Cupid's Kiss

1 Parte um: Um cupido/stalker particular


Na escola mista de Shimotsuki o dia parecia absolutamente normal. Era um dia ensolarado como outro qualquer, com suas atividades escolares obrigatórias e professores estranhos e exigentes. E para Roronoa Zoro, um aluno desinteressado do 2° ano do colegial, não poderia ser diferente. Ele caminhava em um dos vários corredores daquela escola, com expressão torcida de raiva no rosto, a procura do professor responsável pelo clube de kendo.

Não que ele estivesse irritado com o sumiço do professor Aokiji, longe disso. Como ele tinha o costume de desaparecer várias vezes durante o dia, praticamente todos se adaptaram a sua ausência durante o horário do clube. O verdadeiro motivo, porém, de sua irritação era a perseguição assídua que vinha sofrendo há dias por um garoto loiro e alado que não largava sua sombra.

Sim, o garoto realmente tinha asas cheias de penas brancas em suas costas e, sim, o limite da paciência de Zoro estava perigosamente perto de estourar. Afinal, essa perseguição já tinha completado três dias inteiros e tudo por causa de um estranho acontecimento.

*

O despertador apitava insistentemente a cinco minutos seguidos, mas quando por fim conseguiu cumprir sua missão, ele foi cruelmente arremessado contra a parede. Os resquícios do finado despertador caíram de maneira ruidosa no chão, juntando-se aos pedaços de outros despertadores falecidos em datas anteriores, de formatos e cores variadas.

Um jovem de cabelos verdes, que até então estava dormindo profundamente, murmurou algumas palavras desconexas enquanto tirava as cobertas de cima de si. Após se levantar preguiçosamente da cama, iniciou uma sequência de passos cambaleantes em direção ao banheiro, vez ou outra soltando um bocejo involuntário. O sono ainda não o havia deixado por completo e as vezes parecia que nunca o abandonava. Porém, antes que entrasse de fato no banheiro, uma voz pronunciou-se em meio a semiescuridão do quarto:

— Acorda em cima da hora e não parece ter bons modos também.

Zoro virou-se de imediato, forçando a vista para tentar encontrar de onde a voz tinha vindo, mas o ambiente escuro não favorecia a procura. Resmungou algumas palavras inaudíveis e marchou a passos largos até a janela. Afastou as grossas cortinas com um só movimento com do braço e depois que se acostumou com a claridade, surpreendeu-se ao ver um rapaz loiro parado no centro do quarto analisando-o na maior cara de pau.

Ele era relativamente pálido e aparentava ser da mesma idade de Zoro. A sua franja era caída sobre um dos olhos, mas o olho que estava descoberto era de um incrível azul-celeste. Mas o que mais chamou a atenção do Roronoa foi a peculiar sobrancelha que terminava em espiral. Jamais havia visto algo como aquilo.

— Quem diabos é você? — Zoro indagou com a testa franzida.

Um momento de silêncio se passou, enquanto o tal loiro continuava encarando-o com desgosto. Quando Zoro estava prestes a repetir a pergunta (vai que o sujeito tinha algum grau de surdez), ele se manifestou de repente:

— E ainda por cima fala sozinho... Por que sempre me dão os mais difíceis? — o loiro suspirou de modo dramático, erguendo uma prancheta branca e passando a anotar algo ali com o lápis que antes estava sobre uma de suas orelhas.

Zoro piscou confuso.

— Eu não estou falando sozinho, estou falando com você. — disse, apontando para a única outra pessoa em seu quarto.

O rapaz ficou estático por alguns segundos, a pele de seu rosto tornando-se ainda mais pálida do que já era. O lápis que estava em sua mão escorregou e caiu no chão, fazendo um ruído estalado ao se chocar com o assoalho escuro.

— V-você consegue me ver? — murmurou incrédulo, dando um passo para trás.

— E por que não poderia?

