Cupid's Kiss
5 Parte cinco - Foco restabelecido
Notas iniciais
Após o treino daquele dia Zoro achou estranho não encontrar o loiro esperando-o na saída, mas supôs que talvez ele tivesse algo para resolver e por isso precisara sair mais cedo. Provavelmente algo a ver com toda aquela história de ser cupido. Despediu-se de Kuina e foi em direção ao restaurante onde estava trabalhando meio período. Ficou por lá até o fim do seu expediente – por volta das oito horas – sem que Sanji saísse um só minuto de seus pensamentos.
Desde que ele assumira o corpo humano, achava que o cupido estava agindo estranho. Às vezes o loiro parecia estar com a mente completamente fora do ar, sem falar que ele nunca mais nem sequer perguntara sobre o Roronoa estar apaixonado. Havia desistido de sua missão? Ou quem sabe ele estivesse metido em problemas... Meneou a cabeça, enquanto girava a chave e entrava no apartamento. Mesmo que Sanji tivesse envolvido em algum problema, não havia muito o que Zoro pudesse fazer. Afinal, era apenas um humano inútil.
Grunhiu frustrado, jogando a mochila no sofá.
Passou na cozinha, no quarto, no banheiro. E não encontrou o menor sinal do anjo. Foi novamente na cozinha já com certa apreensão no peito, e só então percebeu a refeição preparada em cima da mesa. Com o cenho franzido pegou as chaves e saiu do apartamento às pressas. Estava com o mau pressentimento de que se não o procurasse imediatamente não voltaria a vê-lo outra vez, por isso correu como um louco pelas ruas do bairro até que avistou uma pessoa cabisbaixa sentada num dos balanços de um parquinho próximo.
Aproximou-se um tanto mais tranquilo e ocupou o balanço disponível do lado do outro, nem se importando com o rangido que o objeto soltou ao acomodar o peso dele. No rosto de Sanji uma expressão distante.
— O que faz aqui? – perguntou depois de alguns segundos de silêncio.
O loiro ergueu os olhos para o céu, pensativo. O manto negro estava coberto por algumas nuvens, mas ainda se percebia algumas estrelas aqui e acolá.
— Nada não. Só pensei em dar uma voltinha e acabei vindo parar aqui.
Zoro não acreditou muito da resposta dada, mas preferiu não insistir na questão. E quando Sanji fez o impulso para se levantar, Zoro o imitou. Porém quando ficaram cara-a-cara o esverdeado arqueou a sobrancelha.
— Você andou chorando? – indagou ao perceber que a região ao redor dos olhos e o nariz se encontravam rosados.
Sanji piscou os olhos momentaneamente surpreso, e depois balançou a cabeça com força.
— Não mesmo! Estou apenas com um pouco de frio... – justificou-se apressado.
E como se pra provar o que ele falara, uma brisa gélida passou por ambos, agitando seus fios e causando um leve estremecimento no menor. Zoro riu ao constatar que Sanji estava realmente com frio, mas antes que o loiro pudesse repreendê-lo pela risada curta, ele tirou o casaco amais que usava e botou sobre os ombros estreitos do rapaz.
Sanji até pensou em rejeitar, mas ao sentir o calor presente na peça espalhar-se de modo aconchegante pelos seus ombros, desistiu. Vestiu propriamente a roupa emprestada e deu um pequeno sobressalto quando sentiu dedos ásperos deslizando em sua bochecha. Levantou o olhar curioso, perguntando silenciosamente qual era o significado daquele carinho avulso. Zoro possuía uma expressão séria e a testa comumente vincada.
— Você sabe que mesmo que eu seja um simples humano pode contar comigo ao menos para desabafar, não é?
Uma vontade de chorar preencheu o peito do cupido ao mesmo tempo em que sentia como se borboletas voassem em seu estomago pela proximidade no qual estavam. Foi preciso muita força de vontade para que não começasse a lacrimejar involuntariamente ali na frente dele. Respirou fundo depois de alguns segundos tentando controlar-se internamente e deu-lhe uma tapinha amigável no ombro.
— Sério, não há problema algum.
Zoro ainda ficou fitando-o por um tempo como se esperasse por algum complemento àquela frase. Por fim suspirou sem nem ao menos se preocupar em disfarçar sua insatisfação e levou os dedos que antes acariciavam a bochecha do menor para a nuca coberta de fios loiros. Se ele não queria conversar sobre seus problemas, Zoro não insistiria. Sabia bem como era irritante ter alguém invadindo sua privacidade, até por experiência própria. Por isso preferiu mudar o assunto para um tema de sua preferência que não cruzasse o limite de sua privacidade. Ou não tanto assim, na opinião do de cabelos verdes.
