Cupid's Kiss

3 Parte três - O peso da responsabilidade


Notas iniciais
Alô~ Eco~ Alguém?~

Sanji flutuava acima das pessoas, com um sorriso travesso estampado no rosto. Era por volta das dezessete horas quando Zoro saiu para ir pra seu trabalho de meio período e ele tivera a incrível ideia de segui-lo. Agora ele se parabenizava por ter feito isso, pois só assim para conseguir ver Zoro tão diferente do usual. O moreno estava trajando uma roupa de mordomo – que o deixava bastante atraente por sinal – enquanto servia as mesas com um sorriso atípico no rosto.

Sanji abafou o riso com ambas as mãos tentando não chamar a atenção do outro. Nunca havia imaginado que veria Zoro sendo tão servil e dócil para com as pessoas. Escondeu-se atrás de uma pilastra que havia no restaurante e observou os movimentos do seu alvo que geralmente era arredio e desprezava a ideia de amor. No entanto, se surpreendeu ao constatar a sensação incômoda que se acomodou em seu peito quando o viu servir galantemente uma bonita mulher jovem. Era óbvio pelo olhar malicioso que lançava para cima do moreno que ela estava interessada nele. E Zoro parecia estar tão interessado quanto ela.

O anjo franziu o cenho colocando uma mão sobre o peito, achando estranha aquela sensação. Como não havia sentido nada igual antes, desconhecia a origem e o significado de ciúmes. Assim que Zoro entrou na cozinha, passando direto para o vestiário, o loiro o seguiu inconscientemente. No entanto, foi surpreendido quando, de repente, ao atravessar a porta do vestiário masculino, foi puxado e logo após prensado contra a parede.

— Pensou que eu não tinha te visto? – Zoro sussurrou, mantendo o rosto próximo do rosto do outro e prendendo as mãos de Sanji sobre a cabeça. – É meio difícil ignorar as risadinhas que você dava, sabe. Eu não sou surdo. – esboçou um sorriso.

Porém, diferente do que Zoro esperava – um anjo ruborizado de expressão adorável – ele se deparou com a expressão fechada do loiro.

— O que foi? – perguntou, arqueando a sobrancelha de leve.

Sanji bufou.

— Acho que foi por isso que a flecha não funcionou.

Agora quase era possível enxergar interrogações sobre a cabeça de Zoro.

— Do que está falando?

— Você está apaixonado por aquela mulher, não é? – murmurou convicto. – Por que não me disse antes? Estava gostando de me fazer de idiota, me fazendo acreditar que não gostava de ninguém? – ele parecia um tanto irritado, e acabou desviando o olhar para o chão inconscientemente.

— Mulher? Do que diabos você está falando? – Zoro continuava de cenho franzido.

— Você sabe do que estou falando... Da mulher no restaurante... – murmurou chateado.

Um estalo brilhou na mente de Zoro e ele riu na mesma hora. A risada foi tão inesperada para o loiro que Sanji ficou fitando-o sem entender.

— Eu não estou apaixonado por Kuina, ela é apenas uma amiga de infância. – conseguiu responder quando parou com a crise de riso.

— Não era isso o que parecia pelos seus olhares. – Sanji continuava descrente. – Pareciam estar super apaixonados pelo jeito como se encararam...

Zoro riu mais um pouco, desta vez de um modo mais contido.

— Você deve ter confundido. Aqueles não eram olhares ‘apaixonados’, eram olhares desafiadores. – disse se afastando um pouco do outro e libertando os seus braços.

— Desafiadores?

— Sim. Sou o capitão da equipe de kendo do colégio e ela sempre diz que vai me tirar do posto. Se bem que até agora ela não conseguiu. – coçou a nuca despreocupadamente, voltando a trocar de roupa. – E ela veio hoje só pra tentar me botar medo dizendo que agora com certeza me tiraria de lá.

Assim que Sanji percebeu que ele iria tirar as calças, virou de costas.

— N-não parecia ser isso não. – continuou insistindo com o rosto rubro, mesmo que agora se sentisse inexplicavelmente mais aliviado.

— Não importa.

Sanji fitava a parede sem realmente enxergá-la. Memórias das vezes que o vira sair do banheiro sem camisa invadiam a sua mente, sem nem pedir permissão.

— Mas... tem algo que me deixou intrigado... – ouviu-se novamente a voz de Zoro no ambiente.

Sanji mudou o peso do corpo de um pé para o outro.

— E o que é?

— Por que ficou chateado quando pensou que eu estivesse apaixonado por Kuina? – sussurrou de súbito no ouvido do anjo, segurando-o próximo ao seu corpo. – Não deveria ter ficado feliz por finalmente terminar esse “trabalho”?

