualquer um dos fantasmas.
E falando neles, uma coisa que eu fiz por mim foi conhecer os fantasmas de cada Casa e criar uma relação minimamente diplomática com cada um deles: o Frei Gorducho da Lufa-Lufa, me recebeu muito bem e adorava contar histórias de seu tempo de vida. O solene Sir Nicholas de Mimsy-Porpington que era o fantasma da Grifinória recebeu meu contato com cordialidade, aceitando conversar e até me ajudando quando eu estava perdido pelo castelo. O fantasma de minha própria Casa eu vim saber, era o Barão Sangrento, um nobre que vestia roupas antiquadas e tinha manchas prata por todo o seu corpo perolado, não gostava muito de falatório, mas era sempre muito educado e cheio de mensuras, principalmente para quem as soubesse retribuir. Por fim, a fantasma da Corvinal, a bela e melancólica Dama Cinzenta, costumava contar histórias de quando Hogwarts foi fundada, pois ela foi aluna aqui nessa época. Contudo, ela não se permitia conversas longas e logo desaparecia por vários dias a fio e quando menos esperava, a via chorando pelos cantos do castelo. Penso ser válido mencionar aqui que em Hogwarts além das centenas de fantasmas comuns que sempre víamos por aí, havia o terror dos alunos: um poltergeist chamado Pirraça, que era barulhento e aprontava com quem quer que fosse, para desespero do corpo docente da época e do Sr. Pringle.
Segui meu primeiro ano bebendo da fonte do conhecimento dos Professores de Hogwarts, quase nunca tinha dúvidas, sempre fazia minhas tarefas, gabaritava todos os testes e escrevia uma vez por mês aos meus pais. Era uma criança exemplar, afinal.
O Natal chegou e eu voltei para casa, como mandava protocolo. Muitas crianças ficavam em Hogwarts nas Festas, mas não as crianças de “boa família”, como meus pais diziam: esses sempre se encaminhavam para a família para as festividades de fim de ano. No trem de volta, fiz amizade com dois garotos da minha Casa e do meu ano, Nott e Mole. Não vou fazer você aí perder tempo comigo reproduzindo diálogos de três meninos de onze anos falando sobre a escola, por isso vou direto para o reencontro com os meus pais.
Descemos na King’s Cross e lá estavam os dois, com falsos sorrisos, acenando para mim. Me despedi dos meus recém conhecidos e rumei até eles.
— Filho querido! – Foi a saudação que recebi da minha mãe, desconfiado.
— Minha mãe…
— Seja bem-vindo de volta, Marcus.
— Obrigado, meu pai.
— Não recebi nenhuma reclamação a seu respeito até agora. Muito bem. – Disse meu pai, enquanto andávamos para a sala de espera com a passagem de Flu.
— Muito obrigado. – Respondi sem vontade de conversar.
Quando chegamos em casa, pedi licença, fui direto para o meu quarto e então me lembrei: A Sra. Carson não estava aqui me esperando. No segundo que a compreensão caiu sobre mim, meu sorriso se desfez e me arrependi de ter voltado para casa, para celebrar as festas. Deveria ter ficado em Hogwarts, deveria.
Houve uma recepção na casa dos meus pais no Natal naquele ano onde recebemos a nata da sociedade bruxa: Lucius e meu tio estavam lá, o casal Flint, recém-casados, ostentando seu título de Conde e Condessa de Humber, os Black, com quem meus pais costumavam fazer negócios e suas três filhas Bellatrix, Andrômeda e Narcissa, os Rosier e seu filho Edmund, de olhos aguçados e inteligentes, o distante e silencioso casal Lestrange e seus filhos Rodolphus e Rabastan, os Selwyn e sua filha Melinda, de quem fui obrigado a sentar ao lado durante a ceia. A pobre garota tremia dos pés à cabeça e abria e fechava a boca tentando falar qualquer coisa, mas sempre desistia na última hora. Parecia que ela estava tão grata por estar ali quanto eu. Houve um banquete, socialização e dança. Eu fui instruído em como dançar com algumas das moças presentes, me faria parecer um bom anfitrião; graças a minha educação formal eu era realmente bom nisso. Decidi que gostava de dançar e que se Melinda Selwyn, qualquer uma das irmãs Black e talvez a recém Sra. Flint me concedessem a honra, tiraria o peso da responsabilidade social dos meus ombros, pois eu teria cumprido meu papel.
Também visitamos pessoas enquanto eu estava em casa. Era comum entre as famílias bruxas, levar os filhos novatos em Hogwarts na casa de amigos ou pessoas com conexões, para que fossem mostrados como conquista. Recebemos bastante esse tipo de visitas e agora era a vez dos meus pais de me exibir.
Depois do ano novo, voltei para a escola; não via a hora de tirar a máscara de fachada do rosto e voltar a me sentir à vontade, livre e pensando nisso, a primeira coisa que fiz foi escrever à Sra. Carson, contando que senti a casa vazia e cinzenta quando percebi que ela não estaria lá à minha espera. Não levou muito tempo para uma resposta emocionada da parte dela, demonstrando todo o afeto que é possível numa carta. Ela também compartilhou comigo a novidade de que estava dedicando seu tempo e o dinheiro que ganhou trabalhando para os meus pais, a criar uma estufa mágica para vender ingredientes a pocionistas e que se eu precisasse repor alguma coisa do meu estoque pessoal, ela ficaria mais que feliz em mandar. Eu senti orgulho por ela, aquela sensação de que ela nunca mais faria nada depois de ser demitida, se dissipou e eu sorri para o pergaminho, com ternura.
O restante do meu ano foi dedicado aos estudos: segui o ano deixando o Quadribol de lado afinal, nunca me interessei pelo esporte, e fazendo o meu melhor: decorava cada palavra do que os professores diziam e do que estava escrito nos livros. Quando as provas finais vieram, meus colegas estavam prestes a arrancar os cabelos e eu estava tranquilo. Nos exames, tive um resultado incomum até para o melhor dos alunos: gabaritei cada teste a que fui submetido, mas as minhas respostas estavam tal como estava escrito nos livros, palavra por palavra. Apesar dos testes em Hogwarts serem feitos com penas e pergaminhos antitrapaça, houve uma investigação discreta por parte dos professores. Por fim, provado que não havia nada de errado, chegou a hora dos professores conversarem comigo e numa tarde tranquila, fui chamado pelo Professor Slughorn para fora da Sala Comunal:
— Pois não, Professor – Respondi de olhos arregalados – Aconteceu alguma coisa?
Vendo minha preocupação, o Professor Slughorn sorriu para me acalmar:
— Não, não meu rapaz – Ele pousou a mão no meu ombro, me encorajando a andar – Só precisamos conversar com você.
Acenei positivamente e o segui. Quando chegamos a sua sala, lá também estavam o Professor Dumbledore, o Professor Barr e a Professora Spore: os quatro diretores das Casas de Hogwarts. Eu senti minhas entranhas liquefazerem e meu primeiro pensamento foi fugir dali o mais rápido possível. Mas lembrando da Sra. Carson que sempre me dizia: "Quem não tem nada a dever, não tem nada a temer, Mestre Marcus", respirei fundo e fiquei.
— Sente-se, Sr. Malfoy – a Professora Spore disse, me apontando uma cadeira.