— Já faz um tempo que não fazemos isso, não é? – indagou, fazendo agora um carinho na nuca do rapaz.
Sanji não precisou de mais palavras para saber do que ele falava, um leve rubor surgindo em suas bochechas por causa disto. E quando o outro começou a cortar a distância entre seus rostos ele nem cogitou a ideia de rejeitá-lo – afinal, conseguiria ele rejeitar o maior em alguma situação? –; ao contrario, até fechou os olhos e entreabriu a boca de bom grado. Sem pressa os lábios se tocaram e Sanji apertou os dedos na camisa que o outro vestia. O beijo podia ser cálido e tranquilo, todavia a reviravolta no interior do loiro parecia digna de uma tempestade.
Quando o beijo findou-se naturalmente, os olhos negros fitaram com intensidade os cerúleos próximos. E nesse olhar tão repleto de intimidade, Sanji sentiu como se todos os sentimentos que se amontoavam no peito pudessem ser descobertos com facilidade. Por isso, sentindo-se subitamente receoso, afastou-se de leve e começou a caminhar para fora do parquinho.
— Para onde pensa que vai? – o de cabelos verdes o perguntou ao segui-lo com as mãos no bolso.
O cupido uniu as mãos diante a boca, soltando uma baforada de ar quente em busca de um pouco de calor para as mesmas.
— Para casa, oras. O frio está começando a aumentar.
Zoro concordou mentalmente e antes que o menor pudesse prever, ele passou um braço ao redor dos ombros, trazendo-o para mais perto enquanto caminhavam lado a lado. Não ficou nem um pouco surpreso ao perceber as orelhas coloridas de vermelho depois de sua ação, em contrapartida a falta de reclamações provenientes do loiro o intrigou bastante. Mas preferindo não começar outra conversa que poderia deixar o clima entre eles desconfortável, ficou apenas aproveitando a presença em um silêncio confortável.
Deste modo seguiram para casa sem se preocuparem com opiniões de pessoas que por acaso os vissem daquele jeito. Nada disso os preocupavam.
Contudo, ao longe, sem que os deixassem perceber sua presença, um gato de pelo completamente branco agitava a cauda enquanto mantinha os espertos olhos castanhos sobre os jovens que se afastavam. Quando, enfim, eles saíram do seu alcance de visão, ele se levantou e começou a andar na direção oposta sobre o muro onde antes estava sentado. No entanto ao descer para a calçada, próximo a esquina, foi surpreendido pela aparição da garota que acompanhava Sabo no início daquela tarde.
O gato revirou os olhos, enquanto voltava a se sentar.
— O que faz aqui, Sadi-chan? – indagou com a voz em um tom medido de desinteresse.
A franja acima dos olhos da loira não permitia que a expressão neles fosse vista, mas pelo sorriso e posição corporal, dava para saber muito bem o que ela estava pensando.
— Vejo que o caso de Sanji o deixou um tanto curioso, não? – a garota flutuava a frente do gato. Mais cedo quando Sabo explicara a situação em que Sanji se encontrava, soube imediatamente que para resolver aquilo precisaria do apoio de alguém de importância maior. Foi depois de muito cogitar, que escolheu contar para aquele querubim em especial. E pelo visto a sua escolha se mostrava ter sido a mais correta. – Vai nos ajudar?
O gato suspirou, dando uma rápida coçadinha na orelha esquerda.
— Pensarei no caso dele, tudo bem? Mas por enquanto nada tenho a declarar. – e dito isso ele saltou e desapareceu em um brilho intenso de luz branca deixando a garota pensativa para trás.
*
O quarto dia – uma não tão quente quinta-feira – começou como todos os outros naquela semana. Sanji acordava cedo, preparava o café da manhã e lutava para acordar o de cabelos verdes a tempo de ir para a aula. As aulas seguiram normalmente também, embora Sanji estivesse com a cabeça cheia de preocupações e quase não tivesse ouvido as vozes dos professores durante as aulas. O motivo? Ele estava morrendo de curiosidade/apreensão em descobrir se Kuina havia falado sobre seus sentimentos para Zoro no dia anterior. O pior era que ele não podia simplesmente chegar e perguntar sobre ela, seria suspeito demais segundo sua opinião.