O loiro apenas piscou, emudecido. Nunca havia acontecido algo assim em algum de seus trabalhos. Como deveria proceder diante uma ocorrência do tipo?

— E o que você está fazendo no meu quarto? — perguntou Zoro começando a se irritar com a falta de resposta do outro.

O loiro engoliu em seco, pensando nas alternativas. Ele podia: 1) Nocauteá-lo e depois desaparecer sem dar maiores explicações, 2) Fingir ser um delírio e convencê-lo de estar maluco, 3) Hipnotizá-lo para esquecer o que viu e fazê-lo dormir outra vez. Eram opções bastante viáveis e seus superiores provavelmente não o julgariam por utilizar uma ou até duas delas, entretanto, ele se percebeu hesitando de colocar alguma delas em práticas. Seu treinamento o tinha preparado para possíveis acidentes (nada naquele patamar, entretanto), mas era a primeira vez que era visto tão nitidamente por um humano e isso alimentou sua curiosidade.

Pensando melhor, ele decidiu por uma quarta alternativa: se apresentar e ver no que ia dar aquela conversa.

— Bem... Eu me chamo Sanji. — disse, por fim.

Zoro ergueu uma sobrancelha. Não era sobre isso que tinha perguntado. Coçou a nuca, soltando um longo bocejo antes de continuar.

— Certo, Sanji. O que faz no meu quarto?

— Hm, acho que eu poderia dizer que vim aqui a trabalho.

— Trabalho?

— Isso mesmo.

— E em que exatamente você trabalha? — Não conseguia imaginar um tipo de trabalho que levava alguém a invadir o quarto de um estudante sem dinheiro no bolso. E se ele fosse um ladrão, era um dos péssimos.

Sanji o observou com seriedade.

— Certo, serei direto com você: eu estou aqui para consertar sua vida amorosa.

Sanji falou com tanta confiança que Zoro não conseguiu evitar um sorriso moldar seus lábios. E que outra reação ele poderia ter diante tal frase sem noção? Começou a cogitar a possibilidade de ainda estar sonhando, ou quem sabe fosse um pesadelo. Bom, da próxima vez não comeria muito antes de ir dormir.

Consertar minha vida amorosa, é? Não a nada que precise ser consertado — esboçou um sorriso zombeteiro e cruzou os braços. — E quem você acha que é para sair se metendo na vida dos outros, ou melhor, se metendo no quarto dos outros?

Sanji franziu a testa, claramente estranhando a reação de Zoro. Esperava que ele fosse ficar surpreso ou quem sabe ficar grato pela ajuda, embora duvidasse um pouco dessa última suposição ao ver o comportamento hostil quanto a sua presença. Mudou o peso do corpo de um pé para o outro e colocou uma mão na cintura, adotando uma expressão confiante. Era incomum ser interrogado daquela forma, ainda mais por um de seus objetivos imbecis, mas ele não se deixou abalar por isso. Em vez de se incomodar, Sanji espelhou o sorriso zombeteiro.

— Não consegue adivinhar quem eu sou só de olhar para mim? É mais idiota do que eu imaginava.

Zoro franziu novamente o cenho, passando a analisá-lo por uma segunda vez. Desta vez ele notou as vestimentas de Sanji, que eram apenas uma túnica bege com uma faixa azul amarrada na cintura e sandálias simples de cor negra, e um par de asas brancas como a neve. Zoro arregalou os olhos. Como é que ele não havia visto aquelas enormes asas antes?

Zoro ficou em silêncio por um instante, pensando se o que havia concluído estava realmente certo. Por fim, abandonou aquela ideia absurda e adotou uma mais lógica e viável. Era um homem inteligente, afinal.

— Você é uma daquelas pessoas que se fantasiam de super-herói e tentam ajudar as outras pessoas de alguma forma ridícula. Agora saia antes que eu te jogue para fora.

