Cupido, Traga Meu Amor
19 Punição
Notas iniciais
Os ombros de Marinette subiam e desciam constantemente após saírem do prédio assim como as mãos estavam fechadas em punhos, Alix observou enquanto a seguia por um curto percurso até acharem uma porta que os levasse de volta. Era uma reação que estava acostumada a ver em humanos, nunca em um cupido de modo que até se perguntara se havia a possibilidade remota da colega estar por acaso derramando lagrimas.
Humanos em suas vidas agitada não tinham tempo para olhar o próximo, mas vira um ou outro fita-las enquanto passavam.
Quando uma das mãos da cupido alcançou a maçaneta ela respirou profundamente antes de abrir e dar passos para dentro que Alix copiou.
— Marinette.
— Eu sei dos meus erros, me de apenas alguns poucos minutos para me recompor e irei lidar com tudo.
Sem aguardar uma resposta ela partiu a passos apressados pelo local sem olhar ao redor como um maldito robô seguindo o comando ordenado. Do alto da escada Plagg viu e enquanto descia observou a amiga e a outra cupido que havia chegado junto ao que parecia. Um frio subiu a espinha do pequeno ser ao ver a expressão preocupada da cupido de cabelos curtos.
— O que esta acontecendo, Alix?
— A Marinette fez uma coisa errada e agora é provável que o cupido-mestre a puna.
— Você sabe o que ela fez?
— Sei, mas não acho que deveria contar Plagg.
— Não se incomode quanto a isto, eu já sei toda a historia – os olhos da cupido o encararam com genuíno espanto. Dando de ombros Plagg apenas partiu no rumo da amiga, estranhamente Alix o acompanhou também – Se continuar vai se meter em encrenca também – avisou sem parar, mas a cupido ainda continuou.
Os dois atravessaram a porta do pequeno local de trabalho de Marinette para encontrar a cadeira vazia e a bolsa sobre a mesa abarrotada de papeis, até poderia acreditar que talvez ela não estivesse ali se não tivesse um som incomum que o fez sobrevoar contornando a mesa para encontrar a cupido encolhida no chão abraçando os joelhos com a cabeça apoiada neles e... soluçando.
Se alguém no mundo tinha o poder de surpreende-lo esta pessoa parecia sempre ser Marinette.
— Mari – ele levitou para perto dela. Lentamente ela levantou a cabeça e tanto ele como Alix puderam comprovar que ela estava mesmo chorando, como uma humana – O que aconteceu? Esta com medo do cupido-mestre?
— Eu nem sei o que esperar dele, mas eu não sei por que me doí tanto dizer adeus ao Adrien como fiz. Era o certo afinal, não deveria me fazer sentir aliviada?
A razão realmente podia ir pelos ares quando se estava apaixonado, Alix constatou fitando a colega com pena. Não era algo que imaginara ver algum dia em sua existência de pagamento.
Incontáveis minutos se passaram enquanto a dupla a observou, os soluços sendo o único som a ter no local e lagrimas descendendo sem qualquer controle pela face angelical da jovem cupido. Quando estes foram diminuindo aos poucos Alix teve o cuidado de conter o suspiro aliviado.
Ver pessoas tristes por amor não lhe era estranho, porem, nunca tivera a necessidade de consolar ninguém quando estes tinham os seus amigos e familiares humanos para cumprir tal tarefa complicada.
Os discursos motivacionais do outro não ser bom o bastante ou a pessoa certa ainda estar para aparecer não era úteis quando se é um cupido que jamais terá um parceiro. Nenhuma frase no mundo se encaixava.
— Respira garota – Plagg instruiu com ternura planando na frente da cupido. Marinette obedeceu fazendo pelo menos três vezes antes de abrir a boca para dizer algo, mas absolutamente nada saiu.
Alix apenas se sentou na cadeira em silêncio temendo uma nova onda de lagrimas. Marinette continuou respirando arrumando os cabelos atrás das orelhas com a cabeça abaixada, quando a ergueu ainda conseguia ver com perfeição uma imensidão de dor nos olhos azuis que não pareciam focados em nada especifico, nem mesmo no kwami que estava em sua frente.
— Você acha que me levaram para o nada?
— Você é competente demais para ser descartada dessa maneira, garota – Plagg tentou consola-la pousando em um dos joelhos onde se sentou e prosseguiu – Não tenha medo.
Alix quis muito rir com incredulidade para as palavras do pequeno ser que deveria ser dotado de saberia. Se você é um ceifador ou cupido naturalmente você provavelmente esta sendo punido por si só, mas para aqueles poucos que se sabia historias sobre terem causado problemas, ninguém sabia ao certo como era punidos realmente, apenas que eram. Essa era a única certeza que poderia ter.