Sentei e tentei falar: como nada saiu, esperei:
— Sr. Malfoy – Começou o Professor Dumbledore e, por impulso, fechei os olhos, esperando uma torrente de reprovação – O quanto você gosta de ler?
Abri um dos olhos e olhei para o velho professor de Transfiguração, que me mirava com seus impressionantes olhos azuis. Pacientemente, ele repetiu a pergunta:
— O quanto você gosta de ler, Marcus? – Era a primeira vez que Dumbledore me chamava pelo primeiro nome. Tomei coragem de abrir o outro olho e observar cada um deles: Nenhum dos quatro tinha a cara fechada ou postura agressiva. Com essa percepção, respondi:
— Muito, Professor. Gosto muito de ler.
Os quatro se entreolharam e quem falou dessa vez, foi o Professor Barr, com sua voz baixa:
— O Professor Binns ficou muito curioso a respeito da sua prova, Sr. Malfoy. Você respondeu todas as questões da prova de História da Magia com as exatas palavras do livro-texto.
— Não é o que todos fazem, Professor?
— Não da maneira que você fez, querido – prosseguiu a Professora Spore – Veja, é como se você tivesse copiado a citação do livro. Perfeitamente, até com as mesmas palavras e pontuações.
Eu estava em choque. Será que eu tinha mesmo trapaceado?
— Eu juro que não fiz nada – Disparei de súbito. – Eu estudei um dia antes e usei as mesmas penas e pergaminhos que todo mundo! Até deixei a minha bolsa no dormitório, para não ficar carregando peso.
— Nós sabemos, rapaz – Respondeu o Professor Slughorn. – Só gostaríamos que você respondesse algumas perguntas para nós e, se tudo der certo, enviaremos para você uma carta durante as férias, com ótimas notícias.
— Ótimas… Notícias…? – Eu era o retrato da confusão.
— Óh sim, sim! Temos uma suspeita promissora ao seu respeito! – O Professor de Poções mexeu animadamente na ponta do seu bigode leão marinho – Está pronto?
— Acho que sim.
Um a um, os mestres fizeram perguntas de suas disciplinas específicas e a única condição dada a mim, é que eu dissesse o que me lembrasse de já ter lido sobre o assunto. Depois de tudo respondido, os professores me agradeceram e o Professor Slughorn me acompanhou de volta até a Sala Comunal:
— Vamos levar os resultados para o Diretor e conversar com os outros professores sobre seu teste, certo?
— Sim senhor, Professor.
— Não fique nervoso, Sr. Malfoy. Você foi muito bem! – Olhou para a parede lisa e disse: “Rabo de serpente!” – Vá descansar, meu rapaz. Logo você estará de férias. Aproveite bastante!
Como os professores disseram que a notícia seria boa, me tranquilizei, e fui ao banquete do fim do ano letivo para ver a Corvinal ser anunciada campeã da Taça das Casas. Todos aplaudimos enquanto o Professor Dippet entregou o belo troféu para o Professor Barr depois da contagem de pontos e toda a decoração do salão se tornou azul e cobre. Finalmente o ano tinha acabado e eu teria que enfrentar as férias de verão na casa dos meus pais.
Depois da euforia da minha chegada, eu continuava a sentir a falta da Sra. Carson, que funcionava como mediadora e quase um escudo entre mim e meus pais; sem ela, eu tinha que lidar diretamente com ambos e, ainda não me sentia pronto para isso. A tensão era maior entre mim e meu pai, era tão densa que parecia poder ser tocada. Eu passava a maior parte do dia na biblioteca da casa e só convivia com os meus pais no curto período das quatro refeições diárias(1), mais que isso, só quando tínhamos visitas ou quando íamos visitar os amigos dos meus pais. A você aí, essa pode parecer uma vida fútil e enfadonha. E era mesmo, afinal a nobreza nunca tem muito a oferecer além de beleza, refinamento e tédio.
Durante as férias, a resposta de Hogwarts sobre o teste que fiz chegou: depois de bastante estudo por parte dos meus professores, a memorização do livro-texto de História da Magia e provas perfeitas, foi descoberto que eu nasci com uma condição rara e muito útil chamada Memória Eidética. Você aí, pode conhecer esse termo como "Memória Fotográfica", porém para nós bruxos esse nome não faz sentido, já que em nossas fotos, as pessoas se mexem, têm certos comportamentos e até vão embora. Mas o fato é que, aquilo que surpreendeu tanto os meus professores em meu primeiro ano de estudo, se tornaria meu maior aliado nos meus dias em Hogwarts e para além disso. É claro que meus pais foram informados disso, mas parece que eles confundiram a informação, acreditando que se passasse de uma doença crônica ou algo assim. Foi necessária uma carta detalhada e assinada pelos Diretor Dipett e Vice-Diretor Dumbledore, para que eles acreditassem que eu não ia morrer em seis meses ou algo assim.
— "Por fim, gostaria de esclarecer aos senhores" — Leu meu pai em voz alta — "que se essa habilidade fenomenal do jovem Sr. Malfoy for trabalhada de maneira correta, podemos ter um prodígio em Hogwarts".
Meu pai atirou a carta ao lado sem ler as assinaturas e se voltou para mim:
— Prodígio? — Ele disse, com tom de quem acha graça no que diz —Você não é mais inteligente do que a média, garoto. Não pense que vai receber tratamento de honra porque recebemos uma carta do Diretor Dipett. Tudo que faremos é ficar ainda mais de olho em você.
Minha mãe concordou veementemente e eu pedi licença para me retirar. Quando mandei uma coruja para a Sra. Carson contando sobre isso, ela ficou maravilhada com a notícia e disse que já tinha uma suspeita, por ela não precisar insistir muito no que me ensinava e por me ver, muitas vezes, citar palavra a palavra do que eu havia lido meses atrás.
Não foi fácil me adaptar a essa condição, pois não apenas de memórias positivas vive uma criança e eu, lembrava de cada uma das minhas experiências ruins vividamente, o que acabava me distraindo. Meus professores foram muito pacientes comigo e graças a isso, Hogwarts foi mesmo uma experiência maravilhosa.
As férias estavam no fim e, finalmente, era hora de voltar para a Hogwarts. Eu não pude ir até o Beco Diagonal para comprar meu material, pois estávamos de visita a um diplomata do leste europeu com quem meu pai tinha conexões e não se viam há tempos. Acabei por deixar minha lista e mais uma coisa ou outra que eu precisava repor para os elfos domésticos da casa e agradecendo sempre pelo seu trabalho, era recompensado com a eterna gratidão e devoção deles.
No meu segundo ano, duas coisas importantes me aconteceram, que ajudaram a formar o meu caráter. Vou comentar cada uma delas, para que você possa entender o que é o mundo para uma criança de doze anos que vive a maior parte do ano em um internato, sem grande respaldo de adultos por perto e, principalmente, sem ter com quem contar.
A primeira coisa é que, nesse ano, eu levei minha primeira detenção. Eu estava decidido a seguir os passos do primeiro ano e não ser um problema para ninguém, porém você aí deve se lembrar que eu fiz amizades no trem de volta para casa no natal do primeiro ano: Desmond Nott e Caldwell Mole não eram as pessoas mais tranquilas, eles não entendiam que o mundo não se curvaria às vontades deles, por mais que eles quisessem. Eu não tinha a malícia que transborda em mim hoje, por isso os seguia para onde quer que fossem. Isso nos levou a muitos problemas desde ir até a floresta proibida sem nenhum preparo, tentar entrar na Sala Comunal da Lufa-Lufa, a mais próxima da nossa Casa e quando fomos pegos, por invadir um banheiro feminino desativado.