Zoro respondeu de uma forma tão séria que Sanji perdeu um pouco da pose confiante ao ficar boquiaberto.

— Lógico que eu não sou uma dessas pessoas! Isso sequer deve existir. E que tipo de super-herói tenta consertar a vida amorosa das pessoas? Você é burro?

Ignorando a ofensa, embora uma veia tenha ficado sobressaltada em sua têmpora, Zoro bufou.

— Isso é você que tem que me responder.

Sanji estapeou a própria testa, começando a achar que um pote supremo de azar havia sido despejado acima de si. Não tinha outra explicação, tinha? E já estava se arrependendo de ter começado a interagir com o sujeito.

— Olhe, eu sou um anjo. A-n-jo. Entendeu? — falou, massageando as próprias têmporas. — Para ser mais específico, eu sou um cupido.

Zoro apenas meneou a cabeça.

— Isso não é possível. Além de ter problema algum comigo, a ideia de um anjo invadindo uma casa não parece certa. Sem falar que anjos, certamente, não existem.

Sanji franziu os lábios e estreitou os olhos, mas o leve rubor em suas bochechas fez sua expressão irritada perder parte do efeito.

— Eu não invadi. Apenas atravessei uma das paredes para entrar aqui e eu tenho permissão para isso, ouviu? Não quebrei nenhuma janela, nem abri nenhuma porta usando um grampo. — fez um estalido com a língua. — E é claro que anjos existem! Você não está me vendo aqui? Não está vendo minhas asas? — o loiro gesticulou apontando exasperado para as próprias asas. Era absurdo alguém estar negando sua existência quando podia vê-lo!

Zoro deu de ombros e ficando cansado de ficar em pé, sentou-se na cama de novo.

— São falsas. — respondeu resoluto. — E certamente eu não te dei permissão para entrar. Invasor.

O loiro revirou os olhos e abriu suas asas, estendendo-as por completo. As asas abertas ocupavam bastante espaço e isso deixou o Roronoa um pouco surpreso.

— Acho que não dá pra fazer isso com asas falsas, não é? — Sanji respondeu cínico, decidindo encerrar a parte da conversa sobre invasão domiciliar. Nada de bom sairia daquele raciocínio, já que humanos de fato podiam expulsar anjos de dentro de suas moradias. Era algum tipo de antigo acordo entre os celestiais e os terrenos, mas duvidava que os terrenos atuais lembrassem de algo sobre isso.

— Então, isso é um sonho. — falou novamente convicto.

Sanji quase levou as mãos para puxar os próprios cabelos em estresse, mas conseguiu se controlar no último instante. Por mais quanto tempo Zoro insistiria nisso? Argh!

— Ok, acredite no que quiser, mas eu continuo sendo um anjo. — apanhou rapidamente a prancheta abandonada no chão (quando foi que ela caíra mesmo?) e deu uma rápida lida no conteúdo ali escrito. — E como eu já disse, vim aqui para consertar sua vida amorosa.

— Eu não tenho nada quebrado.

Sanji o ignorou.

— Normalmente as pessoas não me veem, por isso não havia necessidade de explicar coisa alguma, mas no seu caso vou abrir uma exceção. — pigarreou antes de continuar. — Os anjos cupidos somente precisam intervir quando o nível de amor na vida de alguém se torna extremamente baixo ou quase inexistente e que de algum modo atrapalhe os níveis românticos das pessoas ao redor. O que é o seu caso.

Zoro ergueu uma sobrancelha, mas deixou o outro continuar.

— O nosso trabalho se baseia em fazer uma pesquisa minuciosa e descobrir um par compatível com a pessoa desnivelada para que seu nível de amor melhore e pare de corromper os outros. Depois que a encontramos, fazemos com que esta pessoa perceba a pessoa compatível e trabalho cumprido.

A conversa estava ficando cada vez mais maluca segundo a opinião de Zoro, mas ainda assim ele se viu perguntando:

— E como exatamente você faz com que a pessoa perceba?