O “nada” era uma historia por si só de punição para as mais graves inflações, deixando de existir, sem chance de renascer.
— Mas eu estou com um pouco de medo por mim e... por ele.
— Você ta mais ferrada que ele, Marinette – Alix soltou sem se conter. Plagg a fitou por um momento, mas não a contrariou.
— Se recompor é o melhor que você pode fazer agora antes de ir até o cupido-mestre. Te vendo assim me faz ter um pouco de pena de você, mas não sei se vai acontecer o mesmo com ele.
Marinette concordou com um aceno de cabeça, passando as duas mãos no rosto para limpar as lagrimas. Enquanto se preparava fisicamente e psicologicamente, os dois ainda mantiveram-se por perto o tempo inteiro e até subiram os degraus da escada atrás da garota para o andar de cima. Havia um pequeno alvoroço ao redor que deixou os dois preocupados trocando olhares entre si em busca de alternativas; Alguém dissera ter visto em primeira mão a própria Divindade do Amor chegando para ver o mestre com toda sua beleza carregando um semblante serio.
Não havia o que fazer.
— Daqui eu irei sozinha – Marinette falou quando alcançaram o final da escada, olhando para o rosto de cada um ela sorriu da melhor forma que pode para transmitir um pouco de confiança sob si mesma.
— Nós vamos te esperar – Plagg garantiu. Alix concordou com um aceno de cabeça.
Respirando uma última vez longamente ela girou sobre os calcanhares indo a passos pequenos pelo corredor até a sala do cupido-mestre. A porta estava fechada e batendo algumas vezes ela esperou até ter sua entrada permitida.
De longe a dupla a observava com apreensão bem mascarada.
— O que acha que acontecerá? – Alix continuou, fitando o corredor.
Um suspiro pesaroso foi deixado pelo kwami que aguardava qualquer coisa que fosse meramente boa nesta situação desastrosa.
— Honestamente, uma cupido terá seu coração destruído – ele gostava de Marinette o suficiente para se sentir mal por dizer tais coisas, mas por sua experiência era só o que conseguia achar possível – Enquanto aguardamos porque não me conta como ficou sabendo sobre esse problema.
~&~
A Divindade do Amor era tão bonita quanto todos diziam, vê-la não era normal quando esta era a responsável por casos especiais e muito raros. Alguns cupidos poderiam contar nos dedos às vezes que tiveram a oportunidade de contempla-la.
Marinette não tinha vontade de ver essa divindade que de certa forma era a presidente da empresa que trabalhava enquanto tinha todo o seu trabalho entregado para o supervisor, estava lá na classe mais baixa da hierarquia. No entanto, havia errado feio no trabalho e agora seu problema não se limitara a apenas ao supervisor ou o RH e sim ao presidente.
Havia conseguido tal façanha.
— Marinette – cupido-mestre a chamou, trazendo-a de volta para a realidade e consequentemente desviando os olhos da bela mulher de vermelho sentada na ponta da mesa que a fitava também inexpressivamente.
A primeira cupido que o mundo teve.
— Cupido-mestre, Divindade do Amor – os saudou com as mãos unidas na frente do corpo e os ombros levemente encolhidos.
— Você sabe por que estamos todos aqui, querida? – a voz da mulher era aveludada e agradável. Era a primeira vez que ouvia e poderia dizer que era completamente diferente da voz de um humano mortal, parecia hipnotizante.
– Sim.
— E como pretende se defender?
— Essa é sua chance de explicar as coisas, Marinette – o homem sentado na cadeira disse com calma, mas a cupido podia ver a aversão que adornava os olhos do pequeno kwami verde que estava do ombro de seu mestre.
Os dedos apertaram-se e ela tomou alguns minutos em silêncio com a cabeça baixa fiando o chão, ponderando.
— Não acho que vá importar muito o que eu posso dizer, pois sei que estou errada e não há porque tentar perder tempo justificando isso. Eu mereço a punição – erguendo a cabeça e assistiu o cupido-mestre balança a cabeça e a Divindade arquear uma das sobrancelhas para logo após tombar sutilmente a cabeça para o lado – Eu só tenho uma coisa a pedir.
— Oh...? – o tom da Divindade não tinha o que poderia considerar surpresa.
— Você não esta em condições de pedir coisas, garota – o kwami fez-se presente pela primeira vez.
— Eu sei, mas mesmo assim eu imploro que considerem meu pedido.
— Diga.
Ela respirou fundo. A ação seguinte surpreendeu o cupido-mestre e seu kwami ao vê-la ali se ajoelhando no chão frio.
— Eu sei que provavelmente o caso de Adrien Agreste será arquivado, mas eu imploro que não o façam, transfira-o para outro cupido, um que seja capacitado para encontrar alguém bom para ele.