Certo que ele mesmo incentivara a garota a se declarar, mas o sentimento de arrependimento o perseguia desde então. Sabia que não podia fazer nada para impedir que eles começassem a namorar assim que ela se declarasse – na sua mente era óbvio que Zoro a escolheria ao perceber os sentimentos dela. Sendo assim Sanji queria pelo menos saber quando seu trabalho estaria completo para poder ir embora o mais rápido possível dali.
Contudo ao chegar o horário do intervalo o loiro teve uma ideia de como descobrir. Iria tentar mostrar que ainda estava procurando a alma gêmea de Zoro e discretamente tentaria arrancar informações do garoto que não acreditava no amor. Pegaram suas respectivas bandejas para almoçar e foram sentar-se na mesa de sempre – uma aleatória no canto do refeitório.
— Sabe, você devia estar mais interessado em encontrar a própria alma gêmea. – sugeriu, dando começo ao seu “genial” plano.
Zoro o encarou como se fosse um marciano anunciando um ataque a terra, voltando logo depois a dar atenção a própria refeição sem sentir a necessidade de respondê-lo.
— Eu estou falando sério, Zoro.
O maior bufou audivelmente ao conseguir terminar de mastigar seja lá o que fosse aquilo em sua bandeja. Era impressão sua ou a comida parecia ter se mexido?
— Achei que essa era sua função ao estar aqui. – respondeu um tanto rude. Aquele assunto sempre o deixava de mau humor por algum motivo.
Sanji engoliu em seco ao perceber que ele tinha razão. Afinal, quem era o cupido ali?
— Ah... é. Então... – varreu analiticamente o espaço com o olhar, examinando rapidamente a procura de perfis parecidos com Kuina. – E aquela ali no canto? – apontou discretamente na direção de uma garota morena sentada no banco próximo a árvore de cerejeira que havia no pátio.
Zoro apenas lançou um olhar desinteressado na direção indicada e logo desviou sua atenção para uma briga que começara entre um membro do clube de kendô e um garoto do clube de karatê. Por um momento pensou em intervir na briga, mas depois desistiu da ideia ao ver a clara vantagem do garoto do seu clube.
— Tem certeza que não tem o mínimo interesse nela? – insistiu o loiro atraindo outra vez o olhar do maior para si. – Ela até parece um pouco com Kuina se você prestar atenção.
Zoro franziu o cenho tentando entender onde o cupido queria chegar, mas com seu raciocínio lento apenas concluiu que ele devia estar com uns parafusos a menos.
— Olhe pra ela outra vez. – o garoto fez o que lhe era solicitado com a sua costumeira expressão de tédio no rosto. O cupido tamborilava os dedos na mesa nervosamente. Custava muito que o outro colaborasse em revelar o que sentia? – Sério que ela não lhe desperta nada?
O esverdeado o olhou de esguelha. Várias ideias passaram por sua cabeça sobre o tanto de pensamentos pervertidos que o próprio anjo o provocava, mas achando o horário e local indevidos para suas palavras, preferiu permanecer calado. Não queria traumatizar o loiro que até pouco tempo não sabia nem beijar.
Estava pensando em como avançar mais passos com Sanji quando uma voz sobressaiu-se ao seu lado, irritando os seus ouvidos.
— Sanji! – uma voz animada gritou seu nome. E antes que pudesse identificar de quem era a voz, braços circundaram o pescoço alvo.
— Ah. Oi, Usopp. – falou ao reconhecer a cabelereira cacheada do garoto que sorria. – Você não deveria estar no prédio ao lado?
Abandonando de vez a comida da bandeja, Zoro apoiou o cotovelo sobre a mesa e descansou o rosto sobre a mão, passando a observar a briga que ainda acontecia, embora seus ouvidos estivessem atentos ao diálogo curioso que seguia a sua lateral. A intimidade com a qual o moreno que nunca vira agarrava o pescoço alheio não lhe agradou nenhum pouco. Não precisava ser nenhum gênio para identificar o sentimento de posse que surgiu em seu peito.
Oh, seu ciúme estava tão óbvio... Uma pena que Sanji, no momento, não estava prestando a menor atenção no rosto ranzinza que o outro ostentava. Talvez, se ele tivesse prestado atenção a esse detalhe, as coisas tivessem tomado outros rumos naquela semana.
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