Caldwell soube por alunos mais velhos que o banheiro feminino do segundo andar, que ficava desativado era assombrado pelo fantasma de uma estudante que morreu num dos box ali mesmo, há mais ou menos vinte anos atrás. Ele e Desmond ficaram alucinados com a história e queriam muito ver a garota. Enquanto eles combinavam ir até o banheiro durante a festa de Halloween, onde todos estariam ocupados com o banquete no Salão Principal, eu começava a pensar que aquilo não seria correto.
— Não é uma boa ideia, Malfoy. – disse Mole – É uma ótima ideia.
— Invadir assim o local que um fantasma assombra não me parece direito – eu disse, tentando argumentar com os meus companheiros – E se a atrapalharmos?
— Se ela queria descanso eterno, que seguisse em frente – Nott inquiriu, sem dar brechas para mais diálogo. – Ou você vem conosco ou não será mais nosso amigo.
Eu precisava de amigos e só tinha aqueles, não podia os perder assim, por medo de um fantasma de banheiro.
— Às nove da noite, então? – Disse a contra gosto.
Nott e Mole se entreolharam e sorriram, satisfeitos.
— Às nove.
O resto da semana que antecedeu o Halloween daquele ano foi terrível: eu tinha a sensação que todo mundo sabia o que iríamos fazer. Cada armadura vazia que rangia quando eu passava, me sobressaltava.
“É culpa.” Pensei. “É isso o que estou sentindo”. Eu conhecia bem o sentimento graças a educação primorosa que recebi dos meus pais.
Era tarde demais para desistir; no dia 31 de outubro, saímos um de cada vez do banquete e nos esgueiramos em meio as comemorações para alcançar o segundo andar. O corredor estava silencioso e agourento, nossos passos pareciam produzir mais eco que toda a festa lá embaixo.
— É aqui. – Caldwell confirmou.
Nós três paramos em frente a porta lado a lado e observamos que havia nela uma faixa de contenção. Seria ela mágica? Desmond não parou para refletir e foi logo abrindo. A faixa se arrebentou e nenhum de nós foi atingido por nada, aparentemente era só um aviso comum.
O banheiro seguia o padrão dos outros banheiros de Hogwarts, com suas cabines individuais, espelho largo e pias equidistantes. Porém esse estava visivelmente abandonado, havia água no chão, as portas estavam puídas e parece que não havia iluminação ali há tempos. Também estava anormalmente frio, não havia o calor mágico que circulava pelo castelo ali e tudo estava escuro.
Ouvimos choro. Alguém ali estava aos soluços.
Garotos com doze anos de idade são, em sua maioria, estúpidos por natureza em questão de desenvolvimento: É claro que avançamos ao invés de recuar.
— Devíamos acender nossas varinhas – Eu disse, quando desisti de esperar que meus olhos me revelassem mais alguma coisa.
Os outros dois concordaram e três “Lumos!” encheram o banheiro.
— Quem está aí? – Uma quarta voz questionou. Uma voz feminina e esganiçada. Mal respirávamos – Quem... Está... Aí...? – Ela insistiu, com aspereza.
Nós três congelamos. Quando apontamos nossas varinhas para frente, a fantasma da menina de marias-chiquinhas e óculos estava muito próxima de nós. Próxima o suficiente para vermos o seu brilho perolado refletindo nas luzes das nossas varinhas. Gritamos e ela também gritou, mais e mais alto que nós. Tropeçamos uns nos outros, para sairmos dali o mais rápido possível, enquanto ela berrava atrás de nós:
— Isso mesmo! Fujam da Murta! – Ela vociferou, colérica – Ninguém gosta de você, Murta! Você assusta criancinhas, Murta! Faz elas fugirem porque você é feia, Murta! – E, do mesmo jeito que a raiva tomou a fantasma, logo ela caiu em um choro copioso e cênico.
Quando finalmente Desmond abriu a porta, o escândalo causado pela Murta não passou despercebido e ali em pé diante de nós, estava o Sr. Pringle:
— Ora, ora... Se não é a descendência de toda a nata da sociedade bruxa... – Ele disse estreitando os olhinhos úmidos de suíno. — Para a minha sala, agora!
A pena para esse tipo de desobediência era ser pendurado pelos dedos das mãos. Mesmo sendo filhos de quem somos, não escapamos: Mole gritava que o pai dele fazia parte da Suprema Corte Bruxa e que todos em Hogwarts iam pagar por isso. Em resposta, o Sr. Pringle o silenciou com a própria varinha, que raramente usava, ao passo que Desmond chorava sem produzir ruído e eu tentava aguentar da melhor maneira possível. Além de sermos pendurados, recebemos cinco chibatadas em cada um dos nossos pés como um breve aviso, para aprendermos a não sair furtivamente. Cada vez que o couro curtido encontrava a sola do meu pé, meu corpo todo pulava em espasmos de dor e eu sentia meus dedos estalando, como se fossem sair das minhas mãos. Primeiro eu, depois Mole, que ainda estava silenciado e por último Nott, que gritou sem reservas para cada momento do castigo. Tanto meu corpo quanto a vergonha doíam muito.
“E tudo isso por causa do um fantasma de uma menina chorona e idiota” pensei, furioso. Ali, suspenso pelos dedos das mãos e com os pés pingando sangue, disse a mim mesmo, que eu faria o impossível para nunca mais ser pego de novo. Para completar a nossa derrota, depois de horas suspensos, o Sr. Pringle nos levou andando para a porta da nossa Sala Comunal. Deixamos pegadas vermelhas por todo o caminho, mas ele não nos repreendeu pois disse que essas, ele limparia com gosto.
A segunda coisa que aconteceu foi que, pela primeira vez, eu me apaixonei. Pois é, parece uma coisa pequena, mas o meu primeiro amor me ajudou a entender desde cedo como as minhas ações poderiam machucar as pessoas que eu gostava, e boa parte do que me tornei se deve a esse caso.
No mesmo ano que eu, havia uma garota lufana chamada Becca Norcross: ela era bonita, engraçada, inteligente e tinha excelentes conexões, já que seus pais trabalhavam com importação de produtos mágicos. Eu desenvolvi uma queda silenciosa por ela, quando fizemos dupla numa aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Becca tinha um conhecimento excepcional a respeito das passagens secretas do castelo e sempre conversamos sobre esse assunto que tanto me interessava, por fim, combinando nossas ideias e habilidades, Becca e eu decidimos começar nosso próprio mapa de Hogwarts. Uma ou duas vezes na semana, nos encontrávamos na sala de estudos para podermos discutir e desenvolver o rascunho inicial da nossa ideia. Além do mapa, Becca e eu conversávamos sobre nossas famílias, nossas Casas, as matérias da escola e tudo mais que duas crianças de doze anos possam se interessar.
Num dos nossos encontros, eu desenhava parte do porão, quando ela diz:
— Temos que nomear nosso projeto.
— Como assim? – Perguntei, sem olhar para ela, registrando no pergaminho a entrada das cozinhas e o seu quadro de cesta de frutas com o adendo “fazer cócegas na pêra”.