— Bem, no meu caso eu tenho uma certa habilidade que me faz pressentir quando a pessoa encontrará um par compatível. E isso facilita todo o trabalho. Porém no momento eu não pressinto nada em relação a você, o que é estranho porque minha habilidade nunca falhou, por isso eu o estava avaliando de perto. — ele apanhou o lápis também abandonado no chão. — Mas não se preocupe. Seus problemas amorosos serão resolvidos de um jeito ou de outro. Acredite, você não quer ver o que acontece quando o desnível de amor se propaga demais entre os terrenos e corrompe as relações. Da última vez houve uma guerra mundial.

Zoro deitou-se de lado na cama, apoiando a cabeça sobre a palma da mão.

— Eu não tenho problema amoroso algum, anjo. — bufou uma risada curta.

Sanji deu um olhar incrédulo e começou a reler a prancheta.

— Você já beijou diversas garotas e até alguns garotos também. Teve relações sexuais com algumas destas pessoas, mas nunca entrou em um relacionamento sério. Seu coração sequer palpitou alguma vez. — depois que terminou de ler, lançou um olhar inquisidor sobre o outro. — Pra mim parece que você tem algumas dificuldades quando o assunto é o amor.

— Ei, como é que você sabe de tudo isso?!

— Temos nossos meios. — respondeu simples e passou a caminhar até ficar em frente a cabeça de Zoro na cama. — Ou você aceita a minha ajuda ou terei que adotar medidas drásticas.

— Isso é uma ameaça? — Zoro sorriu desafiador.

— Se você quiser interpretar assim...

*

Depois que Zoro concluiu que realmente não estava sonhando, pareceu cada vez mais difícil aturar a presença do anjo em seu encalço. Sanji ficava sobrevoando a sua cabeça a todo instante, dando sugestões e dicas para se manter firme em um relacionamento. No começo até que não era tão ruim, mas depois de três dias aquelas sugestões já estavam insuportáveis. Além disso, Sanji vivia julgando todos os seus hábitos, desde a forma como mastigava até o jeito como dormia em sala de aula.

— Cala essa maldita boca! — esbravejou, enquanto abria de maneira rude a porta de uma sala de música.

Sanji apenas ria das reações exageradas do outro.

— Não adianta ficar gritando. Eu já disse que só irei embora quando cumprir minha função. — abriu um sorriso travesso. — E se você continuar gritando sozinho desse jeito, vai ganhar má fama entre os outros terrenos...

Zoro rangeu os dentes com força. Como um anjo poderia ser tão chato?

— Ei, para onde está indo? — o anjo perguntou ao ver Zoro refazer o caminho de volta para o refeitório com a face ainda emburrada. — Já cansou de procurar o tal professor?

Zoro bufou, se negando a responder ao irritante projeto de anjo perseguidor.

— Não vou desistir só por que você está me ignoran...

O loiro parou de súbito e ficou estático no ar por alguns instantes. O repentino silêncio de Sanji intrigou o Roronoa, fazendo-o parar e olhar com o cenho franzido para o anjo que ainda flutuava. No entanto, quando ia perguntar o motivo daquela ação, Sanji pousou no corredor com um sorriso de orelha a orelha.

— O que há de errado com você? — Zoro indagou estranhando a aproximação do anjo sorridente.

— Nada. — seu sorriso continuava intacto. — Só estou feliz porque finalmente consegui pressentir que você encontrará um par compatível em breve...

O outro apenas o olhou com descrença, mas Sanji não se deixou afetar minimamente por isso.

— Agora só resta descobrir quem é — Sanji cantarolou, dando tapinhas na cabeça de Zoro.

Zoro espantou sua mão para longe e seguiu com seu caminho até o refeitório. Se não se apressasse logo provavelmente ficaria mais um dia sem almoçar por causa da enorme batalha que havia para decidir qual o aluno que comia mais. E se ele não estava enganado, já fazia dois meses que uma tal de Bonney seguia com vitórias invictas.