Sanji engasgou, não conseguindo pronunciar nenhuma palavra. Seu rosto mais vermelho do que nunca.

— Será que você realmente deseja que eu me apaixone? – perguntou Zoro com um sorriso imperceptível nos lábios.

— Claro que sim! – finalmente conseguiu responder, embora não tivesse soado tão convicto quanto pretendia.

Zoro sorriu, voltando a se afastar do loiro e indo em direção à porta dos fundos.

— Se você diz... – falou se retirando do local.

Quando percebeu que estava sozinho no ambiente, Sanji flutuou rapidamente na direção que o moreno tomara momentos antes.

— Hey, Zoro! Não me deixe aqui! – esbravejou indignado e, ao mesmo tempo, feliz por saber que seu trabalho provavelmente demoraria muito a acabar.

*

Logo o segundo semestre de aulas teve início e com muita relutância, os alunos retornaram a escola depois de um mês inteiro de recesso. Nesse meio período a relação entre Zoro e Sanji se tornara cada vez mais íntima e natural. Era quase como se vivessem sobre o mesmo teto. Um exemplo da casualidade existente entre eles era o modo como de algum tempo para cá Sanji passara a acordá-lo toda manhã para ir para a escola. Se bem que isso não fora tão espontâneo... Depois de Zoro ter jogado na parede o seu quinto e último despertador naquele mês, o anjo se vira na obrigação de despertá-lo do seu sono de pedra a fim de não o deixar se atrasar para a aula. E não se pode dizer que o Roronoa tenha gostado da ideia, afinal, Sanji acordava ele empurrando-o com um chute da cama.

É. Nem tudo eram flores.

Se bem que naquela manhã Sanji não tinha dado as caras. Zoro nem sabia como tinha conseguido chegar a tempo pra a aula sem a ajuda do loiro. Pra onde será que ele tinha ido?

A professora de japonês explicava pela quarta vez algumas flexões de verbo em hiragana, mas o aluno sentado em uma cadeira da primeira fileira parecia estar longe de entender. Zoro desviou o olhar para um gato alaranjado audaz que conseguira a proeza de subir no galho mais alto da cerejeira que havia no pátio. No entanto o gato agora não parecia saber como descer, já que soltava longos miados angustiados.

— Desculpe interromper a sua aula, professora, mas tenho um aviso importante para dar. – a voz da vice-diretora, Monet, pôde ser ouvida logo após o arrastar sonoro da porta de correr.

A professora assentiu sorrindo timidamente e só então Monet adentrou a sala.

— Bom dia, alunos. – cumprimentou-os com expressão séria. – Sei que não costumamos receber alunos novos durante esse período do ano, mas por motivos especiais a partir de hoje vocês terão um novo colega de classe. Pode entrar. – ela lançou um olhar de esguelha para a porta.

Assim que um garoto loiro transpassou a porta de madeira e se curvou brevemente para cumprimentar os alunos da sala, Zoro não pôde evitar a expressão de extrema surpresa no rosto. De jeito nenhum poderia ter previsto isso. Qual a explicação aceitável – se é que existia uma – para aquilo?

— Bom dia. Meu nome é Sanji Kuroashi e espero me dar bem com todos vocês. – um sorriso jovial despontava em seu rosto.

— Seja bem-vindo, Sanji. Pode se sentar na cadeira vaga que há a frente de Zoro? – sugeriu a professora, indicando o lugar com a mão.

Sanji assentiu, prosseguindo em direção a cadeira apontada, tendo o cuidado de não olhar diretamente nos olhos de Zoro. Sabia que ele queria informações, mas não tinha o interesse de revelar que recebera a visita de um outro anjo para perguntar se havia algo de errado acontecendo. Sanji ficara conhecido com um dos melhores cupidos por sempre conseguir resolver problemas amorosos em um período de um mês ou menos e já fazia mais de quatro meses que estava com aquele “trabalho” em mãos e não parecia estar perto de concluí-lo. Vendo por esse lado, era justificável a preocupação do outro anjo.

Sabo, outro cupido e que era amigo de Sanji a tempos, viera visita-lo na noite passada com certa apreensão. Os seus superiores estavam achando estranho toda aquela demora para resolver um simples caso de insensibilidade amorosa, por isso mandaram alguém avisar ao loiro que se ele não resolvesse o caso dentro de uma semana, ele seria substituído e transferido para outra área. E esta informação deixou Sanji alarmado. Algo dentro de si havia mudado naquele período de convivência. Por isso agora se encontrava dividido entre não querer que Zoro encontrasse alguém e querer que ele percebesse que o amor era um sentimento incrível. A vida era mesmo uma caixinha de surpresas.