— Meu pai diz que todos os projetos grandes têm nome e esse vai ser um projeto grande, eu posso sentir! – E riu aquele riso largo e contagiante que me fez borrar o pergaminho.
— Se você insiste, pode fazer. – Eu disse, usando minha varinha para limpar o borrão – Eu nunca fui muito bom em dar nomes para as coisas.
— Certo! Vou pensar com muito cuidado e, na próxima vez que viermos continuar nosso mapa, vamos colocar o nome. – Ela juntou seu material e foi se despedindo – Até depois, Marcus!
— Até mais, Becca – Meu coração estava tão acelerado e meu rosto tão quente que precisei de um momento para me recompor antes de seguir meu próprio caminho.
Pareceu se passar dois séculos até a data que combinamos chegar. Eu contava cada dia como se fosse uma eternidade individual. Quando finalmente o dia de nos vermos chegou, Becca disse que tinha o nome perfeito: Malcross Map:
— É a mistura dos nossos dois sobrenomes! — Ela disse, orgulhosa — Não é genial?!
Como tudo que ela fazia, eu pensava ser brilhante, concordei com um maneio de cabeça, enquanto escrevia o nome dado por ela no alto do pergaminho, com letras floreadas.
— Você tem uma caligrafia tão linda! — Ela se admirou.
— Você que é. — Respondi sem pensar.
Eu fiquei nervoso, mas ela riu, tornando tudo mais fácil. Nós nos olhamos, sorrindo e eu voltei minha atenção para os túneis das Masmorras, enquanto sentia Becca me observar. Tudo ao lado dela era simples e leve, o que fazia com que eu gostasse cada vez mais de sua companhia.
Os meus colegas de Casa logo começaram a notar os sinais do que estava acontecendo, pois eu passei a trocar a companhia deles pela de Becca. Num dos dias em que eu estudava sentado no meu lugar de sempre na minha Sala Comunal, Nott e Mole armaram para mim uma intervenção:
— Malfoy... — Mole começou a dizer se sentando ao meu lado no parapeito da janela da nossa Sala Comunal, enquanto Nott parava diante de nós. Levantei os olhos do livro que estava lendo e ele continuou — Desmond e eu notamos que você tem se aproximado daquela garota Norcross da Lufa-Lufa.
— Sim, e daí? — Respondi, enquanto o próprio Desmond maneava negativamente com a cabeça em tom de reprovação.
— E daí que você não pode ficar por aí com ela. — Mole continuou, incisivo.
— E porque não? — Franzi o cenho, esperando uma resposta que me convencesse a deixar a companhia de quem eu pensava ser minha futura esposa e mãe dos meus filhos.
— Por que ela é mestiça, cara — Nott disparou — A mãe dela é bruxa e o pai é trouxa.
— Nascido trouxa — Eu o corrigi — Ele também estudou em Hogwarts.
— Então você sabia?! — o rosto de Nott estava lívido.
— É claro que sabia. — Eu disse com simplicidade — Ela é minha amiga.
— Então a situação é pior que imaginávamos. — Mole disse, olhando para Nott.
— Sim, é. — Nott respondeu, cruzando os braços ameaçador. — Vamos ter que dar um jeito nisso. Se você manchar a sua reputação e da sua família, mancha a nossa também.
Eu olhava de um para o outro, sem entender a necessidade de todo esse comportamento.
— Vocês sabem que a maioria dos bruxos hoje é mestiça, não? — Questionei, mostrando o óbvio para os meus colegas. — Que se não houvesse essa mistura, provavelmente os bruxos já teriam desaparecido.
Nott cuspiu no chão, ao ouvir a palavra mistura, como se estivesse tirando veneno da boca:
— Vai pro inferno, Malfoy! — Ele disse, furioso. — As pessoas têm que saber e entender quem nós somos, que nas nossas famílias não tem essa mistura e por isso são superiores.
Ainda pensando que ele estava disparando um monte de baboseiras em minha direção, eu disse:
— Nossos pais não estão aqui, já passou pela cabeça de vocês que podemos conversar e fazer amizade com quem quisermos?
Os dois olhavam para mim furiosos:
— Se você não parar de andar com aquela mesticinha... — Mole disse — Você vai ver só.
— Já terminaram? — Perguntei, com desdém — Eu gostaria de continuar a ler o meu livro.
Ambos estreitaram os olhos para mim e se afastaram. Eu não tinha medo deles, eu era tão habilidoso quanto eles e provavelmente sabia mais feitiços. Não levei a sério um segundo daquela conversa e segui em frente.
Depois dessa conversa nada amigável, eu continuei a me encontrar periodicamente com Becca para terminarmos nosso mapa com tudo que nós dois tínhamos de conhecimento do Castelo e dos seus terrenos. Finalizado essa tarefa, pedimos que o Professor Barr duplicasse os mapas com um feitiço que sabíamos que existia, mas não sabíamos como fazer. O ancião o fez de bom grado e entregou uma cópia para cada um de nós e ainda nos concedeu quinze pontos para cada uma de nossas Casas pela iniciativa e pelo trabalho excepcional de meses.
Becca e eu estávamos orgulhosos do nosso trabalho e combinamos de nos encontrar nos jardins para um piquenique em comemoração ao que tínhamos realizado juntos. Foi nessa mesma ocasião, sentados nos jardins, que ambos tomamos coragem e trocamos um beijo: nossos lábios se juntaram por alguns segundos e logo se separaram. Naquele instante, eu senti como se pudesse voar.
Meus colegas logo souberam do que aconteceu e cumpriram suas ameaças; O preço por ignorá-los foi muito pior do que ser vítima de uma Azaração da Dança ou um Feitiço do Corpo Preso: eles foram atrás dela.
Num sábado morno e nublado, esperei por Becca para passearmos pelos terrenos da escola, como ela tanto gostava, porém ela não apareceu. Pensei logo que ela poderia ter ficado doente, já que ela costumava ficar inexplicavelmente doente uma vez por mês. Fui direto para a Ala Hospitalar, mas ela não estava lá. Procurei pela garota que Becca dizia ser sua melhor amiga e colega de dormitório, Juniper MacKay, uma escocesa de sangue quente e sotaque forte, com quem Becca passava a maior parte do tempo:
— Como eu vou saber onde ela está, Malfoy?! – Juniper questionou assertivamente. – Ela deveria estar com você, não?
— Sim, mas... – Eu comecei.
— Mas o que, hein lad(2)? – A garota tirou uma mecha de cabelos castanhos enrolados do rosto, enquanto seus olhos azuis faiscavam na minha direção – Não me diga que vocês brigaram...
— Não, não! – Neguei fortemente, reforçando com gestos manuais, enquanto Juniper deu um passo em minha direção estreitando os olhos – Ela não foi me encontrar. E também não está na enfermaria.
Imediatamente, Juniper parou, recuou um passo e colocou a mão no queixo, pensativa. Logo decidimos que íamos nos dividir para procurá-la e avisaríamos um ao outro caso tivéssemos sucesso na busca. A garota foi para a Sala Comunal delas e eu fui direto para a sala de estudos, onde desenhamos nosso mapa genial.