Pegou um prato que a moça da cantina havia escondido para ele e sentou-se na mesa mais afastada do local onde aconteciam as competições.

— E então, já está sentindo algum sentimento novo brotar aí dentro? Alguma expectativa agitando seu coração? — Sanji surgiu do nada, apertando os ombros de Zoro.

E como quase sempre, o humano o ignorou.

O anjo sentou-se ao seu lado, passando a dar várias olhadelas em volta à procura de alguma possibilidade de par compatível. Já estava se sentindo meio sem esperanças quando seus olhos bateram numa garota ruiva que observava a batalha de comilões.

— Ei, o que acha daquela ali? — apontou para a jovem que agora gargalhava com algo que havia acontecido ali no círculo.

Zoro olhou-a por um momento, apenas por curiosidade, mas logo voltou sua atenção para a comida.

— Não vai pelo menos dizer que ela é bonita?

Zoro olhou-a novamente, mas desta vez analisou-a de modo prático. Seus longos cabelos ruivos caiam em ondas suaves sobre os ombros e iam até a sua cintura. E suas curvas certamente deviam ser motivo de inveja para muitas pessoas também. Porém, ela não havia despertado nenhum interesse verdadeiro no jovem Roronoa. Este, por sinal, voltou a prestar atenção nos alimentos a sua frente.

Sanji revirou os olhos.

— Vamos lá! Você a conhece, não é? — persistiu o loiro, tentando criar uma pequena curiosidade. — O nome dela é Nami, certo?

Zoro permaneceu em silêncio.

— Ela deve ser um bom partido, não? Talvez ela seja a sua futura paixão...

— Escute, eu só falei com ela uma vez e foi por causa de um trabalho em dupla sorteado pelo professor. E acredite, aquela bruxa não é um bom partido para ninguém. — respondeu em tom ranzinza e encerrou aquele assunto dando uma enorme mordida em seu sanduíche.

O anjo suspirou sem saber o que falar. Voltou a olhar para a ruiva e ficou pensando se a personalidade dela era realmente tão ruim assim.

— Ela não me parece uma “bruxa” — murmurou Sanji após alguns segundos. — Por que você não tenta pelo menos...

Sua fala foi subitamente cortada quando Zoro levantou-se de supetão, abandonando a comida na mesa, e iniciando uma trajetória até a garota ruiva. Assim que se aproximou o suficiente dela, ele cutucou-a no ombro, chamando-lhe a atenção. Nami virou-se para ele.

— Hã? O que você quer, Zo—

A garota não conseguiu nem concluir a frase, pois seus lábios foram prensados de uma maneira rude e inesperada. Aquele ato sem justificativas arrancou olhares confusos de diversos alunos ali presentes. Nami ficou sem reação no primeiro segundo, mas depois que percebeu a audácia de Zoro, ela o empurrou com força e em seguida desferiu um soco no rosto dele.

Zoro tropeçou para trás, segurando o nariz que certamente começou a sangrar se o cheiro ferruginoso fosse uma indicação de algo.

— O que pensa que está fazendo, idiota? — Nami perguntou exaltada, sentindo o rosto quente de raiva.

— Maldita bruxa. — Zoro resmungou, dolorido. — Que tipo de garota soca alguém assim?

Nami estreitou o olhar.

— Você mereceu.

Zoro não podia negar isso. Apenas bufou sentindo o nariz doer, e se retirou do grande salão do refeitório.

*

— Qual o seu problema, cabeça de grama?! — Sanji gritou frustrado, não parando de andar de um lado para o outro no meio do quarto de Zoro.

Depois do refeitório, Zoro limpou o sangue do nariz com papel higiênico e decidiu ir para casa porque não estava mais afim de assistir aula. Entretanto, mal teve paz por alguns minutos lá quando Sanji reapareceu enfurecido.