Resolvendo não pensar muito no assunto, ficou assistindo as explicações da professora que continuava a tentar ensinar o garoto da primeira fileira e deste modo mais duas aulas se passaram normalmente. Zoro até que tentou chamar a atenção dele, mas depois do olhar fulminante que recebeu da professora, que geralmente era tão calma e gentil, achou melhor ficar quieto. Mulheres sempre eram muito assustadoras.

A diferença maior só aconteceu quando o sinal tocou para o início do intervalo e ao invés dos alunos correrem para o refeitório como uma manada de búfalos enlouquecidos, a maioria permaneceu em sala – principalmente as garotas – criando um círculo curioso ao redor do novato.

— Oh, você é estrangeiro? – perguntou uma garota baixinha bem ao lado do loiro.

Sanji negou.

— Minha mãe é americana e acabei puxando alguns traços dela, mas eu nasci aqui mesmo. – falou já com a resposta pronta na língua. Nunca iniciava uma infiltração sem estar devidamente preparado. Precisava estar sempre um passo à frente da reação das pessoas.

— Ah, entendi. – a garota lhe sorriu, corada.

Um coro de risadinhas se estendeu pelas garotas presentes, enquanto os garotos o encaravam irritados por ele ter roubado toda a atenção com uma facilidade absurda.

— Você tem namorada? – perguntou uma garota mais ousada, a patricinha da sala por sinal, espalmando as mãos na mesa dele (Sanji nem ao menos tivera a chance de se levantar) e exibindo sugestiva o seu decote desnecessário. – Um garoto tão bonito como você certamente deve deixar a sua namorada preocupada.

Completamente alheio das intenções femininas, Sanji inclinou a cabeça um pouco confuso, mas com um sorriso inocente nos lábios.

— Ah, não tenho namorada.

Os olhos da garota brilharam.

— É mesmo? – ela sorriu provocativa, sabendo que seus lábios cheios e brilhosos pelo gloss sempre atraia a atenção de garotos.

Zoro olhava para tudo aquilo de longe com o cenho franzido de insatisfação. Ele também não chegara a se levantar da cadeira, pois quando pensou em ir falar com o loiro já havia uma multidão ao redor dele. Era como um monte de crianças curiosas com um brinquedo novo. Ficou quieto de braços cruzados esperando que as pessoas se afastassem gradualmente, mas já estava ficando impaciente com a demora. E ainda tinha aquela garota praticamente se jogando em cima do seu cupido!

Ah, não. Isso já era demais.

E então ele se levantou, andou rudemente forçando caminho entre as garotas, agarrou o braço do Sanji confuso e o arrastou para fora do amontoado de gente.

— Ei, o que pensa que está fazendo, Roronoa? – questionou a patricinha, inconformada.

O esverdeado a mirou com o seu melhor olhar de descaso e murmurou um “Vou mostra-lo a escola” antes de sair.

A garota bufou irritada e ainda tentou contestar aquela decisão egoísta, mas foi prontamente ignorada pelo outro, que continuou arrastando o loiro até que encontrasse uma sala vazia para poderem conversar a sós. A sala se tratava de um depósito a muito abandonado e por isso havia um certo acúmulo de poeira pelo ambiente, mas nada que o tornasse insuportável. Zoro o soltou após fechar a porta e o encarou sério.

— O que isto significa? Como os outros podem te ver? – indagou, encurralando-o e pondo as mãos na parede ao lado do corpo do loiro, impedindo-o de sair.

Sanji deu de ombros, fingindo não se sentir pressionado.

— Bem, esse é um dos recursos de último caso, geralmente usado quando a flecha não é suficiente para resolver os problemas amorosos de alguém. Basicamente os cupidos se infiltram no ambiente em que o alvo convive, passando a ter um corpo físico temporariamente. – mirou os próprios pés. Não sabia o porquê, mas estava um pouco constrangido. – Nunca ouviu falar dos “amigos cupidos”?

Zoro arqueou uma sobrancelha.

— Corpo físico? Você já era bem físico para mim. – falou infiltrando as mãos sobre a camisa do outro, sentindo de fato que agora o corpo de Sanji emitia um calor próprio que antes não passava. Depois virou-o de costas e levantou a camisa até próximo o pescoço. – E o que aconteceu a suas asas?

A essa altura Sanji já estava corado até as orelhas.

— Elas só aparecem quando estou na forma astral. – explicou e puxou com força o tecido para baixo novamente. – Acabou a interrogação?