Entrei e olhei o local todo, mas ela não estava lá. Ao retornar pelo corredor ouvi claramente sua voz vindo de uma sala de aula que deveria estar vazia. Parei para ouvir e escutei o seguinte:
— Me solta, me solta! — Era mesmo a voz dela e ela parecia estar chorando. Porém logo ouvi mais uma.
— Silencia ela de novo, Nott — Mole disse. — Ou a nossa diversão vai acabar.
Ao entreabrir a porta, vi que Becca estava presa a uma cadeira, sem nenhuma corda ou algo assim, o que me levou a pensar que foi magia. Antes de aceitar a sugestão de Mole, Nott a acertou com um feitiço o que fez os dois rirem escandalosamente enquanto garota e cadeira caíam juntos, porém sem se separar. Eu abri a porta com força, fazendo-a bater na parede:
— O que é que vocês estão fazendo?
— Malfoy! Era você que faltava! — Mole me saudou, amigável — Nós avisamos você que se não parasse de andar com ela, nós íamos dar um jeito.
Quando Nott endireitou a cadeira e logo a silenciou, eu pude ver cortes e hematomas no lindo rosto de Becca. Ela tinha lágrimas escorrendo pelos olhos e sua expressão era de puro medo. Eu caí na real de maneira dolorosa quando percebi que a intensão deles nunca foi dar um jeito em mim.
— Soltem ela! — e avancei um passo. Logo senti a mão de Mole em meu peito, impedindo minha passagem.
— Não, Malfoy. — Mole disse, com malícia nos olhos. — Você nos desafiou. Ela nos desafiou, pensando ser boa o suficiente para um de nós. E agora é hora de pagar por isso.
Eu mal senti o Feitiço das Pernas Presas que me atingiu, enquanto eu observava Becca chorando e balbuciando sem produzir som algum. Um deles chutou minha varinha para longe e ambos riram com isso. Eles foram cruéis com ela e tudo que eu fiz foi chorar e implorar. Mesmo que eu disesse que faria qualquer coisa para que eles parassem com aquilo, ambos repetiam “vocês precisam aprender uma lição” sem parar.
Depois que Nott e Mole se cansaram, me puseram em pé e me fizeram prometer que não ia mais chegar perto de Becca ou qualquer outra garota que não fosse “do nosso nível”. Além disso, Mole ameaçou o emprego dos pais de Becca e, sendo o pai dele quem era, era melhor não pagar para ver. No fim, devastado de humilhação e tristeza, eu prometi.
Depois disso, Nott a levou para a enfermaria e Mole me levou para nossa Sala Comunal, onde me colocou sentado no meu lugar de sempre junto a janela:
— Agora as coisas vão melhorar, Malfoy. Você vai ver. — Ele disse sorrindo de uma maneira acolhedora e ameaçadora na mesma medida.
À noite, depois do jantar, disse aos meus colegas que tinha que devolver o livro que tinha acabado de ler para a biblioteca e fui até a Ala Hospitalar para saber notícias de Becca, mas fui barrado por Juniper, que estava na porta na ponta dos pés para tentar enxergar alguma coisa através da escotilha:
— Madame Pomfrey não deixou você ficar lá dentro? — Perguntei timidamente.
Como resposta, levei um soco na maçã esquerda do rosto.
— Como você pôde?! — Juniper estava com os olhos transbordando lágrimas. — Ela é minha melhor amiga!
Levei a mão onde a dor latejava e respondi:
— Eu não queria que nada disso acontecesse... — Meus argumentos estavam escassos.
Quando ela se aproximou novamente de mim, eu levantei o braço para me defender, mas ela cerrou o punho e me acertou com a outra mão, diretamente no nariz:
— Vá embora, Marcus Malfoy. Nunca mais quero ver você cruzando nosso caminho ou te parto a cara de novo!
— Eu só quero saber se ela está bem, só isso — Eu disse, sentindo o sangue descer pelas minhas narinas. — Eu não fiz nada!
Juniper limpou as lágrimas com a mão suja do meu sangue:
— Esse é o problema, Malfoy — Ela disse arfante — Você não fez nada.
— Ao menos, deixe minhas desculpas para ela... É perigoso falar ou mandar uma coruja...
— Eu transmito sua mensagem, balach à Sasainn(3)— Agora desapareça daqui seu muc salach agus mangach!(4).
Eu não entendi uma palavra do que ela disse, mas não me pareceu uma gentileza, então decidi ir embora para tratar do meu sangramento nasal e dos hematomas que se formavam pelo meu rosto. Quando olhei para trás, ainda me encarando, Juniper MacKey era o próprio retrato de uma guerreira celta em miniatura, com sangue nas mãos e no rosto como se tivesse pintada para a batalha.
Becca e eu passamos duas semanas juntos, entre passeios de mãos dadas, eu levar flores para ela e ela me trazer dobraduras em forma de animais mágicos. Duas semanas que custaram a ela o trauma de ser presa e feita de alvo de feitiços e azarações pelos meus colegas. Eu não preciso dizer a você aí que nunca mais nos falamos e que eu aceitei voltar a andar com Nott e Mole, para a minha vergonha, não é? A única coisa que restou disso tudo foi o mapa, que no lugar do nome escolhido por ela, ficou apenas o meu sobrenome e anos mais tarde eu soube que no mapa de Becca também restou apenas seu sobrenome da junção.
Mesmo eu tendo decidido passar o Natal daquele ano em Hogwarts, depois do que aconteceu entre mim e Becca, tive vergonha e voltei com o rabo entre as pernas para casa. Minha recepção foi péssima, claro. Minha história com a srta. Norcross chegou até meu pai, que me castigou ao seu estilo, com feitiços dolorosos e humilhação, além de me manteve fechado em meu quarto durante toda as férias de Natal, pois disse não confiar em mim. Eu só saía quando eles saíam ou quando recebíamos visitas em casa. Não tinha permissão para falar a menos que falassem comigo e não descia nem para fazer as refeições com meus pais. Mesmo com tudo que eu estudei com a Sra. Carson, nunca fui o melhor do mundo em cuidar de feridas, por isso, fiquei machucado até meu retorno a Hogwarts. Pouco antes da volta para a escola, meus pais deram permissão aos elfos que me levassem os presentes de natal que eu ganhei, afinal o protocolo dizia que eu precisava escrever uma carta para cada um que me mandou, agradecendo a gentileza. Entre eles, estava uma carta de Becca, desferindo o golpe fatal e bem merecido sobre nosso relacionamento e amizade. Na carta, ela disse que os pais dela ficaram muito preocupados com o que aconteceu e que os dois, e também a própria Becca, preferiam que nós não nos víssemos mais.
O restante do ano, eu me mantive silencioso e não ousava a olhar para os lados quando andava pelos corredores da escola por medo de retaliação. Nunca aconteceu: o que me consumia mais uma vez era a culpa. Inicialmente eu procurava Becca com os olhos durante as refeições e furtava olhares para ela, nas aulas que compartilhávamos; ocasionalmente nossos olhos se encontravam e ela rapidamente os desviava. Fui deixando de fazer isso para não levantar suspeitas dos meus colegas e logo, como antes de nos conhecermos, nos tornamos estranhos novamente.