— Fiz apenas o que você sugeriu. Fui lá e “tentei” algo com ela. — respondeu, sem realmente prestar atenção na conversa. Tocou na tela do celular para passar a página do mangá que lia e apoiou o queixo na palma da mão.

O anjo já estava dando sermão a mais de uma hora e meia e até agora não mostrava sinal de exaustão. As provas estavam se aproximando, mas aquele falatório sem fim do loiro não o deixava sossegado para estudar. Então mudou para a leitura de um mangá, mas nem isso estava conseguindo fazer direito.

— Você estragou a chance de ter um bom relacionamento com ela! — gritou exasperado, agitando as mãos para cima. — Como alguém pode ser tão idiota?!

Sanji gritou mais uma série de reclamações sobre o ato impensado de Zoro antes de, por fim, sentar-se no chão apoiando as costas na lateral da cama do estudante. Zoro quase o agradeceu quando o silêncio finalmente reinou no ambiente. Quase. Tentou ler mais um pouco do mangá, mas não conseguia se importar com o enredo. A qualidade não devia ser tão boa assim ou talvez só não despertasse seu interesse.

Quando estava começando a sentir o sono dominá-lo, Zoro ouviu a voz do anjo se pronunciar baixo como um sussurro.

— Ei, Zoro... — Zoro lançou um olhar de relance para Sanji. Este último tinha a feição circunspecta apesar do ligeiro rubor presente. — Como é a sensação de um beijo?

Zoro o olhou estupefato. Que tipo de pergunta era aquela? Era algum tipo novo de tortura de cupido?

— Não sei explicar.

Sanji pigarreou, como se estivesse reunindo forças para voltar a falar.

— Como foi beijar Nami? — perguntou enquanto fitava os próprios dedos. Era a primeira e talvez única vez que tinha a chance de conversar com um terreno e não desperdiçaria essa chance por causa de seu limitante constrangimento.

Zoro pensou um pouco enquanto observava as feições rosadas do anjo. Por um rápido instante o anjo até que não lhe pareceu tão insuportável. Sanji parecia um pouco... fofo?

— Você nunca beijou, não é mesmo? — ele perguntou sem fazer rodeios. Na maioria das vezes ele era muito direto nas conversas e talvez por isso alguns relacionamentos não tenham tido a chance de dar certo, afinal.

Sanji engasgou ao ouvir aquela pergunta tão objetiva. Levantou o olhar para o outro quase que instintivamente, e sentiu as palavras ficarem presas na garganta. Acabou por apenas engolir em seco.

— Vou entender isso como um sim. — Zoro murmurou mais para si mesmo do que para o outro e deu um meio sorriso. Uma pequena faísca de interesse surgiu em seu interior. — É o tipo de coisa que não dá pra explicar bem. Então, quer experimentar? — perguntou, se levantando e se aproximando do outro em um andar preguiçoso.

Sanji engoliu em seco outra vez, escolhendo com cuidado suas próximas palavras.

— Experimentar o quê, exatamente? Anjos não utilizam desse toque primitivo para se expressar. Para nós isso é algo muito vulgar.

— E ainda assim você quer saber como é — afirmou em tom quase que malicioso enquanto se abaixava para ficar na mesma altura do anjo sentado ao lado da cama. — Mas pode deixar que eu te mostro.

Sanji arregalou olhos muito azuis ao ver o outro se aproximar lentamente de si, mas não negou a proposta e nem se moveu para rejeitá-lo. Somente quando os lábios dele estavam a centímetros do seu que Sanji falou quase sem voz.

— Hm, eu acho que não deveríamos fazer isso. Deve existir alguma lei contra e...

Zoro o interrompeu colocando um dedo sobre os lábios do outro e aproximando a própria boca da orelha de Sanji.

— Só sinta, anjo.