A surpresa continuou adornando o rosto do cupido-mestre e seu kwami que a fitavam, a única coisa que fora capaz de mover a atenção dos dois fora a curta risada soltada pela Divindade.
— Uau, por um momento eu realmente acreditei que você pudesse estar de alguma forma nutrindo afeto por este humano, mas parece que não – ela já estava se sentindo miserável o suficiente, entretanto essa superior estava disposta a piorar sua situação, Marinette só pode constatar que não gostava dela e torcia para não ter que vê-la novamente se continuasse vivendo – Como você pode pedir para alguém seguir em frente tão rápido sendo que talvez essa pessoa goste de você? Onde estão os sentimentos que a induziram a cometer seus erros?
Sentindo o peito apertar só pode erguer bem a cabeça para encarar a mulher e responder com pesar e sinceridade:
— É justamente por ter esses sentimentos que desejo que ele tenha alguém com quem possa dividir felicidade e um futuro. Coisas que eu não posso cumprir por motivos óbvios.
— Claramente não foi óbvio o suficiente – o kwami alfinetou.
— Todos merecem ter pelo menos um amor na vida, não proíba Adrien de ter um. Eu imploro – finalizou colocando as mãos no chão e inclinando todo o corpo rumo a este até tocar a testa no chão.
– Marinette – o cupido-mestre sussurrou com tristeza.
Um momento de silêncio se pendurou enquanto as três pessoas a fitavam até a Divindade o quebrar.
— Não. Se quiser pode passar quantas horas quiser nesta posição que não irá afetar em nada minha decisão.
Lentamente a jovem cupido ergueu o tronco para olhar a mulher que lhe direcionava um olhar ainda inexpressivo, mas que em seus lábios um leve repuxar se fazia presente.
— Por quê? A culpa de tudo é apenas minha, ele é inocente. Por favor entenda.
— Eu entendo, mas é inevitável agora que ele seja arquivado por 1, 3, 10 anos talvez, não importa. Ele foi deixado sob sua tutela e você não apenas falhou com ele como o prejudicou e agora os dois devem pagar por isso.
As mãos da cupido fecharam-se em punho ao mesmo tempo que sentia os olhos começarem a marejar novamente, com todo o esforço que podia fazer segurou as lagrimas.
— Só estamos colocando as coisas de volta aos trilhos, pequena criança – o homem explicou com calma, se havia alguma pena ali ela não saberia dizer.
— E agora devemos dar-lhe a sua punição – o kwami continuou.
— É claro – fora tudo que conseguira dizer, a sensação do coração afundando no peito se intensificava ao pensar no loiro.
— Sua consciência de seus erros poupa-nos tempo e paciência, então não irei me prolongar demais aqui – a Divindade do Amor levantou-se da mesa, o tecido vermelho de seu vestido alcançou os tornozelos terminando a partir do ponto que as correias da sandália começava – Ouvi que você tem bastante interesse nos humanos e suas vidas que vai além de suas obrigações, porem, o que vejo não foi alguém com curiosidade e sim desejo pela humanidade. Quer me contrariar?
— Não.
— Muito bem, presumo que deva saber que todo cupido já foi humano e talvez este seja um motivo para seus atos, mas independente dos motivos foram erros cometidos, como consequência a missão de Adrien Agreste não estará mais com você, sendo arquivado por tempo indeterminado e qualquer outra missão de humanos que estejam mesmo que meramente relacionados a ele serão transferidos para outros cupidos, estes pelo menos são inocentes, você possui um número bastante alto de missões no momento que serão acompanhadas por outro cupido que fará relatórios sobre seu desempenho a cada missão e você recebera as memórias dos seus últimos momentos como humana.
Os olhos da cupido traziam com intensidade a surpresa pelas últimas palavras da mulher em sua frente, o homem que estava mais atrás olhava o desenrolar da situação com apreensão.
Saber como era quando estava viva deveria ser uma punição?
— Você jamais deve se aproximar de Adrien Agreste novamente, Marinette – o cupido-mestre advertiu – Um quarto de sua conquista aqui será retirado da sua cota e se tal situação acontecer novamente sua punição será aumentada exponencialmente.
— Aceita sua punição, criança?
— Aceito.
— Muito bem – dois passos e a Divindade estava bem em sua frente a olhando de cima com seus olhos inexpressivos que Marinette não sabia como reagir se não ainda manter o contato até uma mão se aproximar e dedos tocarem sua testa a fazendo fechar os olhos por puro reflexo.
Quando os olhos abriram novamente, os braços e pernas moviam-se em busca da superfície que parecia tão distante ao contrário do pânico que tomava cada célula de seu corpo enquanto sentia a água inundar seus pulmões com estrema velocidade.
Se havia alguém que iria salva-la, essa pessoa não chegara a tempo.
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