No fim do ano letivo, depois das provas finais, foi nos dado a oportunidade de selecionar as matérias que faríamos no próximo ano. Cada um parecia ter o próprio critério de escolha: desde o que julgavam ser mais fácil, escolha da própria família ou até combinar com os amigos para estudar juntos. Meu critério foi interesse, por isso minhas eletivas foram Aritimancia, Runas Antigas, Trato das Criaturas Mágicas e Alquimia. Sim, na minha época, Alquimia era uma matéria eletiva no terceiro ano e não o nível avançado N.I.E.M. de Poções como atualmente.
Naquele ano, a Lufa-Lufa foi a Campeã da Taça das Casas e a Professora Spore receber o troféu, mas não tive coragem de olhar para a mesa da Casa, onde Becca estaria comemorando com Juniper e seus colegas.
Minhas férias do segundo para o terceiro ano não foram muito diferentes do habitual, com visitas, bailes e eventos sociais de temporada, por isso vou te poupar de mais cotidiano do meu círculo próximo e seguir em frente.
Voltar para a escola era sempre um alívio e uma felicidade sem tamanho. Eu não comentei com você aí, mas a partir do segundo ano, depois do nosso desembarque do trem, não seguimos mais para o porto, mas sim para carruagens que nos levam até o castelo em quartetos. Para os desavisados, pode parecer que as carruagens se movem através de magia, mas para quem leu Hogwarts, uma História tantas vezes quanto eu li, sabe que são testrálios, criaturas visíveis apenas para aqueles que presenciaram a morte de perto, quem as puxam. Naquele banquete, onde eu já era oficialmente um aluno do Terceiro Ano, vi Melinda Selwyn ser selecionada para a Sonserina. Eu a aplaudi educadamente como os meus outros colegas de Casa. Ela fez seu caminho em minha direção, com intuito se sentar com os outros primeiranistas, porém parou por um instante. Eu sorri de volta e fiz meu papel de veterano:
— Parabéns, Mel! Seja bem-vinda!
— Obrigada, Marcus. Com licença. – Ela agradeceu polidamente e seguiu seu caminho para sentar-se ao lado dos outros novatos.
Também no terceiro ano, iniciei minhas matérias eletivas e estava mais do que ansioso para cada uma delas. Por ter escolhido o máximo de matérias além das básicas, meus horários, diferente dos meus colegas, estava lotado. Porém não encarei isso como um problema: era a possibilidade de um recomeço e confesso que estava encantado com essa nova rotina. Agora sim eu me sentia um verdadeiro veterano: estava consideravelmente mais alto que no ano anterior, conseguia prontamente dar indicações para os alunos mais novos que se perdiam e andava com livros diferentes dos primeiranistas e segundanistas, o que despertava curiosidades e até iniciava uma conversa aqui e ali.
Nas aulas de Alquimia, eu tive aulas com a Professora Margareth Bacon, da família do célebre alquimista Roger Bacon, o Doctor Mirabilis. Ela iniciou a primeira aula com uma citação do seu famoso antepassado que nunca me esqueci: "Ciência experimental é a rainha do conhecimento." Essa era a base de sua educação: tese e experimento, por isso suas aulas eram tão apreciadas pelos alunos da minha época. A Professora Bacon nos incentivava a pôr à prova tudo em que acreditávamos e era capaz de traduzir até o mais simples feitiço em fórmulas matemáticas. Ela era genial e foi uma honra ser um de seus alunos até o fim da minha vida acadêmica em Hogwarts.
Foi na aula de Aritimancia que eu tive o contato pela primeira vez com um metamorfomago. O Professor Axel Fenwick era a sensação das garotas e porque não dizer, de alguns garotos também. Ele tinha uma aparência jovem, angulosa e simétrica que causava alvoroços, sempre tinha um sorriso para um aluno e nunca deixava uma dúvida passar até ser completamente sanada. Mas o que mais chamava a atenção é que cada aula ele estava com os cabelos e os olhos de uma cor diferente da anterior. Sua introdução aos alunos do terceiro ano sempre era explicar sua habilidade mágica de nascença e mostrar na prática como funcionava, para não haver estranhamento por parte dos alunos. Ele não era apenas um rostinho bonito, também era um excelente professor.
Infelizmente, eu não tive a melhor sorte na disciplina de Runas Antigas: minha professora era a tradutora Prudence Abernathy, uma senhora de porte elegante e o inconfundível sotaque de Liverpool, já de idade avançada, que embora aparentasse entender muito sobre o assunto, não sabia como passar o conhecimento adiante. Eu estudava por conta própria e, quando tinha uma dúvida que não encontrava nos livros, escrevia para a Sra. Carson, que sempre me explicava tudo detalhadamente e ainda me recomendava onde eu poderia encontrar mais sobre o assunto. Infelizmente, por causa dessa situação com a Professora Abernathy, muitos alunos acabaram abandonando a matéria nesse ou ao longo dos anos que se seguiram.
Em Trato das Criaturas Mágicas, eu tive o privilégio de ser aluno Silvanus Kettleburn. Na época, já lhe faltavam um braço e uma perna, mas os dois olhos ainda estavam lá. Suas aulas eram muito alegres, afinal ele transmitia seu empolgamento para nós em cada uma das criaturas mágicas que nos apresentava. Ele tinha admiração por todas igualmente, desde os majestosos dragões aos singelos vermes cegos. Nós nunca entramos numa sala de aula para aprender com ele: sempre estávamos ao ar livre, usando tocos de madeira e grandes rochas lisas para apoiar nossas penas e pergaminhos para fazer anotações ou desenhos. Quando enfrentávamos chuvas torrenciais, andávamos com ele pelo castelo para procurar pragas e removê-las: fadas mordentes, bandinhos, chizácaros, rabicurtos e até um bicho-papão, certa vez. Ele próprio lidou com o metamorfo, que se transformou horrivelmente num dragão verde-galês morto, para nos mostrar como se fazia. Depois do feitiço lançado, os restos do dragão se transformaram num fantoche de meia alado, com boca de feltro e olhos de botões díspares. Com a gargalhada de duas turmas inteiras a criatura se desfez no ar sem deixar resquício algum para trás.
Também no terceiro ano, é dado permissão aos alunos de visitar a vila de Hogsmeade pela primeira vez. Eu estava encantado com a possibilidade de finalmente conhecer o Três Vassouras, a Dedosdemel, a Dervixes & Bangues e porque não, a Zonko’s — Logros e Brincadeiras. Mole e Nott, por sua vez, queriam conhecer o Cabeça de Javali. Graças a essa divergência, decidimos nos dividir. Eu pensei que aquilo foi ótimo e logo escrevi para a Sra. Carson com a data da visita, perguntando se poderíamos nos ver. Não tardou até que ela respondesse que seria um prazer almoçarmos juntos no Três Vassouras e que ela me levaria um presente. Os dias mal passaram até a data combinada.
No segundo fim de semana de outubro, todos os alunos do terceiro ano estavam em fila com permissão em mãos, passaram pelo Sr. Ogg e sua lista infindável de alunos para confirmação de um a um. Meus colegas correram em disparada e eu fui andando e aproveitando o ar fresco e a paisagem de outono que a natureza me proporcionava.