Zoro ainda o encarava, desconfiado.

— Mas porque isso agora?

— Já que os outros métodos não estavam sendo eficazes, precisei apelar para os menos usados. – o loiro cruzou os braços diante o peito, fazendo um biquinho involuntário nos lábios. – Eu não desistirei de encontrar sua alma gêmea. Todos têm seu par ideal, disso eu tenho certeza.

Só então a vermelhidão no rosto do outro foi percebida por Zoro e este sorriu maliciosamente, passando a se aproximar ainda mais.

— Bem, vamos esquecer um pouco esse assunto chato e passemos para um mais interessante...

O loiro franziu o cenho.

— Chato? Estamos falando da sua vida amorosa!

— Sim, sim. Eu sei... – ignorando a expressão chateada do anjo, fez ele descruzar os braços e segurou-o na cintura com possessividade. – Agora vamos ver se você sente alguma diferença nisso já que seu corpo parece estar um pouco mais... Realista, por assim dizer.

— Nisso o quê? – perguntou sentindo suas bochechas mais quentes desde que ele tocara sua cintura.

Zoro sorriu e deu-lhe um leve toque nos lábios para logo após mergulhar a língua naquela cavidade úmida que tanto gostava, sem mais delongas. Um gemido escapou do loiro quando as línguas se chocaram e iniciaram a dança que tanto repetiam nos constantes “treinamentos” que tinham no quarto do esverdeado. As mãos rapidamente tornaram-se afoitas e começaram a procurar mais contato de pele, o calor subindo à medida que exploravam mais e mais um do outro. As respirações descompassadas não pareciam ser o suficiente para causar o término do contato entre os corpos, mas o súbito toque do sinal para que retornassem a sala fez com que a razão de Sanji voltasse a contragosto e ele empurrou o maior para longe.

O sorriso malicioso ainda nos lábios do Roronoa o fez desviar o olhar tão logo mirou o rosto de pele bronzeada. Na mente, uma confusão só.

— Então voltarei primeiro para a sala e quando você se acalmar mais vá também. – falou Zoro e em seguida saiu do depósito sentindo até um pouco mais leve. As reações de Sanji diante seus toques eram transparentes demais. Deixavam-no imensamente satisfeito. Talvez fosse até interessante ter seu anjinho particular frequentando a sua escola, sem falar que agora poderia conversar normalmente com ele, visto que as outras pessoas também o viam.

Quando Sanji se viu sozinho na sala, deixou suas costas deslizarem pela parede até que ficasse sentado abraçando os próprios joelhos. Seu coração batendo como louco deixava claro quais eram seus sentimentos em relação ao esverdeado, finalmente percebera depois de tanto tempo. Não que isso fosse bom, na verdade deixava tudo ainda mais complicado. Precisava encontrar a alma gêmea da pessoa pela qual se apaixonara. Quão mais terrível as coisas podiam ficar?

Uma pequena lágrima se formou no canto do seu olho esquerdo, mas ele a limpou antes que ela pudesse deslizar pela bochecha. Não podia ficar se preocupando com sentimentos errados quando precisava focar-se em resolver aquele caso demorado. Decidido a trancar aqueles sentimentos bem no fundo de sua alma, levantou-se com o rosto sério e voltou para a sala como se nada houvesse acontecido. Havia, sim, um peso em seu peito que sabia que ficaria pior à medida que o tempo para ir embora se aproximasse, mas o que poderia fazer? Não era permitido aos anjos amar dessa forma, eles apenas podiam desejar que os humanos fossem felizes e encontrassem o verdadeiro amor.

Com a mente em um turbilhão ficou apenas com o corpo presente no restante das aulas daquele dia. Mais tarde Zoro novamente o salvou do mar de garotas que o loiro atraia e o levou para que assistisse suas aulas de kendo no ginásio dos fundos. Lá o anjo avistou a garota que vira no restaurante, agora com as roupas próprias para o esporte. Se não se enganava lembrava-se de Zoro tê-la chamado de Kuina naquele dia. Curioso, observou ela voltar-se com os olhos estranhamente brilhantes de expectativa quando o esverdeado mal entrara no salão. Tendo uma grande carga de experiência na função de cupido ele logo percebeu que havia algo amais além da rivalidade competitiva que Zoro afirmava ter entre eles.

A apreensão envolveu Sanji de tal modo que ele se sentiu sufocado pelo próprio sentimento.

Kuina estava apaixonada por Zoro.

Notas finais
Beeem... O que falar sobre a pessoa que desaparece e retorna do nada? Não me joguem pedras! .・゜゜・(/。\)・゜゜・.Sou uma pessoa legal, juro.