O vilarejo de Hogsmeade é pequeno e simples: Tem uma rua comercial principal e as casas dos moradores em ruelas adjacentes. Uma coisa interessante sobre o lugar é que ele é, hoje em dia, o único vilarejo inteiramente bruxo do Reino Unido, sendo assim, os poucos trouxas que circulam por lá são parentes de alunos que conhecem, mesmo que de relance, o mundo mágico. Não há nenhuma família de trouxas morando ali, o que proporciona aos locais que a magia faça parte do dia-a-dia. Entrei em todas as lojas e comprei em todas elas. Para a Sra, Carson, escolhi de presente uma pena de escrita marrom, retirada da cauda de um grifo adulto, portanto ela era enorme. Junto dela, um tinteiro com formato da própria criatura, banhada em bronze. No horário combinado eu fui ao Três Vassouras e logo a avistei, com suas roupas austeras e o cabelo preso de maneira elegante, exatamente como eu me lembrava. Eu sorri para ela e que se levantou para me receber com os braços abertos:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Mestre Marcus! — Ela chamou, como antigamente. Pareciam fazer milênios que não ouvia a voz da Sra. Carson e ao ouvi-la com aquele saudoso sotaque irlandês, senti as lágrimas de saudades subirem aos meus olhos.
— Olá, Sra. Carson. Como a senhora está? — Eu usei toda a educação que ela me deu, queria deixa-la orgulhosa.
— Como você cresceu! — Foi a resposta dela, enquanto recuava um passo para me ver da cabeça aos pés. Ali eu percebi que estava da altura dela. — Estou ótima, muito feliz por te ver!
Ela era tão alta, o que aconteceu aqui? Me questionei.
A Sra. Carson sorria sem reservas. Ela se sentou e apontou a cadeira diante dela:
— Sente-se. Tomei a liberdade de pedir cerveja amanteigada para nós. Rosmerta, a dona do pub, faz a melhor que já provei.
Acenei positivamente com a cabeça, enquanto as duas grandes canecas eram colocadas a nossa frente por Madame Rosmerta, linda, sorridente, de vestido justo e seios fartos que me fez corar e desviar o olhar educadamente. Ao ver minha reação, a Sra. Carson soltou um risinho de quem sabia exatamente o que estava acontecendo e logo perguntou sobre mim:
— Hogwarts é tudo o que esperava?
— Sim e não — Eu ponderei. — Tudo aqui é muito confuso e muito grande. Algumas vezes sinto que vou sufocar.
— O nome disso é liberdade, Mestre Marcus. — Ela disse, bebericando mais um pouco da própria caneca — Ninguém disse que seria fácil, mas eu prometo que vale a pena quando finalmente aprende a desfrutar dela.
— Você sempre sabe o que dizer e quando dizer, Sra. Carson. — Eu disse, surpreso. Nem parecia que não nos víamos há dois anos inteiros.
— Oras, é porque eu leio e estudo muito. — Ela disse rindo. — E falando nisso, me conte dos seus estudos.
E eu contei tudo, tudo que minha memória eidética me proporcionou sobre bons e maus momentos. Ela ouviu impassível sobre o que aconteceu entre mim e Becca Norcross e disse que discordava do fato de eu ainda manter amizade com os “elementos” que a aprisionaram. Eu baixei a cabeça, envergonhado e sem saber o que realmente dizer sobre aquilo, logo ela mesma concluiu:
— Você vai ver por você mesmo Mestre Marcus, você é inteligente. E quando perceber, vai se lembrar do que conversamos hoje. Não se esqueça que tudo que vai, volta. — Ela piscou com um olho para mim, me encorajando a retomar a nossa conversa.
Enquanto comíamos, contei a ela minhas escolhas das matérias eletivas e sobre meus novos professores. Eu estava muito feliz por ter alguém que estava verdadeiramente interessado no que eu tinha para falar e que sem empolgava e se indignava comigo na mesma intensidade. Ela também dividiu comigo muitas coisas sobre a estufa que tinha montado e que seu negócio deu mais certo que ela própria imaginou. Ali eu percebi que ela tinha deixado de ser minha tutora e passou a, de fato, ser minha amiga.
No fim, passamos a tarde toda juntos. Logo antes de nos despedirmos, entreguei para a Sra. Carson o presente que comprei e, ao abri-lo, ela vibrou de felicidade. Logo foi a vez dela de me entregar um pacote, como sempre embrulhado em papel pardo com um laço bonito, porém sua sugestão foi para que eu o abrisse no castelo, pois era delicado e poderia quebrar se caísse no chão. Na nossa despedida, pedi que ela deixasse de me chamar de “mestre” e que só Marcus seria o suficiente. Ela sorriu satisfeita com a minha própria decisão, e disse:
— Não esqueça o bom menino que você é, certo?
E como sempre, respondi prontamente:
— Sim, Sra. Carson!
Ela me olhou com os olhos marejados enquanto sorria satisfeita, plantou um beijo na minha testa e desaparatou. Voltei para o castelo pensando em tudo que tínhamos conversado e sorri em cada lembrança.
Depois de tomar um banho, jantar e me recolher, abri o pacote que a Sra. Carson me deu e descobri ali em pé, montado osso por osso, o esqueleto de um gnomo de jardim dentro de uma redoma de vidro. Junto dele havia um bilhete:
“Esse pestinha estava acabando com as plantas da minha estufa, me tirou tanto do sério que plantei uma armadilha. Sorte nossa, azar o dele.
Com carinho,
Mary Carson”
Eu virei inúmeras vezes o pequeno esqueleto para ver todos os detalhes que consegui. Pousei meu novo enfeite na mesa de cabeceira ao lado de minha cama e furtei dele um olhar antes de fechar as cortinas: A Sra. Carson me conhecia tão bem mesmo depois de todos esses anos e isso me deixava muito feliz e intimamente tranquilo por saber que ela não se esqueceu de mim.
“Então é assim que seria ter uma mãe de verdade?” Foi o meu último pensamento antes de pegar no sono naquele dia.
Você aí deve estar curioso, afinal venho falando do natal em Hogwarts desde o início desse capítulo. Pois bem, essa hora chegou: Finalmente eu passaria o primeiro de muitos natais na escola.
Logo no início de dezembro, tudo já exalava o clima natalino: havia guirlandas nas portas das salas de aula, visco(5) pendurado em locais estratégicos dos quais certos alunos fugiam e outros faziam questão de se demorar embaixo, toucas de Papai Noel nas armaduras, doces e salgados sazonais nas refeições e tudo tinha cheiro de pinheiro recém cortado. O sr. Ogg e o seu assistente, Rubeus Hagrid, um rapaz muito mais alto que a média e três vezes mais robusto, trouxeram para o Salão Principal os quatro tradicionais pinheiros que foram posicionados e enfeitados até se tornarem árvores de natal temáticas para cada uma das Casas de Hogwarts. Eu escrevi aos meus pais comunicando que ficaria na escola para as festas e, apesar dos protestos via correio-coruja de que eles tinham esse ou aquele compromisso com as famílias de sempre, acabaram por me fazendo decidir e eu decidi ficar. Pensando em retrospecto, talvez eles quisessem fazer com que a minha consciência pesasse e eu fosse para a casa, mas no fim, não funcionou.
Na semana do Natal, a maioria dos meus colegas de Casa tinham ido passar as férias com a família. Do meu ano, fiquei apenas eu. Alguns alunos mais velhos em épocas de N.O.M.s e N.I.E.M.s também ficaram, bem como os monitores responsáveis. Totalizávamos apenas catorze alunos vestindo o verde e prata da Sonserina. Naquele tempo de solitude, peguei meu mapa, e saí andando com ele pelo castelo, desbravando as passagens secretas anotadas ali, mas que eu não conhecia pessoalmente, também anotei mais duas que descobri mexendo em armaduras a esmo pelos corredores. Eu descobri gostar de estar sozinho, apreciar o silêncio e a minha própria companhia, afinal até aquele momento, tudo que eu conhecia de ficar sozinho era sempre esperar ser convocado ou estar trancado num único cômodo. Andando pelo quinto andar, com apenas os quadros me observando, me peguei pensando numa música que a Sra. Carson sempre cantava para mim quando eu era menor. Comecei assobiando baixinho e, ao perceber a reverberação, logo dei voz a essa cantiga que remetia a outros tempos. O eco espalhou minha voz mais ou menos afinada por todo o andar e Wild Mountain Thyme(6) ressoou em cada armadura, vitral e abóbada daquele piso. Quando terminei, os quadros presentes aplaudiram, também observei que alguns limpavam lágrimas do canto dos olhos. Fiz isso mais duas vezes, sempre escolhendo canções antigas e de poesia tocante. Naquele dia aprendi uma coisa nova sobre mim: eu gostava de cantar e se estudasse sobre o assunto, poderia ficar bom nisso.
Na manhã de natal(7) haviam muitos presentes ao pé da minha cama, que eu abri sem me preocupar em espalhar os papéis, já que eu era o único aluno a ocupar meu dormitório. Ganhei vários presentes dos amigos dos meus pais e uma cesta de doces da Sra. Carson. Eu não podia estar mais feliz. No almoço, o banquete foi servido numa única mesa, onde todos os alunos e os professores que ficaram se uniram, sem distinção de Casa ou de posição para celebrar. Foi maravilhoso, todos estavam rindo, conversando e passando travessas de legumes e mince pies(8). Me senti em família, como nos livros de romance, onde todos tem espaço e, apesar das diferenças, um apoia o outro.
A partir daqui, vou seguir direto para as minhas férias, já que provas finais e entregas de trabalho nunca foram questões de grande importância para mim.
Já pela metade do recesso, eu estava de fato estudando canto e me empenhando para ter um hobby artístico tão valorizado pelas pessoas que me rodeavam. As pessoas do círculo próximo dos meus pais passaram a gostar de me ouvir cantar e parece que até pude ver um reflexo de orgulho nos olhos de minha mãe. Ou talvez fosse inveja, jamais tive interesse em saber. Certa vez acordei e quando dei bom dia aos meus pais, minha voz falhou. Pigarrei e tentei novamente, enquanto ambos olhavam para mim como se minha demora fosse incomoda demais para ser suportada. Quando os vocábulos saíram, estavam todos desafinados, errados e falhados.
“O que diabos está acontecendo comigo?” Eu pensei, enquanto sentei à mesa, de olhos arregalados, sem dizer mais nenhuma palavra.
Como minha voz não melhorou ao longo dos dias, mesmo tomando chás e passando longos períodos em silêncio, meu pai convocou o idoso Curandeiro Titus Silverhorn. Era ele quem cuidava da saúde da família há anos, quem me trouxe ao mundo e a única pessoa em quem meus pais confiavam para esses assuntos. Depois de me examinar, o curandeiro, tirou as luvas e a máscara, guardou a varinha nos bolsos internos do jaleco e me mandou fechar a boca:
— Então Curandeiro, o que o garoto tem? — Meu pai quis saber de uma vez.
— Nada. — O curandeiro respondeu olhando para eles e depois para mim — O jovem sr. Malfoy está muito saudável como sempre.
— Ah, então só pode ter a ver com aquela tal condição que os professores dele mencionaram.
— Que condição? — Quis saber o curandeiro, em tom muito sério.
Reuni uma gota de coragem e respondi:
— Eu tenho memória eidética. — Cada palavra saiu num tom, começando num grave estranho aos meus próprios ouvidos e terminando num agudo que poderia ser confundido com a voz de uma garota.
O curandeiro sorriu:
— Mas isso é formidável. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em me mandar uma coruja.
Eu abri a boca para agradecer, mas decidi apenas acenar polidamente com a cabeça.
— Se isso não tem a ver com a cabeça do garoto, o que é então? — Meu pai interferiu.
— Ele está na puberdade, Sr. Malfoy. — O Curandeiro Silverhorn esclareceu. — Eu passei por isso e o senhor mesmo também. — Admirei a coragem do homem por falar daquela maneira com o meu pai, mas o curandeiro apenas continuou — Na adolescência todos os jovens rapazes têm a fase de mudança de voz. Não há nada incomum com você, mas precisará passar por isso.
Peguei um pedaço de pergaminho, pena e tinteiro e escrevi:
“E quanto tempo isso vai durar?”
— Que caligrafia bonita, jovem senhor — O curandeiro elogiou olhando o pergaminho mais de perto — Cerca de seis meses.
Emiti um som qualquer para expressar meu desgosto e desapontamento e escrevi novamente no pergaminho:
“Eu vou voltar a cantar novamente?”
— Ora, mas o senhor canta? — Ele me perguntou, surpreso e eu fiz que sim com a cabeça — É claro que vai. O que vai acontecer é que possivelmente sua voz vai engrossar e depois de se acostumar com ela, você terá que ajustar o tom das músicas, mas é só. — Minha expressão de alívio foi nítida o suficiente para que ele continuasse — É um processo natural do seu corpo, jovem senhor, como a troca de dentes foi e como outras mudanças corporais ainda serão. – E virando para os meus pais, disse — Sempre que precisarem de mim, escrevam e eu virei vê-los e responder as dúvidas que o jovem sr. Malfoy possa vir a ter. E também conte com a Curandeira de Hogwarts, ela sabe muito bem o que faz. — Ele disse aos meus pais, para tranquiliza-los e reforçar que eu estaria em boas mãos na escola.
O Curandeiro Silverhorn se despediu de mim e seguiu com os meus pais para receber o pagamento pela consulta. Eu fui para o meu quarto e lá permaneci até o fim das férias, falando o mínimo possível e de maneira nenhuma, me atrevendo a cantar.
Pela primeira vez em todos os meus anos de Hogwarts, eu não queria voltar para a escola. Queria ficar fechado no meu quarto, em silêncio até a minha voz estabilizar. Nos livros que eu li, falavam que os exercícios de canto ajudavam na mudança de voz, eu os fazia todos os dias e não via uma migalha de diferença; como isso me frustrava. Não havia outra solução: eu ficaria o resto das férias em silêncio e assim o fiz. Me desculpava em uma voz que não era mais que um sussurro aos convidados e me comunicava o mínimo possível com os meus pais, que sempre tinham expressões mistas de complacência e ironia nos rostos, me fazendo ficar ainda com mais vergonha de como eu soava.
Mais do que nunca, decidi mergulhar nos estudos e não abriria a boca até sentir que minha voz estaria minimamente apresentável e foi graças a essa decisão que embarquei em uma das minhas aventuras paralelas à escola mais interessantes. Mas você aí terá que esperar, pois essa façanha e os demais anos ficarão para o nosso próximo encontro. Sinto que já tomei muito do seu tempo e isso não pode acontecer. Mais uma vez, agradeço pela companhia e até a próxima.
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